Eram 8 horas da manhã e já havia quem espreitasse pelo vidro para o interior da primeira loja da Mercadona em Portugal, no Canidelo (Vila Nova de Gaia). Às 8h05, um senhor parava o carro em frente ao parque de estacionamento. “Já se pode entrar?”, perguntava aos seguranças. Um pouco depois, era Maria Rosa, 67 anos, a perguntar o mesmo a um funcionário. “Achava que abria às 8h30, por isso vim tão cedo”, contou ao Observador. Mas a loja só viria a abrir às 9 horas.

Maria Rosa, como muitos outros entrevistados pelo Observador, veio “por curiosidade”. “Não conhecia a Mercadona, mas moro aqui perto e vi que ia abrir. Dizem que vão arrasar com estes preços. Logo se vê. Se não gostar tenho sempre o Pingo Doce a 5 minutos de minha casa.”

Maria Mourão, 77 anos, também esperava, com um carrinho de compras nas mãos, que as portas abrissem. Não precisa de abastecer a despensa, mas já conhecia a Mercadona de Espanha, por isso, veio como que em passeio “ver os artigos”. “Fui a uma consulta antes, aproveitei e vim aqui.”

O presidente da Mercadona Juan Roig abre a porta da primeira loja em Portugal e dá as boas-vindas à primeira cliente. (Crédito: EFE/Peter Spark)

Entre as 8 e as 9 horas, o número de “curiosos” foi aumentando: primeiro 15, depois 50. À hora combinada para a abertura da loja, já mais de uma centena esperava para entrar e inaugurar a casa. Muitos deles acumulados junto ao portão preto que lentamente subiu, por entre aplausos dos ‘chefes’ – como a Mercadona denomina os clientes. Lá dentro, os colaboradores (ao todo, esta loja tem 85) sorriam, acompanhados pelo presidente da empresa Juan Roig, que foi dando as boas-vindas e cumprimentando alguns ‘chefes’.

“Estamos emocionados e gratos pela forma como os portugueses nos receberam”, disse, mais tarde, em declarações aos jornalistas. Se esperava esta enchente? “Nunca sabemos como vai ser. Estávamos há 3 anos a trabalhar para este momento e esforçámo-nos muitíssimo. Estamos bastante contentes”, afirmou.

Juan Roig dá as boas vindas aos primeiros clientes da loja da Mercadona, no Canidelo.

Entre os ‘chefes’ que iam entrando e saindo, foi difícil não olhar para Sérgio Oliveira, 48 anos, com um chapéu estilo cowboy e um presunto inteiro ao ombro. “Quem trabalha precisa de comer”, brinca, em declarações ao Observador. Sérgio já vinha com a lista de compras preparada, até porque conhece os produtos: “Estive lá em Espanha [na Mercadona] e era para ter comprado [o presunto], mas um colega meu estava cheio de pressa e não deu. Também comprei um chouriço”, conta, elogiando depois a “organização e a limpeza do espaço”. Além disso, foi dos mais novos ‘chefes’ que o Observador encontrou dentro do estabelecimento (até às 10 horas da manhã).

Filas para o bacalhau? “Tive de me vir embora”

Foi na fila para o ‘fiel amigo’ que mais se notou a enchente na Mercadona. Quem se queixou foi Maria Margarida Pereira, 80 anos. “Ia para comprar bacalhau, mas estava tanta gente que tive de me vir embora. Estava na senha 5 e eu era o 18. Aquilo não andava para a frente e tive de deixar [a fila]”. Maria não notou grandes diferenças nos preços dos produtos face ao que está habituada.

Uma das novidades da loja do Canidelo é o “mural do bacalhau”, uma das inovações introduzidas nas lojas portuguesas — não fosse esse ingrediente ‘rei’ na mesa de muitos portugueses. Aí, está exposto por tamanho: há o “corrente”, o “crescido”, o “graúdo” e o “especial”. E há seco e congelado.

O presidente da Mercadona no dia da abertura da nova loja, junto à secção do peixe. Ao longe, são visíveis azulejos de inspiração portuguesa. (Crédito: EFE/Peter Spark)

Mas, na volta que deu pelo estabelecimento, Maria Pereira não ficou totalmente convencida. “Não acho assim tão barato. E as pessoas andam sempre atrás do barato”, constata. “O tempo o dirá.” Até porque ali perto “há tantos outros supermercados”: o Lidl, o Continente, o Aldi ou o Pingo Doce. E por falar em Pingo Doce, enquanto a loja da Mercadona enchia, um carro publicitário daquela cadeia tentava chamar a atenção dos clientes, ao passar na rua em frente ao estabelecimento da loja espanhola anunciando, com um altifalante, “melhor preço”.

Voltando a Maria Pereira. Vai esta ‘chefe’ deixar de ir às lojas do costume para passar a ir à Mercadona? “Não vejo aqui grande coisa, mas pode ser que com o tempo… também estava muita gente, por isso, não consegui perceber tudo.”

“Ah não tem promoções? Não sabia…”

António Monteiro, 79 anos, e a mulher, Laura Barros, 71, saíram da loja de “mãos a abanar”. “Achámos muito caro.” Em mente tinham o facto de, numa cadeia vizinha, o detergente estar em promoção, 10 euros mais barato. Mas ali, na Mercadona, não há promoções (a empresa prefere a política de preços sempre baixos, o que não é comum em Portugal, onde as cadeias apostam em descontos ou cartões de fidelização). O casal também achou “o vinho mais caro”, por isso, se voltar, será “por curiosidade, em passeio”. Mas António e Laura não foram os únicos a sair do estabelecimento sem sacos: houve quem optasse por não comprar nada, quem levasse apenas um artigo, e outros, poucos, que encheram o carrinho. Nesta última ‘categoria’ insere-se Paula Rainha, para quem os preços que encontrou são “razoáveis”. “Levo um bocadinho de cada coisa para experimentar”, diz. Desde bolachas, a bebidas e produtos de limpeza.

As várias dezenas de clientes iam sendo acompanhados de perto pelos colaboradores, vestidos com uma camisa com quadrados verdes e brancos. Todas as cerca de 15 caixas de pagamento estavam operacionais – nalguns casos com dois trabalhadores (em que um ajudava a embalar as compras). Foi depois de colocar todas as compras no carrinho que Maria José, 70 anos, contou ao Observador que já conhecia a Mercadona — como aliás, muitos dos clientes que encontrámos. O que desconhecia era a política de zero promoções. “Não há? Ah, não sabia”, responde. Outros tantos tiveram a mesma reação quando questionados pelo Observador.

Ainda assim, Maria José encontrou “algumas oportunidades”, como produtos de limpeza para a casa que não encontra em Portugal – é o caso de um limpa-vidros “só para chuveiros”, e um limpa-móveis “que já conhecia e é muito bom”. Na verdade, os produtos de limpeza estão entre os mais requisitados – e os que o Observador mais encontrou nos carrinhos de quem saía do estabelecimento – a par do pão e da fruta.

Se há diferenças face à loja espanhola? “Aqui acho que tem os corredores mais largos”, refere Maria José. E vai voltar? “Com certeza. Moro aqui perto e a loja estava muito bem equipada.”

O pão nos expositores é confecionado, na loja, em fornos de produtores portugueses.

Já Sandra La Féria, 50 anos, veio com a filha à procura de material de papelaria, como canetas. “Mas não têm nada”, constata, algo desiludida. Ainda assim, achou a zona do take away – o Pronto a Comer, que a cadeia começou a implementar em 2016 nas lojas espanholas – mais barata do que o habitual. “Mas de resto não notei grande diferença”, conclui.

Metade da oferta é de origem portuguesa

Dos 6000 produtos, metade é de origem portuguesa (a Mercadona, por cá, trabalha com 300 fornecedores nacionais). Não há produtos de marca branca, ou seja, nos produtos próprios da Mercadona – das marcas Hacendado (produtos de alimentação), Bosque Verde (produtos de limpeza), Deliplus (cosmética e higiene) e Compy (artigos para animais) – o rótulo identifica os produtores.

Por exemplo, o Áurea Quebrada pertence à Mercadona, mas é produzido por uma cooperativa de Vila Real, que também tem à venda o seu próprio vinho. Nessa secção, há ainda referências nacionais: o vinho Vila Plena “homenageia” Fernando Pessoa. “Boa é a vida, mas melhor é o vinho”, lê-se no rótulo.

Entre outros produtos, os vinhos foram testados no centro de co-inovação de Matosinhos, ao qual a Mercadona chamou clientes para que estes experimentassem produtos, dessem sugestões e partilhassem alguns dos seus hábitos. Dessa dinâmica resultaram produtos – que não existiam em Espanha – como o “iogurte gelatina”. Desde então tem sido um sucesso no país vizinho.

Secção das frutas e legumes na primeira loja da Mercadona em Portugal.

Outra das novidades é a secção “ponto de corte final”, onde o ‘chefe’ pode, por exemplo, comprar um frango embalado na respetiva secção e ali dirigir-se para que o cortem ao seu gosto. Ao lado, é possível pedir que lhe cortem um presunto na hora, à faca (o que não é comum nos supermercados nacionais).

Já o Pronto a Comer vai servir 35 pratos – 23 de receitas portugueses (como a bifana à moda do Porto ou o bacalhau) e os restantes de Espanha. Só esta secção emprega 16 trabalhadores. Também aqui pode “personalizar” a sua salada.

A loja do Canidelo representou um investimento de 8 milhões de euros e tem um modelo de estabelecimento semelhante aos que se encontram em Espanha: cerca de 1900 metros quadrados, corredores largos e luz natural. Há ainda funcionalidades específicas: para que o ‘chefe’ não sinta frio, o calor dos motores dos aparelhos é direcionado para a altura dos pés dos clientes na secção dos congelados.

Ali, os carrinhos não precisam de moedas. E há dois tipos: com maior ou menor capacidade. Para não haver dúvidas, os produtos estão na língua de Camões… mas também na de Cervantes: os frigoríficos oferecem tiras de “pollo al horno/ frango no forno”; há massas sem glúten – as “helices / espiral”. E o “garbanzo” é o “grão de bico”.

A secção “perfumaria”, por sua vez, – entre as que mais sensação causa entre os consumidores – terá sempre uma colaboradora especialista. “Queremos que se sintam mesmo numa perfumaria”, diz André Silva, diretor de comunicação da empresa em Portugal.

E assim que chegar à caixa de pagamento, pode ler num separador: “Obrigada Vila Nova de Gaia”. Os produtos são, depois, colocados em sacos de papel (exceto a fruta e os legumes — neste casos os sacos ainda são de plástico) com a ajuda dos operadores de caixa.

Em Lisboa? Só daqui a 2 anos, confirmou Juan Roig

A Mercadona tem, atualmente, 900 colaboradores portugueses e prevê chegar a 1100 colaboradores até ao final do ano. Os trabalhadores aprenderam o modelo de gestão da cadeia de supermercados, tiveram aulas de espanhol e passaram alguns meses nas lojas do país vizinho em formação. A empresa estima ter gasto 50 mil euros por trabalhador. Todos eles têm contrato fixo.

Compras a fornecedores

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Para a Mercadona, os fornecedores “são muito, muito, muito importantes”, lê-se num comunicado distribuído aos jornalistas. Desde 2016, a cadeia de supermercados realizou compras a fornecedores portugueses no valor de 203 milhões de euros. Em 2019, prevê alcançar um valor de compras no valor de 90 milhões de euros.

Desde que, em 2016, anunciou a entrada em Portugal, a cadeia de supermercados espanhola já investiu no país cerca de 160 milhões de euros. O valor inclui o investimento na reconstrução do campo de futebol do Sport Clube Canidelo, cujas antigas instalações ficavam no local onde hoje foi construída a loja do Canidelo. Ao lado do estabelecimento foi construído um estádio com capacidade para 800 pessoas, em colaboração com a autarquia local.

Este ano, segundo anunciou, na segunda-feira, Juan Roig, a Mercadona prevê gastar mais 100 milhões de euros.

Loja foi inaugurada esta terça-feira e emprega 85 trabalhadores. Investimento foi de 8 milhões de euros.

Os planos da empresa valenciana passam por abrir mais três lojas este mês em Portugal: além da loja do Canidelo, a Mercadona vai chegar em julho a Matosinhos (dia 9), Maia (16) e Gondomar (23). Até ao final do ano, abrem mais seis, mas todas restritas ao norte do país (Porto, Braga e Aveiro). Juan Roig anunciou ainda a abertura de mais 10 lojas no próximo ano, mas também elas se ficarão pelo norte.

Além disso, vai ser criado um centro logístico “perto de Lisboa”, semelhante ao que já existe na Póvoa de Varzim (que vai abastecer os primeiros supermercados). Questionado pelo Observador sobre quando chegará a cadeia de supermercados a Lisboa, Juan Roig disse esperar que “em dois anos” isso venha a acontecer. Já os terrenos do centro logístico estão ainda a ser decididos. Mas o facto de ser perto da capital já dá pistas sobre os planos de expansão da empresa. “Nos próximos anos”, a Mercadona espera abrir 150 lojas no país.

A cadeia de supermercados detém 25% do mercado espanhol, mas é líder destacada. Os franceses do Carrefour estão em segundo lugar, com uma quota de apenas um dígito. Se o sucesso vai ser o mesmo em Portugal? A cadeia não quer avançar com previsões. Para já, Juan Roig agradece à “terra que desde o primeiro dia, há 3 anos,” recebeu a Mercadona “de braços abertos”: Vila Nova de Gaia.