Michel Temer, o paciente. O homem de impeachment em impeachment?

23 Abril 2016

Apesar de ser "ruim de voto", Michel Temer sempre soube estar no lugar certo para avançar, silenciosamente, na carreira política. Com o afastamento de Dilma, tornou-se Presidente. Agora pode cair.

Texto originalmente publicado no dia 23/04 e atualizado no dia 31/08, com a posse de Michel Temer como Presidente do Brasil, na sequência da destituição de Dilma Rousseff, e a 18/05 de 2017, depois do escândalo da gravação.

"Escrever é expor-se / revelar sua capacidade / ou incapacidade / E sua intimidade / Nas linhas e entrelinhas / Não teria sido mais útil silenciar?/ Deixar que saibam-te pelo que parece que és?"

A pergunta é proposta por Michel Temer, no poema “Exposição”, parte do seu livro “Anónima Intimidade”, de 2013. Na altura, Temer afirmou que havia escrito os poemas da publicação em guardanapos, nas idas e vindas de avião entre São Paulo, o seu círculo eleitoral, e Brasília, onde cumpria as funções de vice-presidente, a partir do Palácio do Jaburu. Na nota introdutória do livro, Temer explica que ao escrever “deixava a arena árida da política legislativa” para dar voz ao “seu interior se exteriorizando”.

Comummente descrito pelos seus aliados como uma pessoa “calma”, “serena” e “tranquila”, Michel Temer nunca gozou de notoriedade entre os brasileiros, mas sempre esteve onde tinha de estar – característica que o fez escalar na vida política, silenciosamente.

Com a posse de Michel Temer como Presidente interino do Brasil, na sequência da abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff no Senado, recuperar os seus versos parece uma boa maneira de entender o político que se tornou líder do país. Terá o vice-presidente esperado 33 anos de vida pública para finalmente “expor-se” e “saber-se pelo que é”?

Mural pintado na Avenida Paulista, em São Paulo.

O “ruim de voto” que teve sorte

Michel Temer, batizado Michel Miguel Elias Temer Lulia, nasceu a 23 de setembro de 1940, em Tietê, cidade a 146 km de São Paulo. Temer é filho de libaneses, que emigraram para o Brasil em 1925, após a I Guerra Mundial. Foi criado num ambiente rural ao lado dos seus sete irmãos – Temer é o caçula da família. Os seus pais instalaram uma pequena empresa produtora de arroz e café, que rapidamente garantiu a ascensão económica da família.

Em 1957, aos 16 anos, foi a São Paulo para terminar o ensino secundário, antes de ingressar na Faculdade de Direito do Largo São Franciscoo da USP, tal como fizeram quatros dos seus irmãos. A alcunha “ruim de voto”, que persegue o seu currículo vitae, começou logo no início do seu envolvimento na política ainda como estudante, quando, em 1962, após ser segundo-tesoureiro do Centro Acadêmico 11 de Agosto, decide candidatar-se a presidente do grupo. Perdeu por 82 votos.

Com o início da ditadura militar no Brasil, em 1964, decidiu afastar-se do movimento estudantil. Terminou o curso de Direito, montou um escritório de advocacia e começou a dar aulas no curso de Direito na Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Vamos combinar o seguinte: não tem lista de presença, vocês estão aprovados. Quem quiser frequenta a aula. Até se vocês não vierem, facilitam minha vida, porque vou ao escritório mais cedo trabalhar na advocacia”, afirmava no primeiro dia de aula, em tom conciliador, citado pelo jornal BBC.

Entre os seus alunos, estavam Carlos Ayres Britto e Luiz Edson Fachin, ex e atual ministros do Supremo Tribunal Federal, a mais alta instância do sistema judiciário do Brasil. Concluiu o seu doutoramento na PUC-SP, em 1974. A sua participação no mundo académico rendeu-lhe o primeiro livro. Elementos de Direito Constitucional foi lançado em 1982 e tornou-se ao longo dos anos uma referência no ensino do Direito para universitários.

Da faculdade, surge a amizade com o também professor e deputado André Franco Montoro. Influenciado por Montoro, Temer, então procurador do estado de São Paulo, decide ingressar no recém-criado partido Movimento Democrático Brasileiro (MDB), único partido autorizado pela ditadura militar a atuar como oposição ao regime, conforme lembra o jornal Estadão. O partido serviria como embrião para a criação do PMDB, em 1980, partido do qual seria presidente por 15 anos, entre 2001 e 2016, período em que se estabeleceu como a maior força política do Brasil.

A amizade de Montoro foi recompensada em 1983, quando o deputado elegeu-se governador do estado de São Paulo. Temer foi escolhido para ser procurador-geral do Estado e em 1984, secretário de Segurança Pública, cargo que lhe deu notoriedade pelo seu trabalho na modernização da segurança pública em São Paulo. 

Como parte da linha de frente do governo estadual, trabalhou de perto com José Serra, então secretário de Planejamento, e de Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso, então senadores. Os três eram os grandes nomes do PMDB na época.

Em 1986, Temer decide concorrer a deputado federal no estado de São Paulo pelo PMDB, mas a velha alcunha voltou a aparecer, após fracassar nas urnas com apenas 43.747 votos. O vice-presidente do Brasil, no entanto, conseguiu uma vaga de suplente do deputado Tidei de Lima. A 16 de março de 1987, assume o posto na Câmara dos Deputados após Lima licenciar-se do mandato.

O faro de Temer para estar no lugar certo e na hora certa começa a aparecer. Participou da Assembleia Constituinte de 1987, responsável por elaborar uma nova Constituição democrática para o Brasil, após 21 anos de regime militar. Na época, o Brasil vivia a transição do regime militar para a democracia e José Sarney era o primeiro presidente civil do país.

Como jurista, a sua experiência foi importante para o debate e aprovação de diversos temas. Segundo aponta a Fundação Getúlio Vargas, nas votações da Constituinte, Temer opôs-se “à pena de morte, à limitação do direito de propriedade privada, à estabilidade no emprego, à remuneração 50% superior para o trabalho extra, à jornada semanal de 40 horas, ao turno ininterrupto de seis horas, à estatização do sistema financeiro, à limitação dos encargos da dívida externa e à desapropriação da propriedade produtiva”. Por outro lado, votou a favor do “rompimento de relações diplomáticas com países com política de discriminação racial, do mandado de segurança coletivo, da legalização do aborto, da unicidade sindical, da soberania popular, do presidencialismo, do mandato de cinco anos para o então presidente José Sarney e da amnistia aos micro e pequenos empresários.”

Um pouco antes da aprovação da nova Constituição, em outubro de 1988, o PMDB sofreu um revés. Montoro, José Serra, Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso decidem sair do PMDB para fundar o PSDB, atualmente o segundo maior partido de oposição no Brasil, detrás do PMDB. E por que Temer não seguiu os companheiros? “No PSDB, a fila vai ser grande para você”, disse Montoto a Temer, citado pelo Estadão.

O “mordomo de filme de terror” depara-se com a palavra impeachment

Michel Temer voltou a concorrer às eleições como deputado federal pelo estado de São Paulo em 1990, mas não conseguiu eleger-se com apenas 32.024 votos, rendendo-lhe outra vez o cargo de suplente.

A sua experiência na gestão da segurança pública fez com que fosse convidado pelo então governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho, para assumir a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo a 8 de outubro de 1992. O timing não poderia ser mais complicado: seis dias antes aconteceu o “massacre do Carandiru”, uma das mais sangrentas rebeliões penitenciárias da história do Brasil, que resultou na morte de 111 presos por ordem do comando da Polícia Militar. A sua atuação foi elogiada pelo governo estadual e rendeu-lhe destaque nos meios de comunicação social.

Crosses are seen in front of the School of Law of the University of Sao Paulo (USP) in homage to the inmates dead at the Carandiru Penitentiary massacre in Sao Paulo, Brazil on April 8, 2013. Twenty-six military police officers were to go on trial here Monday for the alleged execution-style killing of inmates during Brazil's deadliest prison uprising, which claimed the lives of 111 prisoners.AFP PHOTO / Nelson ALMEIDA (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Homenagem às vítimas do “massacre de Carandiru” em frente à Faculdade Direito da da USP, em São Paulo.

Em 1994, assume o mandato de deputado federal, ano em que volta a tentar a sorte nas eleições como deputado federal do estado de São Paulo. Desta vez, a alcunha de “ruim de voto” ficou pelo caminho. Temer foi eleito com 70.968 votos e tornou-se líder do PMDB na Câmara dos Deputados. Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, assume o seu primeiro mandato como presidente do Brasil

Como naquele ano, o PMBD tinha a maior representação na Câmara dos Deputados, com 107 parlamentares, seria natural que o partido conseguisse votos suficientes para eleger o presidente da Casa Legislativa, com o nome de Temer como um dos fortes candidatos para assumir o posto, dada a ligação história do político com Fernando Henrique Cardoso. Seria.

No entanto, Temer preferiu aproveitar a posição privilegiada na qual se encontrava para aproximar-se do partido PFL (atualmente, DEM) e do governo. O polítco propôs que a presidência da Câmara fosse exercida pelo deputado Luís Eduardo Magalhães, do PFL, no biénio 1995-1996, enquanto ele ocuparia o posto no biénio 1997-1998. Como parte da negociação, havia outra condição: Temer deveria votar no Congresso a favor da emenda constitucional que permitiria a reeleição para o cargo de presidente do Brasil. A 28 de janeiro de 1997, Temer deu o seu voto favorável à mudança na Constituição, aprovada por maioria. A 5 de fevereiro, foi eleito presidente da Câmara dos Deputados.

No cargo, manteve o seu tom conciliador. Foi responsável pelo aumento da verba dos gabinetes dos deputados (o que agradou sobretudo os partidos menores), ajudou o governo a aprovar diversas reformas e permitiu à oposição debater diplomas que contrariavam o presidente ou o senado.

Em janeiro de 1998, sentiu pela primeira vez o gosto de ser presidente do Brasil. De acordo com as regras do presidencialismo no país, quando o chefe do poder executivo encontra-se no exterior, exerce a função de maneira interina o vice-presidente. No caso de que também esteja ausente, o cargo passa a ser ocupado interinamente pelo presidente da Câmara dos Deputados. Isto é o que aconteceu de 27 a 31 de janeiro de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso e o vice-presidente, Marco Maciel, estavam a representar o Brasil em eventos internacionais.

Foi assim que Michel Temer assumiu o cargo mais alto do Palácio do Planalto pela primeira vez na história. Foram apenas quatro dias, é certo. Mas criou um precedente que pode repetir-se 18 anos depois. 

Nas eleições para deputado federal de 1998, Temer consegue reeleger-se com 206.154 votos, já agora como o parlamentar mais votado do PMDB no estado de São Paulo, enquanto Fernando Henrique Cardoso é reeleito presidente do Brasil, apoiado pelo PMDB. Volta a assumir a presidência da Casa Legislativa, após apresentar candidatura única, até 2001.

Em 1999, depara-se pela primeira vez com a palavra impeachment na sua vida política. Segundo relata a Fundação Getúlio Vargas, em junho daquele ano, Temer negou aos partidos de oposição, liderados pelo PT, o pedido de abertura do processo de destituição de Fernando Henrique Cardoso. Em causa, estava uma escuta telefónica em que Cardoso autorizava o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), André Lara Resende, a pressionar o fundo de pensões dos funcionários do Banco do Brasil a entrar num dos consórcios que participariam da privatização do Sistema Telebrás, empresa estatal responsável pelas telecomunicações do Brasil. É de responsabilidade do presidente da Câmara dos Deputados aceitar ou negar os pedidos realizados. No caso do processo de Dilma Rousseff, o atual presidente, Eduardo Cunha, aceitou o atual processo, após negar pelo menos 37 pedidos anteriores.

Como Temer recusou-se a aceitar o processo, os parlamentares utilizaram uma regra especial do regimento da Casa Legislativa, que permite que vá a votos os pedidos de impeachment negados pelo presidente da Câmara, de modo a forçar a sua abertura. A proposta, no entanto, foi vencida por 342 votos a 100.

Ainda em 1999, Temer recebeu um nova alcunha, que logo se tornaria popular no cenário político: “mordomo de filme de terror”. A expressão foi atribuída pelo então presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, durante uma discussão sobre a reforma judiciária. Segundo conta o site UOL, Temer terá revidado às constantes críticas recebidas do senador. “Críticas de uma pessoa com a biografia do senador Antônio Carlos Magalhães, ligado ao Banco Econômico [que estava sob intervenção do Banco Central do Brasil], são para mim um elogio. O senador tem o mau hábito de avacalhar todo mundo. Comigo, não.”. Antônio Carlos Magalhães terá respondido: “Avacalhado ele já é. Não me impressiona sua pose de mordomo de filme de terror”.

Em 2001, já fora da presidência da Câmara dos Deputados, lançou a sua pré-candidatura ao governo de São Paulo nas eleições de 2002, mas foi derrotado por um grupo dissidente do PMDB. A derrota, contudo, não impediu Temer de avançar com o próximo passo da sua vida política. Em setembro daquele ano, foi eleito presidente nacional do PMDB com quase 60% dos votos.

Como presidente do partido, aproximou-se do PSDB para apoiar a candidatura do seu amigo José Serra às eleições presidenciais de 2002. Temer conseguiu dar ao PMDB o posto de vice-presidente na coligação, ocupado pela deputada Rita Camata. A coligação foi derrotada por Lula da Silva na segunda volta das eleições.

A queda e ascensão de Temer na era “lulista”

Brazilian President Luiz Inacio Lula da Silva (L) and lower house President Michel Temer attend the launching ceremony of the second-phase of Brazil?s Growth Acceleration Program (PAC2), in Brasilia, on March 29, 2010. The PAC2 foresees private and public investments of USD 529 billion between 2011 and 2014. AFP PHOTO/Evaristo SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Lula da Silva e Michel Temer, em 2010.

O novo ciclo político iniciado no Brasil em 2003, com a chegada de Lula da Silva e do PT ao poder, trouxe dificuldades a Michel Temer e o fantasma de ser “ruim de voto” voltou a assustar a sua carreira política. Nas eleições para deputado federal em 2006, o político obteve apenas 99 mil votos – menos da metade que havia conseguido em 2002. Entre os 70 deputados eleitos por São Paulo, Temer foi apenas o 54º. Como o regime político brasileiro utiliza o sistema de lista aberta para a eleição de deputados, Temer acabou por conseguir a sua eleição para um quarto mandato na Câmara dos Deputados com a última das três vagas conquistadas pelo PMDB.

Na Casa Legislativa, Temer perdeu influência e já não fazia parte do centro de decisões do governo. O PMDB passou oficialmente a fazer parte do governo Lula da Silva apenas em maio de 2003, mas Temer tinha poderes limitados, uma vez que as negociações entre o governo e o partido eram lideradas pelo senador Renan Calheiros.

Temer experimentou mais uma vez a derrota nas urnas em 2004, quando participou das eleições municipais para a Presidência da Câmara da cidade São Paulo, maior círculo eleitoral do Brasil. Temer concorreu como vice-prefeito na coligação liderada por Luiza Erudina, filiada no PSB, na altura. O resultado? Fiasco nas urnas. A dupla ficou em um quarto lugar, com 4% dos votos.

Em 2005, Temer sofreu mais um revés, desta vez na Câmara dos Deputados, quando tentou candidatar-se outra vez à presidência da Casa Legislativa, após a renúncia de Severino Cavalcanti, envolvido num esquema de corrupção no desvio de verbas no restaurante da própria Câmara. Sem o apoio do governo e de uma ala de dissidentes do PMDB, Temer teve de renunciar à candidatura. O deputado do governo, Aldo Rebelo, filiado no PC do B, assumiu o cargo com o aval de Lula da Silva e Renan Calheiros.

Temer permaneceu em silêncio e esperou a oportunidade certa para reaparecer. E não demorou muito. Em 2005, explodiu em Brasília o “escândalo do Mensalão”, esquema de compra de votos de parlamentares na Câmara dos Deputados para aprovação de projetos do governo, protagonizado por alguns dos principais nomes da equipa de Lula da Silva.

Temer negociou com Lula da Silva o apoio do PMDB no caso, ao indicar nomes do partido mais favoráveis ao petista para as comissões parlamentares de investigação. Em troca, o partido passou a fazer parte integralmente do governo, através de cargos em ministérios, secretarias e empresas estatais. Desta maneira, Temer recuperou o seu capital político e começou a aproximar-se do PT.

A sua nova posição no Palácio do Planalto permitiu-lhe disputar mais uma vez a presidência da Câmara dos Deputados. Desta vez, o político recuperou a estratégia vencedora utilizada em 1997 ao propor que o deputado Arlindo Chinaglia, do PT, fosse presidente entre 2007 e 2009, seguido por ele no período de 2009 a 2011. A estratégia funcionou mais uma vez e Temer derrotou a reeleição de Aldo Rebelo, que contava com o apoio de Renan Calheiros.

Michel Temer e Dilma Rousseff: um “casamento de conveniência”

Dilma Rousseff e Michel Temer, na cerimónia de posse da Presidência da República, em janeiro de 2011.

Após dois mandatos consecutivos de Lula da Silva na presidência do país, havia a expectativa de quem seria o sucessor do petista à frente do país.

Em 2006, Michel Temer, como presidente do PMDB, defendeu uma candidatura própria do partido às eleições presidenciais – proposta derrotada durante uma convenção da legenda. Já em 2010, apoiou a integração do PMDB à coligação liderada pelo PT, que propunha Dilma Rousseff como presidente e o próprio Michel Temer como vice. A combinação deu certo e garantiu a vitória na segunda volta à dupla.

Dilma e Temer mal se conheciam e eram fruto de um “casamento de conveniência”. De fato, de acordo com a BBC, na campanha eleitoral de 2010, Temer apareceu nos programas e propagandas eleitorais apenas na segunda volta.

Para o PT, Temer representava o apoio necessário no Congresso para votar o programa do governo petista, além de fortalecer a campanha de Dilma a nível regional, a partir dos governadores e Presidentes de Câmara do PMDB eleitos em todo o país num número superior ao do PT. Para o PMDB, Dilma representava a maneira mais fácil de continuar no poder, uma vez que não existia no partido nenhum nome forte o suficiente para ir a votos contra o PT e o PSDB.

Segundo aponta o jornal Estadão, Dilma e Temer passaram por diversos desentendimentos ao longo do primeiro mandato. Ainda assim, a dupla repetiu a candidatura às eleições presidenciais em 2014, com o apoio do PMDB definido a partir de uma convenção nacional. O resultado deu outra vitória à coligação partidária liderada pelo PT-PMDB, desta vez numa disputa renhida com o PSDB na segunda volta.

Na altura, Dilma disse que a sua reeleição era, “antes de tudo, uma cerimónia de reafirmação e ampliação de compromissos”.

No entanto, a descrição e tranquilidade de Michel Temer foi quebrada a partir de 2015, quando o PMDB começou a sinalizar o seu distanciamento de Dilma Rousseff. A crise económica e a falta de apoio popular ao governo alimentaram no partido a ideia de rutura com Dilma.

Para tentar acalmar os críticos do PMDB, Dilma entregou ao vice-presidente a responsabilidade da articulação política do governo, conhecida como “varejão”. Trata-se da troca de cargos públicos, em diferentes níveis hierárquicos do governo, em troca de apoio político – prática considerada “normal” no Brasil, onde há atualmente 25 partidos no Congresso nacional. Temer assumiu a missão, dizendo que promoveria uma “reforma política”.

Com a vaga de protestos anti-Dilma a conquistar cidades em todo o Brasil no início de 2015, começou a circular, ainda com pouca força, a possibilidade de abertura do processo de impeachment, mesmo que não houvesse nenhum motivo para justificar o pedido. Já na altura, Temer publicou na sua conta no Twitter uma das mensagens que mais são lembradas pelos seus opositores em 2016:

A 24 de agosto, o vice-presidente afasta-se da articulação política do governo, argumentando que “continuaria a atuar na articulação do Executivo com os demais poderes, com um papel mais institucional”. A imprensa brasileira relata que Dilma estaria a minar as decisões de Temer.

O afastamento do PMDB do governo parecia cada vez mais evidente. Num programa partidário divulgado na televisão em setembro de 2015, Michel Temer aparece como um dos protagonistas entre os 50 políticos do PMDB que aparecem no vídeo a criticar abertamente o governo Dilma. A peça traz uma frase emblemática: é preciso “alguém para reunificar o país”.

A resposta de Dilma foi promover uma reforma ministerial, anunciada a 5 de outubro, ao cortar 8 das 39 pastas, mas dando mais espaço e força ao PMDB que passaria de seis para sete ministérios.

O divórcio, no entanto, já parecia inevitável. A 29 de outubro, o PMDB lança o documento “Uma Ponte para o Futuro”, em que critica o programa económico do governo e a “inércia e a imobilidade política” de um “sistema político sem raízes profundas na sociedade, muito fragmentado, sem articulação e com baixa confiança da população.”

O ponto mais alto da crise entre Dilma e Temer acontece em a 2 de dezembro, quando Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, aceita abrir o processo de impeachment da presidente na Casa Legislativa. A decisão coincide com uma carta enviada por Michel Temer a Dilma Rousseff, cinco dias depois, em que reclama que tem sido tratado como “mero vice decorativo”, “secundário” e “acessório”.

"Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas. Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações económicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidiários."
Michel Temer

E sentencia. “Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo, usando o prestígio político que tenho, advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no partido. Isso tudo não gerou confiança em mim. Gera desconfiança e menosprezo do governo.”

Após uma troca de telefonemas, Dilma e Temer só voltaram a encontrar-se a 20 de janeiro deste ano, após um convite feito pelo Palácio do Planalto ao vice-presidente.

Com o aprofundamento da crise política e económica e o processo de destituição de Dilma Rousseff a avançar para a comissão especial da Câmara dos Deputados, Michel Temer permaneceu “em silêncio”, longe dos holofotes dos media e sem pronunciar-se sobre o impeachment.

A rutura total com Dilma Rousseff aconteceu a 29 de março, quando o PMDB decidiu abandonar o governo de Dilma Rousseff, numa reunião do diretório nacional que durou menos de quatro minutos. Michel Temer não estava lá. Mas o seu nome foi lembrado pelos membros do partido, presentes no local. “Brasil, para frente, Temer presidente”, gritavam após o anúncio. O partido decidiu abandonar progressivamente os cargos que ocupava no governo, com exceção de Michel Temer que continuaria como vice-presidente do país, porque “é uma instância de poder eleita”. “O PMBD tomou uma decisão político-partidária no que diz respeito à gestão do governo, mas a questão do vice-presidente Michel ela é constitucional e, portanto, equilibrada, pautada na legalidade, e vai aguardar a consequência dos fatos”, explicou o senador Romero Jucá, citado pelo site G1.

O silêncio de Temer quase foi quebrado a 11 de abril, por meios não oficiais, quando a imprensa brasileira divulgou uma gravação em áudio, enviada para um grupo de WhatsApp, em que Temer discursa como se o processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff tivesse já sido aprovado. O vice-presidente do Brasil diz: “Há mais de um mês me recolhi para não aparentar que estaria cometendo algum ato, praticando algum gesto, com vistas a ocupar o lugar da senhora Presidente da República. Recolhi-me o quanto pude, mas evidentemente neste período fui procurado por muitos que estão aflitos com a situação do nosso país.”

Dilma reagiu fortemente ao conteúdo das mensagens, ao chamar Temer de “traidor” e “chefe do golpe”. “O gesto, que revela a traição a mim e à democracia ainda explicita que este chefe conspirador também não tem compromisso com o povo. Se ainda havia alguma dúvida sobre o golpe, a farsa, a traição em curso, não há mais. Se havia alguma dúvida sobre a minha denúncia de que há um golpe de estado em andamento, não pode haver mais”, assegurou.

Após a aprovação na Câmara dos Deputados da abertura do processo de impeachment, Dilma não deixou passar a oportunidade de comentar a foto divulgada através das redes sociais em que que Temer aparece, sorridente, a acompanhar o resultado da votação. “Nesta segunda etapa do processo, saio com a sensação de indignação pelo fato de que o rosto estampado na imagem que foi transmitida para o mundo é o rosto do desvio do poder, do abuso do poder, do descompromisso com as instituições e práticas éticas e morais”, critica.

Após a votação, Michel Temer terá dito a aliados que não fará qualquer pronunciamento “precipitado” antes de uma definição de admissibilidade do processo de destituição da presidente pelo Senado. Fontes citadas pelo site G1 relataram que Temer vai seguir a “liturgia e todos os ritos legais do impeachment” para evitar “um impasse político maior, quando o momento é de pacificação”.

O silêncio de Temer foi finalmente quebrado em abril, numa série de entrevistas aos jornais New York Times, Wall Street Journal e Financial Times.”Estou muito preocupado com a intenção da presidente de dizer que o Brasil é alguma republiqueta onde golpes acontecem”, disse ao New York Times, afirmando que esteve em “ostracismo absoluto” nos últimos quatro anos e que “nunca foi amigo” de Dilma Rousseff.

Com o afastamento definitivo de Dilma Rousseff pelo Senado, Temer ficou com diversos desafios económicos e políticos à frente do Palácio do Planalto. Mas o seu nome já era citado em investigações no âmbito da Operação Lava Jato (nunca como réu), e o Supremo Tribunal Federal do país ordenou mesmo a abertura do processo de impeachment contra o Presidente, para análise de uma comissão especial a ser formada na Casa Legislativa. O motivo? As mesmas “pedaladas fiscais”, base do processo contra Dilma Rousseff.

No entanto, o maior desafio de Temer parecia ser a impopularidade. De acordo com última sondagem para as eleições presidenciais de 2018 do instituto Datafolha, publicada a 19 de março no jornal Folha de S. Paulo, caso Michel Temer fosse o candidato do PMDB, obteria apenas 1 ou 2% de intenção de votos, ocupando o oitavo ou nono lugar. A alcunha “ruim de voto” estará de volta? A resposta parece estar em contradizer os versos do próprio Temer. Que agora, conhece o seu maior desafio: a gravação em que manda pagar um suborno pode mesmo levar à sua destituição. O Supremo abriu de novo a investigação.

"(...) Não teria sido mais útil silenciar?/ Deixar que saibam-te pelo que parece que és?"
Michel Temer
Texto de Milton Cappelletti, ilustração de Milton Cappelletti.
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