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MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Miguel Albuquerque: "Geringonça seria trágica para a Madeira" /premium

Em entrevista ao Observador, o Presidente do governo Regional fala da possibilidade de perder a maioria absoluta e diz que entendimentos só com o CDS. Se não conseguir? "Obviamente, demito-me".

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Reportagem na Madeira

Na última semana antes das eleições e com as sondagens a colocar o PSD-Madeira à frente, mas sem maioria absoluta, Miguel Albuquerque prepara-se para um domingo que pode ser histórico para o arquipélago. No limite, até pode vencer mas haver uma maioria de esquerda que o empurre para fora do poder, como aconteceu nas legislativas de 2015 com Passos Coelho. “Seria trágico para a Madeira”, considera. É neste contexto que recebe o Observador na Quinta Vigia. Chega à entrevista de blazer e calças de ganga, agarrando a mão esquerda com a outra e queixando-se duma tendinite que não sabe como a contraiu. “Deve ser de agitar as bandeiras”, ri-se para os assessores. Com vista para um imenso Atlântico, fala dos cenários de derrota e de vitória, atira-se a António Costa, cola BE e PCP à Venezuela e diz-se pronto para dialogar — mas só com alguns. Caso não consiga formar governo, garante que se demite.

“Se não conseguir formar governo obviamente tenho de me demitir”

O PSD governou a ilha durante 43 anos, sempre com maioria absoluta. Segundo as sondagens, o partido pode  perder a maioria absoluta e não está completamente afastada a hipótese de perder a presidência do governo regional para um PS, apoiado por forças à esquerda. Este cenário nunca tinha estado tão perto de acontecer. Sente-se responsável por isso?
Em primeiro lugar, estamos num processo eleitoral onde tudo indica o PSD-Madeira vai ganhar. Quando o primeiro-ministro esteve aqui na Madeira, há uns meses, disse que na Madeira ia ser três em um, que aqui o PS ia ganhar nas europeias, nas regionais e nas legislativas. Já perdeu as europeias. E, pensamos nós, mais uma vez os madeirenses e os porto-santenses vão dar a confiança ao PSD-Madeira e o PSD-Madeira vai ganhar.

Mas nada faz prever que o faça com maioria absoluta.
Vamos ver… Inicialmente a perspetiva era a de que o PS ia ganhar as eleições. Desde há largos meses que andam a embandeirar isso em arco, a dizer que é desta vez. Ainda há duas semanas esteve aí o Carlos César a dizer que já cheirava a vitória… Vamos ver. Acho que o PSD vai ganhar mais uma vez.

E admite que possa acontecer aquilo que aconteceu em 2015 nas legislativas: o PSD ganha mas não tem votos suficientes para ter uma maioria à direita e quem forma governo é uma “geringonça” liderada pelo PS?
Isso seria trágico para a Madeira. Mas penso que não vai acontecer porque os madeirenses sabem o que é a esquerda a governar: aumento de impostos, fuga do investimento, regressão económica e social e isso, obviamente, a Madeira não quer. Neste momento temos um quadro de crescimento económico de 2,3%, a taxa de de desemprego é a mais baixa desde há oito anos – estamos com 6,9% -, temos saldo orçamental positivo pelo sexto ano consecutivo…

Mas aquilo que estou a perguntar é o seguinte: mesmo que o PSD ganhe, tudo faz prever que o faça sem maioria absoluta. Não é uma derrota?
Se o PSD perder a maioria absoluta vamos ver no quadro parlamentar quais são as soluções. Só há uma solução para o PSD: nunca fazer coligações à esquerda.

Ou seja: só com o CDS.
É a única força que não é de esquerda. Não é comunista, não é socialista — por enquanto –, e também não é socialista radical.

Estar limitado apenas ao entendimento com um outro partido não é uma desvantagem para o dia 23 de setembro, o dia a seguir às eleições, em que os partidos vão ter de se sentar à mesa para dialogar?
Entendo que é uma vantagem em termos de clarificação política. Até porque estamos perante o cenário de eleições. Temos, de uma vez por todas em Portugal, de dizer o que é que queremos. Porque esta ideia de que a política não tem princípios, nem doutrina, nem valores, leva à desvalorização da democracia e sobretudo leva à cedência da direita, face à força das esquerdas. A direita está há 20 anos a ceder ao politicamente correto. Temos de pôr um travão nisto, porque senão daqui a dias é tudo igual. A direita continua a ceder às temáticas fraturantes, da esquerda. Parece que os políticos de centro-direita em Portugal têm medo de enfrentar a esquerda. Eu não tenho.

Para si não é uma desvantagem ter só um partido com quem dialogar?
Não vale tudo em política. Vivemos no tempo do marketing e do soundbite, mas acho que temos de pôr as pessoas a pensar. E uma das funções da política é apresentar projetos  de vivência coletiva e objetivos para a nossa sociedade. Não é meter tudo num saco e dizer que é tudo igual. Na política, há uma diferença substancial entre o PSD e as forças de esquerda.

Se não conseguir formar governo demite-se de líder do PSD-Madeira?
Se eu não ganhar as eleições nem conseguir formar governo obviamente tenho de me demitir, não tenho outra solução. Não faço governos a qualquer custo nem abdico dos meus princípios.

Olhando para o PSD-Madeira acredita que é possível encontrar um sucessor? Nos últimos anos de Alberto João Jardim já se falava muito de Miguel Albuquerque. Hoje em dia não há nenhum delfim…
Não. Aqui há uns tempos demos uma grande lição sobretudo aos partidos de esquerda que diziam que o PSD era isto e aquilo. Nós tivemos umas eleições internas em 2014 que foram exemplares. Tivemos seis candidatos, houve debate democrático, houve congresso e em março de de 2015 fomos às eleições e ganhámos. Portanto, fomos exemplares no que toca ao debate interno do nosso partido. Não temos de ter medo: temos pessoas adultas, formadas dentro dos valores da social-democracia madeirense e acho que isso não é nenhum drama.

(MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR)

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“O diálogo muitas vezes é uma desculpa para não se fazer nada”

Temos estado a falar sobretudo do cenário de derrota do PSD. Falemos do cenário de vitória. O PSD ao longo dos últimos 43 anos esteve sempre a governar com maioria absoluta…
E bem! Foi ótimo para a a Madeira.

… o PSD está preparado para entrar numa fase mais dialogante?
Sempre fomos dialogantes. Os membros do governo regional passam a vida no Parlamento. Temos um regime parlamentar puro. Todos os meses lá vou e nunca tive medo de enfrentar a oposição. Eles, aliás, já não querem que eu vá com tanta frequência. Portanto, nenhum problema em ser dialogante. Agora, não perdemos tempo. Jogar para o lado não é a nossa modalidade. Temos de governar com sentido de interesse público e não perder tempo em diálogos de surdos. O diálogo muitas vezes é uma desculpa para não se fazer nada.

Mas é importante que haja esse diálogo na política ou não?
É importante. Agora, conversas de surdos esqueçam. Já o Dr. António Oliveira Salazar dizia: quando não é para fazer nada, faz-se uma comissão. E em Portugal fala-se muito e faz-se pouco. Nós aqui somos mais anglo-saxónicos: vamos straight to the point. Temos um objetivo, é para cumprir e toca a andar.

Desde o último congresso que tem voltado a aproximar-se de Alberto João Jardim. Isto depois de ter prometido que vinha para fazer diferente e anunciar um corte com o passado. É oportunismo político?
Não. É apenas o regresso de Alberto João Jardim à política. Ele é um grande português e um grande madeirense. Foi um homem que liderou este governo e fez grandes transformações. Transformações inequívocas do ponto de vista estrutural, social, económico e cultural na Madeira. Obviamente que, sendo presidente honorário do partido, continua connosco e está a participar na campanha.

Rumores sobre tóxico-dependência? "Uma vergonha e uma canalhice. A sede de poder é de tal ordem que não se coíbem de usar todos os meios para atingir os seus fins mais abjetos"

Antes ainda de a campanha ter começado houve rumores que o acusavam de ser toxicodependente. Entretanto já veio a público dizer que se tratou de uma campanha montada pelo PS para o denegrir. Tem provas disso?
Tenho todas as provas. Basta olhar para o que eles puseram no Facebook.

Pode especificar?
Punham posts a dizer isto e aquilo, pode consultar porque ainda devem circular. Aquilo é uma vergonha e uma canalhice. A sede de poder é de tal ordem que não se coíbem de usar todos os meios para atingir os seus fins mais abjetos.

De que forma é que isso o afetou? Não só a si mas também à campanha do PSD?
Afetou sobretudo a minha família, porque eu tenho filhos e tenho netos e isto é uma vergonha. Sempre fui uma pessoa que se pautou por, na vida pública, não utilizar determinados estratagemas. Agora, não vou dizer que não me afetou. Afetou-me um pouco, mas também me deu mais força para combater este tipo de canalhices.

E na campanha houve alguma repercussão?
Não. As pessoas têm bom-senso e lucidez. Aliás, estou há bastante tempo na vida pública e toda a gente me conhece. Portanto não vale a pena tentarem atirar. Isso foi uma campanha muito bem orquestrada, mas nem assim conseguiram.

Passagens aéreas para a Madeira são “forma encapotada de Estado financiar a TAP”

Um dos maiores problemas que os madeirenses apontam tem a ver com as passagens aéreas. O modelo existente para subsidiar as viagens entre a Madeira e o continente parece não ser do agrado dos madeirenses. O PSD propõe a introdução de uma terceira companhia aérea para fazer estas ligações. Pode garantir que o problema, se for presidente no próximo mandato, vai ficar resolvido?
Em primeiro lugar: o regime é bom. Este modelo foi criado no sentido de garantir que os cidadãos nacionais residentes na Madeira e no Porto Santo podiam circular em território nacional a preços acessíveis.

Mas não é isso que acontece.
Deixe-me explicar. Este regime ficou em período experimental durante três meses. Depois começou a constatar-se que a companhia aérea nacional, a TAP, com maioria do capital do Estado, começou a praticar preços astronómicos para a Madeira. E isso fazia com que o residente, que só devia pagar 86 euros, se visse impedido de pagar os preços pornográficos que a TAP está a praticar com a conivência do Governo — porque António Costa deixa que isto aconteça. Hoje em dia é mais barato para um cidadão nacional ir a Nova Iorque do que visitar o seu país numa companhia que tem capital maioritariamente público. Este é que é o escândalo. Nunca o Governo nem os administradores da TAP por ele nomeados intervieram no sentido de estabelecer preços acessíveis para a Madeira.

E qual é a sua explicação?
Isto é uma forma encapotada de o Estado estar a financiar a TAP. O que nós propusemos desde há três anos foi que houvesse uma revisão do subsídio de mobilidade no sentido dos madeirenses e porto-santenses pagarem apenas os 86 euros através de um fundo, como fizemos para os estudantes, que resolvia a questão do reembolso. Durante três anos, o Governo da República não resolveu nem quis resolver.

(MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR)

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Mas foi o senhor que negociou este modelo com Passos Coelho, em 2015.
Não negociei nada. Aquilo que estou a dizer é que este é um bom modelo para ser revisto. Mas o governo socialista nunca fez esta revisão. Porquê? Para castigar os madeirenses e para financiar de forma encapotada a TAP. Tanto é assim que criámos aqui um fundo para apoiar os estudantes que está a funcionar.

E a terceira companhia aérea resolve os problemas?
A terceira companhia é outra questão. Estamos a negociar, mas tem de ser negociado com grande cuidado para não acontecer o que aconteceu nos Açores, onde a Ryanair foi paga para entrar mas acabou por secar a Easyjet e levou a SATA a fechar o ano passado com um prejuízo de 50 milhões de euros. É fundamental encontrar um ponto de equilíbrio de forma a que o castelo de cartas que está montado não desabe.

Mas não podia ter feito mais enquanto presidente do governo regional nos últimos quatro anos para alterar este modelo?
Podia, se pegasse na mão do primeiro-ministro e o obrigasse, no Conselho de Ministros, a tomar a decisão que está há três anos para tomar.

Estima-se que nos últimos anos tenham chegado oito mil venezuelanos luso-descendentes à Madeira. Desses, calcula-se que quase metade possam votar. Qual é a verdadeira importância desta comunidade nas eleições?
A comunidade foi bem recebida e neste momento tenho a certeza de que a opção de voto dessa comunidade nunca será à esquerda porque eles já experimentaram as delícias das políticas da esquerda na Venezuela.

"Este socialismo bolivariano, que Paulo Cafôfo diz que não é o socialismo democrático, foi largamente apoiado pelos parceiros com quem quer fazer coligação e com quem se entendeu maravilhosamente: BE e PCP"

Ontem, numa entrevista ao Observador, Paulo Cafôfo disse que o PSD, e em particular Miguel Albuquerque, têm utilizado os venezuelanos para fins políticos, alegando que tentam assustar a comunidade associando o PS ao socialismo bolivariano. Isto não é, em parte, o tal taticismo político que ainda há pouco criticava?
Taticismo político é ter aquela flexibilidade mental para aldrabar a realidade. A verdade é que este socialismo bolivariano, que ele diz que não é o socialismo democrático, foi largamente apoiado pelos parceiros com quem quer fazer coligação e com quem se entendeu maravilhosamente, nomeadamente pelos radicais do Bloco de Esquerda, que é um partido comunista e que adora o Maduro. A mesma coisa com o PCP, que nunca condenou os atentados à liberdade e a extinção da democracia na Venezuela. São estes os potenciais parceiros de coligação deste candidato.

Colocar luso-venezuelanos nas listas de candidatos, como PSD e CDS fizeram, não é utilizar esta comunidade para ganhar votos?
Não. É ter uma representação desta comunidade no Parlamento.

E isso é mais importante agora? Antes não tinha acontecido…
Está bem, mas antes não havia esta situação.

“Vou construir um novo hospital, quer Costa queira quer não queira”

Quanto à saúde, quase todos os partidos defendem a necessidade de construir um novo hospital no Funchal, algo que o seu governo prometeu e começou a fazer, mas que se encontra numa fase muito inicial: os terrenos nem sequer foram todos expropriados… O PS diz que vai construí-lo em cinco anos.
O concurso internacional já está lançado. Esse era o nosso compromisso. Praticamente todos os terrenos estão expropriados e já estamos numa fase de pré-qualificação. Temos é um problema: o primeiro-ministro veio aqui à Madeira garantir que ia financiar em 50% o hospital, mas mais uma vez aldrabou os madeirenses e os porto-santenses. O que está numa resolução de um Conselho de Ministros de outubro de 2018 é que o financiamento será de cerca de 30%.

(MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR)

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Se António Costa continuar no Governo é mais importante protelar a construção do hospital em nome duma guerra com o continente ou construí-lo?
Não há guerra nenhuma. Nós temos é de denunciar. Este primeiro-ministro tem de ser escrutinado. Anda toda a gente atrás dele… Têm medo de enfrentar António Costa porquê? O que é que se passa afinal em Portugal? Mas ele não é primeiro-ministro? Quando ele mente nós dizemos que ele está a mentir. E no caso concreto do hospital da Madeira ele afirmou, perante os jornalistas, que ia financiar em 50% a obra. Se pegarem na resolução do Conselho de Ministros de outubro de 2018 vão ver que o que se propõe é menos de 30% do financiamento.

Perante este impasse o que é que o PSD pode prometer?
Posso garantir que vou fazer o hospital. Quer Costa queira quer não queira, quer comparticipe ou não comparticipe. Vamos construir o hospital porque é urgente e porque é fundamental termos um hospital na Madeira.

Consegue dar um prazo para a conclusão da obra?
O prazo será fixado através da própria conclusão do concurso. Agora esperamos iniciar a construção logo que haja adjudicação. Não podemos garantir prazos porque é um concurso internacional. Prazos certos não. Queremos iniciar a construção já no próximo mandato.

"Têm medo de enfrentar António Costa porquê? O que é que se passa afinal em Portugal? Mas ele não é primeiro-ministro? Quando ele mente nós dizemos que ele está a mentir"

A nível nacional, atualmente o PSD parece atravessar um período difícil, com as sondagens para as próximas legislativas de 6 de outubro a colocarem o partido cerca de 15 pontos percentuais atrás do PS. Preocupa-o?
Preocupa-me, porque neste momento à esquerda e a este governo tudo se permite. Nada é escrutinado e não há combate político. Temos de combater esta esquerda.

Não há combate político também por culpa do PSD?
Não há combate político porque há uma grande tolerância dos media relativamente à esquerda.

Não é aos media que cabe fazer combate político: é aos partidos. Esperava mais de Rui Rio?
Compete aos media escrutinar tanto e ter o mesmo juízo crítico relativamente ao primeiro-ministro e a Rui Rio.

Está satisfeito com a prestação de Rui Rio?
Acho que as coisas têm corrido bem. Ele tem tido dificuldades para emitir as mensagens, mas ele esteve muito bem no debate com António Costa na segunda-feira, por exemplo.

Rui Rio teve quase dois anos para preparar estas eleições e as sondagens são pouco animadoras. Não há aqui responsabilidade do PSD?
Há sempre responsabilidade do PSD. Ainda há pouco me perguntou como seria se as coisas corressem mal e eu disse que a responsabilidade seria minha. Sou o principal e o primeiro responsável. Mas vamos ver, temos de esperar pelas eleições.

“António Costa é uma versão suave de José Sócrates”

Para terminar, tenho um pequeno desafio para si. Vou pedir que caracterize com apenas uma palavra os seguintes políticos: Paulo Cafôfo.
Produto do marketing.

Alberto João Jardim.
Um grande português e um grande madeirense.

António Costa.
Versão suave de Sócrates.

Rui Rio.
Determinado.

Marcelo Rebelo de Sousa.
Um Presidente da República de quem muito se espera

Miguel Albuquerque.
Um servidor da Res publica.

 

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