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Octavio Passos/Observador

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Miguel Araújo: "Antes comia uma banana de manhã e depois não metia mais nada à boca até ao concerto” /premium

No dia 15 Miguel Araújo regressa ao Coliseu do Porto, para o final da digressão Casca de Noz. Em entrevista, fala da música, da família e de como estar sozinho em palco pode ser hoje um privilégio.

A entrevista ficou marcada para o final da manhã no estúdio de Miguel Araújo, a mesma morada de sua casa. Estávamos a tirar o material fotográfico da mala do carro quando o vimos a chegar de calções, t-shirt molhada, auscultadores nos ouvidos e telemóvel na mão. Tinha acabado de correr, rotina matinal que não dispensa. “Vou tomar um duche e já nos encontramos”. Esperamos por ele no Estúdio Chiu, local onde o músico do Porto ensaia, grava e até dorme no sofá. Perdemos a conta às guitarras, aos cabos, às colunas e aos botões visíveis, num cenário onde saltam à vista o piano que partilhou com António Zambujo no palco dos concertos nos coliseus, o móvel que veio de casa dos pais ou o quadro onde estão emoldurados os desenhos com que o tio o ensinou a tocar guitarra. Pouco tempo depois, regressa revigorado com um discurso rápido, mas de quem não quer despachar nada nem ninguém.

Miguel perdeu parte da sua timidez, ossos do ofício, mas continua sereno, fiel à sua simplicidade. Conversar com ele é como estar com um amigo num café, de perna cruzada e sem rodeios. Diz o que pensa, sem pensar muito, e vive uma normalidade quase desconcertante. É na Foz que se sente verdadeiramente em casa, nas ruas por onde corre todas as manhãs olham-no como um vizinho. As suas raízes passam pela Casa Bacelar e pelos mergulhos no mar, está a aprender a fazer surf e isso deixa-o orgulhoso.

Aos 11 anos, graças aos tios, descobriu a música e o poder de ter uma guitarra nas mãos e diz não se lembrar da sua vida antes disso. Compor é uma extensão de tudo o que faz, sendo algo tão normal “como lavar a loiça ou pôr a roupa a secar”. Com um grupo de amigos, numas férias em Ibiza, formou Os Azeitonas, banda que deixou em 2016 para se aventurar numa carreira a solo. Miguel é a prova de que as coisas sérias podem começar a brincar e que “a parte branca do seu fiambre musical” também pode ser comestível. Lembrou os tempos do álcool e do tabaco, hoje exclui os vícios, os excessos e até os lacticínios. É um homem de família e das pequenas coisas. Escreve o que lhe ocorre, guarda no telemóvel um banco de sons por explorar e canta a vida, a dele e a de outros como ele.

Cinco Dias e Meio (2012) e Crónicas da Cidade Grande (2014) foram os álbuns lançados antes da loucura, quase irrepetível, de uma maratona de 28 coliseus esgotados, entre Porto e Lisboa. Uma aventura vivida ao lado do amigo de longa data António Zambujo. Giesta (2017) marca o seu regresso à infância à boleia de canções melancólicas, mas sem ponta de nostalgia. Não fosse ele um anti saudosista assumido. Aos 40 anos, Miguel Araújo perdeu o nervosismo e a insegurança, deixou de ter pressa e de sentir a pressão do disco e da expectativa. Vai para o palco de carteira no bolso, como se fosse buscar os filhos à escola, e é lá, agora sozinho, que descobre a liberdade que só o improviso e a espontaneidade podem trazer. O silêncio no camarim é “uma sensação estranha” que ainda se está a habituar. Vale-lhe, como sempre, ter uma guitarra nas mãos.

Foto: Octávio Passos

Octavio Passos/Observador

Fale-me deste Estúdio Chiu.
Gravei o Giesta na casa onde vivia antes, num quarto minúsculo. Já tinha algum deste equipamento e fui gravando quando podia, sem regras. Nessa altura percebi que a minha vida e a minha carreira tinham que ser a mesma coisa, tinham que estar juntas com naturalidade, sem que uma se impusesse à outra. Desde aí que vou com os meus filhos para os concertos, fazemos disso um programa familiar, sinto que não é uma coisa a competir com a outra. A minha própria vida de compor e de gravar é uma coisa do dia a dia, é como quem estende a roupa a secar ou lava os pratos. Gravo músicas 10 minutos num dia ou oito horas no outro, tanto faz. Afeiçoei-me a este processo e decidi que nunca mais ia fazer de outra maneira.

Em que medida ter um estúdio ao lado de casa dá mais autonomia?
Enfiar-me num estúdio uma semana ou duas faz com que se crie um clima de pressão. Adoro o meu disco Crónicas da Cidade Grande, mas detesto a minha voz porque estava com sinusite nessa altura, mas não tinha hipótese de não o gravar, pois o taxímetro do estúdio está sempre a contar. Percebi que o processo em que as gravações, as composições e os concertos fazem parte da minha vida e do meu dia a dia, de uma maneira natural, é de longe o que mais se adequa a mim. Depois a Ana ficou grávida da nossa filha mais nova e aquela casa já não dava, então andámos à procura de uma casa que desse para fazer exatamente isto, foi um achado. Este estúdio era uma sala com uma televisão e lareira, há até um rio que corre aqui debaixo.

Já se levantou a meio da noite com uma música na cabeça e veio para aqui?
Já fiz isso uma vez, mas porque a minha filha tinha os dentes a nascer, não parava de chorar e como tinha concerto no dia seguinte vim dormir para este sofá. Nunca trabalho de noite, prefiro trabalhar cedinho. Às vezes estou aí com os meus filhos, no outro dia era preciso pôr umas palmas numa música e eles ajudaram. Não podem é vir para aqui sem mim, qualquer encontrão pode ser fatal. Também alugo isto a outros músicos.

"Era um ciclo de lusofonia, o brasileiro Vitor Ramil ficou doente e eu fui contactado de véspera. De repente pensei que iam apenas ver um tipo a tocar guitarra, piano e cantar sem perceberem nada do que eu estava a dizer, isso obrigou-me a olhar para mim de outra maneira."

Como funciona o seu processo criativo?
Eu não me sento do nada para escrever. Se me sentasse agora para escrever uma música se calhar conseguia, mas ia ser uma música medíocre. Não estou a dizer que as outras não são (risos). Primeiro gravo a melodia, tenho aqui o meu banco de sons [pega no telemóvel e mostra algumas faixas de poucos segundos acompanhadas de guitarra ou de piano]. A maioria não dá em nada, ficam aqui a germinar. Às vezes ficam aqui cinco anos, mas eu não me esqueço, tenho uma memória para estas coisas completamente atrasada mental, sei que nome é que lhes dou e vou lá buscar quando preciso.

Que nomes lhes costuma dar?
Esta faixa chama-se Luísa Todi porque estava lá a dar um concerto quando gravei isto.

Existe algum tema ou personagem sobre o qual nunca tenha escrito?
Não funciono assim. Eu não quero escrever sobre as coisas, simplesmente as ideias ocorrem-me e não as largo mais. Surgem-me. Nunca pensei que fosse escrever uma música sobre a minha tia Maria Luísa e aconteceu no tema “O Quarto de Glória”. Não é esse o meu ponto de partida, mas ela apareceu-me na ideia e as coisas nasceram rapidamente.

Esta semana deu um concerto em Londres. Interessa-lhe ter uma carreira internacional?
Não, continuo a tocar em Portugal e Portugal não são só as nossas fronteiras, são os portugueses e é quase só para portugueses que eu toco. É viável dar concertos para portugueses fora e também já não é aquela coisa de ir tocar para o imigrante que tem a padaria, as coisas já não são assim. Muitos amigos meus que andaram comigo na faculdade foram a este meu concerto em Londres, por isso, para mim é como tocar aqui.

Ter uma presença mais assídua lá fora não é algo que ambicione?
Não, a música portuguesa que tem essa viabilidade é mesmo a música portuguesa, seja o fado ou o Júlio Pereira. A minha música não é portuguesa, é anglo-saxónica com letras em português, o que é uma coisa bem diferente. A experiência de ir a um concerto meu e não perceber as letras é como ir a um concerto de rock grego. A minha música não tem essa ambição, nem eu.

"[Nesta digressão] Há uma liberdade e uma espontaneidade que com banda é muito mais difícil de conseguir. Improviso muito mais, altero o tom se tiver muito cansado da voz, posso fazê-lo sem dizer nada a ninguém. É diferente, acho que numa carreira de um cantautor existe sempre esta vertente, pelo menos naqueles artistas que eu gosto, como o Paul Simon ou o Dylan. Sinto que é uma outra hipótese das músicas existirem."

Esta digressão “Casca de Noz” nasceu precisamente com um concerto lá fora, no Luxemburgo. Conte-me essa história.
Aí sim, foi um concerto lá fora em que não toquei para portugueses, apesar de existirem muitos no Luxemburgo. Era um ciclo de lusofonia, o brasileiro Vitor Ramil ficou doente e eu fui contactado de véspera. De repente pensei que iam apenas ver um tipo a tocar guitarra, piano e a cantar sem perceberem nada do que estava a dizer, isso obrigou-me a olhar para mim de outra maneira. Como foi de um dia para o outro, a minha banda não podia ir e como a sala não era assim tão grande decidir ir sozinho. Foi um desafio e correu bem, de certa forma as pessoas entenderam, não perceberam as letras, mas senti que curtiram o concerto, pelos menos as palmas foram sendo mais ao longo das músicas e isso foi muito bom. Foi engraçado ter de olhar para mim de uma forma diferente, foi quase o meu primeiro concerto porque ninguém me conhecia, nem a mim nem às minhas músicas. O concerto foi totalmente gravado por acaso e resolvemos colocar no Spotify. As pessoas pediram o formato CD e acabou por acontecer, está agora à venda nos concertos, mas não foi um disco planeado.

Como surgiu a ideia de se fazer à estrada sozinho?
Já tinha a ideia de fazer uma digressão sozinho há algum tempo, aproveitei o embalo deste concerto para isso acontecer. Depois já tenho um piano em casa, o que me permite tocar mais frequentemente, antes não me sentia preparado para tocar piano em cima do palco.

Foto: Octávio Passos

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Existiu uma necessidade inerente?
Não é bem necessidade, é perceber enquanto público que também gosto de ver esses concertos assim, as músicas ficam diferentes. Um dos CDs que eu mais adorava, mais ouvi e aprendi a tocar alguns acordes, é um do Caetano Veloso ao vivo no Copacabana Palace, que se chama Totalmente Demais (1986), em que ele está sozinho em palco. No ano passado fui ver o Eddie Vedder também sozinho em palco e há qualquer coisa nos artistas que eu gosto. Há uma natureza mais primitiva das músicas e adoro ver isso, é ouvi-las de uma forma mais despida e mais intemporal.

Enquanto músico, como se sente nesse registo?
Estou mais limitado pelo facto de estar sozinho, mas ao mesmo tempo estou mais solto porque posso fazer o refrão duas vezes, estou farto da música e paro a meio. Há uma liberdade e uma espontaneidade que com banda é muito mais difícil de conseguir. Improviso muito mais, altero o tom se tiver muito cansado da voz, posso fazê-lo sem dizer nada a ninguém. É diferente, acho que numa carreira de um cantautor existe sempre esta vertente, pelo menos nos artistas que eu gosto, como o Paul Simon ou o Dylan. Sinto que é uma outra hipótese das músicas existirem.

Este concerto é uma viagem ao seu repertório. Como foi feita a seleção de temas?
Vou mudando muito. No outro dia alguém pediu o “Tonto de Ti” d’Os Azeitonas, eu nunca tinha cantado essa música e agora até a incluo nos concertos. Pedem-me desde o “Café Hollywood” ao “I Want to Hold Your Hand”, dos Beatles, e isso faz com que toque músicas que nunca toquei ao vivo. Faço uma set list, mas depois altero muito. É uma sessão, não é bem um concerto.

Sente mais proximidade com o público ao tocar em salas mais pequenas?
Sim, aquele facto da malta depois cantar as músicas ressoa de outra maneira. Acho que este concerto dá para existir desde que seja uma sala fechada e com bilhete pago, o que significa que as pessoas que lá estão querem mesmo ouvir. Não me vejo a fazer isto num palco ao ar livre no verão para milhares de pessoas ou numa queima das feitas, por exemplo.

"Hoje vou para o palco com a roupa com que estou vestido, às vezes tenho que me lembrar de tirar o telemóvel e as chaves do carro do bolso, e mesmo assim já fui com a carteira no bolso de trás. Era como te dizia sobre o estúdio, isto é uma extensão da minha vida. Às vezes há um camarim para mim e outro para a banda e eu nem abro o meu, nunca lá vou."

No início sofria muito com os nervos antes de entrar no palco. Já está melhor?
Isso passou-me na altura dos concertos com o Zambujo, mas sofria bastante, comia uma banana antes de sair de casa de manhã e depois não metia mais nada à boca. Agora já não fico nervoso, nem muito nem pouco, zero. É como ir ali ao supermercado. Na altura d’Os Azeitonas, só o simples facto de dizerem “pessoal, é para ir vestir (o fato)” eu já entrava logo num stress com aquela cerimónia. Hoje vou para o palco com a roupa com que estou vestido, às vezes tenho que me lembrar de tirar o telemóvel e as chaves do carro do bolso, e mesmo assim já fui com a carteira no bolso de trás. Era como dizia sobre o estúdio, isto é uma extensão da minha vida. Às vezes há um camarim para mim e outro para a banda e nem abro o meu, nunca lá vou. Fico ali com a malta, não me isolo, não faço nada de especial. De repente chega a horinha e já estou em cima do palco. No fim ainda sinto aquela descarga toda e é impossível ir logo dormir, há muita coisa na cabeça.

Nestes concertos tem um camarim só para si. Qual é a sensação?
Sim, é meio estranho porque depois a equipa vai para os seus sítios, o técnico de som vai para a mesa, o da luz vai para a luz, outro vai para o teleponto, desaparecem e fico ali sozinho, é estranho, nunca tinha sentido isto. Pego numa guitarra e fico ali a tocar umas músicas. Quando era com o Zambujo ele é mais de se isolar do que eu, gosta de estar assim sossegado e compenetrado antes do concerto, eu não, quero é malta ao meu lado a falar de estupidezes.

O facto de estar sozinho em palco faz com que descole da dupla com o Zambujo?
Sinceramente não penso nessas coisas. É normal as pessoas confundirem-nos, as pessoas também confundem o Ivo Canelas com o Nuno Lopes, confundem-me com o Tiago Bettencourt e com o Salvador Martinha e isso nunca me chateou. Quem acompanha música sabe que há uma geração que é mais próxima, como eu, o Zambujo, a Luísa Sobral ou o Samuel Úria, malta que é amiga. Sou amigo do Zambujo há mais tempo, antes das nossas carreiras existirem, isso é que não é muito comum. Geralmente, a malta da música fica amiga por causa da música e nós ficamos amigos por causa da música, mas não tínhamos discos e estávamos longe de imaginar tal coisa. Foi um encontro fortuito e acidental. Não me chateia nada, nem penso em fazer ou deixar de fazer coisas por aquilo que pessoas vão pensar. Acho que quando a vontade de fazer as coisas surge é ir em frente e pronto. Seria uma estupidez não termos feito aquilo, foi espectacular.

Acha que foram concertos irrepetíveis?
Não, se nos apetecer fazer outra vez fazemos. O facto de ter sido um sucesso colossal não pode impedir que se repita. Olha, no outro dia tocamos juntos na Exponor num encontro da Remax. Qual é o mal?

O Zambujo disse uma vez que para o conhecer bem bastava ouvir as letras dele com muita atenção. No seu caso também é assim?
Acho que não, porque a maioria das minhas canções não são sobre mim, são coisas que me ocorrem com muita nitidez e eu simplesmente escrevo, quase do início ao fim. A ideia que tenho é que são coisas que querem existir e que precisam de mim para poderem existir. É mais a minha maneira de olhar para as coisas. Sou muito inspirado por música crónica de vida, que fala de coisas do dia a dia, principalmente de um dia a dia que eu não conheço e que se torna mítico para mim através das músicas. Dou por mim a escrever sobre futebol por ser uma coisa do dia a dia, apesar de não ser uma coisa do meu dia a dia porque detesto futebol. Adoro quando o Carlos Tê escreve “voar como o Jardel sobre os centrais”, acho super poético. Olhar para a letra do “1987” e ver lá coisas sobre o golo de calcanhar do Madjer dá a ideia que se fica a conhecer o autor, mas não. Ainda ontem um senhor passou por mim e disse que eu era boavisteiro, porque há uma música em que falo sobre o Boavista, mas não sou. Talvez as minhas letras não sejam a melhor maneira de me conhecer.

Afirmou-se como um anti-saudosista, mas as suas canções falam muito do passado. Não há uma incoerência nisso?
Não. Na música “1987” o essencial não é pensar “ai que boas que as coisas eram antes”. Também tem essa camada, pode ser uma leitura possível, ainda bem que as pessoas sentem um aconchego no coração por ouvir uma música a falar sobre o Brasília e o Dallas, mas o que me inquieta e o que me leva a escrever essa música é questionar por que razão o centro comercial da Boavista se chama Brasília, ou o Dallas se chama Dallas. Qual é a alma de um povo que dá nomes estrangeiros e míticos aos seus estabelecimentos? Eu fui à Barbearia Londres perguntar porque se chamava assim e o filho do dono disse que o pai já morreu e gostava muito da palavra Londres, mas que nunca tinha ido lá sequer. Quase todos os países têm um imaginário local, mas Portugal não. Por cá, qualquer bar de praia está decorado com pranchas de surf, a fazer lembrar Malibu. É algo que eu não condeno, simplesmente me fascina e observo como um facto. A minha música não tem nada a ver com saudade. Uso memórias do passado para escrever canções, mas não tenho saudades nenhumas de nada. Não queria nada voltar a 1987 por razão nenhuma.

"O meu melhor amigo de infância continua a sê-lo até hoje porque era o único da minha turma que sabia quem era o Eric Clapton. A música tem esta coisa de agarrar em nós e nos levar sem termos a mínima ideia se nos vai dar dinheiro ou estabilidade. As poucas pessoas que entregam a vida a este ofício sentem que é algo que as une inevitavelmente, ficam logo amigos."

A sua mulher, Ana Sequeira, é a artista plástica responsável pelos cenários dos seus concertos. Como é esse processo?
Sim, ela faz os meus cenários desde 2013 e dou-lhe carta branca total. Claro que há sempre uma limitação prática das coisas poderem viajar e serem fáceis de montar. Normalmente reunimos com a equipa toda, ela faz umas maquetes, dou-lhe exemplos de coisas que eu gosto e é por aí. Nesta digressão queria que fosse tudo preto e que não se visse o fundo do palco, queria uma imagem de um tipo sozinho em palco a flutuar no escuro, sem se ver o chão, as paredes, nada. Às vezes o chão dos teatros é muito brilhante e tira essa cena, estamos até a pensar alcatifar alguns. As cores são uma coisa muito importante, há sempre uma mensagem que se quer passar, uma estética associada. Todos os sentidos estão ligados uns aos outros. Se beberes um copo de vinho bom no Burger King num copo de plástico, não te vai saber ao mesmo. Está mesmo tudo ligado. Na música tudo conta com tudo, com a audição, obviamente, mas também com a visão ou com o olfato. Tem de existir uma harmonia nesses elementos todos, é isso que eu procuro.

Voltar ao Coliseu do Porto continua a ter alguma dimensão ou já se sente em casa?
Tem sempre, porque continua a ser aquela sala mítica para mim. É o chão sagrado dos melhores concertos que vi quando era puto e dos mais importantes que eu já dei na minha carreira. É sempre incrível tocar lá, seja em que circunstância for. Estive lá na semana passada com a Rádio Comercial e a malta já goza comigo, os seguranças já me dizem “hey, estás cá outra vez?”. Sinto-me sempre muito bem recebido, o que é uma coisa que vai muito além dos meus sonhos mais remotos. Pensar que um dia ia ser da casa, daquela casa. É, sem dúvida, um dos sítios onde mais gosto de tocar.

Cria muitas expectativas antes de atuar nesse “chão sagrado”?
Tento não criar, faço por encará-lo como um concerto normal. Lembro-me que na primeira vez que toquei no Coliseu do Porto em 2014 fomos todos dormir a um hotel para dormimos bem, até sabia a roupa que ia usar, isso estraga as coisas. Desta vez vou encarar como uma coisa normal, vou levar os meus filhos à escola nesse dia, vou dar a minha corridinha…

O facto desta ser uma sala maior, faz que este concerto mude em relação aos outros?
Vai mudar um bocadinho, mas com o  António Zambujo tive a prova de que é possível fazer um concerto intimista no Coliseu. Cada vez que o Zambujo cantava a “Cucurrucucu Paloma” não se ouvia uma mosca na sala, espero que agora aconteça o mesmo.

"No outro dia estava com um artista mais velho, que não posso dizer o nome, mas era daquelas figuras incontornáveis da música em Portugal. Eu sugeri darmos um mergulhinho no mar e ele disse que não podia ir à praia porque as pessoas massacravam-no. Eu fui na boa, tenho esse privilegio de ter sucesso sem fama."

No fim dos concertos que deu em Lisboa publicou no Instagram um agradecimento onde mencionou vários músicos que estavam na plateia. Afinal é fácil fazer amigos na música?
A malta da música fica logo amiga porque a música é algo que une as pessoas. Todos os meus amigos estão relacionados com a música desde os meus 10 anos. Ter uma t-shirt dos Ramones aos 12 anos é um statement, estás a convidar amigos, estás a afastar umas pessoas e aproximar outras. A malta na escola onde eu andava escrevia nomes de bandas na mesa e depois os professores apagavam e nós escrevíamos outra vez e uns continuavam a lista dos outros. A música sempre foi o meu ponto de encontro com outras pessoas. Não me lembro da minha vida antes da música entrar nela, aos 11 anos, só começo a ter memórias mais vivas depois disso. O meu melhor amigo de infância continua a sê-lo até hoje porque era o único da minha turma que sabia quem era o Eric Clapton. A música tem esta coisa de agarrar em nós e nos levar, sem termos a mínima ideia se nos vai dar dinheiro ou estabilidade. As poucas pessoas que entregam a vida a este ofício sentem que é algo que as une inevitavelmente, ficam logo amigas. A Mafalda Veiga veio uma vez a minha casa, conheci-a e passado meia hora já éramos amigos porque temos essa coisa que nos une e que mais ninguém consegue compreender, a não serem os próprios músicos. Imagino que um advogado não é imediatamente amigo de outro advogado só pela profissão, mas um músico é imediatamente cúmplice de outro músico, porque são poucas as pessoas que se entregam irreversivelmente a esta tarefa.

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Estas duas noites em Lisboa são daquelas que é de guardar para sempre. Às vezes é preciso, nem sempre corre tudo bem, às vezes o cansaço e o desalento atacam sem piedade. É impossível que não seja assim, nesta vida. E é nessas alturas que eu me vou lembras das duas noites passadas. Duas noites em que correu tudo bem. Cantei e cantei o melhor que sei e posso, estava na minha melhor forma. A equipa esteve unida, incansável, feliz. Estava tudo bem. A Ana estava. Os meus heróis da música vieram todos, todos os que puderam. Pessoas que eu admiro e a cuja força eu recorro em pensamento. Pessoas que me inspiram a toda a hora: a @luisasobral , a @marciaoficial_insta , a @anabacalhau , o @tatankaman , o @joaosooficial , a @mafalda_v , o @heber_marques e o @bigbeat dos @hmbsoulmusic , a @joanaespadinha , o @pirminoo , o Guilha, os @calema507 , o @cesartmourao , a @carminho , o @pedro_da_silva_martins , o @rafamaton , o @diogopssantos , o Nélson Carvalho, a malta da @radiocomercial , o meu maestro soberano @ruivelosoficial . Ninguém faltou, só faltaram mesmo os que não puderam ir. Fico muito orgulhoso por saber que posso contar com o apoio destes gigantes todos que eu tanto venero. A todas as pessoas que foram: sou muito agradecido a todos vocês que resolveram que o @teatrotivolibbva numa segunda e numa terça seria o melhor sítio para estar. A vocês devo tudo. Obrigado por embarcarem nesta Casca de Noz. Obrigado por receberem tão bem tudo o que eu tenho para dar. Obrigado! #cascadenoz #miguelaraujo

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Esta digressão vai terminar no Coliseu a 15 de junho. Já pensa num próximo disco?
Depois irei começar os concertos com a banda, o que não significa que não vá voltar a fazer concertos sozinho. Um disco para já não quero, estou a pensar em gravar música a música e lançá-la assim. Para mim o disco é um conceito muito angustiante porque tem de ser pensado como um todo, tem de ter coerência, tem que soar bem. Nesta fase não quero pensar num disco, quero pensar numa música e encará-la como objeto artístico, lançá-la onde for e como for. Para já saiu a “Ainda Estamos Aqui” e já estou a trabalhar em outras e umas não têm nada a ver com as outras. Não significa que no fim de um ciclo de 12 não lance um CD. Queria lançar mais um tema no fim do verão, em setembro ou outubro. Sinto que todos os meus discos saíram precipitadamente. O Crónicas da Cidade Grande (2014) nunca deveria ter saído com a minha voz naquele estado, esperava até ficar bom para depois gravar. Se demorasse um ano, demorava um ano. Mas depois havia digressão marcada e promoção marcada. Nunca mais vou deixar que isso aconteça. Tenho músicas que até já podiam sair agora, mas quero deixar acabar a digressão e passar um tempo sem ouvi-las, para depois lançá-las como deve ser.

O que anda a ouvir agora?
[Pega no telemóvel e mostra a sua playlist no Spotify] Cat Stevens, Dr. Dog, Banda Dônica e Evan Dando, o meu cantor preferido. Se cantasse bem era assim que eu queria cantar, para mim é o melhor cantor do mundo. [Mostra várias músicas do vocalista dos Lemonheads] Esta é a maneira mais fácil de cantar mal e a mais difícil de cantar bem, assim sem expressão. É isto que ambiciono enquanto cantor.

Há uma nova geração a cantar em português, isso agrada-lhe?
Houve uma entrega total à língua inglesa porque é a língua que menos faz lembrar a casa das nossas avós. Então a malta cantava em inglês, o adjetivo português na minha geração era usado como algo depreciativo, era uma coisa rasca. Depois houve uma reaproximação ao português extrema, quase kitsch, dos Deolinda, d’Os Azeitonas e até minha. Dizer coisas como “mulher tu sabes eu quanto eu te amo” é tão exagerado e tão piroso que é quase uma libertação. Havia uma certa insegurança do género “eu canto em português, mas é meio a gozar”.

Acha que é uma moda, vai passar?
Acho que não vai passar. Apesar da língua inglesa ser a língua natural do tipo de música que faço, acho que o português é a língua estrangeira à minha música. O inglês é o que me sai naturalmente. Ia sentir-me um bocadinho ridículo se cantasse em inglês, porque se tivesse um centro comercial nunca lhe chamaria Dallas, mas sim centro comercial da Boavista. Se estivesse a cantar convictamente em inglês, com uma pronúncia muito aproximada aos americanos, ia achar isso muito ridículo e provinciano. Ou é em português ou não é. A língua portuguesa é muito difícil de encaixar melodicamente, é pouco plástica para aplicar na métrica, por isso é que para mim é muito mais difícil compor as letras do que as melodias.

Começou a tocar com os seus tios aos 11 anos. Ainda se encontram para umas guitarradas?
Toquei com eles há um ano em Miramar, quando a banda deles fez 50 anos. Já estão pré-reformados, às segundas jantam, ficam na tainada até à meia noite e depois vão tocar uma horinha. É só uma desculpa para curtirem. Quando posso vou ter com eles, mas não tenho ido porque acordo muito cedo, essas horas já não dão para mim.

Algum dos seus filhos tem jeito para a música ou nem por isso?
O mais velho adorava música, era fanático pelos Beatles, mas agora adora futebol. Para ter conversa com os amigos começou a interessar-se por futebol, se falasse do Miguel Araújo ou dos Beatles os outros não sabiam o que ele estava a dizer. O do meio tem jeito, assobia afinadinho, mas ainda é muito cedo ainda para tocar algum instrumento.

Foto: Octávio Passos

Octavio Passos/Observador

Depois de esgotar tantas salas, como consegue manter os pés no chão?
Tenho um privilégio que muitos poucos portugueses têm, talvez só os do Porto e de Lisboa, que é poder continuar a viver no sítio onde nasceram e cresceram. Eu ia muito ao Crato, no Alentejo, passar férias quando era pequeno e os meus amigos que nasceram lá nenhum vive naquela zona, porque ficar lá a viver não é sequer opção. Não é que seja um mérito ficar a viver no sítio onde se nasceu, mas é uma opção, é uma escolha que muitos poucos portugueses têm. Eu nasci na Maia, em Águas Santas, mas vim viver para a Foz com os meus pais aos 10 anos. Os meus últimos 30 anos foram vividos aqui e quem vive cá são as mesmas pessoas desde sempre, então já me conheciam e, por isso, o tratamento não mudou. Viver nesta cápsula é uma sorte que eu tenho. Depois, adoro esta zona, gosto viver ao pé do mar, correr na marginal, dar um mergulho de vez enquanto, fazer um surfzinho…

Faz surf?
Comecei agora com aulas e é a coisa que mais adoro, pego no carro e vou. Ainda preciso de mais aulas para decidir que tipo de prancha tenho que comprar, mas já me ponho em pé, já consigo estar ali a curtir. Sou completamente viciado em mar, era incapaz de viver longo dele.

Nada lhe subiu à cabeça, portanto.
Nada. No outro dia encontrei a mãe de um amigo que já não via há anos e ela perguntou-me o que andava a fazer, não fazia a mínima ideia que era músico. As pessoas daqui não mudaram o comportamento em relação a mim, muitos não fazem a mais pequena ideia do que eu faço. Sinto que também nunca entrei nesse lifestyle de estrela. Comecei muito tarde, se calhar isso só acontece quando tens 19 ou 20 anos. Só comecei a ter sucesso em 2012, tinha 34 anos, a minha vida já era muito estabilizada, já era casado e tinha um filho. Ontem fui a uma conferência e no fim toquei umas músicas, quando aquilo acabou um senhor veio ter comigo e disse que pensava que não me conhecia de lado nenhum, mas afinal conhecia era as minhas músicas. Ou seja, as pessoas conhecem as músicas e não a figura que as está a cantar, a minha cara não está na televisão a cantar a toda a hora, muito raramente.

Isso é o sonho de qualquer artista: ser conhecido pela sua obra e não pela sua imagem.
Sem dúvida. No outro dia estava com um artista mais velho, que não posso dizer o nome, mas é daquelas figuras incontornáveis da música em Portugal. Sugeri darmos um mergulhinho no mar e ele disse que não podia ir à praia porque as pessoas massacravam-no. Fui na boa. Tenho esse privilégio de ter sucesso sem fama.

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