Miguel Guilherme: “Sempre confundi o meu trabalho com a minha vida” /premium

07 Julho 2019

Os medos, as frustrações, os erros as alegrias de Miguel Guilherme. Em entrevista a Laurinda Alves, o ator conta como pensa e trabalha alguém "despenteado por dentro" para quem a vida é um "one shot".

O ator Miguel Guilherme — que vai regressar com uma nova temporada da série “Conta-me como foi” — é o segundo convidado do “Imperdíveis”, o novo programa de Laurinda Alves na Rádio Observador, todos os domingos, às 11h. Leia a entrevista na íntegra.

[Ouça aqui a entrevista de Miguel Guilherme a Laurinda Alves]

Miguel, quando as pessoas ouvirem a tua voz vão perceber quem tu és mas, apesar de tudo e para não ser eu a apresentar-te: como é que te apresentarias a alguém que não soubesse quem és?
Acho que me apresentaria de uma forma muito simples: diria o meu nome, Miguel Guilherme, que é o meu nome próprio — Guilherme não é apelido, sou mesmo Miguel Guilherme — e sou ator desde os meus 20 anos. Penso que as pessoas já levaram muito comigo e, portanto, a maior parte já me conhece. Acho que me classificaria acima de tudo pela minha profissão, ator.

Mas isso é o que as pessoas sabem. O que é que as pessoas não sabem sobre ti que é um traço de caráter?
Já estás a querer espremer coisas coisas que não deverias [risos].

E ainda agora aqui chegámos.
Não sei, um traço de caráter? Sabes uma coisa? Uma pessoa autoanalisar-se é muito muito mau, porque é como te veres ao espelho: não estás a ver a imagem real, estás a ver a imagem que tu achas que vês. Aquelas pessoas que falam muito e dizem “Porque eu sou isto, eu nunca me arrependo ou eu sou isto, sou muito honesto”, começo logo a desconfiar. Mas também não calha bem eu dizer que sou indeciso, às vezes sou frágil, às vezes tenho uma série de… Não te sei dizer qual é o meu traço de caráter. Acho que não tenho um traço de caráter. Às vezes sou um bocado teimoso.

Imagino que também quem viveu a vida toda a interpretar e a interiorizar as histórias dos outros e das outras personagens…
É uma confusão mental muito grande. A maior parte dos atores são pessoas muito despenteadas por dentro e é o meu caso. Sou muito despenteado por dentro, mas tenho consciência disso.

O que é que fazes para tentar manter a risca e para tentar manter o penteado?
Tenho atenção, porque quando uma pessoa é despenteada por dentro geralmente prejudica-se a ela própria muitas vezes. Tocaste no ponto certo. O facto de representar muitas vidas, muitas situações, dá-te uma espécie de confusão que é ótima para o trabalho mas depois convém na vida tu aguentares-te. Ao fim destes anos todos, cheguei à conclusão de que o meu problema, que não abona muito a favor da minha inteligência, é que sempre confundi o meu trabalho com a minha vida.

Ou seja?
Sempre confundi de certa maneira a ficção com a realidade.

"Uma coisa é o teu trabalho, outra coisa é a tua vida. E eu nunca segui essa regra. Nunca. Sempre misturei as duas coisas, o que me trouxe muitas alegrias mas também muitos problemas com outras pessoas ou comigo próprio"

Fora do plateau e fora dos ensaios vives essas personagens que estás a interpretar?
Confundi muitas vezes a amizade dos personagens com a amizade das pessoas com quem trabalho, por exemplo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E percebi isso há relativamente pouco tempo. Uma coisa é o teu trabalho, outra coisa é a tua vida. E eu nunca segui essa regra. Nunca. Sempre misturei as duas coisas, o que me trouxe muitas alegrias mas também muitos problemas com outras pessoas ou comigo próprio. É como tu acreditares que mesmo uma coisa de ficção, um filme, representa a realidade. Não representa. Aquilo é uma ficção.

Mas há qualquer coisa de que tu gostas naquilo e que te prende e que trazes para a tua vida.
Há uma certa confusão e eu sempre criei uma certa confusão em relação a isso. E isso trouxe-me uma maneira de viver muito particular — trouxe alegrias, tristezas, problemas e coisas ótimas. Mas agora, ao fim destes anos todos, começo a tentar separar um bocadinho as águas.

Mas não achas que as pessoas, o comum dos mortais, faz um pouco isso? Projeta-se nas personagens do cinema, projeta-se nas figuras.
Mas eu não é nas figuras, é no ambiente, em tudo. É confundir a vida.

Agora que estás a caminho de começar a gravar a segunda temporada do “Conta-me…
A minha vida sempre foi mais o meu trabalho do que o fora do trabalho. E isso traz consequências.

E traz expectativas goradas.
Sim, traz expectativas goradas. Mas também traz muitas alegrias.

Traz mitificação?
Traz mitificação de uma série de coisas que depois não são aquilo que tu imaginas. A imaginação é maravilhosa, mas também não podes ter imaginação a mais porque senão estás a ver coisas que não existem. É como se transportasses o ambiente da ficção e do trabalho para a tua vida real, quando na realidade uma coisa está separada da outra.

E isso seria uma espécie de amortecedor para a vida real, é isso?
Não, acho que não é amortecedor, acho que é pior.

Uma pessoa faz isso consciente ou inconscientemente para que a ficção ultrapasse a nossa realidade e eu me sinta confortável ali, ou não?
Não sei. Acho que é inconsciente, mas não há nada por detrás disso, não és racional, és pouco racional.

Mas não sei até que ponto o comum dos mortais que não é ator, que não trabalha os personagens da maneira que os atores trabalham, também tem as suas projeções, as suas ficções.
Sim, todos nós fazemos projeções, não é? Mesmo na vida real tu fazes projeções de coisas que queres que aconteçam.

Como é que lidas com a frustração?
Mal, muito mal.

Mas porquê? Não aprendeste, não cultivaste a resiliência?
Na minha profissão estamos sempre a ser julgados, não há hipótese.

Estão sempre a começar do zero.
Estamos sempre a ser julgados. Faz bem, faz mal, vai bem, vai mal. Sempre.

E expostos.
Sim, estás sempre exposto e tens de ter alguma resiliência em relação a isso. E isso pode criar muito sofrimento, porque não podes estar dependente se as pessoas gostam de ti ou não, quer na vida quer no trabalho, e eu às vezes confundi as coisas. Mas o ideal é conseguir não depender do gosto dos outros, se os outros gostam de ti ou não. Focares-te naquilo que interessa.

Acho isso especialmente pertinente num tempo em que todas as pessoas estão nas redes sociais, todas se expõem facilmente e, como sabes, há os haters profissionais, as pessoas militantemente odiadoras dos outros e que vão lá destruir. E isso passou a ser difícil, não só para as pessoas com vidas e profissões expostas, mas para as pessoas que se expõem naturalmente.
As redes sociais não vão acabar, vão evoluir provavelmente para outras coisas, mas trouxeram toda uma nova maneira de as pessoas socializarem. Nós temos sempre que ter coisas… Eu não uso o Facebook, mas convém teres sempre coisas no Instagram porque, de facto, as redes sociais são poderosíssimas.

Mas aí também tens pessoas a dizer coisas sobre ti.
Não. Só se tu te expuseres de uma forma… se fores muito opinativo, por exemplo, nessas redes sociais onde as pessoas são super opinativas, sobretudo no Facebook.

E isso incomoda-te?
Não me incomoda, pessoalmente, porque não tenho nada a ver com isso, mas incomoda-me o nível de quase dupla personalidade que as pessoas têm. São uma coisa e depois na rede social são outra. São uns tipos muito simpáticos e depois são uns bullies na rede social. E o que me incomoda nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, é que as pessoas pensam que têm todas uma opinião muito particular mas não têm. Estão todas a repicar opiniões que ouviram. Pouca gente pensa pela sua própria cabeça, geralmente estão a repicar soundbytes de outras coisas.

E isso também acontece contigo?
Não, não acontece. [Risos] Se me acontecesse eu não estava a dizer isto.

Ou seja, tens uma fronteira que te diz: “A partir daqui não”. Porque humanamente é uma inclinação natural, diria eu…
Estou atento a isto porque tu queres-te inserir. As pessoas querem-se inserir, nós somos animais sociais e queremos estar sempre inseridos.

E tu não tens essa necessidade tão vital.
Tenho, mas não nas redes sociais.

Proteges-te das redes sociais?
Não, não protejo — não gosto. Há coisas interessantes nas redes sociais, como as notícias.

Preferes os livros, não é?
Sim. Eu não sou um hater das redes sociais, vamos ter que começar a viver assim. A afetividade dos adolescentes hoje em dia está ligada às redes sociais. Eles continuam a encontrar-se e a dar beijinhos fisicamente, mas tudo passa pelas redes sociais.

E às vezes acabam os namoros por SMS, não é?
Sim, mas isso também as pessoas mais adultas. Já vi pessoas acabarem o namoro por email, mas pronto. O telemóvel é como se fosse uma projeção do próprio braço ou da própria mente nos adolescentes. Eles já não pensam como nós. Nós conseguimos falar uns com os outros, mas o pensamento afetivo não é a mesma coisa.

Mas, se pensarmos bem, nós também já não pensávamos como os nossos pais.
Com certeza.

"Tenho de ler ficção e romance porque acho que faz parte de um dos trabalhos que um ator tem de ter, que é alargar o seu campo de imaginação, porque é muito importante a imaginação no trabalho do ator, pelo menos para mim. É a ferramenta fundamental: imaginar coisas. Imaginar"

Estava aqui a pegar no livro da Elena Ferrante, que é o último da quadriologia “Amiga Genial”, e esto é o tipo de livro que te interessa, não é? É uma saga de um grupo de amigos que vai dos 10 anos até aos 60. Tu entras aqui e fazes parte desta família, deste grupo de amigos, eles passam a ser também os teus amigos.
Eu tinha ouvido falar disso, mas agora comecei a ler e, de facto, já estou quase no fim. É maravilhoso, até mesmo para um ator. No meu caso tenho de ler ficção e romance porque acho que faz parte de um dos trabalhos que um ator tem de ter, que é alargar o seu campo de imaginação, porque é muito importante a imaginação no trabalho do ator, pelo menos para mim. É a ferramenta fundamental: imaginar coisas. Imaginar.

Como é que começas a compor os teus personagens, quais são os passos? Começas por ler o guião?
Sim, isso é fundamental. Depende muito de trabalho para trabalho.

Mas então, no concreto. Não quero induzir, não quero obrigar-te nem a ir ao Bocage nem a ir ao pai de família do “Conta-me…”, nem ir ao teatro “A Verdade” e “A Mentira”, mas diz-me assim um personagem concreto que as pessoas vão identificar.
Geralmente, lês o texto. E tens de perceber que aquelas palavras são só uma parte, são importantes mas são só indicativas, é o que está à superfície.

Miguel Guilherme nas peças "A Verdade" e "A Mentira"

Tens de pôr lá toda a expressão e toda a textura.
Tens de encontrar a textura, a relação, tens de encontrar o relacionamento entre os outros personagens, tens de decorar o texto, que é fundamental. Se não decorares bem o texto não consegues ter um bom personagem.

E tens de decorar o texto ao ponto de ele não parecer decorado.
Ao ponto de te esqueceres, de falares com aquele texto como estou a falar agora contigo. Depois também tem muito a ver com o tipo de texto. Pode ser uma coisa mais naturalista ou mais realista, se é mais poética, se é clássico se não é, tudo isso é um trabalho de dramaturgia do ator que ele tem de fazer e que eu tento fazer.

E que é fascinante.
Muitas vezes engano-me. Tu pensas que uma coisa é assim e a meio do processo dizes: “Não, afinal isto não era assim, era assado”.

Por causa da coerência interna de cada personagem, é isso?
Não é tanto o personagem. É mais o que aquele autor quer. Nunca parto do princípio do personagem, porque acho que é um princípio errado. O personagem está ali por algum motivo, foi escrito por algum motivo. Estou a ser um bocadinho frio, mas está ali para cumprir uma função.

É interessante porque nós, que não somos atores, acharíamos exatamente o contrário.
O importante é perceber o que aquele personagem está ali a fazer e a correlação que ele tem com tudo o resto. Faz parte de um ambiente, não existe só por ele. Mesmo que seja um monólogo, por exemplo um monólogo beckettiano, o personagem está sempre a referir-se à sua memória, à sua infância, ao que está acontecer naquele momento, se tropeçou numa pedra, a morte do pai, a morte da mãe… Depois, é evidente que podem surgir alguns traços característicos de personagem. Se estiver lá mesmo escrito “O personagem é cego de um olho” ou “O personagem não tem uma perna”, é claro que tens de trabalhar isso.

Mas tu, que és uma pessoa muito expressiva, deves ter muitas vezes que te conter nessa expressividade, ou não?
Sim, com certeza. O trabalho de ator é fascinante porque vais percebendo ao longo dos anos as tuas próprias características. Por exemplo, eu sou super expressivo e muitas vezes isso não é bom.

Porque as pessoas tomam como se estivesses a fazer ironia.
Exatamente. Tenho vindo a aprender, de certa maneira, a conter essa expressividade em determinados trabalhos e personagens porque o personagem não requer isso.

Quem é das nossas idades lembra-se muito da tua hiper-expressividade naquele célebre anúncio em que fazias os barulhos e a expressão correspondente aos eletrodomésticos. E depois começaste também por ser um personagem que ou tinha muito sentido de humor ou estava conotado com…
Sim, eu fiz muitas coisas ligadas àquilo a que se chama comédia. Sempre fui um ator cómico. Não humorista, nunca tive muito jeito.

E como é que conseguiste despir esse fato, mas mantê-lo e juntar-lhe outros fatos?
Não podes renegar nunca aquilo que és, porque senão dá chatice. Não podes dizer “Eu sou assim. A partir de hoje vou ser assado”. É como na vida, um ator não é uma máquina. Na realidade, tu és sempre — mais coxo, menos coxo, mais gordo, menos gordo, com mais pala no olho — aquilo que tu és e, por muito que queiras fugir a isso, estás lá. Alguém que queira fugir àquilo que é está apanhado. Tens que usar aquilo que és.

Uma pessoa tem que usar aquilo que é e, ao mesmo tempo, tem que ter esta plástica, quase uma plasticina que posso moldar para este personagem. Isto é um trabalho de uma exigência brutal.
Pois, depende. Depende das pessoas, depende do talento, depende das oportunidades.

"Houve personagens que eu falhei, nitidamente. E isso não é grave porque o trabalho tem a ver com uma coisa contínua. O ideal é aquilo fazer parte da tua vida, de todo o teu percurso"

Que personagem é que te custou mais fazer até hoje?
Ao fim destes anos todos, como deves compreender, houve personagens que eu falhei.

E não te importas de falar sobre essas? Nós aprendemos imenso com os erros uns dos outros.
Não vou falar sobre coisas concretas, mas houve personagens que eu falhei, nitidamente. E isso não é grave porque o trabalho tem a ver com uma coisa contínua. O ideal é aquilo fazer parte da tua vida, de todo o teu percurso, não é?

Pois, é como este olhar sobre a vida. Uma pessoa não pode olhar só para o aqui e agora, tomar o pulso ao momento. É olhar o rumo da sua vida.
É olhar ao rumo e o trabalho do ator, para mim, tem a ver com isso. É espraiado ao longo do tempo. É uma coisa de paciência também. É tu ires percebendo naquilo que estás a fazer. Mas reconheço que quando falhas um personagem — há pessoas que acham que nunca falham, mas desses nem vou falar, há uns que estão ali e para eles aquilo é sempre a andar –, quando tens uma consciência crítica de ti próprio e quando ela é hiper-aguda, isso pode causar-te problemas.

Pode doer muito.
Pode doer imenso porque percebes exatamente que aquilo falhou.

Mas isso não te pode levar a uma auto-depreciação depressiva?
Às vezes pode.

E como é que uma pessoa sai disso também?
É percebendo estas coisas todas de que estivemos a falar. Primeiro, que a vida não gira à tua volta, que não és o centro do universo. Isso é logo a primeira coisa. Os atores são, por natureza, pessoas narcísicas. É preciso um certo narcisismo para se ser ator. Convém não ser demais, mas há um lado narcísico.

Uma pessoa gostar de se ver, gostar de se ouvir.
Há um lado, muito cá atrás na tua cabeça, um bocado masoquista. “Porquê? Porque é que tu te vais apresentar à frente de umas pessoas num palco?”

Ou exibicionista, depende.
As duas coisas estão um bocado ligadas. Está tudo ligado.

Mas achas que a cabeça de um ator, a arquitetura mental e afetiva de um ator, é diferente das outras pessoas?
Acho que este tipo de trabalho, pela sua duração no tempo, invariavelmente há-de trazer características diferentes à cabeça e à mente das pessoas. Não estou a falar no mau sentido.

Vou perguntar-te uma coisa que está no imaginário comum hoje em dia. A Meghan Markle casou com o príncipe Harry, ela era atriz e há imensa gente que diz que ela é muito boa atriz, tão boa atriz que está a fazer muito bem o seu papel. Isto é uma metástase, alguém que foi atriz e que nunca pode ser uma pessoa que não tem em si essa capacidade de estar em palco?
Isso é um preconceito, porque tu podes ser um excelente ator e ter pouquíssimo jeito para mentir na vida e podes não ser ator e seres um mentiroso maravilhoso e uma pessoa que sabe circular nos intervalos da chuva maravilhosamente. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. É como se tu dissesses assim: “Ah, os atores não são tímidos”. São. Tu podes ser ator e depois na vida seres extremamente tímido. Ou não. Acho que essas coisas não estão muito ligadas ou não deveriam sequer estar ligadas.

Mas no imaginário comum às vezes ficam.
Sim, é como quando pensamos em médicos ou em camionistas, tu associas sempre aqui uma maneira de estar. Ou há sempre uma mitologia à volta daquilo tudo. O camionista é bruto.

E depois é a pessoa mais sensível do mundo e o mais amoroso eterno.
Por acaso ainda não conheci nenhum. [risos] Ainda bem que falas nisso. Ando à procura aí pelas estradas de ver um camionista a recitar, mas não, ainda não encontrei.

Também não fizeste uma longa viagem com camionistas.
Por acaso fiz uma vez.

Fizeste? Onde?
Quando era mais miúdo fui daqui num camião TIR até à Suíça. E foi uma experiência incrível. Foi um camionista italiano.

E que era razoavelmente intelectual ou uma força bruta?
Não, era magro. Mas são pessoas muito duras, até pela natureza do trabalho. Foi muito interessante fazer uma viagem numa cabine durante tantas horas.

O que é que te apaixona nas pessoas? Homens ou mulheres.
Agora vou revelar uma coisa um bocado… Eu gosto de pessoas, mas não sou um apaixonado assim especial por pessoas. Não sou muito curioso. Tenho imensa curiosidade no meu trabalho, mas na vida real sou uma pessoa não muito curiosa e estou a dizer isto não como uma coisa boa.

Um mea culpa, digamos assim.
Não, não é um mea culpa porque não estou a prejudicar ninguém. Mas, de facto, quando penso o que é que me interessa nas pessoas, o que é que me fascina nas pessoas, eu bem tento reparar nelas mas na maior parte das vezes não reparo. Reparo, mas não tenho esse fascínio, nunca tive.

Se calhar tens um excesso de pessoas, de personagens e de vidas.
Não, acho que não tem a ver com isso, tem a ver com o meu caráter. Agora, gosto de pessoas, não tenho é esse frenesim.

Mas o que é que te apaixona numa mulher, por exemplo?
Não sei se esse discurso é politicamente correto hoje em dia…

Mas és heterossexual e, portanto, posso perguntar-te o que é que te apaixona numa mulher.
É muito difícil… A beleza física, por exemplo. Porque a maior parte das pessoas diz que gosta das mulheres e das outras pessoas só pela inteligência, mas não é verdade. O olhar é muito importante. O primeiro olhar sobre uma pessoa, sobre um corpo, é muito importante. E depois vem o resto. Acho que nós ainda funcionamos de uma forma um bocadinho animal, se queres que te diga. Por exemplo, tu vês grandes intelectuais que se babam com uma modelo ou com alguma atriz quando o que eles deveriam pensar era: “Eu quero é estar com uma pessoa com o meu nível intelectual”. Mas não.

Por exemplo, o Arthur Miller não se apaixonou pela Marilyn? A Marilyn não era estúpida, era inteligente, mas às vezes apaixonas-te pelo teu contrário ou por aquilo que não conheces. Há um fascínio. Agora, quando falo na beleza das mulheres não é num sentido machista, é porque a beleza é muito importante e a beleza passa às vezes por um olhar, por um gesto, por uma expressão, não passa exatamente pelo corpo todo.

Sim, não tem de ser uma beleza de top model.
Não, a beleza às vezes encontra-se em coisas muito pequeninas.

Achas que és bonito?
[Risos] Acho que sou lindo.

O que é que é mais bonito em ti?
Os meus olhos. Pelo menos é o que as pessoas me dizem.

A voz, talvez.
Boa pergunta [risos]. Não, mas acho que não sou bonito. Bonito no sentido, lá está, vamos comparar com alguém. Beleza física. Vamos comparar com… quem é que me mete num chinelo? [risos]

Se calhar ninguém, não sei.
Mas conheces essa expressão? Meter num chinelo?

Claro, claro. Então podes ir aos personagens internacionais.
Sei lá, o Robert Pattinson. Olha o Paul Newman, que já morreu.

Um belo homem, sim.
E também nós não percebemos muito bem porque é que todos sabemos que aquela pessoa é bonita. Acho que tem a ver com a estrutura facial, dizem.

"Quando era criança criava sempre cenários: um estádio de futebol, um saloon — nós víamos muitos filmes de cowboys –, uma tourada, brincava muito assim"

Com a simetria.
Com a simetria, tem muito a ver com o maxilar. O que é certo é que todas as pessoas sabem que aquele tipo é bonito, aquela é bonita, aquele é feio como os trovões.

Antes de seres ator e antes de começares a fazer esse longo, interminável e misterioso trabalho sobre ti próprio, quando é que decidiste ser ator? Quando é que se abraçou essa possibilidade no teu espírito?
Desde miúdo, como tinha muita imaginação, brincava imenso com esse tipo de coisas, só que nunca liguei. Inventava imensas brincadeiras que pressuponham sempre uma ficção.

E um plateau.
E um plateau.

E uma audiência.
Não, não necessariamente uma audiência. Eu criava sempre cenários: um estádio de futebol, um saloon — nós víamos muitos filmes de cowboys –, uma tourada, brincava muito assim. Depois fui para o propedêutico, que corresponde agora ao 12.º ano.

Aliás, nós fomos colegas na faculdade.
Quando a Universidade Nova ainda era uma criança. Quando a Nova ainda era muito nova.

Quando a Nova ainda era muito nova, exatamente.
Então houve um colega que me disse: “Sabes que há aqui um grupo de teatro que está a fazer uma seleção de pessoas para fazer um curso de teatro”. Isto foi talvez em 1978, devia ter 19 anos. E estava farto do propedêutico, estava a estudar imenso e por acaso tive ótimas notas, safei-me muito bem, e fui fazer esses testes e passei. Era o Teatro da Comuna e aquilo era um curso de dois anos.

E sentiste que se calhar era prematuro demais?
Não, não, eu apaixonei-me imediatamente por aquilo, apaixonei-me por aquele grupo e comecei a trabalhar a seguir.

E fizeste a faculdade?
Depois, com muita pena minha, acabei por não fazer a faculdade até ao fim. Por alguma preguiça também e algum fascínio pelo ambiente teatral. Tenho a sensação de que se tivesse ido para História era capaz de hoje ser licenciado.

Mas terias sido um talento desperdiçado, Miguel, não vás por aí.
Não, não, mas podia ser ator e ser licenciado em História.

Mas ainda podes.
Pois posso, ainda posso tentar.

Mas passa-te pela cabeça voltar a ir para a universidade?
Talvez. Na universidade da terceira idade, não? [risos]

Não, hoje em dia já está tudo muito flexível.
Ai é?

É.
Porque eu queria muito estudar História da Arte. O que me mais me fascina, é a História.

E a poesia também.
Poesia não tanto. Eu adoro poesia, mas não leio tanto como leio prosa.

Quem são os teus autores, aqueles que uma pessoa não poderia viver sem ter lido este livro ou sem acompanhar a escrita desta pessoa?
Acho que tem muito a ver com a época. Tu tens uma altura em que aquele autor é maravilhoso e depois passas para outros. Mas o Beckett, o Shakespeare, na sua múltipla condição. Os autores de que gosto são sempre os últimos que estive a ler.

Podemos ir por aí.
Por exemplo, gosto imenso de um autor que não acho que seja um génio mas que quando o leio adoro, que é o Murakami. E agora o último que li foi “A Morte do Comendador” e não sei porquê aquele universo ao mesmo tempo é solar, é louco e é negro. E dá imensa vontade de ir ao Japão depois de ler os livros dele, porque os livros dele são muito pop, de certa maneira. Ele funde a tradição cultural do Japão com o Ocidente, porque também é um fã do Ocidente. Há ali uma espécie de mundo. Houve um outro autor — que quando tinha os meus 21 anos — e que me marcou muito, que é “A Condição Humana” do Malraux, um livro essencialmente político, que se passa na China do Chiang Kai Shek e entre os revolucionários e que espelha muito a maneira como nós nos vemos uns aos outros e a nossa crueldade. Marcou-me imenso.

Quando te enganas em palco, qual é a tua estratégia?
Uma coisa é enganares-te numa frase, outra coisa é ter aquilo a que se chama uma branca. Uma branca não é tu esqueceres-te de uma frase ou de uma palavra, uma branca é tu, de repente, não perceberes o que estás ali a fazer.

Já te aconteceu?
Já.

A cara de pânico é tal…
Aí não há nada a fazer, não consegues fazer nada.

Mas não havendo nada a fazer, o que é que uma pessoa faz?
Nada.

Mas ficas parado, a patinar?
Ficas parado, dizes disparates, os outros ajudam. Já aconteceu ter que parar a peça. Comigo não, mas já aconteceu. O teatro é interessante por causa disso, porque pode acontecer de tudo. Desde ataques de coração em cena a espectadores que morrem na plateia. As pessoas vão lá porque é um bocadinho um circo, é um direto.

"As pessoas quando vão ao teatro ou ao cinema gostam muito de ser transportadas, não é de ser enganadas, para um universo fora delas próprias. Imagina: tu estás a fazer uma coisa em cena, um ator cai porque desmaiou, as pessoas acham que aquilo é assim"

É uma proximidade incrível.
É uma proximidade incrível e é lindíssimo porque quando aquilo resulta é uma espécie de uma assembleia em que toda a gente está a comungar a mesma coisa. Nem sempre acontece, mas quando acontece já não há muita diferença entre o espectador e o ator. Toda a gente está a respirar. Tem a ver com a respiração. Representar é respirar. Quando toda a gente está a respirar da mesma maneira…

A isso chama-se uma grande comunhão.
Chama-se uma grande comunhão.

E nesse espírito de comunhão, se um ator se engana ou se tem uma branca, de certeza absoluta que o público fica instantaneamente com ele, por ele.
Sim. Aliás, muitas vezes não percebem.

Porque há truques.
Ou não, ou porque as pessoas pensam que é assim.

E podes contar alguma dessas situações?
As pessoas quando vão ao teatro ou ao cinema gostam muito de ser transportadas, não é de ser enganadas, para um universo fora delas próprias. Imagina: estás a fazer uma coisa em cena, um ator cai porque desmaiou, as pessoas acham que aquilo é assim.

Pois, vocês são tão bons, são tão convincentes.
Não, não. Não é por os atores serem bons, é porque a própria convenção determina isso. Tudo o que se passa ali é a fingir. Portanto, se ele caiu é porque caiu, é porque é mesmo assim. Se vai lá um tentar acordá-lo e perguntar: “Não há um médico na sala?”, as pessoas pensam que faz parte da peça. Tens que repetir dez vezes. Não tem a ver com os atores serem bons ou não, tem a ver com o próprio contexto da coisa.

Estás em vésperas de começar a gravar o novo “Conta-me…” dez anos depois, em que os personagens também assumem que se passaram dez anos. Gostava que me falasses um bocadinho disto, porque o “Conta-me…”, no fundo, é mostrar como era a vida há pouquíssimas décadas — os nossos filhos olham para aquilo, gostam imenso e quase não acreditam: uma televisão a preto e branco que acabava à meia noite, que tinha dois canais, que acabava com o hino nacional e depois tinha uma mira técnica. Coisas que parecem impossíveis, mas que…
Claro, há 30 anos, 40, que é muito tempo.

É muito tempo. Então, conta-me como é que vai ser este “Conta-me…”.
Nós acabamos a primeira série, não era para ser feita a segunda, exatamente no dia 25 de Abril. E agora a RTP propôs fazermps a série dez anos depois, ou seja, continua a ser uma série da época, mas há um hiato no tempo. A partir de 1984. E os anos 80 são uns anos interessantes também.

Portanto, vais aparecer vestido à anos 80.
Não tanto, talvez os meus filhos sim, porque o meu personagem não é do povo mas é da pequena burguesia, não liga a essas coisas. Veste o que lhe dão.

A Rita Blanco é a tua mulher.
Eu visto o que a minha mulher me compra, não tenho qualquer questão de moda. Mas os miúdos sim, os mais novos. Aliás, o ator, o miúdo que fazia de meu filho com oito anos, tem quase 1,90m neste momento.

E vai fazer o teu filho com 18 anos.
Com 18, 19.

Isso é muito interessante: o revisitar uma equipa. Vocês contracenam com tantos atores e fazem tanta coisa, já passou tanto tempo.
É perturbador e emocionante ao mesmo tempo voltarmos a encontrar-nos todos.

Tu, de repente, voltas a encarnar o marido.
E volto a ter aqueles filhos e aquela mulher e aquele vizinho. Tudo isso ao mesmo tempo é muito interessante. Vamos lá ver. Acho que a equipa que vai adaptar é a mesma e basicamente a história da família é a história dos espanhóis, da série espanhola, depois o que é adaptado é a parte histórica e social.

"Gostava de fazer mais três ou quatro papéis que sejam interessantes e muitas vezes isso não depende de ti porque tu és escolhido para essas coisas. A não ser que tu digas: “Olhe, eu quero fazer isto, então vou encenar”, mas muitas vezes o ator está dependente do olhar que têm sobre ele mesmo antes de começar a representar ou fazer qualquer coisa"

E quanto a metas pessoais para 2020? Uma peça nova, um teatro?
Em termos pessoais e de carreira, gostava de fazer mais três ou quatro papéis que sejam interessantes e muitas vezes isso não depende de ti porque és escolhido para essas coisas. A não ser que tu digas: “Olhe, eu quero fazer isto, então vou encenar”, mas muitas vezes o ator está dependente, mais uma vez, do olhar que têm sobre ele mesmo antes de começar a representar ou a fazer qualquer coisa.

Mas o que é que se anuncia? Não vais fazer uma peça de teatro?
Vou, vou fazer uma peça no Teatro Nacional e curiosamente é uma peça sobre jornalismo.

Mas atual, contemporânea?
Não está escrita ainda, está a ser escrita pelo Rui Cardoso Martins, que foi e é ainda jornalista. É uma peça sobre os jornais, sobre a imprensa.

Sobre o mundo digital?
Sim, sobre o mundo digital, sobre a importância dos jornais, sobre se há ou não crise no jornalismo, se os jornais vão acabar, todo esse tipo de coisas, que eu não li ainda porque ele está a escrever. Esperemos que acabe a tempo [risos] O que é bom é que, se o autor estiver interessado, pode ir trabalhando também durante os ensaios.

Se pudesses trazer alguém aqui, vivo ou morto, alguém com quem gostasses de conversar, que admires, quem é que trarias?
Pessoas do passado era interessante.

Que género de pessoas do passado?
Jesus Cristo.

Porquê Jesus?
Jesus faz tão parte da nossa cultura, sejamos ou não crentes. Seria interessante ter aqui Jesus.

Achas que o reconhecias? Se ele te dissesse “Eu sou o filho de Deus”, tu reconhecias ou acharias que era um ator?
Não, provavelmente chamava o 115 para o internar.

Mas se o tivesses aqui, que pergunta é que lhe farias ou que gesto é que gostarias de ver.
Bom, não lhe ia perguntar de certeza se Deus existe. Seria uma pergunta que eu nunca faria a Jesus Cristo. De certeza.

É de bom tom.
É de bom tom não perguntar pela família. “O paizinho está bom?” Não. Perguntava-lhe o que é que é o Espírito Santo, que é uma coisa que eu nunca percebi muito bem e acho que ninguém percebe.

Acho que ninguém percebe. Muitas vezes há aquela metáfora: tu não vês o vento, mas sentes o vento. Não vês o vento mas tens umas árvores tombadas todas para a direita e percebes que há ali um impacto, há um efeito. Mas não sou eu que vou fazer aqui uma catequese.
Mas vais dar-me umas explicações sobre isso porque eu nunca percebi muito bem. Mas Jesus é um personagem — personagem não, que ele existiu mesmo — fascinante. Aquela ideia de naquela altura os homens serem todos irmãos é uma ideia altamente revolucionária.

Só para acabar, de que é que tens mais medo?
Daquelas coisas de que todas as pessoas têm.

De envelhecer?
Não é bem de envelhecer, é de envelhecer mal, é de me acontecer qualquer coisa, aqueles medos que as pessoas têm de ficarem incapacitadas, por exemplo. São fantasmas que nós temos e que têm a ver com a maneira como nós percecionamos a vida e como vemos algumas experiências. E quando vemos essas experiências temos imenso medo que nos aconteçam. Mas mais importante do que o medo é a coragem de continuar e de não estar a pensar no que vem a seguir porque não vale a pena. Nesse tipo de coisas não vale a pena.

E sobretudo porque, conferindo a tua vida para trás, já foste corajoso para superar imensas coisas.
Sim e a vida é para ser vivida até ao fim. É uma aventura que tens que levar até ao fim. Não vale a pena estar a carpir, porque carpir não te leva a nada. Não estou a confundir isto com uma posição super otimista, não tem nada a ver com isso, acho que a vida tem coisas extremamente desagradáveis, mas é o que temos. Não temos mais nenhuma.

One shot.
Exatamente, é one shot.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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