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"São tempos muito impulsivos, há pouco sumo, entre o que é imediato e os media, que participam de forma tão compulsiva, não nos dando tempo para refletir e pensar"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

"São tempos muito impulsivos, há pouco sumo, entre o que é imediato e os media, que participam de forma tão compulsiva, não nos dando tempo para refletir e pensar"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Miguel Januário. "Veremos se as pessoas precisam de um partido ±maismenos±" /premium

Vai dar uma oficina de propaganda política no Iminente, festival que que começa esta quarta-feira. Em entrevista fala das mudanças nas cidades, da street art na era Covid e de como vive a democracia.

“O próprio sistema capitalista está numa fase avançada, o que fez com que se esgotassem as alternativas de pensamento. Isso criou uma sopa acrítica onde as pessoas acabam por andar a boiar”

As palavras podiam ser de um político, mas são de Miguel Januário, o artista responsável pelo projeto ±maismenos±, que anda a provocar-nos — e a desafiar-nos a refletir — sobre política, modelos económicos e a vida em sociedade há pelo menos 15 anos. Foi da obra de Januário que surgiram algumas das mais relevantes obras de street art em Portugal (e não só) ou intervenções como um jogo de golfe com pão no Parlamento ou o colete amarelo (a dizer jornalista) que vestiu a estátua de Fernando Pessoa em Lisboa. E também a vontade de formar um partido político, com o nome do projeto, que chegou a recolher 3,5 mil assinaturas, mas que, por agora, está parado.

Nesta fase de desconfinamento, já com a cabeça numa possível segunda vaga, o artista vai estar pelo Festival Iminente, que começa esta quarta-feira, em moldes bem diferentes do modelo apresentado por Vhils (Alexandre Farto), o cérebro do evento criado em 2016 que já é habitual. ±maismenos± assina uma oficina de propaganda política até dia 12 de setembro. Mas também vai desenhar uma peça de arte pública na cidade. É que, para Miguel Januário, este é um ano especial, mas também de grande reflexão por causa da pandemia. Foi pai, está finalmente a concluir o seu doutoramento e a preparar 2021, onde espera lançar duas intervenções expositivas. Não é que em 2020 tenha parado de intervir, ou de ter ideias, mas para já, fica à espera.

Festival Iminente realiza-se em setembro em Lisboa com formato alternativo

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Ainda assim, um período de reflexão não impede que Miguel Januário deixe de ser crítico. Principalmente quando o tema é a street art que se faz em Lisboa e no Porto, a sua cidade. “Agora existe uma espécie de campanha de limpeza estética da street art no Porto. Há uma equipa que faz limpezas diárias e que escolhe aquilo que fica bem à imagem que a cidade quer transmitir. Aquilo que fica mal, é apagado”, conta.

Ou seja, há sempre algo para dizer, para debater e para refletir. Mas também para preparar. É que no próximo ano há presidenciais, há governos que podem cair, outras eleições à porta. Ou seja, o artista vai ter muito com que se entreter. Só não vai andar por aí a usar a tag CAOS nos seus graffiti, como fazia quando era miúdo. Hoje é raro fazê-lo e o nível em Portugal está muito alto. Pode ser que volte a pintar quando resolver formalizar o partido e for preciso fazer outdoors. Quem sabe.

"Vemos como a opinião pública é feita de ondas, enchem-se as redes sociais e os noticiários e vai toda a gente atrás, feito rebanho. No dia a seguir já é outra coisa. É muito fácil sermos vítimas"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Que workshop é este que vai dar no Festival Iminente? Vai-se falar sobre propaganda política. Acha que as pessoas estão abertas para isso?
As inscrições estão quase completas, a adesão foi bastante boa. Até porque o tempo foi curto e o período também é estranho, pela disponibilidade e possibilidade para as pessoas o fazerem. Levaram o seu tempo a perceber o que seria o Iminente este ano. Vai ser menos presencial, só quem se inscreve é que pode vir ver o festival. É um ano especial. Quanto ao tema, acho que é interessante porque vivemos tempos ±maismenos± [ri-se]. E isso é cativante para as pessoas, pelas ferramentas que vamos ensaiar e pela forma como podemos discutir os tempos que vivemos. Todo o meu trabalho é feito com uma base conceptual muito forte e tendo uma panóplia de técnicas, são convidativas porque têm uma abordagem alargada.

A política e o “ser político” é uma parte fundamental do seu trabalho. Não andamos com pouco pensamento crítico? Esvazia-se tudo na “espuma” das redes sociais?
São tempos muito impulsivos, há pouco sumo, entre o que é imediato e os media, que participam de forma tão compulsiva, não nos dando tempo para refletir e pensar. Também vivemos tempos de grandes vazios ideológicos, de ideias e de ideais. Porque o próprio sistema capitalista está numa fase avançada, o que fez com que se esgotassem  as alternativas de pensamento. Isso criou uma sopa acrítica onde as pessoas acabam por andar a boiar. E no dia a dia, tão rápido e veloz, não há tempo nem vontade ou profundidade para se refletir. Vemos como a opinião pública é feita de ondas, enchem-se as redes sociais e os noticiários e vai toda a gente atrás, feito rebanho. No dia a seguir já é outra coisa. É muito fácil sermos vítimas disso.

Em relação à sua intervenção na rua, a pandemia privou-o de fazer essa parte do seu trabalho. Como é que foi lidar com isso?
Lidei com um nível aceitável de compreensão por aquilo que se estava a passar. Por respeito por tudo o que era novo. Confinei-me e fiquei a ver o que nos esperava. Mas depois retomei a minha atividade mais exterior, ainda que planificando algumas coisas ou até para criticar os novos tempos, em que estamos enclausurados e fechados nos próprios castelo. Os que podiam. Apesar de parecer existir alguma dificuldade em aceitar-se essa nova normalidade. Esta nova estação também nos vai dizer o que virá aí.

Acredita que os artistas também vão passar a intervir mais na política cá? Noutros países isso é muito visível.
Sim. Há muita polarização nas ideias e é necessário a tomada de posição. As pessoas estão a perceber que o facto de não ligarem à política é também isso um ato político, nem que seja pelo abandono. E há quem beneficie disso. É necessário não esquecermos que a luta é merecida e devida, procurando estar no lado certo, porque há tanta coisa errada a acontecer.

"Ruas que são privatizadas ou estações de metro. Juntando o turismo e o desaparecimento de edifícios públicos, a cidade transforma-se numa venda para os interesses pessoais de alguns."

Em 2015 o Miguel era criticado por não apresentar soluções. Respondeu que andava a pensar em algumas. Quais? O tal partido de que falou?
Essa foi uma espécie de intervenção no comboio das leituras do hoje. Aproveitar o ±maismenos± e o sentido crítico do projeto, para ter pensar o que acontece no presente, o tal vazio ideológico e o crescendo dos populismos. Percebemos que, muito facilmente, com oportunismo, é possível tirar partido desse vazio que as pessoas estão a viver. Sou sempre adepto das soluções mais humanas, pelos direitos, igualdade  e justiça. Acho que aí, naquilo que é a base da nossa sociedade ocidental, é onde conseguimos encontrar grande parte das soluções. Se formos a essa raiz mais humanista, acredito que vamos encontrá-las para os dias de hoje. Plenos de ódio, arrogância e violência latente.

Nestes últimos 15 anos teve várias intervenções na rua: foi jogar golfe com um pão para o Parlamento e vestiu um colete de jornalista ao Fernando Pessoa, só para lembrar algumas. Geram sempre reflexão e provocação. Não andamos numa altura em que as pessoas querem pouco ser provocadas? Mudou muito desde 2005, quando começou tudo?
As provocações pautam-se muito pelo respeito e isso tem crescido cada vez mais. De que temos de respeitar o próximo, termos a noção do distanciamento que tivemos durante anos em relação a minorias ou à diferença. Mas acho que as pessoas continuam preparadas e em posição de receber crítica, de discutirem.

Para se juntarem à sua “rebelião pacifista”?
Sim, acho que sim.  O que falta, em relação à provocação, são os argumentos, é ter essa base para discutir com o outro. Daí, muitas vezes, encontrar-se na ofensa um refúgio. É preciso que as pessoas se eduquem e estimulem a elas próprias, para que o debate seja saudável. Porque a provocação e a discussão são a base  do que nos move. A democracia é feita disso.

Durante a pandemia, teve alguma ideia para uma intervenção? Ou está a preparar alguma?
É um período um pouco especial porque estou a tentar concluir o meu doutoramento, que também está relacionado com o partido. E também fui pai, um pouco antes do confinamento. Fiz algumas peças, onde fui intervindo sobre a atualidade, durante ou pouco depois do confinamento. Mas ando a preparar o próximo ano mais do que este. Tenho agora as oficinas do Iminente, mas para o ano tenho duas intervenções expositivas pensadas, com algo mais preparado para o espaço público. Mas este período é de muita reflexão. Sinto que, tal como muita gente deve ter sentido, este ano é de viragem. Não só por causa do fim do doutoramento, de escrever a tese, mas também pela década e meia deste projeto. Claro que a Covid-19 e esta mudança social e política radical que estamos a viver vai fazer com que o mundo seja: a.C [antes da Covid] e d.C (depois da Covid). Por isso, este é mesmo um ponto de viragem. Estou à espera deste inverno para ver o que vem aí. Sinto que vai ser uma porta para algo novo.

"A street art tem servido como ferramenta política nesses processos de gentrificação e de transformação do espaço público, de lavagem da própria rua"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Deve ser um desafio grande para alguém que intervém em espaço exterior, estar enfiado em casa a escrever uma tese.
Sim, sim [ri-se]. Lida-se bem porque o meu trabalho foi sempre de muita reflexão, há muita pesquisa e pensamento feito em casa, por detrás de maior parte das intervenções. Mas é um momento especial, isto veio mudar o meu trabalho. Estou curioso com o que vai acontecer daqui para a frente.

Preocupa-se muito com o espaço público, e com o espaço que é para todos, mas depois é gerido de forma privada. Lisboa e Porto sofreram várias alterações com o boom do turismo, agora vão sofrer com o facto de quase não o ter durante uns tempos. Como é que olha para esse espaço? Tem sido bem tratado?
Tão depressa subiu o turismo, tal como a curva da crise, que também vai ser acentuada para baixo. Estamos a sofrer processos contínuos de gentrificação, que estão a abalar as principais cidades do país. São processos mercantis, de perda do direito ao espaço público, porque as populações estão a ser afastadas do centro e de poder usufruir dele. Algo que é natural, porque aconteceu em várias cidades europeias.

E algumas cidades voltaram atrás.
Sim, como Berlim. São transformações muito rápidas, brutais e desumanas. Não existe esse cuidado e sensibilidade. O espaço público tem vindo a desaparecer há vários anos, também porque começamos a assistir ao poder das marcas e da publicidade nesse espaço. Não só porque o poder económico se foi apoderando do lado visual das cidades, bem como comprando esse espaço ou privatizando-o. Vemos o aparecimento dos shoppings, onde as pessoas não podem protestar ou reunir. Ruas que são privatizadas ou estações de metro. Juntando o turismo e o desaparecimento de edifícios públicos, a cidade transforma-se numa venda para os interesses pessoais de alguns.

Mas em relação ao público, acha que olha com mais indiferença para esse espaço? Fica a fotografia e pouco mais? Até através da relação com a arte que intervém nesses lugares…
Tenho um posicionamento misto, porque parte da minha tese debruça-se sobre esses mecanismos. A street art tem servido como ferramenta política nesses processos de gentrificação e de transformação do espaço público, de lavagem da própria rua. Serve, em parte, esse lado obscuro do mercado.

"Há uma equipa que faz limpezas diárias e que escolhe aquilo que fica bem à imagem que a cidade quer transmitir. Aquilo que fica mal, é apagado. A relação com a street art é mais proveitosa e capitalizada para criar a imagem de marca que Rui Moreira quer para o Porto."

Pode ser perverso, então.
Sim, ajuda a limpar a zona e a gentrificar. E não sou só eu que digo isto. Muita gente que trabalha nestas áreas discute estes temas. Por outro lado, isto é um paradoxo. Porque cria discussão que beneficia as populações e o seu pensamento crítico. Existe essa duplicidade.

Uma não vive sem a outra.
Sim. Porque tem a ver com o sistema em que vivemos. As coisas têm de andar para a frente e, por vezes, é difícil determinar em que ponto é que a coisa realmente se encontra. Mas essa relação dupla existe.

O Miguel em 2012 deu uma entrevista em que criticava ferozmente a relação de Rui Rio [o então presidente da Câmara Municipal do Porto] com a street art. Com Rui Moreira está a ser diferente?
Com Rui Rio era impensável. Era ultraconservador, não dava espaço para discussão, é uma pessoa muito cinzenta. O Rui Moreira é mais esperto, conseguiu colocar alguma cor nesse cinzento, mas com uma esperteza muito própria. Soube capitalizar e instrumentalizar a street art em benefício da sua própria imagem. A cultura no Porto mudou, não tanto pelo Rui Moreira, mas pelo Paulo Cunha e Silva, que era o vereador dessa pasta nessa altura. A postura perante a street arte mudou. Agora existe uma espécie de campanha de limpeza estética da street art. Há uma equipa que faz limpezas diárias e que escolhe aquilo que fica bem à imagem que a cidade quer transmitir. Aquilo que fica mal, é apagado. A relação com a street art é mais proveitosa e capitalizada para criar a imagem de marca que Rui Moreira quer para o Porto.

Uma cultura de gosto?
É, quase o gabinete de estética que existia no tempo da outra senhora [ri-se]. A relação é feita assim, em grande parte. Há todo um lado da street arte que é abafado. Ou porque é mais crítica, ou porque não beneficia esta imagem. A street art bonitinha fica, a que não é agradável, acaba por desaparecer. Faz-se uma espécie de curadoria da street arte na cidade.

Como é que está Portugal em relação ao graffiti? Já consegue rivalizar com outros países?
Evoluiu muito. Portugal faz parte do panorama internacional da street art. Há artistas incríveis. Cá temos esta coisa de, tendo tão poucos, a percentagem de bons artistas é muito elevada. Para 10 milhões, temos bandas incríveis, por exemplo. Temos uma série de artistas portugueses que aparecem nos livros, edições e nos sites internacionais. E que passam uma imagem ótima do que é feito cá. A Underdogs tem feito um trabalho excelente, de trazer e levar artistas. Ou a Mistaker Maker, que tem promovido artistas nacionais e também trazer artistas internacionais.

"O pessoal que continua a andar já salta muros. O graffiti está com uma qualidade incrível, neste momento"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A sua tag continua a ser CAOS?
Era CAOS quando era mais miúdo. Para muito amigos ainda sou, mas agora é raro pintar.

Mas é como andar de bicicleta ou não?
É… mas o pessoal que continua a andar já salta muros. O graffiti está com uma qualidade incrível, neste momento. Também temos nomes como o Hélio Bray ou o Palhas no Porto, pinta-se com uma qualidade incrível.

Então agora era difícil para o Miguel conseguir acompanhar.
Sim, nem era honesto da minha parte dizer que era assim tão tranquilo, porque estaria a tirar-lhes mérito.

Continua a acreditar que “o genial está no óbvio?”
O difícil é encontrar o óbvio. Foi uma pessoa com quem trabalhei que me disse isso. Vivemos os tais tempos das fake news e da inversão de valores. Hoje invadem-se países para espalhar democracia e liberdade. Fazem-se acusações, viram-se conceitos ao contrário. Temos pessoas racistas a fazer marchas a dizer que não são racistas. É um atrofio de significados. Vai ser cada vez mais difícil encontrar o óbvio. Continuo à procura.

Deduzo que, cada vez que veem uma peça sua, já não aconteça tanto dizerem que “devem ser fascistas ou anarquistas a fazer isto”…
Não tanto, não. Acontece-me agora um bocadinho com a ideia de partido, com algumas ações que fiz. No início quando criei o projeto, cheguei à conclusão que, quase como um teste de Rorschach, as pessoas projetavam os seus medos. Com o partido também tive isso, com recolhas de assinaturas, por exemplo. Muita gente não sabia o que era. Achavam que era fascista ou comunista. Tive estas leituras antagónicas. Mas as pessoas continuam a projetar muitas das suas questões, daquilo que desejam, em partidos ou em movimentos.

Se se fartar disto tudo, formaliza mesmo o partido e candidata-se?
Quem sabe. Ficámos nas 3500 assinaturas.

Nada mau.
Todas corretas, atenção. Mas, para já, o projeto deu boas leituras para o doutoramento. Vamos ver o que o futuro nos reserva, vão ser tempos politicamente muito interessantes também. Agora vamos ter as presidenciais. Isto da Covid vai trazer surpresas, veremos se vamos ter eleições antecipadas, e como é que os poderes políticos vão jogar com tudo isso. Veremos se as pessoas precisam de um partido ±maismenos±.

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