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MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

Miguel Lobo Antunes, ator pela primeira vez: "Não sou famoso, tenho é um apelido conhecido" /premium

Antigo programador e administrador cultural, é o protagonista do filme “Technoboss”. Em entrevista, fala de representação, elogia o mandato de Carrilho e diz que a Cultura é governada por palpites.

Abriu-nos a porta de casa para conversarmos durante mais de uma hora sobre o filme em que é ator principal: “Technoboss”, de João Nicolau – que se estreia esta quinta-feira em salas de todo o país. Exatamente assim: Miguel Lobo Antunes, que muitos conhecem como antigo administrador e programador da Culturgest, a instituição cultural da Caixa Geral de Depósitos, tornou-se agora ator e logo numa longa-metragem. E logo no principal papel, ao lado de Luísa Cruz e Américo Silva. Ele refere a improbabilidade da circunstância, mais ainda pela idade que tem. Faz 72 anos daqui a poucas semanas.

“Technoboss” é a história de um sexagenário à beira da reforma, diretor comercial numa pequena empresa de alarmes e sistemas de segurança. Será um musical, um melodrama, uma comédia romântica, um filme sobre o amor? Teve estreia absoluta na competição oficial do Festival de Locarno, em inícios de agosto, e passou na sessão de encerramento do festival DocLisboa, a 26 de outubro.

A conversa à volta de uma mesa numa sala-de-estar de um apartamento luminoso na zona de Benfica, em Lisboa, não poderia ficar-se por este tema. Miguel Lobo Antunes reformou-se da Culturgest em 20017, altura em que para o seu lugar entrou Mark Deputter (antigo diretor artístico do Teatro Maria Matos, em Lisboa). Teve um papel fundamental na programação artística do país durante mais de 35 anos e por isso importava também agora saber o que pensa das políticas públicas culturais e como comenta a relação dos públicos com a arte contemporânea.

Irmão do escritor António Lobo Antunes e do neurocirurgião João Lobo Antunes, é jurista de formação. Foi vice-presidente do Instituto Português do Cinema, assessor jurídico da sociedade Lisboa – Capital Europeia da Cultura 1994, passou pelo festival Europália, esteve na administração do Centro Cultural de Belém, foi diretor artístico do Festival Internacional de Música de Mafra, terminou como administrador da Culturgest e coordenador dos curadores Gil Mendo, Francisco Frazão e Delfim Sardo. Para já, podemos vê-lo no grande ecrã. Se a seguir volta a representar, é uma questão em aberto.

[trailer de “Technoboss”, de João Nicolau]

Como é que avalia o seu desempenho em “Technoboss”?
Vi o filme pela primeira vez em Locarno, mas vi sem ver. Estava tão preocupado com o que tinha feito, e era tão estranho ver-me na tela, que estava só fixado em mim e nas asneiras que fazia.

Viu muitas asneiras?
Vi e continuo a ver. Há erros de dicção, não articulo bem. Numa das cenas finais, em que canto uma canção muito bonita com a Luísa, há vários gestos mal feitos, embora a cena resulte. E naquela cena dentro do carro, em que canto o tema “Technoboss”, entro fora de ritmo, apresso a entrada do refrão. Provavelmente, as pessoas não se apercebem, mas se eu, durante a filmagem, tivesse visto o que tinha feito, teria representado de outra maneira.

Já comentou com o realizador?
Não, não vale a pena. O trabalho está feito e além disso não sei como estavam as outras “takes”. Ele escolheu aquelas para a montagem e achou que estava bem. Ele é que é o autor do filme, não sou eu. O meu filho que é músico já viu e disse-me, por exemplo, que na cena do carro de facto entro fora de ritmo, mas fica bem assim, porque significa uma precipitação da personagem. Dentro deste ponto de visto, é um erro que se torna vantagem em termos de representação.

Disse numa entrevista que nunca está muito satisfeito com o que faz. É um perfeccionista?
Não sou perfeccionista, se fosse, montava melhor os móveis do Ikea. Gosto é de fazer as coisas bem. Não estou obcecado pela perfeição, porque sei que não consigo chegar lá, mas detesto fazer mal, detesto errar.

Porque é que aceitou entrar num filme pela primeira vez depois dos 70 anos? Ser ator era uma vontade antiga?
Nem me passava pela cabeça. Isto está no grau máximo da improbabilidade. Nunca achei que tivesse jeito para cantar ou representar, não sou artista. Sei o que é ser artista, porque sou pai e irmão de artistas. Não tenho nada temperamento de artista.

Qual é o temperamento dos artistas?
É uma atividade tão arriscada, tão difícil, tão exposta, exige tanto das pessoas… Muitas vezes, no caso dos artistas-criadores, é uma espécie de compensação da sua neurose, uma forma de encontrarem o equilíbrio interior através daquela prática artística. São pessoas que têm uma necessidade especial, uma necessidade de afeto especial, e não têm outros trunfos que outras pessoas possam ter. Portanto, escrever, representar, fazer um filme, ter uma atividade criadora e exposta aos outros, muitas vezes é uma necessidade interior. É quase sempre, se não, nem a fazem bem. Nunca senti essa necessidade, não tenho esse temperamento, chamemos-lhe assim, de criador. Não precisava disso para a minha vida, nem acho que tenha dom.

"Quando aceitei, falei com o meu filho mais velho para lhe contar, e disse-lhe: 'Um tipo teve uma vida profissional em que não se saiu mal e agora, aos 70 anos, se faz uma grande porcaria, é uma chatice.' Ele respondeu: 'Quem vier falar contigo, vai sempre dizer bem, está descansado.' É verdade. Os que não gostam não dizem nada."

Afasta a hipótese de voltar a representar?
Depois disto, já não afasto hipóteses nenhumas. É tão improvável o que me aconteceu… Continua a ser improvável que se repita um convite relacionado com interpretação. É difícil haver a conjugação de circunstâncias que me levou a aceitar. São circunstâncias afetivas. Soube que o João [Nicolau] era amigo do meu filho, portanto, os amigos dos meus filhos são ótimas pessoas, por definição. Conhecia a obra dele e tinha admiração. Entendi-me com ele desde a primeira conversa e ao longo dos “castings”. Sabia que se me aventurasse aceitar fazer o filme, estaria muito amparado. Quem arriscava mais não era eu, era o João, que realizou.

Para quem o conheceu como administrador, curador, programador cultural, também é uma surpresa vê-lo num filme. Que reações lhe chegaram?
Sou conhecido dentro de um meio muito restrito, não tenho ilusões quanto a isso. Não sou nem como o meu irmão António, nem como o meu irmão João, conhecidos amplamente. Não sou famoso, tenho é um apelido conhecido, o que é diferente. E depois as pessoas conhecem a sobrinha, a Paula, na representação. Quando aceitei, falei com o meu filho mais velho para lhe contar, e disse-lhe: “Um tipo teve uma vida profissional em que não se saiu mal e agora, aos 70 anos, se faz uma grande porcaria, é uma chatice.” Ele respondeu: “Quem vier falar contigo, vai sempre dizer bem, está descansado.” É verdade. Os que não gostam não dizem nada. Aconteceu-me isso muitas vezes enquanto programador. Quando não gostava dos espetáculos, não ia dizer aos artistas que não tinha gostado. Simplesmente, não dizia nada. As pessoas subentendem que a ausência de comentário pode ser uma forma de desagrado. Pode ser, mas nem sempre é. Claro, todas as pessoas que já vieram falar comigo sobre o filme foi para me dizerem que eu estava ótimo. “Grande papel, fizeste muito bem, bestial.” As pessoas que não são íntimas e mandaram mensagens, pessoas que considero, disseram bem e fiquei contente.

O realizador terá pensado numa comédia musical, mas o filme parece um melodrama. Concorda que é um olhar triste sobre o envelhecimento?
Um artista cria um trabalho com um certo ponto de vista e é recebido pelas pessoas de uma forma muito díspar. Não interessa muito a intenção. Por isso, a análise de qualquer obra deve ser objetiva e não subjetiva. Às vezes, podemos pensar porque é que ele fez aquilo, o que é que pretendia. Não acho que seja o melhor caminho.

Acha mal aquelas perguntas que os jornalistas costumam fazer aos criadores: “O que é quis dizer com esta obra”?
Acho um pouco inútil, porque não me interessa muito o que o criador quis dizer, interessa-me muito o que é que ele diz e o que é que isso provoca em mim, como é que leio aquilo que ele diz. Na verdade, é isso que todos fazemos. Cada pessoa lê um livro, vê um filme ou vê uma pintura de maneira diferente. Tem a ver com a nossa própria história, a nossa sensibilidade, o que já vimos, as competências que temos.

Imagens de "Technoboss", filme de João Nicolau, protagonizado por Miguel Lobo Antunes

Pode ser útil ouvir o criador a dar pistas que nos permitam comparar o que ele acha da obra com aquilo que nos achámos.
E qual é a vantagem disso? O que é que ganhamos em comparar? Às vezes, pode iluminar o nosso entendimento, percebo isso. Em geral, acho que não ajuda. Mas temos curiosidade, a verdade é essa. Os jornalistas fazem a pergunta e as pessoas gostam de ouvir a resposta, por curiosidade. Não é cusquice. A curiosidade é uma coisa fundamental na pessoa humana, é um motor muito importante, é isso que nos leva à criação, à ciência, etc. Não faço um julgamento negativo. Do ponto de vista da receção da obra é que acho que, em geral, não se ganha muito com essa pergunta e essa resposta. Às vezes, oiço um artista falar e penso: “Se era isso que querias dizer com a obra, eu não vejo lá nada.”

O que não desvaloriza a obra.
Nada. Posso adorar a obra. Tem que ver com a nossa maneira de receber a obra.

No caso de “Technoboss”, algumas pessoas podem receber o filme como uma história triste sobre o envelhecimento. Concorda?
Não me parece que o personagem seja triste e a velhice, ali, é tratada em torno desse personagem. Se reparar, é um personagem galhofeiro. A Lucinda, um amor antigo, diz que ele continua o mesmo garoto de antigamente. É jocoso, capaz de apanhar uma bebedeira e divertir-se. Não acho que ele esteja mal com a sua idade, está apreensivo – isto é um olhar que tenho agora, não quando fiz o trabalho – sobre o que vai ser a vida depois da reforma. Fala frequentemente disso. Os outros metem-se com ele porque se vai reformar. Não sabemos em que é que se fundamenta essa apreensão nem que expectativa tem em relação à reforma. A solução é redentora, acaba por mudar de vida para melhor. É um personagem ensimesmado, mas tem uma leveza muito grande a tratar de assuntos profissionais, ri-se dele próprio. Não acho que seja um filme melancólico, porque não é um personagem melancólico.

É parecido com ele?
Acho que não, não levo a vida tão levemente, mas também não sou carrancudo.

Há dois anos, em vésperas de se reformar, tinha apreensão sobre como iria ser a nova fase?
Tinha uma incerteza absoluta, mas não estava inquieto, porque quis mesmo sair da Culturgest. Não foi fácil sair, o processo demorou mais do que o previsto. Não quis continuar e com a idade que tinha não dava para ir fazer outras coisas. Estava há 13 anos na Culturgest, as coisas mudaram muito e a maneira de programar e de apresentar espetáculos também. Achei que estava a fazer mal, tinha ideias, mas já não tinha a força suficiente para renovar a Culturgest. Sempre interiorizei, como o meu pai e os meus irmãos, que só nos reformávamos aos 70 e mesmo assim…

"As coisas mudam e a minha capacidade de mudança é reduzida, vai diminuindo com a idade. Na área de gestão e programação senti que estava fora do tempo, que as minhas preocupações de relação entre as obras e o público não eram as mais adequadas ao tempo atual."

Trabalhar o máximo de anos possível?
O valor é não viver à conta e ser útil, ter uma atividade para os outros. Quando deixamos de trabalhar, deixamos de ter uma atividade para os outros, ficamos mais fechados sobre nós, não temos utilidade. Não pensava nisso antes. Tinha a determinação absoluta de me reformar, não porque desejasse descansar, mas porque já estava a fazer mal o trabalho. Afligia-me que entretanto a maneira de programar e a maneira de apresentar as programações ao público tivessem mudado.

Como é agora?
Há uma maior efemeridade generalizada e uma permanente preocupação com a festa, com consumir depressa e de forma festiva. Há festas e festivais de tudo e mais alguma coisa. Generalizou-se a apresentação fora das salas comuns e a apresentação de várias coisas ao mesmo tempo. Também fizemos isso com a Festa da Música, quando estive no CCB. Hoje, é corrente. É a velocidade da vida atual e a dominância de uma atitude de consumo que resulta do próprio sistema económico em que vivemos, acelerado, com o objetivo de um consumo rápido, para que se passe à coisa seguinte.

Está subjacente a isso uma crítica.
Estou noutro tempo, o meu tempo já não é este. Eu tive a idade deles. Comecei com responsabilidades de programação, quando nem se chamava assim, depois dos 40 anos. É a idade que têm os novos programadores. O mundo mudou, forma de criar mudou, a forma de comunicar mudou. Eles hoje fazem de uma maneira que não se harmoniza comigo, mas que se harmoniza com as pessoas. Eles estão mais certos do que eu. Quando se é mais velho, é comum dizer que no nosso tempo é que era bom. Fujo a sete pés dessa reação, porque é típica de velho saudosista. As coisas mudam e a minha capacidade de mudança é reduzida, vai diminuindo com a idade. Na área de gestão e programação senti que estava fora do tempo, que as minhas preocupações de relação entre as obras e o público não eram as mais adequadas ao tempo atual.

[excerto de “Technoboss”:]

Rejeita a ideia do educador do povo, do programador como educador?
Não sei se isso existe assim, mas não estou nada de acordo com isso. O programador não é um educador, tem uma responsabilidade enorme que é dupla: em relação aos artistas, porque tem o poder relativo de dizer quem entra e quem não entra, o que é decisivo para a vida dos artistas; e tem o poder de dizer ao público que artista é que o público vê e não vê. A minha maneira de lidar com esse problema era, em qualquer instituição por onde passei, pensar qual era o objetivo, qual a missão do equipamento. Para mim, o passado da instituição é muito importante, aquilo que ela já foi antes de eu lá chegar. Tentava que houvesse uma harmonia entre o que é apresentado e aquilo que eu achava que era o papel da instituição na vida cultural. Claro, tentava apresentar coisas de qualidade, mas é indefinível o que seja a qualidade. Por outro lado, tentava facilitar a receção do público. Dava muita importância às folhas de sala, que distribuíamos ao público. Quer ao conteúdo quer ao aspeto gráfico. Nem sempre eram boas folhas de sala, sobretudo no que dizia respeito à dança, porque os artistas da dança têm dificuldade em falar da dança.

Ou porque alguns trabalhos são vazios.
Não acho que seja isso. A dança manifesta-se através de uma atividade corporal e dificilmente tem uma narrativa, é uma manifestação artística muito abstrata. Às vezes, os criadores tentam explicar de forma concreta, mas não é possível. Refleti muito sobre isso. Há dificuldade em explicar a criação às pessoas, usa-se um jargão. Não conseguia adaptar-me a isso. Acabam por se refugir num jargão inteligível para um círculo restrito, como todo o jargão, mas o público em geral não percebe. Essa dificuldade de falar sobre o que se cria, não quer dizer que a obra não seja riquíssima. A linguagem da dança não é a palavra, mas sem palavra temos dificuldade em pensar.

Como é que isso se ultrapassa?
Há uma fórmula que já vi dar resultados: os criadores respondem a perguntas de alguém, o que os ajuda a verbalizar, para se conseguir pôr por escrito que trabalho é aquele. Mas, atenção, porque há coisas que são indizíveis, não tenhamos ilusões. E não posso ir ver dança à espera de saber, antes, aquilo que vou ver, a não ser que já conheça alguma coisa daquele coreógrafo. De resto, é uma aventura, a vida é uma aventura.

"Não gosto de telenovelas, mas ainda bem que existem. Simplesmente, não me interessam. E também não quero que todas as pessoas tenham de gostar de Mozart. Há muita gente instruída, sensível, amorosa e fantástica que não gosta de Mozart. Qual é o mal?"

E quando o espectador vê e não entende? O problema está na obra ou na nossa incapacidade de a ler?
Isso faz parte da obra de arte. Umas pessoas aceitam, outras não aceitam. Felizmente, não há unanimidade. Detesto quando todos têm a mesma opinião, é horrível. Do meu ponto de vista, o discurso económico ficou fixo a certa altura e depois introduziu-se na política, na saúde, no ensino, na cultura. Os critérios todos de valoração vinham da economia e de uma maneira de ver o funcionamento da economia. É abafante. O pensamento único, é abafante, próprio das ditaduras. Não me faz impressão que haja espetáculos que algumas pessoas detestam, de que não percebem nada, e espetáculos que algumas pessoas adoram. É normal. Porque é que há mais pessoas que gostam de telenovelas do que de um filme de Truffaut? Porque há uma coisa a que o Bourdieu chamava capital cultural: as competências, o conhecimento, a vida, as expectativas, aquilo que permite a algumas pessoas estarem mais abertas a criações artísticas mais complexas e não óbvias. Sempre foi assim e continuará a ser.

Mas isso não faz das novelas objetos menores ou faz?
Há muito essa atitude, que não tenho, entre as chamadas pessoas cultivadas. Há quem ache que a obra de arte se impõe por si própria e quem não tem esse mesmo gosto é burro, pobre de espírito, não leu o suficiente, é insensível. Temos tendência a achar que temos uma certa superioridade moral em relação aos outros, por termos um gosto mais sofisticado. É completamente errado. Não gosto de telenovelas, mas ainda bem que existem. Simplesmente, não me interessam. E também não quero que todas as pessoas tenham de gostar de Mozart. Há muita gente instruída, sensível, amorosa e fantástica que não gosta de Mozart. Qual é o mal? O mal é achar-se, e vi isso às vezes neste meio onde andei, que se é superior aos outros porque se gosta de uma coisa de que os outros não conseguem gostar. Pode não ser consciente, mas esse pensamento surge no discurso ou na atitude. Acho errado. Não há nenhuma superioridade moral, cada um tem o seu gosto. A sua pergunta surge muitas vezes. Na minha interpretação, o que costuma estar por detrás dela é achar-se que é dinheiro mal gasto financiar as artes, quando quem beneficia disso é um grupo restrito e quando é o Estado a financiar – e costuma ser, porque estas coisas não dão lucro – e quando há pessoas que recusam e se sentem mal com certas obras.

Como é que responde?
Acha-se que o dinheiro só é bem gasto quando for gasto em coisas que muita gente aceita. É uma visão distorcida do que é a criação artística. Se não houvesse artistas que vão à frente e que produzem objetos que muitas pessoas não entendem, não havia nenhuma evolução na criação e continuaríamos na Idade Média. Se houve evolução, foi porque houve quebras permanentes, sempre financiadas pelo Estado ou pelos grandes senhores. Bach era um assalariado, Mozart também, só com o Romantismo é que deixou de ser exatamente assim. De outra forma, muitos deles não teriam conseguido trabalhar.

"Se fosse governante, primeiro faria um estudo sério. Infelizmente, acontece mais na área da cultura do que nas outras: não há estudos"

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

Num país com desequilíbrios fortes, não é normal que os contribuintes questionem mais dinheiro público para artes e cultura?
Para já, não sei se isso é questionado. E que seja? Podemos dizer que não deve haver televisão pública, ou segundo canal da RTP, e que deve ser tudo telenovelas. Eu acho que não. A diversidade é essencial na vida social, a criatividade faz parte da natureza humana e apreciar a criatividade também. Os estádios estão cheios quando há certos concertos de certo tipo de músicos com espetáculos brilhantes e vistosos. As pessoas aderem porque aquilo as entretém e é divertido. As pessoas têm de ter formas de se divertir, porque de facto a vida é dura. Tem de haver espetáculos daquele género e programas de televisão que aliviem. O meu ponto é: isto não é uma regra absoluta, tem de haver diversidade. Acho que os criadores trazem coisas novas e muito enriquecedoras, que vão entrando a pouco e pouco. Isso funciona no próprio corpo social.

A arte transforma a sociedade?
Sim, mas não é esse o seu objetivo. Muitas vezes, e estamos outra vez a falar do financiamento público, tornou-se hábito justificar esse financiamento pela utilidade social e económica da arte. Ou seja, fala-se na repercussão económica das artes. É o problema do domínio do discurso económico. A arte justifica-se a si própria e por acaso também tem consequências sociais, algumas muito úteis. Posso utilizar espetáculos para ajudar a integrar pessoas socialmente, não há mal nenhum, mas isso não pode ser condicionante. Não tem de ser em todos os espetáculos, não é esse o objetivo da arte.

Mas um Governo pode dizer simplesmente que o dinheiro dos contribuintes vai para determinada área porque essa área se justifica a si mesma?
A explicação que deve ser dada aos eleitores não tem é de passar por uma visão necessariamente economicista. Não é uma questão de custo-benefício, há outras formas de olhar. Hoje domina uma visão economicista sobre uma coisa que é do domínio do invisível. A criação artística é a coisa mais difícil de explicar e de justificar do ponto de vista económico.

Acha fundamental termos 1% do Orçamento do Estado para a cultura, como muitas pessoas reivindicam?
O Estado deve investir na cultura e a questão é quanto. Do dinheiro que o Estado dispõe, que parte deve ir para a cultura? O 1% é uma bandeira que não sei onde começou, penso que foi em França. Não conheço nenhum estudo, nenhuma reflexão empiricamente fundamentada, que diga quanto dinheiro é preciso. Porquê 1%? Não faço ideia. Que eu saiba, não há quem saiba quanto é que o Estado gasta em Cultura ao longo dos anos. Há dados sobre o orçamento do Ministério da Cultura ou da Secretaria de Estado da Cultura, mas não da execução. Além disso, a dimensão do organismo que tutela a cultura tem mudado. Por vezes, faz parte da presidência do Conselho de Ministros e aí tem de se analisar o orçamento próprio de outra forma. E há também a contribuição dos municípios para a cultura, que aumentou muito nos últimos anos. Também é dinheiro dos contribuintes.

"Na Cultura, só se diz generalidades, dizem todos a mesma coisa, acentuando aspetos diferentes. No fundo, nunca há um discurso coerente que mostre que se sabe o que se quer fazer. A exceção foi Manuel Maria Carrilho, foi a única pessoa que conheci que era muito determinada e sabia o que queria fazer na área."

O 1% é uma ilusão?
Não, é uma bandeira política que merece reflexão. Está por provar. Se fosse governante, primeiro faria um estudo sério. Infelizmente, acontece mais na área da cultura do que nas outras: não há estudos. Às vezes, não existem por pura insensibilidade. Um antigo secretário de Estado disse-me há não muito tempo que quando lá chegou não havia nada de nada a nível de estudos da cultura.

Por outro lado, ouve-se dizer que os ministros da Cultura são pessoas sem poder dentro dos Governos e que só gerem tostões. O que é que pensa?
Eles é que saberão. A pergunta que faço é: porque é que é tão difícil acertar-se num ministro da Cultura? Uma vez escrevi um texto sobre isso, mas não tenho grande resposta. Em parte, porque não há conhecimento da realidade, é tudo feito por palpites e tentam acomodar-se aos grupos de interesse, que existem nesta área como em qualquer outra. Nos outros ministérios é mais fácil dar uma orientação política, porque há conhecimento empírico. Na Cultura, só se diz generalidades, dizem todos a mesma coisa, acentuando aspetos diferentes. No fundo, nunca há um discurso coerente que mostre que se sabe o que se quer fazer. A exceção foi Manuel Maria Carrilho, foi a única pessoa que conheci que era muito determinada e sabia o que queria fazer na área.

É melhor um Ministério da Cultura ou apenas uma Secretaria de Estado?
O ministério tem mais força, quer em Conselho de Ministros, quer junto do ministro das Finanças e junto do primeiro-ministro. Estar no Conselho de Ministros dá uma força que uma secretaria de Estado não tem.

Que expectativas tem sobre a continuação da ministra Graça Fonseca à frente da Cultura?
Digo-lhe que votei Partido Socialista e acho que António Costa é um excelente primeiro-ministro. Não tenho uma visão negativa deste governo e da sua política. Não concordo com tudo, não foi tudo muito bom, mas isso não existe na atividade humana. Tenho confiança naquilo se passará nos próximos anos, mas não faço ideia se vai resultar. Em relação à ministra, não tenho dados suficientes para analisar. Não quero falar por “achismo”. Há hoje uma grande superficialidade de análise. Posso ser superficial na conversa com um amigo, mas não alinho nisso quando falo para a comunicação social.

O programa do novo Governo estabelece o aumento da idade mínima para se assistir a touradas. Acha que a tauromaquia é uma atividade cultural?
Só fui uma vez a uma tourada, mas antigamente gostava de ver na televisão, talvez por influência do meu pai. Qual deve ser a área de atuação do Ministério da Cultura, é uma grande discussão, sendo que o conceito de cultura é muito complexo. Num sentido amplo de cultura, incluo uma manifestação que tem um enraizamento popular. Há uma relação muito antiga, ancestral, com o touro e com o matar do touro. Isso foi-se transformando num espetáculo que as pessoas gostam de ver. Se eu entender que tudo o que são espetáculos é do âmbito do Ministério da Cultura, não vejo por que razão a tauromaquia não deva ser.

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