O Observador seguiu o ministro Miguel Poiares Maduro pelo centro do país durante o último de cinco Roteiros de Baixa Densidade. O ministro quis ver o que foi feito com dinheiro da Europa, antes de começar as atribuições do próximo quadro comunitário. São mais de 25 mil milhões de euros, ou como diz Durão Barroso “uma pipa de massa”, para financiar a economia. Estas foram as histórias que lhe contaram.

Constantino matou uma mulher. “Aconteceu-me um azar na vida”, disse já sozinho na terra que guardou até ao fim dos dias. A aldeia de Cerdeira foi o mundo e o fim dele para Constantino. Viveu e guardou Cerdeira. E matou. Matou pela terra e pela água, em tempos do século passado, numa história recordada dezenas de anos depois, numa aldeia de xisto remodelada.

Constantino e a mulher que matou eram da mesma família, frutos da consanguinidade de uma terra isolada, a que se chega por caminhos aos ziguezagues, antes de terra, agora de alcatrão. Eram dos últimos sobreviventes de uma aldeia encafuada na serra da Lousã. Três passaram a dois, numa aldeia que agora tem cinco a tempo inteiro.

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“Aconteceu-me um azar na vida”. O “azar” levou-o à prisão e quando voltou já só lá estava ele. O “azar” ficou como bilhete de identidade. Foi o único habitante de Cerdeira durante anos. Ninguém o descreve como alguém que mata alguém: era quem “guardava as casas” daqueles que fugiram para Lisboa, a maioria na década de 40 para o bairro de Alfama. Constantino era quem tinha ficado “ligado à terra” e pela terra e pela água matou. 

Kerstin diz que entendeu o “azar”: “Não era um assassino”, conta. Foi, mas não era. Era o homem que lhe passou a chave de guardiã da Cerdeira, já lá vão 26 anos.

Chavão lançado: há histórias de vida que dariam filmes. Há mesmo. A de Constantino deu.

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A de Kerstin Thomas poderá dar. A alemã estudou em Coimbra e foi parar a Cerdeira e lá ficou. É artista plástica e dinamizou residências artísticas na aldeia. Tem casas para turismo, mas quer sobretudo atrair pessoas pelo dinamismo artístico no meio da serra. Foi esse o projeto que candidatou a fundos europeus e que foi o mote da visita do ministro Miguel Poiares Maduro – uma comparticipação de 35 mil euros para a “Casa das artes”, ao abrigo do ECOARQ. Antes, o ministro tinha inaugurado o Wellcome Center das 27 Aldeias de Xisto, também com o apoio de dinheiros do antigo Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), pelo FEDER.

A alemã, que dinamizou a aldeia de Cerdeira, é a líder da espécie de condomínio que escolhe quem compra casa por lá. “Estava a pensar se um dia quisesse comprar aqui uma casa, mas se calhar eles vetam membros do Governo”, gracejou o ministro. Não lhe foi dito nem que sim nem que não, mas foi-lhe deixada boa sorte para o futuro: “We shall overcome”, o nome da peça que recebeu das mãos da artista plástica. “Isto é uma peça apropriada para pôr no Conselho de Ministros”, disse. Riram-se.

É que os tempos no Conselho de Ministros não estão fáceis. Enquanto o ministro calcorreava as serras da Lousã e da Estrela, grande parte do tempo sem rede de telemóvel, de Lisboa chegavam notícias difíceis: primeiro a escolha de Carlos Moedas para comissário europeu, depois a derrocada final do BES. Era o único ministro na rua e as televisões apareciam para lhe fazer a mesma pergunta: “E o BES?”.

As informações tinham chegado via telefone, enquanto ia de um sítio ao outro, chegou a pedir ao motorista para encostar o carro à saída de Manteigas e ficar sozinho no carro, sem motorista nem segurança, a falar ao telefone. Mas em público, não foi para águas sem pé e ficou pelo politicamente correto. Elogiou Moedas e do BES repetiu por todas as vezes que não era a sua área de atuação e como tal, não comentava. Queria falar dos territórios de baixa densidade, do roteiro que andava a fazer pelo centro e dos quatro que já fez.

O Conselho de Ministros só foi até ele quando em Linhares da Beira encontrou o braço direito do vice-primeiro-ministro Paulo Portas, por acaso. E só registou a queixa em registo de piada: a capela em frente à casa do adjunto de Portas chama-se “Capela de Nossa Senhora da Conceição”. E na placa está escrito: “Capela Sr dos Passos”.

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Mas o revés do BES tem também implicações no roteiro do ministro: é que o banco era dos principais financiadores das pequenas e médias empresas que o Governo quer dinamizar com o próximo quadro comunitário de apoio. A Agenda 2020 disponibiliza para Portugal mais de 25 mil milhões de euros, a “pipa de massa” a que se referiu o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, na véspera do roteiro do ministro Poiares Maduro.

Desta vez, o ministro responsável pela gestão do dinheiro europeu quer que tudo seja diferente. E foi isso que começou por dizer na Lousã. em frente aos dinamizadores das aldeias de Xisto, que repetiu ao jantar e nos dias seguintes, na Covilhã ou em Manteigas. “O objetivo é favorecer territórios de baixa densidade na priorização aos projetos e também nas taxas de comparticipação. Não podemos aceitar um país a duas velocidades”. Recado dado. Mas para que serve? Foi isso que quis ir ver.

 

Pelo Burel, com história

Isabel e João Costa queriam ter uma vida descansada, mas em vez disso meteram-se num cabo dos trabalhos, ou dos negócios. Aos 50 anos de João, decidiram ir viver para a Serra e abriram um hotel em Manteigas. Depois do hotel, seguiu-se a Burel Factory. A lã tradicional ganhou cor e outras aplicações: é agora (também) revestimento de parede e a aplicação na arquitetura já lhes vale metade do negócio de família.

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As máquinas estão paradas ao fim de semana. Imagina-se o barulho que farão os teares centenários, que levam dias a ficar prontos com o desenho escolhido para os tecidos. Os milhares de fios são postos um por um por mãos hábeis e habituadas a fazê-lo. A geração mais velha da antiga fábrica falida foi resgatada para ensinar aos mais novos, na fábrica recuperada. E se os teares não serão substituídos, os mais velhos um dia darão lugar a outros. Até porque, mais que o burel, este casal quer vender a história. Quer vender uma história.

E a história faz-se na Serra da Estrela, nas paredes do hotel ou na fábrica recuperada. São aquilo que o ministro classificou de “exemplo de inovação com base nos produtos tradicionais. Deve ser a grande aposta em termos de competitividade. Coisas que podiam estar perdidas, mas que afinal podem trazer valor acrescentado”. Disse o mesmo quando provou iogurtes de leite de ovelha – de uma empresa que começou agora a vender na zona da Serra e que chegou a Lisboa esta segunda-feira a uma loja no Chiado. E disse o mesmo, quando inaugurou a Rota dos pastéis de Vouzela.

 

Segredos que não queremos saber, mas provar

“Eu queria aprender, mas não me queria ensinar”, tem ar de quem foi menina traquina. Teresinha Castanheira tem 95 anos, mas as mãos como tinha aos trinta. É uma das últimas mestres dos pastéis de Vouzela e a que espalhou o segredo guardado de geração em geração aos filhos e netos. Mas não o revelou ao ministro.

“Diga lá qual é o segredo. Já percebemos que é das mãos”, insistia Miguel Poiares Maduro. Teresinha ria-se, escondida atrás do carrapito de quem apanha o cabelo antes de amassar e de deixar a massa bem fininha, para não serem confundidos com os pastéis de Tentúgal. “não me queriam ensinar”, diz a rir. “Agora faz o mesmo connosco. Ahh é das mãos. O segundo segredo é não ensinar como se faz”.

Não ensinou. Custou muito até que a ensinassem e no mistério (e na história) reside a áurea dos pastéis. Foi o irmão que trabalhava no registo civil que, por troca de favores com Nazaré Cabreira – a portadora do segredo quando Teresa era moça nova -, conseguiu que ela ensinasse a irmã. “Ele fez lá um trabalho e ela queria pagar e ele não quis. E ela disse no fim que se ele quisesse para levar lá a senhora dele que ela ensinava. E ele disse: ‘Trago a minha irmã’. E eu fui”. E foi ver uma vez. Se aprendeu, aprendeu, se não aprendeu, aprendesse. Foi para casa treinar e só depois aprendeu o recheio. No fim a ensaboadela: “Promete-me que depois não vai ensinar a ninguém”. Já ensinou aos filhos e aos netos. “Daqui para a frente já não há segredo”, diz o ministro – “Ai há, há”.

A rota dos pastéis de Vouzela é apenas um dos projetos no concelho de Vouzela. Por lá, o ministro fez mais duas inaugurações e uma visita: inaugurou o Espaço do Cidadão e o Aubergue de Montanha (financiado pelo PRODER) e ainda visitou uma fábrica de metais que fatura cerca de 28 milhões de euros por ano e que teve apoio do programa Mais Centro através do Sistema de Incentivos. Pipa de massa.

 

Dentro do carro do ministro

Não há segredos. Ou pelo menos não houve. Nos bancos da frente o motorista e o segurança. Óculos e óculos de sol que vai trocando, um telefone e um iPad. Mails enviados, mensagens recebidas, mas a rede ajudou a que estes ficassem em silêncio mais tempo do que seria de esperar. Um cachecol de Portugal embrulhado no descanso do braço – “Ofereceram-me num dos roteiros e desde então ando sempre com ele. Às vezes serve de apoio quando descanso”, diz – e pouco mais. Mas a avaliar pelos comentários, são poucas as vezes que isso acontece.

“O ministro anda sempre com esta pedalada?”, perguntava o presidente da Câmara de Pampilhosa da Serra. Poiares Maduro não fez uma visita de médico à praia fluvial da terra, fez uma visita de ministro, com passo apressado. Não queria chegar atrasado na agenda apertada que foi traçada pela presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro, Ana Abrunhosa.

No segundo dia de roteiro, fez uma visita pelas maravilhas da serra, de Pampilhosa da Serra ao Fundão, até Belmonte. Na mira dos projetos apoiados por fundos comunitários, quer das Aldeias de Xisto quer das Aldeias Históricas, está sobretudo o turismo.

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Desertificação, não

A narrativa está traçada: há mais 37% de fundos para programas regionais e o objetivo é dar incentivos ao investimento onde a população está a desaparecer. Mas o argumento não é o da desertificação: “Mais preocupante do que a perda de população é termos uma população envelhecida. Podemos não ter um aumento populacional grande, voltar ao que era, mas é preciso ter capacidade de atrair população jovem, para ter comunidades vivas”, disse depois de estar cerca de uma hora numa reunião com empresários e académicos numa reunião na PARKURBIS, na Covilhã.

Ao longo dos três dias, o ministro sintetiza ao Observador as queixas à aplicação dos fundos: “Complexidade e burocracia”. E garantiu aos empresários, olhos nos olhos, que iria reduzir as duas porque “se forem muito burocráticos, favorece as grandes empresas e retira às pequenas”. Foi a única promessa que fez.

Depois de dias a ouvir autarcas – e de não lhes poupar uma piada – o ministro faz um balanço positivo: “Há presidentes de câmara muito bons. Que percebem que este quadro é muito diferente. Acho que é preferível dizer que não se pode prometer. Eles querem ser relevantes e para isso têm de redefinir para os projetos imateriais. Já não é a obra física, isso não quer dizer que não se faça obra física”, diz. Isso não o poupou de ouvir vários pedidos de autarcas para novas estradas, por exemplo.

Estes são os bons exemplos. E os maus? Também os há e muitos. O Governo insiste que  uma grande parte dos fundos europeus não produziu o retorno esperado e que agora, é preciso fixar a bitola nos resultados. O novo quadro, que será lançado ainda este ano – o ministro espera lançar avisos lá para outubro e atribuir financiamentos até ao final do ano – escolherá projetos pelos resultados. A matriz para os avaliar ainda está a ser delineada.

O ministro que andou em campanha pelo país desde maio, diz que este “não é um estágio” para uma campanha futura. Diz ao Observador que a maioria dos políticos estão habituados a não ir ao terreno e que tutelar as câmaras municipais lhe mostrou uma diferença: “São mais práticos. E têm mais vontade de fazer consensos.”

Andou em câmaras PSD, mas também pelo PS. Prognósticos? À entrada num restaurante no Sabugal perguntou: “A entrada é para a esquerda ou para a direita?” – “É sempre melhor ir para a direita”, responde o adjunto. Riu-se: “Eu prefiro ir ao centro”. Entrou pela porta da direita.

 

Nota: A jornalista viajou a convite do Ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional. Agradecimentos aos hotéis Villa Pampilhosa Hotel e Casa das Penhas Douradas Design Hotel&SPA