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Mindy e Andrea, ou duas formas de ver Donald Trump numa só rua de Baltimore

Mindy é republicana, mas esconde-o dos clientes, quase todos democratas. Tem fé em Trump e na sua solução para a economia. Na mesma rua, Andrea, imigrante ilegal de 14 anos, prefere ter fé em Deus.

Reportagem em Baltimore, Maryland (EUA)

“Podemos falar de política, sim, mas tem de ser de porta fechada e sem clientes por perto.” São essas as condições que Mindy Alezra, 59 anos, impõe para dar a sua opinião sobre a tomada de posse de Donald Trump, agendada para a manhã desta sexta-feira em Washington D.C.. Não é na capital norte-americana que estamos, mas antes de Baltimore, uma das maiores cidades na vizinhança da capital dos EUA e uma das mais pobres do país. Entre o café de Mindy, o Van Gough Cafe e o Capitólio de Washington D.C., não chegam a estar 70 quilómetros.

Mindy não votou em Donald Trump, mas se tivesse podido votar, era à frente do nome do candidato republicano que teria colocado a sua cruzinha. Porém, a morte do marido, que coincidiu com a altura das eleições, desviou-a de qualquer pensamento político. Agora, explica, é o medo que a afasta de ir até Washington D.C. para assistir à tomada de posse de Donald Trump e festejá-la. Medo de quê?

“Primeiro, porque vai haver manifestações e contra-manifestações por todo o lado, há promessas de agressões de parte a parte e eu não quero fazer parte disso de maneira nenhuma”, diz. E, depois, porque tem um negócio para gerir e clientes para manter. Não é que um dia fora da loja lhe prejudicasse tanto assim as contas ao final do mês. O problema de Mindy, explica ao Observador, é outro: “Se por alguma razão se sabe aqui no bairro que eu sou republicana ou que apoio o Trump, então as pessoas deixam de de vir cá.”

Uma republicana a fingir que é democrata na terra deles

Em todo o país, é difícil encontrar mais do que mão cheia de cidades onde o Partido Democrata tem tanto apoio como em Baltimore. Nas eleições presidenciais, Donald Trump conseguiu apenas 10,9% dos votos no condado de Baltimore, ao passo que Hillary Clinton chegou aos 85,4%.

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O maior receio de Mindy é que o seu café, do qual é dona há cerca de oito anos e que serve sobretudo clientes brancos da classe média-alta e com educação superior. “Muitos deles são democratas, dá logo para perceber”, diz ao Observador, ao qual fala apenas por ser um jornal português e que, por isso mesmo, muito dificilmente seria lido pelos seus clientes. Quando algum deles entra e começa a falar de política, Mindy diz que entra no “jogo deles” e acaba por condescender e dar-lhes razão. “Você ouviu o que aquele homem disse agora?!”, perguntam-lhe, referindo-se sempre às mais recentes tiradas de Donald Trump que, para já, ainda impressionam alguns setores da opinião pública norte-americana. “Pois é, pois é, é incrível”, Mindy responde-lhes, enquanto despacha os seus pedidos.

MIndy é republicana, mas esconde as suas opiniões da maior parte dos clientes, que são tendencialmente democratas

“Tem de ser, tem de ser assim”, diz. “Com este clima político, não me posso dar ao luxo de dizer aquilo que verdadeiramente penso.” Para explicar que não é um exagero, recorre ao exemplo da empresa que lhe fornece diariamente os bagels, também ela de Baltimore, a Goldberg’s. O negócio começou a correr mal para o dono, Stanley Drebin, quando apoiantes de Donald Trump decidiram estacionar uma carrinha em frente à sua loja e a partir dali apelaram ao voto no candidato republicano, ao mesmo tempo que usavam uma máscara com a cara dele. Sempre que passavam clientes, aproximavam-se deles e gritavam por Donald Trump.

O empresário, que também apoiou o candidato republicano, nada fez para tirá-los de lá. Como resultado, os clientes começaram a fazer um boicote aos seus bagels. “Neste momento, as vendas dele estão 15% abaixo do normal”, assegura Mindy. E os boicotes a empresas cujos donos apoiaram, de uma forma ou outra, Donald Trump, não ficam por aqui. Entre vários exemplos estão os ténis da New Balance, a cerveja Yuengling, a marca de roupa L.L. Bean ou a WWE, a maior organização de wrestling do mundo.

"Se por alguma razão se sabe aqui no bairro que eu sou republicana ou que apoio o Trump, então as pessoas deixam de de vir cá."
Mindy Alezra, 59 anos, dona de um café em Baltimore

“Eu não quero cair no mesmo erro deles”, diz Mindy. No seu café, não há nenhum sinal que denuncie a sua opinião política, graças a uma decoração neutra e da qual só um espírito muito inquisitório poderia retirar um segundo pensamento. Isto, exceto um pormenor: o único jornal disponível para leitura no Van Gough Cafe é o Washington Times, uma publicação assumidamente conservadora e favorável ao Partido Republicano. “Pois é!”, diz Mindy, quando lhe apontamos esse detalhe, o que a leva a bater com a mão na própria testa. “Provavelmente estou a dar um tiro no pé ao ter esse jornal aqui.”

Donald Trump nunca foi a primeira hipótese de Mindy. Antes pelo contrário: “Nas primárias do Partido Republicano, ele foi a minha última escolha, sempre”. Mas, com o avançar do tempo, começou a dar-lhe mais ouvidos e a levá-lo mais a sério. O que a move, garante, é a economia. “O Obama está sempre a dizer que a economia melhorou, que está tudo uma maravilha, mas é mentira”, diz. Mindy, que além de ler o Washington Times é espetadora assídua da Fox News, queixa-se do desemprego. “Há 90 milhões de desempregados no país”, diz, referindo um número recorrentemente usado pela oposição a Barack Obama. Na verdade, é uma conta errada, já que engloba 40 milhões de pessoas em idade de reforma, 21 milhões que estão na universidade e nove milhões de jovens de 16 e 17 anos. Ainda assim, é um facto que a taxa de participação laboral (aqueles que ou têm emprego ou procuram ativamente um emprego) está no número mais baixo desde o final dos anos 1970.

“Se as pessoas não tiverem empregos, então não bebem café”, resume. Ou seja, o seu negócio definha.

Agora, com Donald Trump, acredita que as coisas podem tomar um novo rumo. Uma das medidas que saúda é a aplicação de uma tarifa de 35% aos produtos das empresas que decidirem levar as suas fábricas dos EUA para o estrangeiro ou um imposto de 45% sobre as importações chinesa. “Para mim, isso faz tudo sentido”, assegura. Porém, reconhece que os números “podem ser um bocadinho disparatados”. Mas também isso faz parte, garante. “O Donald Trump explica isso no livro dele, o The Art of the Deal“, garante. “Eu não li, mas conheço quem tenha lido. E ele lá diz que, quando se negoceia, é preciso começar por cima, pedir um valor estapafúrdio. E depois logo se arranja algo pelo meio.”

Terá, pois, de haver concessões de parte a parte. “A vida de um político é assim”, reconhece. “Sabemos que o poder corrompe, sabemos que eles vão sempre prometer algumas coisas que não vão cumprir.” Seja como for, há uma promessa onde Mindy não admite recuos nem meias-conquistas: “Nós temos mesmo de construir aquele muro”. Ou seja, aquele que Donald Trump prometeu construir ao longo da fronteira com o México e que tem como principal objetivo impedir a entrada de imigrantes da América do Sul e e da América Central nos EUA.

“Lamento muito, mas isto tem de ser feito”, assegura Mindy. “Os imigrantes vêm para cá viver à conta do nosso Estado, abusam de direitos que os americanos não têm e por cima disso tudo roubam os empregos a quem já cá estava antes. Isto não pode continuar assim.”

Ilegal aos 14 anos: o futuro “logo se vê”

A apenas 100 metros mais abaixo na rua, Andrea Moreno, de 14 anos, estuda numa das mesas do restaurante dos pais. Aqui, demonstram-se dois tipos de orgulho. Um é de carácter nacional: logo à entrada, é impossível não reparar na bandeira das Honduras. O outro é de carácter religioso. Isso pode ser visto logo pelo nome do restaurante: La Estrella De Jehova Jireh. E, claro, pela música que sai de forma estrondosa das colunas que enchem a sala ampla. Num desses registos, o cantor dá-se à empreitada de vestir a pele de Deus e canta assim: “Eu sou o poderoso! Tu não estás sozinho!”. Em espanhol, claro.

Andrea veio para Baltimore pela primeira vez com seis anos, mas só aos nove é que chegou para ficar. Nessa altura, não sabia falar inglês. Hoje, apenas cinco anos depois, estuda na McDonogh School, um colégio privado de Baltimore, graças a uma bolsa de estudo total — o facto de ter tido nota máxima em todas as disciplinas do 5º ao 8º ano ajudou. O facto de ter de se adaptar a uma nova escola não atrapalhou em nada as suas notas, que até agora se mantiveram na fasquia que já tinha mantido. No meio disto tudo, ajuda no restaurante dos pais como pode. Quando acabar o liceu, quer ir para a universidade. Qual curso? “Isso logo se vê.”

“Isso logo se vê”, sim, mas não apenas pelas razões próprias da sua idade e das suas indefinições. É que ninguém na família de Andrea, incluindo ela própria, tem documentos para viver nos EUA. Em suma, fazem parte dos 12 milhões de “imigrantes ilegais” que Donald Trump prometeu deportar do país.

"Acho que as coisas têm corrido bem entre os alunos, sem haver insultos ou cenas racistas, porque dias antes das eleições os alunos foram todos chamados para uma assembleia. O diretor do colégio disse-nos que queria que todos mantivessem o respeito uns pelos outros, que as eleições deviam ser encaradas com maturidade.
Andrea Moreno, 14 anos, estudante e emigrante sem documentos

Na escola, Andrea apenas tem conhecimento de apenas um colega que é de ascendência hispânica. De resto, entre os cerca de mil alunos, mais nenhum tem raízes em países da América latina. Muitos deles, garante Andrea, sabem que ela não tem a sua situação regularizada. Ainda assim, garante que nunca foi alvo de nenhum comentário negativo nem de qualquer tipo de ataque.

“Acho que as coisas têm corrido bem entre os alunos, sem haver insultos ou cenas racistas, porque dias antes das eleições os alunos foram todos chamados para uma assembleia. O diretor do colégio disse-nos que queria que todos mantivessem o respeito uns pelos outros, que as eleições deviam ser encaradas com maturidade”, recorda. “Provavelmente isso ajudou.”

No início deste ano letivo, que começou em plena campanha para as eleições presidenciais de 8 de novembro do ano passado, Andrea soube que uma aluna do 11º ano tinha criado um clube de alunos para estes se reunirem e falarem de política. Ainda assim, não era um debate que se queria. “Para confrontação, já chegava o que os candidatos andavam a fazer”, explica Andrea. Ali, a ideia era cada um partilhar como é que as eleições faziam cada um deles sentir-se. Já depois das eleições, o clube continua a reunir-se uma vez por semana para que todos os alunos que por lá queiram passar possam desabafar e comunicar com os colegas.

Andrea só lá foi uma vez. Não falou por vergonha. “Não sei, eu estou nesta escola há pouco tempo, só passaram seis meses explica. “Não queria dizer algo que levasse as pessoas a achar alguma coisa de mim, não queria ser julgada”, confessa. Ainda assim, guarda algumas ideias das eleições que passaram e do clima em que elas se passaram. “Uma das coisas que mais me chatearam nestas eleições, e que continuam a chatear agora, é que o Donald Trump é um homem que não respeita as mulheres”, diz Andrea. “Ele diz coisas que não estão certas, diz coisas que toda a gente sabe que não podem ser sequer pensadas. E ainda assim vai ser Presidente”, diz. “Isso, enquanto mulher, preocupa-me.”

E como imigrante ilegal também? “Sinceramente, isso não me preocupa”, diz Andrea. “Os meus pais preocupam-se, sim. Às vezes falam disso a noite toda, falam constantemente sobre isto, vê-se que estão preocupados”, diz garante. “Eu não. Sei que tenho Deus do meu lado, o meu destino depende d’Ele e não vai ser um Presidente que vai mudar isso.”

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