Monchique. A vida no pavilhão que foi casa para 144 pessoas enquanto a serra ardia /premium

09 Agosto 20181.261

"Dora, é para ativar o Portimão Arena para recebermos desalojados de Monchique". Com esta mensagem, começou a ser preparado o refúgio provisório. As histórias de quem ali viveu - e de quem os recebeu.

400 colchões. 400 jogos de cama. 400 toalhas de banho. 400 cadeiras pretas. Todos os colchões colocados à mesma distância uns dos outros, as cadeiras todas do mesmo lado. A simetria no interior do pavilhão da Portimão Arena era quase perfeita e contrastava com a desorganização e mesmo o caos aparente do combate às chamas que se travava a poucos quilómetros dali, entre Monchique e Silves.

Este pavilhão de 6 mil metros quadrados, palco habitual de eventos desportivos e culturais, esteve transformado numa casa de abrigo em ponto gigante, para acolher 144 pessoas retiradas de suas casas para serem protegidas do avanço das chamas do incêndio de Monchique, ativo desde sexta, 3.

400 colchões. 400 jogos de cama. 400 toalhas de banho. 400 cadeiras pretas. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A operação começou a ser preparada dois dias antes, na quarta-feira, dia 1 de agosto, durante uma reunião da Proteção Civil motivada pelos alertas de que o risco de incêndio estaria no máximo. “Nessa reunião recebemos a indicação de que caso houvesse alguma situação má as zonas de concentração seriam, entre outras, o Portimão Arena”, explicou ao Observador Dora Pereira, diretora do departamento de desenvolvimento municipal da Câmara de Portimão.

Foi o que acabou por acontecer. A responsável da autarquia recorda o conteúdo exato da mensagem que recebeu e que obrigou a preparar tudo: “Estava no Festival da Sardinha, no último dia, a ouvir The Black Mamba e recebo uma mensagem do nosso comandante [dos bombeiros de Portimão], Richard Marques: “Dora, é para ativar o Portimão Arena para recebermos desalojados de Monchique, o incêndio em Monchique está muito complicado'”.

Dora já não ouviu nada do concerto e seguiu direta para o Portimão Arena. “A primeira coisa que fiz mal cheguei foi ligar o ar condicionado a fim de arrefecer o local, porque estava fechado há alguns dias. Liguei a água quente para que as pessoas pudessem tomar banho nos nossos balneários (cada balneário tem dez duches). Abri as portas e liguei as luzes todas, tanto de dentro como de fora, para que quem viesse conseguisse identificar o local de abrigo. Chamei a ação social da câmara municipal, cerca de sete elementos. Trouxe também pessoas que estavam comigo no Festival da Sardinha… Trouxe uma colega da cultura, outra colega da área financeira… Nestas alturas não há departamentos, estão todos para o mesmo: ajudar”.

Dora Pereira, diretora de departamento desenvolvimento municipal de Portimão. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O trabalho a sério começou nesse domingo à noite. “Este foi o nosso posto de comando. Já ninguém dormiu nessa noite. As colegas da Ação Social começaram logo a ligar aos nossos diversos parceiros para tentarmos ver com o que é que cada um nos poderia ajudar. Começaram a chegar os primeiros colchões, lençóis, almofadas, toalhas de banho e comida”, recorda Dora Pereira. Na primeira noite, dormiram no pavilhão 47 pessoas. Na noite seguinte, de segunda para terça, já foram 144. Depois baixou ligeiramente, para 123, na noite de terça para quarta. E 75 de quarta para quinta.

Entre as pessoas encaminhadas para o pavilhão, havia vários turistas que não conseguiam chegar aos hotéis onde tinham reservas em Monchique. E houve também um casal de suecos, que vivem perto da Barragem de Odelouca, que a caminho de Portimão apanharam os animais que viram na estrada, assustados com o fogo. Chegaram com sete cães e dois gatos.

Quem chegava ao pavilhão era encaminhado para uma equipa da Segurança Social, que pedia a identificação e via se necessitava de algum tratamento (um médico e um enfermeiro do Hospital de Portimão ficaram no pavilhão em permanência). Feita esta curta triagem era-lhe atribuída uma pulseira branca, com um número escrito a caneta, e dada à escolha uma cama, já com lençóis e uma toalha de banho.

As muitas pessoas que levaram os seus animais de estimação ficaram todas junto à porta principal, facilitando assim que os donos fossem passear os seus animais à rua.

Um terço da área estava preenchida por um posto médico, mesas para o convívio, a zona de refeições e uma área de jogos para as crianças, que tinham ainda desenhos animados em permanência no ecrã gigante do auditório do pavilhão.

A comida servida no bar do pavilhão (sempre um prato de carne e outro de peixe) era toda doada pelos hotéis da cidade, que também disponibilizaram garfos, facas e pratos. Também havia uma máquina de café, que era aliás um dos produtos mais requisitados. “Como a máquina e o café foram oferecidos por uma marca de café, quando este acaba basta mandar ao senhor José um sms a dizer ‘café’, coisa de uma hora está cá novo carregamento. Os profissionais que aqui estão também estão sempre a beber… É a única maneira, estamos todos muito cansados”, admitia Dora Pereira.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Aquilo no silêncio da noite… parecia a guerra”

Dois colchões colados um ao outro, o do homem um pouco mais subido. Pouco passava das dez da noite desta quarta-feira. José António Matias, 73 anos, e a sua mulher, Graciete, 71, já estavam deitados, nos primeiros dois colchões, no primeiro terço, da quarta coluna, assim que se entrava no pavilhão pela porta principal. Sempre com a cadeira de rodas ao lado de José. “Primeiro gosto da minha mulher, depois dos meus filhos mas logo a seguir da cadeira de rodas”, dizia José, a rir-se para a mulher que entretanto se levantou, enquanto ao fundo, sentado na zona das crianças, outro residente do pavilhão tocava guitarra. Chegou a trabalhar nas madeiras e na cortiça em Monchique e foi revisor dos autocarros que ligavam Monchique a Portimão e Lagos, antes de um AVC ter paralisado o lado esquerdo do seu corpo.

Vivem praticamente no centro da Vila de Monchique e foi de lá que viram “o inferno chegar”. “O fogo começou nas Taipas, muito longe de Monchique e nós nunca pensávamos que aquilo chegasse ali perto de nós”, contou José. “Eram duas da manhã e estava sentada numa das duas cadeiras que tenho à minha porta e ouvia-se de vez em quando: ‘BOOOM’, ‘BOOOM’. Aquilo há quem diga que fossem casas a arder ou carros a explodir. Aquilo no silêncio da noite… parecia a guerra”, recordou Graciete.

Na segunda-feira à noite, 6 de agosto, começou o ruído. “Já estava deitada mas ouvi muitas sirenes e fui à porta. Vejo um grande clarão vermelho, parecia não sei quê, da banda de cima. Volto para casa e o meu marido: ‘Atão? Atão?’ e eu tive de responder a verdade: ‘O fogo está já aqui por trás'”. José não quis acreditar no que lhe dizia a mulher: “Estás parva? Não pode ser”. “Pode, se eu te digo que pode, é porque é”, respondeu Graciete.

“É aqui que começo a entrar em pânico… Nisto os rapazes da Cruz Vermelha passaram à minha porta para cima, voltaram para trás e disseram: ‘Toca a ir embora tudo daqui, toca a ir embora tudo daqui. Não podem ficar aqui. Toca a andar'”. Graciete foi buscar umas calças de fato de treino para o marido, para saírem de casa com a ajuda de elementos da Cruz Vermelha, que lhes perguntaram: “Sabem onde é a igreja?”.

“Quando me pergunta se sei onde é a igreja… ‘Ó homem, eu e o meu marido casámos lá'”, respondeu Graciete. Foi em 1964, dez anos antes da revolução, numa quinta-feira. Na igreja de Monchique. “16 de novembro” diz José, sem muitas certezas. “16 de dezembro, homem”, corrigiu Graciete. (O marido pelos vistos não acerta uma. Já antes se tinha baralhado com a idade em que se casou, o que levou Graciete a dar-lhe outro raspanete. “Com 18? Ai foi com 18? Foi com 19, cabecinha pensadora”).

Do largo da Igreja, José e Graciete foram de ambulância para o Portimão Arena. Só dois dias depois souberam, por uma sobrinha, que a casa tinha escapado às chamas.

José António Matias e Graciete Matias. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Não conseguia ir para casa e pensar que existem pessoas que podem estar a precisar de mim”

Paula Custódio, 47 anos, é consultora imobiliária mas nos últimos dias vestiu um colete fluorescente e pôs “mãos à obra”. “Tinha de ir ajudar”, sentiu. A Escola EB 2,3 Júdice Fialho abriu portas para lá serem confeccionadas todas as refeições diárias para 1.800 rbombeiros.

Paula Custódio de 47 anos é consultora imobiliária mas nos últimos dias vestiu o colete fluorescente e pôs "mãos à obra". JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Paula viu o apelo a voluntários no facebook: “A concentração seria na escola e aí é que se ia dividir tarefas e confeccionar os pequenos almoços, lanches, almoços e jantares. Fui a primeira voluntária a chegar à escola. Cheguei por volta das 9h30. Não levei nada para dar, fui com intenção de ajudar, dar a minha mão de obra. No incêndio de 2016 levei comida e bens para os bombeiros, no terreno, mas este ano resolvi ajudar com mão de obra, achei que seria mais útil”.

Acompanhada por uma filha adolescente, trabalhou como assistente de cozinha, a lavar e a preparar 160kg de batatas. Da cozinha passou para a “fábrica do Pai Natal”, onde eram feitos os lanches dos bombeiros, quase como se fosse uma “linha de produção industrial”, com cerca de 20 pessoas ao longo de um conjunto de mesas ao comprido, a preparar sandes de manteiga, queijo ou chourição.

Também trabalhou no Portimão Arena, onde ajudou a preparar as camas ou a dividir a roupa doada por tamanhos e sexo. Mesmo quando lhe diziam para ir descansar, resistia: “Não conseguia ir para casa e pensar que existem pessoas que podem estar a precisar de mim. Não conseguia voltar as costas, tinha de ficar”.

Zona onde se encontrava a roupa doada por populares. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Na cozinha do Portimão Arena, três mulheres que vieram de Faro de propósito carregavam paletes de águas e caixas de bolachas sem fim. Com uma simples publicação no Facebook, na página “Reage e Ajuda” criada por Catarina Duarte e pelo irmão, conseguiram “encher uma carrinha até ao tejadilho”.

Catarina e as duas amigas, Adriana Onu e Rita de Jesus, vieram de Faro de propósito para entregar produtos alimentares. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Uma simples página de facebook, ligarmos para os nossos amigos e partilhas ‘até dizer chega’ foi o suficiente para conseguirmos trazer inúmeras garrafas de água, sumos individuais, produtos enlatados como atum e salsichas, caixas de bolachas, barritas energéticas, produtos para crianças e mulheres e também muita roupa… Já ontem tínhamos vindo cá trazer coisas e hoje sentimos necessidade de voltar, foram entregar-nos imensa coisa esta manhã”, explicou Catarina Duarte. Além da recolha e da entrega de bens necessários, Catarina e mais duas amigas brincaram com as cerca de 20 crianças que se encontravam no local.

“Ficou sem nada. Ele só chorava, não queria sair de lá”

Idalina Duarte, 85 anos, foi uma das 36 pessoas que ficaram feridas devido ao incêndio. Nascida no centro de Monchique, foi de lá que viu o “céu preto” a aproximar-se da vila. Saiu de casa para ir ao quartel dos bombeiros e quando lá chegou acabou por desmaiar, com dificuldades respiratórias. Foi transportada para o hospital de Portimão na madrugada de domingo e esteve internada até quarta-feira depois do almoço.

“No hospital estive a soro e no mesmo quarto que eu estava um senhor, dono de uma padaria no Alferce, que perdeu tudo, a casa e a padaria. Era ao lado uma da outra. Ficou sem nada. Ele só chorava, não queria sair de lá”. Nos quartos das pessoas que foram assistidas devido ao incêndio de Monchique, segundo Idalina, os doentes não podiam ver televisão nos canais de notícias, que  transmitiam em direto todos os pormenores do incêndio.

Duas amigas: Idalina Duarte à esquerda e Maria de Jesus à direita. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Na mesma mesa, à sua frente estava Maria de Jesus, 83 anos, com uma manta branca sobre as pernas. Vive nas Caldas de Monchique e é dona do restaurante “A Rampa”. “Em 2003 a serra não ardeu tanto como agora isto… Foi o inferno aquilo”. “Ainda fui à Rampa antes de ir embora para ver se aquilo estava tudo bem, não abro o restaurante desde sábado: os meus dois empregados que vivem em Portimão não conseguiram passar para Monchique.

Por volta das 16h começaram a aglomerar-se carros dos bombeiros no miradouro perto de sua casa e que depois a GNR aconselhou-a a ir embora devido ao intenso fumo. “Levaram-me então para a escola de Monchique, mas como estava muito fumo e o fogo muito perto tive de vir para baixo numa carrinha com mais nove pessoas, da Cruz Vermelha”.

“Aqui tenho encontrado muitos vizinhos e conhecidos meus. Até os estrangeiros eu conheço, alguns iam lá ao meu restaurante”. Apesar de conhecer muita gente confessa: “Estou desejando ir para casa… apesar de aqui ter sido muito bem recebida, muito bem tratada. Não me faltou aqui nada, mas a nossa casa é a nossa casa”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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