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As cheias em Montemor-o-Velho levaram à retirada de mais de 200 pessoas de suas casas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

As cheias em Montemor-o-Velho levaram à retirada de mais de 200 pessoas de suas casas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Montemor-o-Velho. Uma noite a olhar para o céu, com o medo de ver a água a chegar à porta /premium

No espaço de horas, o terreno de Inês transformou-se numa piscina e a casa num tetris de móveis empilhados. A reportagem do Observador nas cheias do vale do Mondego.

“Aqui é… ou era, uma zona de milho”, diz Inês, apontando para o local onde, até há poucas horas, existia um terreno agrícola. O seu terreno agrícola. Agora é água com mais de um metro de altura. Mais parece uma piscina.

Inês Taborda tem 32 anos e vive, com a filha de três anos, numa casa junto à estação ferroviária do Ameal. A cerca de 800 metros do Mondego, o rio que este sábado – encorajado pelas tempestades Elsa e Fabien – galgou as margens, destruiu um dique e inundou terrenos a perder de vista. Mais de 200 pessoas tiveram de ser realojadas à conta disso.

Inês Taborda tem 32 anos e vive, com a filha de três anos, numa casa junto à estação ferroviária do Ameal.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mas isto não é novidade no Ameal, uma pequena freguesia do concelho de Coimbra. Sempre que há chuva forte e as águas do Mondego sobem, é certo e sabido: as casas ficam inundadas. “É recorrente”, diz Inês. Também a casa, construída pelo pai em 1983, está rodeada de água por todos os lados. Ou quase. Por todos os lados menos por um. A pequena estrada que dá acesso à casa desapareceu com a subida repentina das águas e a única maneira que Inês tem de se abrigar em casa é atravessar “a correr a via rápida” e a linha do comboio. Para lá chegar levanta a perna para galgar os separadores da estrada e baixa-se para passar pelo buraco que existe na rede que divide a estação de comboios da estrada.

Sempre que há chuva forte e as águas do Mondego sobem, é certo e sabido: as casas ficam inundadas. “É recorrente”, diz Inês.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Inês teve de fazer este caminho muitas vezes ao longo da tarde de sábado. Inúmeras vezes. E sempre a carregar bens essenciais de casa para o carro. Isto depois de a Proteção Civil ter alertado as populações ao longo do dia: toda a gente teria de sair de suas casas por causa do risco das cheias na zona.

O aviso apanhou Inês ao final da tarde. Um telefonema de uma tia. “Às 17h40 a minha tia ligou-me a dizer que um amigo dela, que é bombeiro, lhe tinha dito que eu devia sair de casa porque as águas iam subir. Foi assim que soube que tinha de sair de casa de emergência. Ninguém até agora veio aqui. Nem vieram avisar”, contou ao Observador. Àquela hora ainda os seus terrenos estavam secos, a água ainda estava longe das paredes da casa, a cave ainda estava enxuta. Horas depois, às 21h00 já tinha 10 centímetros de água no piso inferior da casa. E a subir.

Às 21h00 já tinha 10 centímetros de água no piso inferior da casa. E a subir.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Inês já viu este filme antes, mas desta vez foi sem aviso prévio. As chuvadas chegaram de surpresa. Em janeiro de 2001, recorda, a água chegou à linha do comboio, a cerca de 50 metros de casa. Ou seja, chegou ao primeiro andar da casa, mais de dois metros de altura. Apesar de apreensiva, Inês e os familiares que a ajudam a tirar as coisas de casa, está confiante: “Isto hoje não sobe mais, só se o dique rebentar, mas desta vez isto está controlado”. Nesse ano Inês perdeu grande parte do recheio da casa, com prejuízos, conta, que rondaram os 90 mil euros. “Não será como em 2001, mas que hoje não vou dormir, ai isso não vou”, desabafa.

A prioridade de Inês foi tirar de casa quase toda a roupa, para si e para a filha de três anos. Depois os valores e por último os alimentos. Foi isso que levou para o carro: vestuário, jóias e “a comida que tinha no frigorífico”. Não houve malas que chegassem para tudo, por isso recorreu aos sacos de plástico, o que lhe deixou o carro com um ar de quem estava a fazer mudanças.

Não houve malas que chegassem para tudo, por isso recorreu aos sacos de plástico, o que lhe deixou o carro com um ar de quem estava a fazer mudanças.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Dentro de casa Inês teve de proteger aquilo que não poderia guardar no carro: eletrodomésticos e móveis. Estes foram postos em lugares estratégicos. Como num jogo de Tetris da vida real. A televisão em cima do armário da casa de banho, a cama da filha em cima da mesa da cozinha, o aspirador em cima do fogão, a máquina de lavar roupa em cima da bancada, ao lado do fogão, livros e fotografias em cima de armários da cozinha e o computador em cima do frigorífico. “Tinha de pôr as coisas com mais valor em cima de coisas altas. A cama e os peluches da minha filha foram as coisas que tentei proteger primeiro. São da minha filha e ela não merece perder nada disto”.

Dentro de casa Inês teve de proteger aquilo que não poderia guardar no carro: electrodomésticos e móveis. Estes foram postos em lugares estratégicos. Como num jogo de Tetris da vida real.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O pior pode já ter passado, pelo menos aqui nesta pequena aldeia, mas “a EDP ainda pode fazer das dela. A culpa disto tudo inundado é da EDP e das descargas que faz da barragem da Aguieira. Eles [EDP] retêm a água dias e dias e depois largam-na toda de uma vez quando chove muito e acontece isto. O pior nem foi aqui, foi ali para baixo, mas o mal dos outros foi o nosso bem, feliz ou infelizmente, porque o dique partiu”, desabafa Inês, referindo-se às aldeias da margem direita do rio, junto a Montemor-o-Velho. Em contacto ao longo do dia com o Observador, fonte oficial da EDP garantiu que apenas fez “descargas controladas” nas barragens que gere, especialmente na da Aguieira (que serve o vale do Mondego), que é a situação mais sensível que tem em mãos. Também garantiu que tem agido sempre em coordenação com a Agência Portuguesa do Ambiente.

"A cama e os peluches da minha filha foram as coisas que tentei proteger primeiro. São da minha filha e ela não merece perder nada disto”.

A noite caiu fria e sem chuva e assim se prevê que continue nesta povoação junto à margem esquerda do Mondego, mas a acalmia fez com que muita gente saísse à rua e ficasse à porta de suas casas a olhar para o céu, livre de nuvens, à espera de ver a água chegar às suas portas. Quase todos de braços cruzados, mas sem esconder o medo de ver a água a entrar-lhes pela casa.

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