Abril, maio e julho foram os meses de 2020 com o maior aumento no número de mortos quando comparado com igual período de 2019, mas também quando comparado com a média dos 10 anos anteriores (de 2010 a 2019). Em termos de excesso de mortalidade em relação ao que seria expectável, as semanas 12 a 17 (de 16 de março a 26 de abril) e a partir da semana 28 (que começou a 6 de julho) são as que apresentam os números mais expressivos. Em julho, Portugal destacou-se mesmo do resto da Europa em termos de excesso de mortalidade. No entanto, ainda é cedo para perceber exatamente porquê.

Há ainda outro período em que Portugal excedeu o número de mortes expectável, segundo a interpretação da plataforma Euromomo — um consórcio que compila os dados de mortalidade de 24 países da Europa —, as primeiras seis semanas do ano. Ainda assim, Portugal teve menos mortes do que nos três anos anteriores. Esta aparente contradição tem uma explicação: é diferente falarmos de “excesso de mortalidade”, que se refere ao número de mortos a mais em relação ao que era esperado (e que é usado pela Euromomo para poder comparar os vários países), ou falar em número de mortos absoluto, tendo em conta os certificados de óbito.

[Toda a Europa teve um excesso de mortalidade, em parte justificado pela pandemia. Mas Portugal é praticamente o único país a apresentar esse excesso em julho, conforme legenda à direita.]

Em termos absolutos, a diminuição do número de mortos nas primeiras semanas do ano pode, em parte, ser justificado por uma época de gripe pouco intensa. “Uma época de gripe suave, manteve vivas algumas das pessoas mais vulneráveis”, diz ao Observador Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública. Ou seja, as pessoas mais frágeis, que não morreram com os picos de frio do inverno ou com as infeções respiratórias próprias da estação, eram as que estavam mais suscetíveis à infeção com o SARS-CoV-2 ou outras complicações relacionadas com os problemas de saúde pré-existentes. O que pode justificar, parcialmente, o aumento da mortalidade nos meses seguintes.

O número de mortos diário pode ser consultado no portal Vigilância de Mortalidade (eVM), da Direção-Geral da Saúde, que agrega os dados do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO), “mas tipicamente as causas de morte demoram a quantificar”, diz o médico de Saúde Pública. Isto porque no portal eVM só é dada informação se a morte é natural ou por causa externa. Às causas específicas só a Direção Geral de Saúde (DGS) tem acesso.

Neste momento, as justificações que os médicos podem apresentar para o aumento do número de mortes são baseadas em causas prováveis, mas a verdade é que não têm como confirmá-las por enquanto. Naturalmente que a chegada da pandemia a Portugal teve impacto na mortalidade e justifica parte do aumento do número de mortos, quer direta, quer indiretamente, mas está longe de explicar todas as situações.

Entre março e julho de 2020 morreram mais 5.394 pessoas que em 2019 e mais 6.287 que a média dos 10 anos anteriores (2010 a 2019). Neste período, morreram 1.735 pessoas com causa atribuída à Covid-19, mas ainda assim ficam mais de 4.500 óbitos adicionais por explicar (se considerarmos a média dos 10 anos).

“Alguns podem dizer respeito a pessoas que morreram devido à Covid-19, mas que não foram contabilizados”, diz Ricardo Mexia, que ainda assim acredita que estes casos sejam residuais. No início da pandemia talvez fosse mais frequente, por um lado, porque procurar o SARS-CoV-2 como causa de morte não era tão comum e, por outro, porque muitas pessoas tinham outras doenças associadas que também podiam justificar a morte do doente.

[O bastonário da Ordem dos Médicos afirma, no Direto ao Assunto da rádio Observador, que onda de calor não explica o aumento da mortalidade, mas sim o atraso no atendimento a “doentes não covid”.]

Bastonário dos Médicos: “Números de consultas, operações e diagnósticos em atraso são arrepiantes”

A doença provocada pelo novo coronavírus é uma causa direta de morte pela pandemia, mas existem também causas indiretas, como a suspensão das consultas, o adiamento dos exames complementares de diagnóstico e o próprio receio dos doentes em procurarem os serviços de saúde. Se soubermos quantas pessoas morreram por enfarte de miocárdio, podemos perceber quantas não chegaram tão depressa quanto necessário aos serviços de saúde, explica ao Observador Cristina Santos, especialista em estatística médica e investigadora no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis), na Universidade do Porto.

Depois há outras causas, explicou a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, como as ondas de calor que afetam sobretudo os mais idosos. Aqui, a pandemia volta a ter algum efeito, diz Ricardo Mexia, porque há pessoas que agora têm receio de ligar o ar condicionado — estes aparelhos foram tidos como um dos facilitadores da propagação do vírus.

Uma das ondas de calor identificadas pela diretora-geral da Saúde na conferência de imprensa da DGS de 17 de julho aconteceu na última semana de maio. É também nessa semana que a plataforma Euromomo regista um excesso de mortalidade em Portugal — e maio é um dos meses em que o número de mortos é mais alto em relação à média de 10 anos. Julho teve também duas ondas de calor, disse Graça Freitas.

O Público refere, no entanto, que só o calor não pode justificar o aumento do número de mortes em julho (num total de 10.417), o valor mais alto para este mês dos 12 anos que estão disponíveis no portal eVM. E muito menos a Covid-19, que nesse mês provocou 159 mortos, segundo os dados oficiais. “A razão tem de ser o excesso de mortalidade provocado pela negligência e impossibilidade de acesso a cuidados que os dois milhões de doentes crónicos em Portugal deixaram de ter. Não há outra explicação”, disse ao Público António Vaz Carneiro, especialista em medicina interna e diretor do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública.

Atualizado com a reação de Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, à mortalidade de julho.