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ENRIC FONTCUBERTA/EPA

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Na Catalunha, a filologia não dá sono — dá discussões, polémicas e até raiva

A língua está no centro do debate da Catalunha. O catalão é uma marca dos independentistas e poucos unionistas arriscam falar noutra língua que não o castelhano. Quando o fazem, as diferenças notam-se

Reportagem em Barcelona, Espanha

Sempre que apanha um debate na rádio, Jaume Aulet, professor de Filologia Catalã na Universidade Autónoma de Barcelona, consegue perceber de que lado está cada um dos intervenientes — se são a favor da independência ou se querem continuar em Espanha — apenas pela maneira como falam. Não se trata do conteúdo, mas antes dos sons, explica. “Só pela fonética dá para perceber o que eles pensam”, garante. “A maneira como pronunciam os éles denuncia logo se são independentistas ou unionistas.” Na maior parte das vezes, não se engana.

O castelhano e o catalão fazem parte das línguas oficiais da Catalunha (juntando-se ainda o menos comum aranês) e cada linguagem parece estar associada, mais do que nunca, aos dois lados que dividem a sociedade catalã. Também na política essa divisão é visível, bastando para isso acompanhar um debate no parlamento regional da Catalunha. Da parte dos independentistas, praticamente todas as intervenções são feitas em catalão; ao passo que a grande maioria dos unionistas escolhem invariavelmente o castelhano para discursar.

“É uma evidência que cada um dos blocos políticos fala a língua que mais lhe interessa”, refere Jaume Aulet. “E só isso já evidencia duas maneiras de entender o mundo, que é aquilo que as línguas são.”

Jaume Aulet é independentista e vê na língua razões suficientes para afirmar que a Catalunha é uma comunidade própria, com direito a ser um país independente. “A língua é algo que identifica culturalmente um país”, sublinha. “A língua é o reflexo de uma comunidade que tem a sua própria maneira de ser, a sua própria paisagem, os seus costumes. Por isso é que criaram uma língua que é só sua e por isso é que também querem ter uma nação que é só sua.”

Jaume Aulet é professor de Filologia Catalã na Universidade Autonoma de Barcelona e é a favor da independência da Catalunha (João de Almeida Dias / Observador)

Do outro lado da questão está Miriam Tey, catalã que trabalhou vários anos em editoras — trabalhou na Ediciones del Bronce e fundou a editora Cobre, ambas dedicadas a publicar autores não-europeus em castelhano — que hoje é vice-presidente da Societat Civil Catalana, organização unionista criada em Barcelona em 2014. “A língua é um instrumento político que os independentistas estão a usar para exercerem a sua manipulação e para fomentar a ideia de uma nação que não é preocupação dos catalães e sim apenas dos políticos”, garante. “Para os independentistas, quem não estiver imerso na língua catalã, então é logo um fascista, um colaboracionista, um traidor da pior espécie.”

A repressió do catalão e a represión do castelhano

A História não tem sido fácil para a língua catalã. Já no século XVIII e XIX, manter a hegemonia do castelhano em todo o território de Espanha, por oposição a línguas como o catalão, basco ou galego, era uma preocupação. Em 1768, por exemplo, foi publico um decreto-real, assinado por Carlos III, que ditava que a língua utilizada pela Igreja fosse o castelhano e que também fosse esse o idioma usada no ensino. No século seguinte, em 1867, foi emitida uma ordem real para que fossem censuradas as peças de teatro escritas nos “diferentes dialetos”, por se ter determinado que aquela “novidade iria influir forçosamente no fomento do espírito autóctone”.

Mais tarde, em 1926, já na ditadura de Primo de Rivera, foi emitida outra ordem real que dizia que “os professores que proíbam, abandonem ou enfraqueçam o ensino do idioma oficial nas regiões onde se conserva outra língua nativa, serão submetidos a um processo, podendo ser-lhes imposta a suspensão do emprego e do salário”, acrescentando ainda que os reincidentes seriam ser “transferidos para outra província onde não se fale outra língua que não a oficial”.

Durante vários séculos, o uso do castelhano era obrigatório no ensino, na catequese, na cultura e até na altura de batizar os filhos. Por oposição, as línguas regionais, como o catalão, foram marginalizadas.

E, depois, houve os anos da ditadura de Francisco Franco, que governou de 1938 até 1975. Nos primeiros anos do seu regime, que se consolidou após a vitória na Guerra Civil contra os republicanos, Franco não proibiu de facto o uso do catalão, mas procurou ainda assim diminui-lo ao máximo, atribuindo a esta e a outras línguas regionais um caráter destrutivo da unidade do país.

Logo em 1938, por exemplo, foi dada uma ordem do conselho de ministros onde se dizia que “a Espanha de Franco não pode tolerar agressões contra a unidade do seu idioma” e que por isso, “em qualquer caso, tratando-se de espanhóis, os nomes que lhes são atribuídos são castelhanos”. Além disso, logo em 1940, os detentores de cargos públicos receberam ordens para “não se expressarem noutro idioma que não seja o oficial do Estado” em situações profissionais. Caso incumprissem, seriam “destituídos, sem posterior recurso”.

Por tudo isto, foi grande a polémica quando o rei Juan Carlos disse, na entrega do Prémio Cervantes de 2001, que em Espanha “nunca se obrigou ninguém a falar castelhano”.

"Não podemos andar a dizer que somos vítimas perpétuas do franquismo, que já acabou há mais de 40 anos! Dizer que o catalão é vítima de uma perseguição é uma mentira e uma ficção total que eles querem espalhar mas que já não cola"
Miram Tey, vice-presidente da Societat Civil Catalana

Para Jaume Aulet, restam poucas dúvidas de que esta “repressão” existiu — embora refira que, por ter estudado num colégio privado quando Franco ainda liderava Espanha, tenha tido aulas em catalão — e de que ainda hoje continua. “Ela existe, ainda hoje”, garante.

Miriam Tey reconhece que o franquismo limitou o uso do catalão — mas recusa falar como se esta fosse uma realidade próxima. “Não podemos andar a dizer que somos vítimas perpétuas do franquismo, que já acabou há mais de 40 anos!”, afirma. “Dizer que o catalão é vítima de uma perseguição é uma mentira e uma ficção total que eles querem espalhar mas que já não cola.”

“Não são eles que são perseguidos, somos nós”

A vice-presidente da Societat Civil Catalana — em cujo escritório o castelhano é a língua que impera, apesar de a associação ter o nome em catalão — garante que agora é o castelhano que é alvo de “repressão” por parte dos independentistas e, até há pouco tempo, pela Generalitat liderada por Carles Puigdemont. “Não são eles que são perseguidos, somos nós, os que falam as duas línguas mas que usam principalmente o castelhano, que somos perseguidos e vemos os nossos direitos a serem violados todos os dias”, garante.

Um desses exemplos são as multas que a Agência Catalã de Consumo, um órgão que pertence ao governo regional da Catalunha, aplica a todos os negócios que não tenham os letreiros dos seus estabelecimentos em catalão ou, também, aos restaurantes que tiverem os menus apenas em castelhano. Embora estas multas existam desde 2010, foi em 2015 que elas começaram a ser mais frequentes — ao ponto de aumentarem na ordem dos 173% em relação ao ano anterior, subindo de 51.350 euros recolhidos para 140 mil.

O governo regional da Catalunha também financia a imprensa catalã, tendo gastado, só no ano de 2015, cerca de 37 milhões de euros (entre subvenções e patrocínios) em canais de televisão e jornais onde a língua catalã impera. E a Plataforma Pela Língua, associação não governamental de promoção do catalão, recebeu quase 1,9 milhões de euros em subvenções para realizar “atividades de extensão do uso social da língua catalã” entre 2016 e 2018.

Miriam Tey é vice-presidente da Sociedade Civil Catalana, uma ONG unionista fundada em 2014 (João de Almeida Dias / Observador)

“Os sucessivos governos regionais da Catalunha excederam-se nas suas atribuições”, aponta Miriam Tey. “Querem determinar como pensamos, escrevemos e falamos. Lamento, mas isso não é normal”, queixa-se. “Qualquer dia vão começar a parar-nos na rua e perguntar se somos homossexuais ou qualquer coisa do género!”

Apesar de se assumir como catalanista, o filólogo Jaume Aulet acredita que a aplicação de multas a quem tem letreiros sem a língua catalã é uma política errada. “Não devíamos ter chegado a esse ponto”, reconhece. Ainda assim, discorda de que a predominância do catalão seja um ato de repressão ao castelhano. Embora sublinhe que o catalão não deva ser a única língua da Catalunha — nem mesmo caso um dia se torne independente — por achar que “isso ia criar duas comunidades”, o filólogo refere que o “investimento que tem sido feito na língua desde a segunda metade dos anos 70 é correto”. “Quando duas línguas estão no mesmo espaço, estão sempre em conflito”, explica. “E o conflito normalmente resulta na mais forte a comer a mais fraca. A mais poderosa ganha sempre. Por isso é que eu acho que, por exemplo, se deve favorecer a publicação de livros em catalão, porque é mais caro.”

Um dos centros de maior debate em torno da questão linguística é a educação pública, onde as leis aprovadas em Madrid — que determinam que a “língua veicular nas aulas deve ser o castelhano” — entram em conflito com a legislação que resulta do parlamento catalão — que conferem aquela função ao catalão, consagrando apenas duas horas ao ensino em castelhano por semana.

"Faz algum sentido haver pais que pedem que sejam cumpridas as duas horas de ensino em castelhano nas escolas, porque gostavam que os seus filhos aprendessem na sua língua materna, e os professores responderem que não há meios para isso?"
Miram Tey, vice-presidente da Societat Civil Catalana

Miriam refere que, nalguns casos, nem essas duas horas semanais de ensino em castelhano são respeitadas. “Faz algum sentido haver pais que pedem que sejam cumpridas as duas horas de ensino em castelhano nas escolas, porque gostavam que os seus filhos aprendessem na sua língua materna, e os professores responderem que não há meios para isso?”, pergunta.

Este ano, tornou-se conhecido o caso de Ana Moreno, que vive em Balaguer, na Catalunha, e que foi a tribunal para exigir que 25% das aulas dos seus filhos fossem em castelhano. O tribunal deu-lhe razão, mas Ana Moreno acabou por sair de Balaguer, alegando ter sido vítimas de assédio moral e de perseguição naquela vila, o que também atingia os seus dois filhos. Vendeu o seu negócio e mudou-se com os filhos para Lleida, cidade a 30 quilómetros de Balaguer, e inscreveu-os num colégio privado.

“Que isto chegue até às crianças parece-me inaceitável”, sublinha Miriam Tey.

Quando (alguns) políticos catalães voltaram a falar castelhano

Costuma dizer-se, em jeito de piada, em Espanha, que, durante a Transição do franquismo para a democracia, todos os franquistas acordaram democratas de um dia para o outro. Ora, o mesmo poderia ser dito quanto aos órgãos de poder na Catalunha. Se antes falar catalão em público era no mínimo desaconselhado, com a passagem da ditadura para a democracia os deputados do parlamento regional não falavam noutra língua que não o catalão.

O primeiro a quebrar a norma foi Julio Ariza, deputado do Partido Popular da Catalunha, no ano de 1996. Quando começou a sua intervenção em castelhano, os parlamentares independentistas e também os da Convergência e União (ou seja, a maioria dos deputados) abandonaram o hemiciclo em protesto. À saída, o deputado Joan Aymerich, da Convergência e União, fez referência às excursões escolares que tinham ido visitar o parlamento nesse dia, gritando ao deputado espanholista: “Isso não, por favor! Há aqui crianças, há aqui crianças!”.

"Isso não, por favor! Há aqui crianças, há aqui crianças!", gritou um deputado catalão depois de ser feito o primeiro discurso em castelhano no parlamento regional após a ditadura, em 1996.

Porém, foram necessários mais dez anos para que o castelhano passasse a ser falado com frequência, e sem causar problemas. Em 2006, quando o independentismo ainda estava longe de ser aquilo que seria uma década mais tarde, apareceu o Ciudadanos de Albert Rivera. Munido de uma retórica anti-corrupção e favorável à renovação da esfera política, Albert Rivera falava maioritariamente em castelhano no parlamento regional. Também os deputados do Partido Popular da Catalunha falam preferencialmente em castelhano — tendência compartida por alguns dos parlamentares dos socialistas catalães. “É uma reivindicação para a qual têm todo o direito”, diz Miriam Tey. “O espanhol também é a língua deles e falá-lo no parlamento não é menos digno do que falar catalão. Falar espanhol não deve ser uma transgressão.”

Hoje em dia, o Ciudadanos é liderado por Inés Arrimadas, que nasceu e cresceu na Andaluzia. Apesar de falar catalão, o castelhano também é a sua língua de preferência — recorrendo apenas ao catalão para pequenos apontamentos retóricos.

"Ara Sí Votarem", o slogan do Ciudadanos contestado por alguns filólogos (JOSEP LAGO/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Um deles está no slogan de campanha do Ciudadanos. Antes do referendo de 1 de outubro, os independentistas reagiam à proibição daquela votação por parte do Tribunal Constitucional gritando: “Votarem!”. Ou seja, “votaremos”. Como sempre se opôs à realização desse referendo e, ao mesmo tempo, defendeu a realização de eleições autonómicas antecipadas, o Ciudadanos adotou como slogan a frase: “Ara si votarem“. Que é como quem diz “agora sim, votaremos”.

O slogan foi imediatamente criticado pelo setor independentista. É que, explica o filólogo Jaume Aulet, além da vírgula a seguir ao “si“, falta um “que” antes de “votarem“. Ou seja, a frase correta seria: “Ara si, que votarem“.

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