Índice

    Índice

(artigo em atualização ao longo do dia)

Um passeio de moliceiro, a primeira “enchente” da campanha, e um cartão vermelho ao Governo

Assunção Cristas tem estado praticamente todos os dias na campanha de Nuno Melo — na última semana só não apareceu na segunda-feira e ontem, sábado. Mas este domingo voltou à carga, para pôr a tónica das legislativas numa campanha que é para Europeias. “Temos que mostrar um grande, grande sinal de desagrado, um fortíssimo cartão vermelho [ao Governo de António Costa]”, disse. Falando num almoço com cerca de duas centenas de militantes no Marco de Canaveses, a líder do CDS deu o mote a Nuno Melo para o que viria a seguir: atacar o governo de António Costa na execução dos fundos comunitários, por “desperdiçar” dinheiro de Bruxelas.

“Quando o país mais precisa, o governo socialista desperdiça. Os fundos comunitários não são para ficar na gaveta de Mário Centeno, são dos portugueses, das empresas, dos pescadores”, disse Assunção Cristas, lembrando que, em termos de execução dos apoios de Bruxelas, Portugal está “10 pontos percentuais abaixo do último quadro comunitário”, estando assim “pior do que todos os outros”.

É aí que Cristas ataca duramente António Costa: por não aproveitar duas “ferramentas” importantes que estão ao dispor dos Estados-membros para impulsionar a economia. A primeira ferramenta, são os fundos europeus que o Governo “desperdiça”, e a segunda, é a política fiscal de que, diz Cristas, o Governo está a “abdicar” ao admitir novos impostos europeus, permitindo que a carga fiscal das empresas dos diferentes países fique ao mesmo nível (sendo que os diferentes países não têm, por oposição, o mesmo nível de rendimentos per capita), em vez de estar a baixar impostos como o IRC.

É, por isso, preciso dizer “basta” a António Costa. E é preciso votar nas Europeias — e se não for por outro motivo que seja pelo menos por esse. “Para os vossos amigos que têm dúvidas da utilidade das eleições europeias, que acham que o Parlamento Europeu é muito grande, expliquem que para além da voz forte em Bruxelas, nós queremos ser uma voz fortíssima em Portugal, para dizermos a António Costa que basta de ter uma carga fiscal máxima. Não aceitamos a mentira, o engodo permanente”, disse ainda.

Do almoço “no Marco”, Cristas, Nuno Melo e Mota Soares seguiram a todo o gás para Aveiro, onde João Almeida e António Carlos Monteiro, deputados do distrito, esperavam por eles para um passeio de moliceiro na ria de Aveiro. Aveiro é terreno fértil para os centristas, e isso viu-se na chegada ao cais: assim que o moliceiro “atracou”, dezenas de pessoas esperavam por eles empunhando bandeiras azuis e brancas e entoando cânticos do CDS (aos jotas que acompanham a comitiva em permanência juntaram-se outros jotas e militantes locais). Certo é que este foi o primeiro momento da campanha em que Assunção Cristas e Nuno Melo se puderam sentir um pouco “rockstars“, de braços no ar e pés no assento da embarcação, perante uma pequena multidão que gritava por eles.

A quatro meses das legislativas, Assunção Cristas assume que as Europeias ganham outra dimensão. O ónus vai para António Costa — foi ele “quem disse a todo o país que as europeias iam ser a primeira volta das legislativas” –, mas também o CDS quer que assim seja. Se Costa pede moção de confiança, Cristas pede moção de censura. E na noite das eleições, como disse Diogo Feio numa intervenção ao almoço, o CDS “pode mesmo ser a surpresa da noite”. Cristas concorda. “Podemos ser a surpresa, sim”. E ser surpresa é, não só conseguir duplicar o número de eurodeputados (mais um do que Nuno Melo), como “superar as análises que têm sido feitas e que tendem a apoucar-nos”. “Estamos em tempo de o conseguir”, diz Cristas, conhecida entre os centristas pelo seu otimismo.

“Blábláblá”. Nuno Melo responde ao “blábláblá” do PS e ataca (com Sócrates) desperdício dos fundos

“Quando oiço Nuno Melo falar sobre agricultura e florestas, sabem o que eu oiço? blábláblábláblábláblá. E quando oiço o candidato Rangel, do PSD que fechou correios, agências da Caixa Geral de Depósitos pelo país, que fechou conservatórias, o tribunal de Paredes de Coura que Costa abriu, quando o oiço falar de desertificação do interior, sabem o que oiço? blábláblábláblábláblá”.

Inspirado na campanha publicitária do Banco CTT, protagonizada pelo ator Albano Jerónimo, o socialista Miguel Alves, líder do PS no Alto Minho e presidente da câmara de Viana do Castelo, tinha dado ontem um dos soundbites da campanha: blábláblá. Soundbite esse que, este domingo, Nuno Melo aproveitou para replicar em resposta aos socialistas. Se António Costa diz que só ouve “blábláblá” quando Nuno Melo fala de florestas, então Nuno Melo ouve muito mais do que “blábláblá” quando o governo de António Costa “agrava o IMI de uma casa destruída pelos incêndios” (como viu acontecer esta semana em Monchique). Isso, diz o candidato do CDS, “é mais do que blábláblá, é absoluta indecência”.

E o que não é “blábláblá” é a execução dos fundos comunitários feita por parte de Assunção Cristas quando era ministra da Agricultura: PRODER executado a 100%. “O que não é blábláblá é sabermos que a Assunção Cristas, quando era ministra, aplicou o PRODER a 100%, e não sobrou um cêntimo. Com o CDS, cada euro, cada cêntimo investido na agricultura multiplicou-se por muito mais”, disse.

E foi aí que atirou com o trunfo “José Sócrates“. Porque, para o CDS, o setor agrícola “sempre foi estratégico — nunca nos envergonhamos da agricultura”, enquanto para o PS basta lembrar da imagem de José Sócrates a “olhar para uma terra inculta e apontar o dedo a dizer ‘aqui falta betão'”.

Num almoço com militantes no Marco de Canaveses, que contou com a presença de Diogo Feio (ex-eurodeputado do CDS) e Cecília Meireles, que já de manhã tinha estado na arruada na Póvoa de Varzim, Nuno Melo criticou não só a má execução dos fundos de Bruxelas por parte do atual Governo como o facto de o atual Governo ter aceitado perder 7% nos fundos de coesão para o próximo quadro de apoio, quando países mais ricos (como o Luxemburgo, Áustria, Suécia ou Dinamarca) “não perdem um cêntimo”.

Na primeira arruada, Melo dramatiza apelo ao voto: “Ficar em casa é reforçar os extremismos”

– Vocês têm aqui uma coisa com os comunistas, não é?

– Não! Isso são os socialistas. Nós somos do Partido Popular”.

O diálogo foi mais ou menos assim, mas em francês. Nuno Melo, eurodeputado há dez anos anos, pôs este domingo em prática o seu francês durante um passeio matinal pela marginal da Póvoa de Varzim. O interlocutor era um casal de franceses que estava na esplanada de um café, curioso com o grupo que se aproximava.

O cenário mudou, desta vez tinha o mar como pano de fundo, mas a mensagem é a mesma. Daqui até ao último dia da campanha, Nuno Melo não vai parar de apelar ao voto dos portugueses numa eleição onde quem ganha, tradicionalmente, é a abstenção. As ideias são simples: primeiro, quem ficar em casa e não for votar está a beneficiar os “extremismos”, que mobilizam com maior intensidade o voto de protesto; depois, indo votar, quem é de direita não tem outra alternativa senão votar no CDS, que é “a voz da direita em Portugal”. Conclusão? Nuno Melo apela a todos os que forem de direita a não ficarem em casa no domingo, 26 de maio.

Parece simples. No dia em que começa oficialmente o ato eleitoral (este domingo é dia de voto antecipado, o chamado voto antecipado em mobilidade, que aumentou consideravelmente este ano com as novas regras que dispensam justificação para votar antecipadamente), Nuno Melo insiste na ideia de que é preciso ir às urnas para que a democracia vença às “ditaduras”.

“Nesta disputa, joga-se uma batalha entre forças democráticas e forças que apoiam regimes ditatoriais”, disse Nuno Melo aos jornalistas depois de uma volta pela “Avenida dos Banhos”, onde chegou até a parar o trânsito para cumprimentar um automobilista. Melo insiste que o CDS tem de ter mais votos do que o PCP e o BE, porque, à semelhança do que acontece pela Europa fora, onde os extremismos estão a ganhar terreno à direita, em Portugal esses mesmos extremismos acontecem à esquerda — e não devem ser subvalorizados.

É uma questão de afunilar o raciocínio e jogar ao “por exclusão de partes”: primeiro, apelar ao voto onde quer que seja. Depois, apelar ao voto nos partidos “tolerantes”, fundadores da democracia; e, só aí é que o eleitor decide se é de direita ou de esquerda. Se for de esquerda, terá o PS e até o PSD que, no entender de Nuno Melo, com a liderança de Rio escolheu juntar-se ao centro-esquerda. Portanto, se o eleitor for de direita “só tem uma escolha”. E onde entram os partidos novos como o Aliança, que também estão no espectro político à direita? Nuno Melo nem fala deles para não lhes dar importância.

“Não confundimos partidos de vocação originária com dissidências do PSD”, disse, sublinhando que se Santana Lopes tivesse ganho, no ano passado, as diretas do PSD em vez de Rio estaria hoje a gritar “PPD/PSD”. Logo, o Aliança não nasce “porque haja uma área política que precise de representação”, nasce porque “quer poder”.

Os políticos às vezes enganam-se. E Costa é um “habilidoso” que deu a mão ao “PREC”

Ao fim de uma semana intensiva de campanha, é possível concluir que o CDS tem apostado tudo nos mercados e feiras para estar em contacto com o eleitorado. Mas este domingo, aproveitou um dia bonito de sol para passear junto ao mar, na Avenida dos Banhos, da Póvoa de Varzim, distrito do Porto. Por onde passavam, Nuno Melo e Mota Soares interpelavam populares para lhes dar um folheto com as linhas orientadoras do CDS e para lembrar que há eleições no domingo.

Entre um estado de indiferença generalizado e uma ou outra pessoa mais entusiasmada, os bombos e as vozes afinadas dos “jotas” seguem viagem: “Portugal vai ganhar/Em Nuno Melo vou votar/É CDS, é CDS!”. Aqui e ali, há quem deixe mensagens animadoras. Foi o caso de um senhor com quem Nuno Melo se cruzou, que ficou visivelmente feliz com aquele encontro matinal com que não contava quando acordou de manhã: “Oh dr. Nuno Melo, não contava que isto me acontecesse hoje. O senhor tem sido a exceção à regra, é muito combativo, corajoso, altamente competente”, disse para deleite do candidato. “Fico muito grato, não imagina como é bom ouvir isso”.

Depois dos elogios, as críticas — mas para António Costa. Questionado sobre se, caso os portugueses voltem a mostrar que querem uma maioria de esquerda nestas eleições, a direita vai reconhecer que ainda não percebeu o que aconteceu, Nuno Melo não tardou a dizer que percebeu “muito bem” o que aconteceu em 2015: “Em 2015 houve uma coligação que venceu as eleições e alguém que as perdeu”, disse, lembrando que esse alguém — António Costa — foi o mesmo que, quando o PS venceu as europeias “por poucochinho” iniciou um processo de disputa interna pela liderança do partido. “Venceu por poucochinho, que ainda assim foi bastante mais do que a derrota de António Costa nas legislativas”, disse.

Narrativa estranha, esta, porque foi a vitória por poucochinho nas europeias que ditou a queda de António José Seguro, e foi a derrota nas legislativas que ditou a formação de governo de António Costa. Tudo uma questão de “habilidade”. “Os portugueses nunca se enganam [o voto é soberano], os políticos é que sim, às vezes podem enganar-se, e António Costa é um habilidoso, que consegue enganar fazendo das derrotas vitórias — é uma forma de estar na vida“, disse Nuno Melo. Um habilidoso que “deu a mão ao PREC” ao aliar-se à maioria de esquerda.

“Uma maioria dada por uma extrema-esquerda que sequestrou o socialismo, que durante muitos anos, desde logo com Mário Soares, foi a fronteira ao PREC. Basicamente o dr. António costa deu as mãos ao PREC”, disse, pondo cada vez mais carga ideológica no discurso.