“Na TV há muitos egos a achar que Deus gastou mais tempo com eles. Não gastou, vamos todos para o mesmo sítio” /premium

19 Maio 2019874

Aos 50 anos, 25 passados à frente das câmaras, Fátima Lopes é um ícone da televisão. Ao Observador, falou sobre ganhar e perder, sobre egos e envelhecer. Afinal, o biquíni não escolhe idades.

Cinquenta anos feitos de fresco, “cara lavada” (termo que usou como sinónimo de “sem maquilhagem”) e uma energia acima da média. Foi assim que encontrámos Fátima Lopes, no seu gabinete em Queluz de Baixo. Não é só o 50º aniversário da apresentadora que marca a atualidade, afinal estreou-se em televisão há 25 anos. A longevidade em antena já ninguém lhe tira, tão pouco a familiaridade que a aproxima dos espectadores.

“Caí de paraquedas na televisão”, admite. Ela que, antes de ser apresentadora, escreveu sobre teatro, desbravou o universo da ótica e ensinou os senhores do entretenimento televisivo dos anos 90 a fazer os primeiros passatempos com chamadas de valor acrescentado. Foi aí que deu nas vistas de Emídio Rangel. Estreou-se com “Perdoa-me”, seguiram-se “Surprise Show” e “All You Need Is Love”. Do horário nobre para as manhãs, das manhãs para as tardes e das tardes para a versatilidade que atravessa a grelha e que sempre admirou.

Há oito anos trocou a SIC pela TVI, concorrente direta. Hoje, admite não ter sido “devidamente valorizada” nem “ouvida” pela estação que a viu nascer enquanto apresentadora. Sem mágoas, trabalha para chegar ao topo, tarefa especialmente desafiante desde que, em janeiro deste ano, Cristina Ferreira começou a inverter uma tendência de anos — a SIC lidera agora as audiências, a TVI não parece querer acomodar-se ao segundo lugar.

Fátima Lopes, mãe de dois filhos, relativiza e apela a um certo sentido de normalidade. “Quanto mais normal é a minha vida, mais feliz sou”, resume durante a conversa com o Observador. Do camarim, chamam-na ao final da manhã. Preparar o programa — “A Tarde é Sua”, exibido em direto, de segunda a sexta-feira, pelas 16h — envolve alinhavar o alinhamento, tratar da maquilhagem e pré-gravar alguns momentos. É que na hora de servir o espectador, Fátima só prepara “comida gourmet”. A quem for servido, bom apetite.

Lembra-se do primeiro dia em televisão?
Por muitos anos que passem, acho que é impossível esquecer-me. Não foi em direto, o dia de estreia foi aquele em que gravei o primeiro programa. Já vivi muitas situações profissionais em que estive muito nervosa, mas nunca nada que se compare a esse dia. Juro que achei que morria. As coisas aconteceram todas muito depressa, não tive tempo para nada. Fiz um casting, fui selecionada, deram-me uma semana para aprender a ler o teleponto, que hoje praticamente não uso. E estreei. Caí de paraquedas na televisão. Ainda por cima, recordo-me de ter andado a treinar o teleponto e, quando chegou o dia, de o produtor me dizer que não o íamos usar, que ficava muito mais natural se falasse sem o teleponto. Tinha acabado de chegar e tive de fazer aquilo com alguma naturalidade. Pus imensa tensão no meu rosto para conseguir sorrir com os nervos. Gravei e fiquei uma semana sem conseguir sorrir. Tinha tantas dores nos músculos que parecia que tinha levado uma sova. Com este nível de intensidade não houve nenhum outro momento.

© Francisco Pereira/Observador

Diria que exigiram demasiado de si nessa altura?
Sou uma criatura muitíssimo forte e acho que os desafios vêm à medida da nossa capacidade. Talvez outra pessoa se tivesse assustado, fizesse aquele e não fizesse mais nenhum. Se está à minha frente, é para enfrentar e, se possível, para vencer. Depois daquele grau de nervosismo, de medo e de terror mesmo, tudo o resto seria sempre mais ligeiro. Mas perguntava-me o que é que ia acontecer depois de descer aquelas escadas. Era o “Perdoa-me”. ‘E se tropeço nas escadas? E se me esqueço de um bocado da frase?’ — não tinha a elasticidade mental que tenho hoje e que me permite falar de qualquer coisa o tempo que for preciso. Achava que se bloqueasse num parágrafo não ia conseguir dizer o próximo. Hoje, dá-me vontade de rir. Hoje digo os que forem precisos, durante o tempo que quiserem, basicamente. Levei logo ali um carimbo e, a partir daí, ready.

Quem era a Fátima nessa altura? De onde vinha?
Nasci no Barreiro, foi lá que passei grande parte da vida, tirando o período dos oito aos 11 anos, em que vivi em Moçambique. Isso foi extremamente importante, talvez o período mais importante na minha formação. Aqueles três anos em África ditaram muito da personalidade que tenho. Vivi situações que não foram fáceis para uma miúda de oito anos. A cultura era diferente, os hábitos eram diferentes, tudo era diferente, não tinha lá amigos, foi uma mudança absoluta. E eu era uma miúda um bocado agarrada às saias da minha mãe, assustada. Quando lá cheguei, levei uma chapada da vida.

A partir daí, passei a fazer-me à vida em qualquer circunstância. Só me fez bem. Por outro lado, havia um sentimento de liberdade, que em África se vive muito, de andar à vontade, de não nos importarmos muito com o que as pessoas pensam, de não valorizarmos muito a imagem. E o meu lado solidário. Estive lá depois da independência, numa fase de renascimento do país em que não havia praticamente nada, onde, para garantir a comida em casa, a minha mãe passava horas em filas, onde não havia lojas para comprar um brinquedo, onde não havia uma livraria para comprar um livro. Lembro-me dos livros todos que tinha na altura porque eram três, li-os umas 850 vezes. Foi importante estar numa escola moçambicana — a minha escola chamava-se A Luta Continua –, era a única branca da minha sala, das poucas que ia calçada e a única que levava lanche.

"Já vivi muitas situações profissionais em que estive muito nervosa, mas nunca nada que se compare a esse dia. Juro que achei que morria. […] Gravei e fiquei uma semana sem conseguir sorrir. Tinha tantas dores nos músculos que parecia que tinha levado uma sova."

Depois disso, fez outras coisas antes de chegar à televisão.
Venho de uma família humilde que me passou valores bastante fortes, aos quais sou extremamente fiel até hoje. Cheguei à televisão e era uma miúda sem experiência nenhuma de nada e sem contacto nenhum com este mundo. Trabalhava há algum tempo dentro da SIC, na empresa onde estava, mas a acompanhar outros apresentadores, a ensiná-los a fazer passatempos nos programas. Conhecia as pessoas, mas dos bastidores. Basicamente, pensei: ‘Porque não?’. Se não tivesse jeito, acabava ali. Tinha a minha licenciatura, trabalhava, tinha um ótimo cargo na empresa onde estava, ganhava bem, não era por aí. ‘Se tiver jeito e gostar, fico’, pensava. Foi o que aconteceu.

Comecei a trabalhar logo aos 19 anos, durante o segundo ano de faculdade. Tive oportunidade de escrever sobre teatro e sobre cultura para o Diário Popular. Foi a minha primeira escola. Depois, juntou-se a Rádio Minuto, onde também fazia crónicas sobre teatro. Fui sempre trabalhadora estudante. Mais tarde, tive uma experiência na Câmara Municipal de Loures. Eles tinham um departamento de comunicação e faziam muitos filmes sobre o concelho — históricos, culturais, etc — e precisavam de quem escrevesse os guiões. Fazia isso. Quando terminei a minha licenciatura, tive oportunidade de entrar para um grupo de comunicação, para uma revista de desporto, a Em Forma. Fui trabalhar na área do marketing, que era a minha área de especialidade. Ainda hoje, o marketing e a publicidade são uma paixão. Transitei da revista para a casa mãe e aí já era responsável pela comunicação do grupo, trabalhava os vários jornais e revistas.

Entretanto, deixei de me identificar com o projeto e comecei a candidatar-me a outras coisas. Passei para uma multinacional americana, cuja sede em Portugal tinha sido aberta por uma empresa espanhola. Era de lentes de contacto e óculos de sol. Entrei, fiz as formações todas. Hoje, quando entrevisto oftalmologistas, estou à vontade. Depois, deixei de gostar e comecei à procura. Uma das empresas que me chamou estava a formar-se em Portugal, com metade do capital português e a outra metade inglês. Era uma empresa de chamadas de valor acrescentado, que hoje toda a gente sabe o que é — os 760 e por aí adiante. Na altura, estava a nascer. E eu fui. Estava tudo a começar e gosto de começar os projetos de raiz.

"Diria que, às vezes, a televisão também entra para fora de pé. Na ânsia de querer surpreender, escolhem-se coisas que nem sempre são acertadas. E isto é transversal aos três canais."

A SIC era o cliente mais importante e o que garantia o grosso da faturação e eu, como era account manager, fiquei com a conta. Passei a ir a tantas reuniões que algumas pessoas achavam que trabalhava lá. Foi assim que o Rangel se cruza na minha vida. Um dia chama-me para uma reunião, o que era normal, e não me deu muitas hipóteses, mesmo à Rangel. Disse-me: ‘Olha, propus o teu nome para um casting de televisão’. Dei uma gargalhada e disse-lhe: ‘Ó Emídio, está a brincar’. ‘Não estou nada a brincar. Acho que tens jeito, tens características de apresentadora’ — aquelas coisas que só ele é que via e que ninguém tinha visto. Eu não sabia nada de televisão, não tinha experiência nenhuma, nem no meu curso tinha escolhido a área de Televisão, escolhi Marketing e Publicidade. Mas isso não lhe interessava nada. ‘É o ‘Perdoa-me’, vais buscar uma cassete para veres o momento da entrega das flores, recolhes a história e marcam o casting‘, disse-me. E aqui estou, 25 anos depois.

Em 25 anos, o que é que viu mudar na televisão?
Muita coisa. Tenho a sorte de ter vivido a fase de afirmação e expansão das televisões privadas. Quando comecei, a SIC tinha dois anos, a TVI um bocadinho menos, portanto, havia tudo para fazer. Tudo era magia, os milagres aconteciam, todos os dias se abria uma porta que o espectador nunca tinha visto. As pessoas nunca tinham visto bastidores. E havia uma série de formatos que nunca tinham chegado a Portugal — os talent shows, o “Perdoa-me” foi um dos primeiros reality shows. Hoje, olho para trás e dá-me vontade de rir, aquilo era do mais inocente que podia haver. Depois havia uma coisa que hoje as televisões têm muito menos: dinheiro. Isto é uma realidade, não vale a pena contornar. As privadas tinham dinheiro para investir. Era possível fazer um milhão de coisas para surpreender o espectador, para encantá-lo.

© Francisco Pereira/Observador

Os tempos evoluíram muito. Primeiro: a televisão já quase não tem segredos para o espectador. Ele sabe quase tanto como nós. Está familiarizado com tudo, fomos mostrando, fomos abrindo as portas. O desconhecido é sempre mais apetecível, precisamente porque não se conhece. Quando já se sabe como é, não tem tanta magia. Não que isso tenha feito com que a televisão perdesse o lado bonito. Continuo a ser uma apaixonada, é o que me preenche. Mas a verdade é que é muito mais difícil fazer diferente e fazer novo, já se fez muita coisa. Diria que, às vezes, a televisão também entra para fora de pé. Na ânsia de querer surpreender, escolhem-se coisas que nem sempre são acertadas. E isto é transversal aos três canais. Mas a vida não existe sem erros. Até quem dirige uma estação tem direito a cometer erros.

Mas era mais feliz a trabalhar quando começou?
Não. Apesar dessa magia, a sabedoria que tenho hoje pesa mais na balança. Sei saborear e consigo divertir-me porque domino a linguagem. Naquela altura, não. Era tudo desconhecido. Tinha as inseguranças e os medos de quem não tinha prática, de quem não sabia se aquela palavra ia resultar mal. Somos figuras públicas, estamos sempre a ser avaliados e isso pesava muito. Hoje, isso já não pesa. Sou muito transparente, às vezes demais, tenho sempre escrito na cara aquilo que penso. Mas também não quero mudar isso.

"Estou na TVI há oito anos e durante oito anos estive sempre a ganhar. […] Este é o quarto ou quinto formato que a SIC estreia à tarde e nenhum dos outros conseguiu ser vencedor. Às vezes ganhamos, mas na maior parte das vezes não ganhamos. Para mim é tranquilo, estou bem resolvida com isso."

Acha que as televisões generalistas estão em crise, uma crise criativa?
Não acho que estejam em crise criativa. O período é muito desafiante, é preciso pensar mais e ser mais estratega e criativo para poder fazer diferente. Para mim, isso é bom. Gosto da primeira liga, o campeonato distrital não tem tanta graça. Acho maravilhoso sentir-me desafiada. Como assim não temos nada de novo? Vamos apontar num papel o que já fizemos e vamos ver o que conseguimos inventar que seja igualmente bom e que ainda não tenha sido feito. A minha equipa até tem medo de mim, porque às vezes chego, pego no planeamento e altero tudo. Dá-me imenso gozo perceber que ainda me sinto desafiada e que ainda consigo sentir borboletas do estômago, como os miúdos. A televisão precisa disso. Não é uma crise. Fizemos muito, mas agora, para provar que continuamos a conseguir fazer diferente e melhor, temos de ir buscar os melhores dos melhores, não há hipótese. Hoje em dia, a televisão não se compadece da falta de profissionalismo — já não passa –, da falta de criatividade — já não passa –, da falta de rasgo — não passa. Projetos que não tenham estas três coisas estão condenados. E com o cabo aí, fortíssimo e com oferta para todos os gostos e feitios.

Durante anos, a TVI liderou as audiências. Recentemente, passou para o segundo lugar. Há uma responsabilidade acrescida neste momento?
As pessoas pensam que temos mais responsabilidade quando perdemos. Não. Perder é o mais fácil. Manter a liderança não sei quanto tempo é que é difícil. E chegar lá é um caminho. Estou na TVI há oito anos e durante oito anos estive sempre a ganhar, nunca perdi em projeto nenhum. Houve projetos que não correram tão bem em termos de audiências, como o “Let’s Dance”. Esse não saiu vencedor. Quando um projeto não vence, ninguém gosta gosta de assumir isso. Aquele não ganhou, ponto final. Os números eram bons mas não eram suficientes para ganhar. Não faz mal, foi ótimo na mesma.

O facto de um programa se manter oito anos no ar — e estou a falar do “A Tarde é Sua” — e oito anos a vencer é muito difícil. Este é o quarto ou quinto formato que a SIC estreia à tarde e nenhum dos outros conseguiu ser vencedor. Este sim, o da Júlia, está a ser um formato vencedor. Às vezes ganhamos, mas na maior parte das vezes não ganhamos. Para mim é tranquilo, estou bem resolvida com isso. Agora, não tenho mais responsabilidade por estar a perder. Tenho a responsabilidade de fazer com que o meu produto seja sempre um produto que me honre e que me deixe orgulhosa. Se sinto que um programa foi muito bom, chego à reunião que fazemos no final e digo à equipa: ‘Independentemente do resultado de amanhã, este é um programa vencedor. Porque a qualidade estava lá. Se o espectador não agarrar da mesma forma, tudo bem. Não quero ninguém beliscado na sua confiança. As pessoas levarão o seu tempo, mas acabarão por perceber a qualidade do nosso trabalho’. E a equipa tem noção disso.

"No mundo da televisão há muitos egos, há muita gente a achar que Deus Nosso Senhor gastou mais tempo com ela. Não gastou, lamento dar esta má notícia. Vem tudo do mesmo lado, vamos todos para o mesmo sítio."

Nós só começámos a perder depois da estreia da Cristina, porque há um efeito de arrasto que começa às dez da manhã e varre a antena toda. Mesmo assim, perdemos mas perdemos com diferenças pequenas. Digo sempre para a minha equipa: ‘Cheguem a casa e perguntem se têm orgulho no que fizeram hoje?. Se a resposta for sim, deitem-se tranquilos e levantem-se com a mesma energia. Se a resposta for não, no dia a seguir têm obrigação de fazer melhor, que é o que faço’. Há dias em que faço entrevistas que me deixam mesmo orgulhosa e o espectador não pegou, preferiu ver a Júlia. Está tudo bem, isso não me afeta. No passado já me afetou, hoje em dia não. Não sou mais responsável por perder, sou sempre muito responsável em relação à qualidade do produto que apresento. Nisso, mesmo quando ganhava, era implacável. Tenho tanto de querida com a minha equipa como de exigente. O meu diretor dizia: ‘A Fátima é tão exigente que chega a ser chata’. E sou mesmo. Trabalho para a primeira liga. E o meu espectador merece que sirva todos os dias uma bandeja com comida gourmet. Se não for gourmet, então não vai dar. Esta sou eu a trabalhar.

Pede à equipa que faça essa reflexão ao final do dia. Ao longo destes anos, orgulhou-se sempre do que fez?
Não, de todo. Uma pessoa que diga isso, das duas uma: ou está a mentir ou tem um ego maior do que ela própria. E se assim for, o melhor é procurar urgentemente um psicólogo, porque há qualquer coisa que não está bem. Uma pessoa que tem um ego maior do que ela própria é alguém que tem tudo para aprender enquanto pessoa, que é muito pouquinha. Não quero isso. Falhei milhões de vezes. Há dias em que chego à reunião e, se tiver feito uma coisa menos bem feita, a minha equipa diz-me. Toda a gente tem à-vontade para me dizer as coisas, porque as estrelas estão no céu e na terra somos todos pessoas. Têm de me dizer para eu crescer. Toda a gente tem aquele dia em que acorda com os pés de fora e não faz as coisas bem. Quando percebo que não fiz alguma coisa bem, antes de abrirem a boca, sou a primeira a pedir desculpa. Se as pessoas aceitarem o seu lado humano, que pressupõe falhar, é tudo muito mais fácil. No mundo da televisão há muitos egos, há muita gente a achar que Deus Nosso Senhor gastou mais tempo com ela. Não gastou, lamento dar esta má notícia. Vem tudo do mesmo lado, vamos todos para o mesmo sítio. Não vale pena. Aquela coisa do ego insuflado e de merecer um tratamento diferente porque apresenta programas. Somos só pessoas, vamos lá normalizar isto. E esta é a minha forma de levar esta profissão para a frente. Quanto mais normal é a minha vida, mais feliz sou. Pode parecer estranho, mas é o que é.

© Francisco Pereira/Observador

Há algum programa ou formato que tenha sido mais especial?
Prefiro destacar um tipo de formato que gosto particularmente de fazer. Gosto quando tenho tempo para falar com as pessoas e ouvi-las, que é o que acho que sei fazer melhor. E é muito difícil saber ouvir em televisão, porque o silêncio incomoda muito. Quando, de repente, um convidado se cala e não há nada, é um desespero, quer dizer, pode ser um desespero. Hoje, já tenho uma relação saudável com o silêncio. Face a isto, destacar um programa não seria justo. Gosto quando há tempo para conversar. No “Conta-me Como És”, que está no ar, tenho 50 minutos para falar com uma pessoa. Dá para tudo. Formatos como a “A Tarde é Sua”, que têm um bocadinho de tudo mas que vivem a 95% de conversas, é aquilo de que mais gosto. Gosto muito de entrevistar uma dona Maria que vem de Trás-os-Montes, que não sabe ler nem escrever, mas que tem uma história de vida riquíssima. Só me posso sentir grata. Ela é tão importante como o professor catedrático que entra a seguir.

Ainda na SIC, há um altura em que deixa o horário nobre e passa para o day time. Isso redefiniu até hoje aquele que é o seu público. Foi uma mudança feliz?
Nessa altura, não tinha conhecimentos nem experiência para avaliar essa mudança. Hoje, a esta distância, sei avaliá-la. Começo em horário nobre. Vou corrigir: não gosto da expressão, é prime time, porque horários nobres são todos e os mais difíceis de fazer são os do day time. Um apresentador de day time pode fazer qualquer formato em prime time. Um apresentador de prime time pode não saber fazer um formato de day time. Porquê? Porque é um carrossel de muitas coisas. É preciso estar com uma senhora que vem explicar como é que se faz a poda das árvores e a seguir entra uma mãe que perdeu um filho e a seguir ainda entra um médico a explicar quais são as novas técnicas para combater um tipo de cancro. Este carrossel é a nossa vida e é difícil de conduzir.

"Apanhei uma fase em que estava a haver um desinvestimento absoluto nos programas, em termos financeiros. Esperavam que fizéssemos omeletes sem os ovos. […] Surpreendeu-me muito que, depois de ter vindo embora, tenha havido uma revolução interior. De repente, percebi que os projetos do day time estavam cheios de dinheiro."

Fiz três formatos em prime time. Passaram-me para day time com um programa gravado, o “Fátima Lopes”. Tinha entrevistas, um tema, seis convidados. A Fátima Lopes estava a desenhar-se ali e eu não sabia. Ela só se desenha quando passa para o day time e com o programa de entrevistas, é nisso que sou boa. Dois anos e meio depois, passo para o “SIC 10 Horas”, a minha primeira experiência em direto. A partir daí, encontro-me enquanto apresentadora e percebo que o que mais me define é a minha capacidade de conversar e escutar. Se me puserem num programa em prime time, onde a base é o glamour, também gosto. Mas o que me define é a conversa. Essa mudança foi o melhor para mim, o que me permitiu estar aqui, 25 anos depois. De outra forma, poderia ter sido só mais uma, podia ter ficado pelo caminho e, se calhar, estar a fazer outra coisa qualquer.

Mas parece que esta divisão já se começou a diluir na programação das televisões.
Essa importância está muitíssimo diluída e aí há um grande mérito da TVI. Digo isto olhando para os três canais. Lembro-me de ainda estar na SIC e de ficar muito admirada como é que na TVI os apresentadores que faziam day time também faziam prime time. Faziam tudo. Tinham qualidade? Então circulavam nos vários horários. Na SIC, isso não acontecia e eu ficava muito espantada. Mas a TVI teve o mérito de ir esbatendo esse tipo de avaliação — ou se tem qualidade ou não se tem qualidade, ou se tem competência ou não se tem competência. Vamos deixar de espartilhar as pessoas e de lhes pôr rótulos de horários.

Quando vim, e porque o meu filho era muito pequenino ainda, pedi para ficar a fazer day time. Queria muito ser mãe durante mais tempo e a TVI respeitou isso. Durante dois anos e tal ou três, não me puseram noutros formatos que sobrecarregassem muito a minha agenda. Quando achei que estava preparada, disse ao meu diretor. Nem dois meses depois, estava a convidar-me para fazer os “Pequenos Gigantes”. Nesta casa, tenho a possibilidade de circular nos vários horários conforme os projetos. Vou se o projeto me interessar, senão digo ao meu diretor: ‘Não me identifico muito com isso’. E está tudo bem, não há problema. Mas sim, hoje em dia, começa a cair esta expressão do horário nobre. Horários nobres são todos. Quem está às três da manhã também é nobre, nem que esteja ali a servir quatro pessoas.

"Se não me ouvem, não me valorizam. […] quando se dá a Fátima como um dado adquirido, está na altura da Fátima ir embora."

Falando da mudança de casa, da SIC para a TVI, foi mais um daqueles momentos em que se fartou de um sítio?
Tenho de ser desafiada, não sou mulher de levar uma rotina durante muito tempo. Gosto que, de vez em quando, me agitem o tapete e que tenha de fazer algum malabarismo para me aguentar lá, ou então saltar. A vida tem de ter sal, se fica flat é uma seca. Ao fim de 16 anos na SIC, já não era desafiada. Primeiro, porque quem estava naquele horário não experimentava outros projetos. Portanto, há muitos anos que não me era dado nada de novo. Isso estava a matar-me aos bocadinhos. Por outro lado, e depois destes anos todos penso que se pode falar disto com tranquilidade, estava a acontecer uma outra coisa. Apanhei uma fase em que estava a haver um desinvestimento absoluto nos programas, em termos financeiros. Esperavam que fizéssemos omeletes sem os ovos. Deparei-me com uma situação muito difícil: tentar fazer televisão de qualidade sem ter recursos mínimos. Não estou a falar de extravagância, estou a falar de mínimos, de ter uma equipa com capacidade para fazê-lo com qualidade a semana toda e com alguma capacidade para fazer coisas que surpreendessem o espectador. E não havia capacidade interna para perceber que de uma televisão totalmente desinvestida, neste caso de um programa sem investimento nenhum, não se podem esperar milagres de Fátima. Não se pode esperar que, não se plantando nada, vá nascer alguma coisa. O extraordinário é que, mesmo assim, nascia. Falo do “Vida Nova”, o meu último projeto na SIC. Eu e a minha equipa vivíamos em desespero, a tentar fazer diariamente um programa sem saber como. Mesmo assim, fazíamos números acima dos números da estação, era considerado um projeto vencedor.

Fui chamando a atenção, mas ninguém percebeu, ou ninguém quis perceber, ou ninguém quis aprofundar a gravidade que era um projeto dar mais por desinvestimento. Porque ele tinha capacidade para mais. Eu sabia que aquele projeto podia beliscar os pés à TVI, como beliscou tantas vezes. E quando as pessoas não ouvem, entramos ali num processo autista. Se não me ouvem, não me valorizam. Olham para mim e pensam: ‘Ah, ela está a dizer estas coisas mas ela é a Fátima e a Fátima está cá há muitos anos. Ela já é da casa’. Pois, quando se dá a Fátima como um dado adquirido, está na altura da Fátima ir embora. Por isso, vim embora. Vim para servir bem aqueles que me puseram aqui estes anos todos, os espectadores. Se não tenho meios para servi-los com qualidade e é para baixar o patamar, então isso já não sou eu, é outra pessoa qualquer.

© Francisco Pereira/Observador

Tendo em conta que foi a estação onde deu os primeiros passos e onde ficou 16 anos, sentiu-se traída?
Ninguém me traiu. Não fui devidamente valorizada e não fui ouvida. Se tivesse sido ouvida, se tivessem tido noção de tudo o que já sabia de televisão, se calhar tinham percebido que era melhor fazer alguma coisa para salvar o programa e a própria estação, no sentido em que umas coisas levam às outras. Não sou mulher de mágoas, nem com empresas nem com pessoas. As mágoas trazem muitas coisas negativas, muito azedume interior e não estou para isso. Não me apetece ter problemas de estômago. As relações de amizade que tinha mantenho até hoje e passaram oito anos. Temos de separar as pessoas dos projetos, até porque, por vezes, elas funcionam com a cabeça da empresa. Nem é aquilo que elas querem, mas têm de respeitar as diretrizes que vêm de cima. O meu tempo terminou ali. Surpreendeu-me muito que, depois de ter vindo embora, tenha havido uma revolução interior. De repente, percebi que os projetos do day time estavam cheios de dinheiro. Pensei: ‘Uau. Afinal fui eu que não soube gritar suficientemente alto ou que não soube fazer bem’. Porque afinal havia capacidade.

Em algum momento se arrependeu dessa decisão?
Em nenhum. Não sou mulher de arrependimentos. Acredito que tomo sempre a decisão certa face à informação que tenho naquele momento. Naquele momento, li as coisas daquela maneira. Se me perguntarem o que acho hoje, digo que estava certa. Vim para uma casa que não me olhou como um dado adquirido, uma casa que achou que tinha de desenhar um projeto de carreira para mim, que achou que eu ainda tinha muito para mostrar ao espectador e eu queria sentir isso. Já fiz montanhas de coisas novas nesta casa que nunca tinha feito. Portanto, para mim já está ganho. A vida vai andando. Hoje estou aqui, amanhã posso estar noutro sítio qualquer. Posso cansar-me da televisão e dedicar-me mais às palestras e às formações. Não sei o dia de manhã, mas também não quero saber hoje. Quando lá chegar, logo vejo.

"Em televisão não há postos, mas é que não há mesmo. […] é uma máquina trituradora."

Quando dizemos que a idade é um posto, referimo-nos sobretudo à experiência. Há postos na televisão?
Em televisão não há postos, mas é que não há mesmo. A televisão é uma máquina trituradora. É linda e maravilhosa, dá-me muito daquilo que preciso para ser feliz, mas é uma máquina trituradora. Hoje, podemos ser bestiais e amanhã, desculpem a expressão, umas bestas. Todos os dias temos de provar porque é que merecemos estar naquele sítio. Todos os dias, não é num balanço que acontece a cada seis meses. Então para quem faz day time, às 9h30, todos os dias, sai o veredito. Todos os dias tenho de provar que mereço estar ali. Se não for uma pessoa focada, com a capacidade de analisar o próprio trabalho e sentido crítico, posso deixar que a máquina trituradora me engula. Ou seja, na fase presente: o programa ganha muito menos vezes do que ganhava e eu posso confundir isso com a minha pessoa, pensar que se calhar já não sou suficientemente capaz, que talvez esteja a perder alguma competência. Não. Sei que é uma máquina trituradora, mas não faço tenções de me deixar engolir por ela. É assim, funciona assim, não há postos. E todos os dias chegam pessoas novas e algumas com imenso talento. Amanhã, pode vir uma pessoa que faz tão bem ou melhor do que eu.

Aí, a passagem do tempo pode ser um elemento penalizador?
Não. Acho que, também na evolução da televisão em Portugal, chegaremos um dia ao que acontece nos Estados Unidos e em Inglaterra, onde temos apresentadores com idades bastante maduras e que estão lá. Apresentadores e jornalistas que continuam a ser as grandes referências. Não interessa se têm muitas ou poucas rugas, eles são a prova da sabedoria. Sinto que, em Portugal, estamos finalmente a caminhar para aí. Porque se nos agarrarmos só à frescura física, ela é muito pobrezinha. É tão bom ter esta idade. E espero chegar aos 60 e dizer: é tão bom ter 60 e por aí adiante. Temos o Júlio Isidro. Continuo a ver as entrevistas dele para aprender. É um apaixonado por aquilo que faz e quando se faz com paixão, esqueçam lá a idade. As pessoas de quem gosto de ver entrevistas para aprender são o Júlio e o Manel [Luís Goucha], que são mais velhos do que eu um pedaço. Portanto, acho que a idade começa a ser nossa amiga em televisão. Mas antigamente não era.

Mas as pessoas não continuam a ser um pouco cruéis? Na sua conta de Instagram, por exemplo, é possível ver alguns comentários menos simpáticos sobre o que deve ou não vestir em público.
Não posso valorizar esse tipo de comentários. Essas serão, seguramente, pessoas com uma autoestima ao nível do chão. Lamento. É um problema delas, não é meu. O que é isso de ‘não tem idade para’? Onde é que isso está escrito? Mostrem-me o livro onde está escrito a idade até onde se pode fazer, dizer, usar o que quer que seja, com uma justificação que considere cabal. No ano passado, por causa disso, publiquei uma fotografia minha de biquíni, de propósito. Estava com 49 anos e disse: ‘bora lá’. Foi exatamente para ver as reações das pessoas. Portanto, 90% das pessoas disseram: ‘boa’, ‘coragem’, ‘importante’. E depois vieram os puristas e os puristas são os tais do ‘não tem idade para’. Só pergunto: porquê?

"Tenho uma boa autoestima. Se calhar há uns anos não a tinha, mas tenho procurado trabalhar para ultrapassar aquelas que foram as ideias sobre mim própria que me fizeram menos bem. […] faço um trabalho com uma psicóloga há cinco anos."

A propósito disso, escrevi um texto sobre empowerment feminino, uma coisa extremamente importante e uma mensagem que estou sempre a passar. Na generalidade dos casos, as mulheres têm muito baixa autoestima e posso assegurar que as pessoas que fizeram esses comentários também têm uma autoestima muito baixa. Olham para mim e fazem, por comparação com a vida delas, aquele comentário. Só posso dizer que lamento. Tenho uma boa autoestima, fiz para isso. Se calhar há uns anos não tinha, mas tenho procurado trabalhar para ultrapassar aquelas que foram as ideias sobre mim própria que me fizeram menos bem. Não fiquei aqui parada de braços cruzados à espera de um dia acordar a dizer que sou linda e maravilhosa e vamos lá gostar de mim. Não, faço um trabalho com uma psicóloga há cinco anos. Faço todo um trabalho de desenvolvimento pessoal para ir buscar ferramentas, porque quero gostar de mim. E hoje, gosto muito de mim. Adoro-me. Amo-me. Sou a pessoa mais importante da minha vida e, aliás, a única que nunca me vai abandonar e que me vai acompanhar até ao fim dos meus dias.

Como é que posso reduzir-me a uma imagem em biquíni ou de um bocado de celulite que se veja ou de um pneu? Vai aparecer tudo, não vale a pena ter ilusões. As rugas vão chegar, a barriga vai ficar flácida um dia, as estrias vão chegar — é o tempo a andar, nós não conseguimos parar isso. Então, porque é que nos matamos em vida por causa de uma suposta idade para isto ou para aquilo? Porque é que não posso usar biquíni ou publicar fotografias em biquíni por ter uma certa idade? Quem disse que tenho de matar o biquíni aos 49 anos? Sinto-me bem e só interessa isso.

A fotografia em biquíni publicada por Fátima Lopes no Instagram, em abril deste ano

Acho que nós, figuras públicas, temos esse dever. A Jessica [Athayde] tem feito este trabalho, que não é fácil, de passar esta mensagem. Ela foi muito castigada quando desfilou e acharam que não tinha as medidas. Achei isso execrável. Ela não é modelo, ela foi fazer uma coisa que lhe deu gozo e foi mostrar que as mulheres normais também podem. Mas há quem viva muito mal com o conceito de normalidade e que queira que todos nós sejamos da estratosfera. Não somos, somos pessoas. Porque é que um criador não pode convidar uma mulher de 60 anos para desfilar com uns calções e um top, mesmo que se veja a pele marcada? Essas pessoas não têm direito? Não há moda para elas? Não há beleza para elas? Não há glamour para elas? Não compactuo com isso.

As mulheres continuam a ser os principais alvos desse tipo de preconceito?
Continuam a ser os alvos de uma sociedade, em primeiro lugar, machista. Mas o mais grave é que esses comentários, normalmente, vêm da parte de mulheres. São as mulheres que fazem essa avaliação em relação às outras. É por isso que escrevo tanto sobre empowerment feminino. Chega de se maltratarem umas às outras. Reúnam a energia e façam coisas bonitas. Ajudem-se. Dêem apoio.

"Porque é que não posso usar biquíni ou publicar fotografias em biquíni por ter uma certa idade? Quem disse que tenho de matar o biquíni aos 49 anos? Sinto-me bem e só interessa isso."

Antes dos 50 anos, decidi fazer uma viagem sozinha e partilhei isso nas redes de propósito, porque é importante. Não tenho marido nem companheiro e fui sem filhos, mesmo que eles viajem comigo quase sempre. Fui comigo própria, 24 horas por dia. Porquê? Queria confirmar que me basto. Gosto da minha companhia, sinto-me feliz e quis passar esta mensagem. As mulheres são, muitas vezes, as mais duras com elas próprias. Agarrem-se ao que é importante, aos valores que nos acrescentam e não que nos diminuem, que nos valorizam e não que nos empobrecem. Fui à procura de estar comigo e correu bem, percebi que posso ir mais dias. Estava mesmo feliz. O universo é muito generoso comigo, foi mandando uns presentinhos nestes três dias. De repente, cruzava-me com uma pessoa com quem começava a conversar. Era daquelas coisas que dizia: ‘Se isto não é lá em cima, não sei de onde é que mandam esta pessoa’. Sou assim, um bicho um pouco à parte.

E em televisão, o facto de ser mulher alguma vez a fez sentir-se mais vulnerável?
Isso não. No meio televisivo, sinto-me tratada de forma igual, quer em relação às minhas colegas, quer em relação aos homens. Na minha experiência, nunca me senti diminuída ou tratada de forma diferente. Sou de trato muito fácil, mas sou uma mulher muito forte. Não me põem os pés em cima porque não deixo.

© Francisco Pereira/Observador

Pegando na expressão das ferramentas de que se mune, a fé, como a vemos explicada no novo livro, tem sido uma delas?
Tenho a minha fé muito particular. É uma fé/espiritualidade por ser muito flexível e ampla. Nasci numa família católica e toda a minha aprendizagem foi católica. Na família há um tio padre e uma avó que assistiu a uma das aparições de Fátima, por isso, fui recebendo esta base. Nasci a 13 de maio, ainda por cima à hora de uma das aparições, então as minhas avós disseram que tinha de ser Fátima, desse por onde desse. Esta fé acompanhou-me sempre e sempre foi uma força. A minha mãe disse-me sempre: ‘Tu nasceste num dia abençoado. Quando a vida te atravessar alguma dificuldade, lembra-te que nasceste com uma estrela maior, por isso vais sempre superar’. E isto ficou, está cá. Mas fui acrescentando outros tipos de espiritualidade. O Papa Francisco fala nisso muitas vezes. É o Papa que mais procura integrar espiritualidades e não demarcar a sua. Do Budismo à meditação, na minha, entra isso tudo e tudo convive bem. Este livro [Fátima. O meu caminho, a minha fé] foi uma necessidade de, para já, partilhar com as pessoas o que foi a minha experiência enquanto peregrina. Fiz duas peregrinações a Fátima e senti-as de forma completamente diferente. E queria partilhar a minha peregrinação na vida. Do que é que tem sido feito o meu caminho? O que é que tem dado luz a este caminho? O que é que a vida me tem ensinado? O livro é o resultado disso tudo, é muito pessoal. E é a minha visão, vale o que vale.

Presumo que uma peça importante nessa peregrinação seja a sua família, em particular os seus filhos. Imagina-se a encorajá-los a seguir uma carreira em televisão? Ou tentaria dissuadi-los?
Uma boa mãe não encoraja nem dissuade, diz-lhes que sigam o coração. Às vezes, na pressa de querermos proteger, atropelamos. É preciso ter cuidado. A minha sobrinha e afilhada resolveu ir para o mesmo curso que eu. Está segura, vê-se a fazer isto o resto da vida, então estou aqui para ajudá-la. Acho que tem de ser assim. Ajudar o outro a questionar-se — se é uma questão de ímpeto, se é porque acha giro, se é porque acha que aquilo dá fama, isto porque hoje em dia as pessoas querem ser famosas, quando ser famoso é não ser nada. Se um filho me disser que quer seguir televisão, se me disser que está seguro, que vá. Ele que se questione porque também me questionei. Toda a vida disse que queria ser professora de inglês. No 10º ano, cruzo-me com uma professora de jornalismo. Ela era tão apaixonada a falar. Tinha meio metro mas quando falava ficava com cinco. Cheguei ao 12º ano e algumas pessoas da família viraram-se para os meus pais: ‘Vocês vão deixar a miúda escolher comunicação social?’. Lembro-me da resposta da minha mãe: ‘É o sonho dela, não lho vou cortar. Se não vingar, ela há-de encontrar outra solução’. Obrigada, mãe, que ainda aqui estou.

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