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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Nádia Yracema: “Aceitamos papéis estereotipados porque não temos outra opção” /premium

Este sábado, dirige "As Palavras do Corpo", leitura encenada a partir de Maria Teresa Horta, no São Luiz. Mas há muito mais a saber quando Nádia Yracema está por perto. Esta conversa é só o início.

O ar move-se quando Nádia Yracema (Naná, para os mais próximos) entra em palco. Como que saindo da frente, deixando passar. Já cristalizou olhares e corações sob a batuta de gente tão distinta como Rogério de Carvalho, Tiago Rodrigues, Tiago Vieira, João Pedro Mamede, Mário Coelho, Bouchra Ouizguen ou Sara Carinhas. Sempre com tanto rigor e uma energia difícil de encontrar. Agora, é tempo de dirigir, ainda que a estreia seja uma leitura encenada, para não ser logo um espectáculo a frio, cuja pressão seria substancialmente maior. Em busca do corpo, feminino, negro, aqui se escuta As Palavras do Corpo e as palavras de Maria Teresa Horta.

Nasceu em Angola, passou pela Alemanha e, aos 11 anos, chegou a Évora. No liceu, passou da mesa solitária que habitava com livros, para o palco, grande, com gente à frente. Percebeu que comunicar também era interessante. Foi para Coimbra estudar Direito, mas o teatro ganhou a corrida. Para nossa sorte. Em setembro, no Teatro Nacional D. Maria II, apresenta, com Isabél Zuaa e Cleo Tavares, Aurora Negra, um espectáculo que venceu a última edição da Bolsa Amélia Rey Colaço e onde serão as protagonistas da sua história. E talvez o espectáculo possa derrubar estigmas dentro do meio artístico. Melhor ainda se galgar as suas cancelas. Está na hora de acordar.

Como é que surgiu esta oportunidade para dirigir uma leitura encenada no São Luiz?
Faço parto do projeto “Meninas Exemplares”, que é dirigido pela Sara Carinhas e tem que ver com umas leituras e com uns textos de uma d’as Três Marias. Começou o ano passado e já estivemos com ele em várias cidades e, entretanto, o São Luiz encomendou mais três leituras e a Sara deu-me carta preta para poder fazer aquilo que quisesse, o que foi uma surpresa e um convite inesperado.

É uma estreia na encenação, que é uma leitura encenada, é isso?
Sim, sim, nunca o tinha feito. Mas estou muito contente com o convite, por ter esta liberdade na escolha de quem vai estar em palco, que vozes se vão ouvir. O facto de serem leituras no feminino, o elenco ser todo de mulheres, as autoras também serem mulheres…

Este ciclo, o Takeover#2, convite do São Luiz às Causas Comuns, apresenta textos escritos por mulheres, dirigidos por mulheres. Porquê este texto em particular, As Palavras do Corpo, que tem uma particular poética relacionada com o erotismo e que é de Maria Teresa Horta.
A minha ideia era mesmo esta, era conseguir fazer uma viagem pelo corpo da mulher e através das palavras. É o segundo volume da Poesia Completa da Maria Teresa Horta, e tem que ver com uma parte muito específica que é a poesia do corpo, ou seja, a poesia do dedo, da pele, do clítoris, da vagina, do joelho, e pensei que essa viagem pelas palavras podia concretizar-se cenicamente muito bem. São textos de empoderamento, prazerosos, e que exaltam o feminino. É ousado e pensei: porque não?

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Descobriu palavras no seu corpo, durante este processo?
Também. E pensei em lugares nos quais se calhar nunca pensamos neste tipo de construção, sei lá, ela tem um poema dedicado ao seu dedo mindinho e não se pensa muito sobre isso. Ou um outro dedicado à axila, então são lugares não tão comuns, normalmente falamos da boca, dos seios, e de repente há o umbigo, a axila, o joelho, acho que se relaciona com esta ironia de partes menos exploradas. E também com esta questão de o que é o corpo da mulher, porque, por exemplo, a Maria Teresa Horta também fala sobre o pénis, ainda que esteja a falar do corpo da mulher, então também traz toda uma outra questão, a questão dos transexuais, que também tenho no meu elenco, a Tita Maravilha, e que também me parece que é um dos temas deste ciclo. Que padrão é que existe, que padrão é que tem de ser desconstruído. Acho que nos desafia nessa linha de pensamento.

O corpo interessa-lhe particularmente, lembro-me, por exemplo, do LIMBO, o último espectáculo da Sara Carinhas, que tinha uma dimensão dançada ou coreográfica relativamente forte. Mas aqui estamos mais no terreno do teatro de texto, certo?
Não só, acreditar que podemos ser ousadas. Sim, tem que ver com palavras, com certas palavras que se querem percetíveis e que cheguem àqueles que nos vierem ver, mas ao mesmo tempo gosto de desconstruí-las e de usar o corpo no palco. Ou seja, não vai ser uma leitura sentada e estática. Também temos a Ágata, que é uma DJ brasileira, agora residente em Portugal, Cigarra de nome artístico e que também vai trazer essa vertente: como é que se pode dizer poesia com música e um beat por trás? Não sei bem. Há uma coisa que me tranquiliza que é o facto de a leitura encenada ter um lugar de improviso e de não ter que ser encenada ao limite, se não seria um espectáculo e não uma leitura. Isso deixa-nos um bocado mais livres na nossa interpretação. Estou muito contente por ter este olhar de fora e até agora ainda não decidi se vou participar ou se vou só ficar a ver.

Há uma ideia de cenário, ou é mais informal do que isso?
Não, até agora temos as cinco cadeiras, que poderão ser usadas ou não, um microfone, uma pequena mesa.

Já é um cenário.
Sim, é verdade, temos um cenário de cinco cadeiras e uma mesa.

Estamos perante um texto que fala do corpo. Estes corpos, que lerão estas palavras, não são os mesmos, agora que uma pandemia assola o mundo. Isso tem estado presente no processo ou, de alguma forma, estar em palco é também uma forma de pensar menos no assunto?
Acho que acabamos sempre por carregar esta transformação que a pandemia nos trouxe, não é? Só o facto de só poderem estar x pessoas numa sala ou não poder estar a menos de dois metros do público… A questão está sempre presente, nem que seja para aqueles que nos vão ver, porque sim, estamos em palco e não temos máscara, mas antes de entrarmos temos todo um processo que nos relembra que os tempos são especiais e específicos. Não será propriamente na palavra que estará em cena, mas em tudo o que está à volta. E mesmo para mim, será a primeira vez que regresso a um teatro, ainda não estive num palco. Reocupar o espaço e pensá-lo de outra maneira.

Essa ideia de espaço, acompanha-se desde cedo? Foi uma das coisas que a levou a ser atriz.
Nasci em Angola, em Luanda, em muito pequena fui para a Alemanha, depois regressei para Angola e com 11 anos cheguei a Portugal, a Évora. Ou seja, logo aqui neste início tenho o lado da família e da floresta e do mar, muito presente em Angola. Da vida em liberdade, mas também em guerra, a infância na rua, com os primos e com as correrias e sem noção do tempo. E depois, na Alemanha, foi outro tipo de contexto.

Em que cidade?
Rostock, no Norte, que era uma cidade onde a extrema-direita era muito ativa e ainda continua a ser infelizmente. Havia esta coisa que costumo chamar “síndrome da preta única”, lembro-me de ser isso, ser a exótica, a chocolatita, aquela que todos queriam proteger de alguma maneira, porque era a única. Mas também foi bonito porque tive uma professora que foi uma avó para mim.

Tinha que idade?
Fui para a Alemanha com 3 e até aos 9, julgo.

Depois regressa a Angola.
Sim, onde fico até ter 11 anos. Chego a Portugal em 1999, em Janeiro. E vou viver para Évora.

Uma cidade tipicamente do teatro.
Foi uma cidade desafiante. Fui com os meus pais, o meu pai estava a estudar e a minha mãe, apesar de ter toda uma formação superior, sempre foi a mulher das limpezas ou a cozinheira. Estive em Évora até aos meus 18 anos, depois vou para Coimbra.

Para estudar.
Estudei em Coimbra… Direito. Sim, comecei pelo Direito, embora tenha sido em Évora, no ensino secundário, que a minha ligação com o teatro apareceu. Não sei, sempre fui muito mais dos livros. Há pessoas que dizem, “sim, desde muito pequena que sei que quero representar”. Não, nada disso. Nunca tive essa coisa. Sempre fui dos livros, da literatura, de ficar meio nesse mundo solitário ou mais isolado. Mas depois no liceu fui para um grupo de teatro e a minha professora, Teresa Rodrigues, disse-me que podia ser bom ir para Coimbra. Nesse ano, foi o TEUC [Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra] a abrir audições e inscrevi-me, ao mesmo que me inscrevi na Faculdade de Direito e fiz esses dois percursos em paralelo. Depois, claramente, um venceu.

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O Direito perdeu.
Sim, ficou pelo caminho. O TEUC é que foi uma grande escola, aprendemos a fazer de tudo, não era só representar, era sermos membros da direção, sermos tesoureiros, produtores.

Era uma companhia.
Sim, gerida por nós, jovens. Isso foi das escolas mais completas que tive. Depois vim para Lisboa e estive no Conservatório a fazer a formação superior e também foi um desafio. É a questão da Academia, não é? É uma boa escola, mas sempre com esta visão eurocentrada, onde é muito difícil romper e trazer outro tipo de textos, outro tipo de pensamentos.

Dizia que era sobretudo uma rapariga dos livros. Existiu algum episódio que a fez perceber que, se calhar, o palco também era um sítio interessante?
Foi mesmo o começar a fazer, foi quase um acidente, foi um amigo que disse “vamos”, e de repente… sim, gosto de contar histórias, sim, gosto de fazer com que as pessoas se sintam bem, gosto de ouvir, gosto de comunicar, de repente as coisas foram fazendo sentido. Digo muitas vezes que aquilo que procurava no Direito, esta coisa do pensar o presente, de nos questionarmos, de alterar as leis, de criar leis que protejam pessoas que estão em situações mais desfavoráveis, não sei, tudo aquilo que achava que ia fazer com o Direito, podia fazer com o teatro. Isso foi uma revelação, foi na faculdade que percebi isso, essa sede de mudança que tinha, depois de perceber que a Academia é o sítio mais fechado onde já estive, perdeu-se. Era ingénua, achar que ia chegar à faculdade e questionar os professores e provocar. Não, eu lia os livros dos meus professores, tinha que escrever nos exames aquilo que os professores tinham dito, quase todos homens brancos. E de repente perceber que o que queria fazer com o Direito podia fazer com a arte, esta coisa de nos questionarmos, de olharmos o presente.

Fala em “homens brancos” e “olhar o presente”. Suponho que esteja atenta às questões raciais que têm estado na ordem do dia, nos EUA, Portugal e no resto do mundo…
É tudo muito intenso e complexo. Estes movimentos não são de agora, não é? O que aconteceu com o George Floyd acontece quase todos os dias, e não só nos Estados Unidos, acontece em muitos outros lugares. Em Portugal tivemos o caso de brutalidade, sem qualquer justificação até ao momento, da Cláudia Simões. Não morreu, mas foi espancada e na altura não se levantaram tantas vozes como agora se levantaram. Questiono-me sobre isso, parece que só levantamos a voz quando é muito longe e esquecemo-nos de olhar para dentro e perceber que isto também acontece em Portugal. É violento. Cresci em Évora e nos meus livros de História tinha que escrever “escravos”, “pretos”, “ouro” e “marfim”, tudo na mesma frase, logo aqui alguma coisa está errada, isto para poder ter uma boa noite e compactuar com uma história que só conta uma versão. Esta ilusão da conquista e do Portugal que descobre e que salva e que evangeliza, por assim dizer, humaniza os povos que vai encontrando, é completamente falaciosa.

Como mudar?
Se não conseguirmos alterar este discurso, pelo menos nas escolas, a começar por aí, temos um problema.  Se as pessoas crescem a acreditar que a história é apenas a do branco, país conquistador, é falso. Se é este o discurso que prevalece, temos problemas. Se até hoje não conseguimos perceber que Portugal é um país com uma diversidade cultural enorme e acabarmos com este mito da segunda e terceira geração, é uma mentira porque estamos aqui desde o século XII. Tentarmos olhar para a nacionalidade de outra maneira, que é uma questão que se discute cada vez mais. O que me contenta neste momento é que o discurso começa a ser não só nosso, das pessoas não-brancas, e começa a ser da sociedade. Essa é a verdadeira questão: o racismo não tem que ser falado pelos negros ou pelas pessoas não-brancas, não é uma questão nossa, é uma questão de toda a sociedade. Agora, lentamente, começa-se a trazer o debate para um todo. Houve agora esta manifestação anti-racista, é uma piada do Chega. Nesse dia, saio do ensaio, estou a ir para casa de bicicleta e apanho dez pessoas no Martim Moniz que começam a fazer sons de macaco e a dizer-me “preta vai para a tua terra”. Estes episódios acontecem todos os dias. Não são uma realidade paralela. Mesmo no mundo das artes…

No palco?
Claro que sim. Não são só os papéis estereotipados, nunca há um casting para atriz, é sempre para a atriz negra, e logo aí pensamos “mas porquê?”. A minha cor não é a minha profissão. Há este lugar do pensamento, no qual parece que só podemos fazer parte desta corrente se obedecermos aos padrões estereotipados que esperam de nós. Por exemplo, fazer um filme e na caracterização não haver a base do meu tom de pele porque ninguém reparou, ninguém quis saber.

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Ninguém se lembrou.
Claro, e isso é uma falta de respeito. Também não é bom continuarmos a achar que uma atriz negra não pode ser uma Clitemnestra ou uma Cassandra. Ou uma Julieta. Agora estou a fazer um projeto que me deixa muito feliz, peço desculpa por fazer esta publicidade à nossa Aurora Negra.

Iríamos sempre falar do projeto…
Sim, é um projeto que tenho com a Isabél Zuaa e com a Cleo Tavares, que ganhou a Bolsa Amélia Rey Colaço no ano passado.

E que foi interrompido pela pandemia.
Sim, ia ter a sua estreia em maio e agora passou para 3 de setembro, mas é mesmo sobre estas questões. De repente temos a oportunidade de falar na primeira pessoa e isso faz toda a diferença. De repente podemos utilizar palavras que são nossas e não as dos outros, que metemos na boca e que não sabem o que se passa dentro de nós.

E apesar de tudo, é uma bolsa que dá algumas condições para trabalhar, não as ideais, mas já traz alguma estabilidade momentânea.
Claro, isso era o mais importante. Já temos este projeto há algum tempo pensado, mas queríamos ter o tempo para nos dedicarmos realmente a ele, é importante fazermos teatro com tempo e não o fast-food theatre. Mas, por exemplo, esta coisa de podermos ser protagonistas das nossas histórias, e concretizarmo-nos em palco e não termos só os papéis estereotipados que nos cabem, como se só pudéssemos fazer esses. A abertura, aos poucos, vai trazendo outras questões para a mesa, porque sim, se calhar se me derem um papel de escrava, claro que vou fazer, mas se calhar na pesquisa e no trabalho de mesa vou trazer também as questões de como podemos falar sobre isto e não ser só o papel da escrava coitadinha, explorarmos o lado do opressor, também. E percebermos que as coisas podem ser diferentes. E é como digo: nós fazemos o luto a partir de dentro. Ainda aceitamos papéis estereotipados porque não temos outra opção, mas a partir daí trazer a revolução e outro tipo de pensamento.

Mudando de assunto. Li algures que fazia babysitting, não sei se ainda é o caso.
Sim, agora com a pandemia houve uma quebra enorme, mas sim, esta questão de termos sempre que ter dois ou três trabalhos.

Era precisamente isso que ia perguntar. Acha que alguma vez vai ser possível um ator ser só ator?
Se constantemente temos que estar a justificar porque é que a cultura é importante para um país, o diálogo torna-se complicado. Se temos que estar sempre a pedinchar verbas orçamentos, o diálogo torna-se complicado. Se continuamos a viver de falsos recibos verdes, o diálogo torna-se complicado. As nossas situações são sempre precárias e desprotegidas. Sempre tive que trabalhar em mais sítios do que apenas no teatro. Claro que às vezes é possível estar três ou quatro meses sem fazer outras coisas, mas depois vem a pausa até ao próximo espectáculo e vou para o café e vou para o babysitting. Adorava ainda estar viva para ver a mudança acontecer.

Foi praticante de kung fu. Como é que foi lá parar e o que é que lá encontrou?
Fui durante muito tempo, com um professor fantástico chamado Guilherme. Fui lá parar meio por acaso. Moro ali no Intendente e houve uma espécie de movimento por ali, Intendente, Anjos, Arroios, ligado ao RDA e assim, em que toda a gente começou a fazer kung fu. Uma onda, não sei, tornou-se uma espécie de moda. “Vais ao kung fu?” Porque não? Vamos tentar, pensei, nunca na vida tinha feito, nem sabia que ia gostar e que me podia trazer algo mais. Tem mesmo que ver com isso, é uma forma de estar, não só na prática da modalidade, mas no dia-a-dia, tem que ver com esta fluidez, com o não nos agarrarmos às coisas e não ficarmos em sofrimento, tentar que elas passem, ter uma postura ativa, presente e atenta, que é algo que também se pratica em palco. A atenção, a escuta, a comunicação. E, por acaso, estou para voltar. Fiz uma grande pausa, e ando com vontade de voltar.

Se houver um torneio gostava de ser avisado. Além do Aurora Negra, que outros projetos tem para breve?
Tive muita sorte nos últimos tempos. Vou estar a fazer um espectáculo que se chama Ned Kelly, com o teatromosca, que vai estrear em novembro. Depois vou para Cabo Verde com a Cátia Terrinca e o seu UmColetivo, ficamos lá durante três meses. E depois, volto e vou trabalhar com a Cristina Carvalhal, com o Top Girls, no Teatro Nacional. Estou muito contente com o que me espera.

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