i

AFP/Getty Images

AFP/Getty Images

"Não tenham medo, nós estaremos aqui". O discurso de Haddad nas entrelinhas /premium

Longe de conceder a derrota, Haddad lançou a luta do PT para os próximos quatro anos: ganhar "as mentes e os corações" dos brasileiros. Um discurso para descodificar em cinco pontos.

Minutos depois de ter perdido, como já se previa, a segunda volta das presidenciais do Brasil — para o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro — Fernando Haddad, do PT, fez um discurso que ficou longe de assumir a derrota. Disse que os 45 milhões de eleitores que votaram nele “merecem respeito”, sublinhou que vai “defender a democracia” contra “aqueles que a querem usurpar” — naquela que poderá ter sido a única referência a Bolsonaro — e lançou um apelo para quatro anos de luta, já a pensar nas presidenciais de 2022. E voltou a lembrar Lula e Dilma, nomes que — por questões táticas — estiveram afastados da boca do candidato durante toda a segunda volta.

O discurso de Fernando Haddad está a itálico e a interpretação e o comentário estão a amarelo:

“Quero agradecer aos partidos que estiveram connosco pela sua militância aguerrida, primeiro porque nos levou à segunda volta e depois porque nos levou até aos mais de 45 milhões de votos no dia de hoje. É uma parte expressiva do povo brasileiro que tem de ser respeitada neste momento. Diverge da maioria, tem outro projeto de Brasil na cabeça e merece respeito no dia de hoje.”

É a primeira referência de Haddad ao número de brasileiros que votou nele. O candidato petista partiu para a segunda volta com a perspectiva de uma derrota catastrófica, com as sondagens a darem uma vantagem de 18 pontos ao candidato da extrema-direita (59% para Bolsonaro e 41% para Haddad). Num percurso em crescendo (Bolsonaro recusou-se praticamente a fazer campanha na segunda volta), Haddad foi recuperando e chegou ao final da noite de domingo com 44,8% dos votos (contra os 55,1% de Bolsonaro). Mais importante: Haddad obteve 47 milhões de votos, menos 10 milhões que Bolsonaro. O suficiente para Haddad afirmar essa massa como “uma parte expressiva” do povo brasileiro, que “tem de ser respeitada”. Acima de tudo, é uma parte do povo brasileiro com a qual Haddad conta como ponto de partida para construir uma eventual maioria daqui a quatro anos, em 2022. É esse o verdadeiro objetivo do discurso de Haddad: dar o tiro de partida do PT para a luta contra a direita e preparar o terreno à esquerda para as próximas eleições.

AFP/Getty Images

“Sei que entre os 45 milhões que nos acompanharam até aqui muita gente não é de partido político, não é de associação. Sobretudo o que assistimos, na última semana, foi a festa da democracia nas ruas do Brasil. Gente que saiu à rua com o colega, com a esposa, com o marido, com os filhos, e passou a panfletar o país inteiro, a colocar um banco numa praça, colocou um cartaz ao pescoço e passou a dialogar, a reverter o quadro que se anunciava na primeira semana do segundo turno. E houve uma reversão muito importante devido à consciencialização de uma boa parte dos brasileiros acerca do que estava em jogo. E era muita coisa que estava em jogo.”

Nova referência aos 45 milhões de eleitores, para salientar a força dos números (mas sem referir que Bolsonaro teve mais de 57 milhões) mas sobretudo para indicar que representa algo mais do que a militância. Afinal, diz, é gente que “não é de partido político, não é de associação”. Para Haddad, as pessoas que votaram nele são as que quiseram “dialogar”, por oposição aos que votaram em Bolsonaro, conotados pelo PT com os que não defendem valores democráticos. O candidato petista também recorda, mais uma vez, que o terreno estava muito inclinado a favor do candidato da extrema-direita no início da segunda volta. Mas “houve uma reversão muito importante” do quadro que se anunciava. Isto devido à “consciencialização” de uma boa parte dos brasileiros acerca daquilo que estava em jogo nesta eleição. “E era muita coisa que estava em jogo”. De seguida, explicou o que quer dizer com esta frase.

SEBASTIAO MOREIRA/EPA

“Vivemos um período já longo em que as instituições foram colocadas à prova, a todo o instante. A começar por 2016, quando tivemos o afastamento da presidente Dilma, depois com a prisão injusta do presidente Lula, a cassação do registo da sua candidatura, desrespeitando uma recomendação das Nações Unidas. Mas nós seguimos, de cabeça erguida, com coragem e determinação para levar a nossa mensagem aos rincões do pais, ao campo e à cidade, às periferias e aos centros, aos estudantes e aos idosos, aos LGBT, aos homens e mulheres, brancos e negros, católicos, evangélicos, às religiões de matriz afro, a todos os brasileiros.”

Dilma Rousseff e, sobretudo, Lula da Silva estiveram afastados — por questões táticas — dos cartazes de campanha, bem como dos discursos de Haddad, durante toda a segunda volta. Por um motivo: uma parte substancial dos brasileiros habituou-se a associar Dilma e Lula à corrupção do PT dos últimos anos, devido aos múltiplos casos que foram chegando às notícias e à justiça, do Mensalão ao Petrolão, culminando na Lava-Jato. Com Lula preso e a cumprir pena por corrupção e Dilma alvo de um impeachment por razões semelhantes, a imagem dos dois históricos dirigentes do PT tornou-se “tóxica” para Haddad. Os números da primeira volta demonstraram isso mesmo a Haddad -- depois de inicialmente ter usado o slogan "Lula é Haddad, Haddad é Lula". Além de que a presença (ainda que sugerida) de qualquer um dos dois, mas principalmente de Lula, recordava aos eleitores que Haddad tinha sido escolhido como um substituto do ex-Presidente, enquanto não era anunciado que este seria impedido de se candidatar por estar a cumprir pena de prisão. Dilma e Lula representavam os candidatos “a sério” que o PT apresentou enquanto pôde -- Haddad seria sempre “o melhor que se encontrou” em 2018 para concorrer enquanto não havia Lula, ou no caso de não haver Lula. Logo no início da segunda volta, Lula desapareceu dos cartazes, dos slogans e dos discursos de Haddad. Até regressar neste domingo. No momento da derrota, ou melhor, no momento em que lança a corrida do PT às presidenciais de 2022, Haddad recupera a argumentação original do partido: a direita uniu-se no Brasil, incluindo nos tribunais, para “dar um golpe” e retirar a esquerda do poder. De caminho, Haddad ainda dá mais uma bicada em Bolsonaro, referindo que fala e recebe todos: brancos e negros (recordando implicitamente as acusações de que Bolsonaro é racista), homens e mulheres (recordando implicitamente que Bolsonaro é acusado de ser misógino e machista), aos LGBT (recordando que Bolsonaro teve declarações homofóbicas).

NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images

“De forma determinada fomos levar a mensagem que vale a pena levar: que a soberania nacional e a democracia, como nós a entendemos, é um valor que está acima de todos nós. Nós vamos defendê-la daqueles que, de uma forma desrespeitosa, pretendem usurpar o nosso património, o património do povo brasileiro. (…) É preciso recordar isso no Brasil de hoje. São os direitos civis, os direitos políticos, os direitos trabalhistas e os direitos sociais que estão em jogo neste momento.”

Esta foi talvez a única referência, ainda que indireta, a Bolsonaro em todo o discurso. De um lado está “a mensagem” do PT e, sobretudo, a soberania nacional e a democracia — “como nós a entendemos” — e do outro está a direita, personificada, no seu pior, em Bolsonaro, o candidato que saiu vencedor. Haddad garante aos seus apoiantes -- mas também avisa o presidente eleito e os partidos que o apoiam -- que o PT e os seus aliados vão defender a forma como entendem o Brasil, as suas instituições e as suas empresas. A esquerda defende que se deve manter na esfera do Estado as empresas estratégicas, incluindo a poderosa Petrobras, a petrolífera brasileira. O PT garante que defenderá a sua visão face aos que pretendem usurpar o património do direito brasileiro. Aqui pode estar uma referência dupla: à democracia como património do povo brasileiro pelo qual a esquerda lutou; mas também outra, um alerta para o programa de Jair Bolsonaro, que propõe a redução de 20% da dívida do Brasil através de um programa de privatizações. O presidente eleito nunca foi explícito quanto à privatização da Petrobras, mas mesmo se o fizer noutras empresas estratégicas brasileiras, pode desde já contar com a oposição forte do PT. É isso que Haddad também quer dizer com a defesa do património dos brasileiros.

YASUYOSHI CHIBA/AFP/GettyImages

“Não vamos deixar este país para trás, vamos defender os nosso pontos de vista, respeitando a democracia e as instituições, mas sem deixar de colocar o nosso ponto de vista sobre tudo o que está em jogo no Brasil. E tem muita coisa em jogo. Temos de fazer uma profissão de fé, de que vamos continuar a nossa caminhada, conversando com as pessoas, reconectando com as bases, reconectando com os pobres deste país para enriquecer um plano, um programa de nação que há-de sensibilizar as mentes e os corações deste país. Daqui a quatro anos teremos uma nova eleição, temos de garantir as instituições, não vamos sair dos nossos ofícios, mas não vamos deixar de exercer a nossa cidadania. (…) Não tenham medo, nós estaremos aqui. Estamos juntos. Abraçaremos a causa de vocês. Contem connosco. Coragem, a vida é feita de coragem.”

Novo apelo à mobilização em torno dos ideais do PT, desta vez com a referência explícita às próximas eleições presidenciais. Haddad assume que o partido vai continuar a defender os seus pontos de vista a partir da oposição, mas deixa claro que vai “continuar a caminhada” para — como disse no início — “reverter” o quadro. Se antes era reverter o quadro que se apresentava no final da primeira volta, agora é um percurso de quatro anos para reverter aquilo que resultou da votação deste domingo: um presidente e uma política de extrema-direita. Os apoiantes do PT — e, no entender de Haddad, dos valores democráticos — têm de “fazer uma profissão de fé” para se reconectar com as bases para trabalhar num “programa de nação”. O objetivo é ganhar as “mentes e os corações” — uma referência inadvertida à política norte-americana para pacificar e cativar as populações do Vietname durante o conflito na década de 1960. E termina com um apelo emotivo: “Não tenham medo, nós estaremos aqui”. Quando diz "nós", Haddad quer dizer o PT. E não necessariamente ele próprio.

[Veja o vídeo: #EleConseguiu. A noite em que o Brasil virou]

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.