Chegou a altura dos balanços e a Nature divulgou o nome das 10 pessoas que mais influenciaram a ciência em 2020, segundo os editores da revista. Num ano marcado pela pandemia de Covid-19 é (quase) sem surpresa que vemos sete dos 10 selecionados da Nature ligados ao combate à pandemia.

A seleção da Nature não tem ordem de prioridade, não implica um prémio e não escolhe só celebridades. O Observador reproduz aqui o top 10 — e começa, precisamente, pelos nomes não-covid.

Becoming Interplanetary/United States Library of Congress

Chanda Prescod-Weinstein, professora na Universidade de New Hampshire (Durham)

Chanda Prescod-Weinstein é membro do departamento de Física e Astronomia da Universidade de New Hampshire. É, provavelmente, a primeira mulher negra a ocupar um cargo deste tipo na área da cosmologia teórica ou da teoria de partículas nos Estados Unidos. Especialista em matéria escura, é quase sempre a única cientista negra nas reuniões desta área de especialidade.

Habituada a lutar contra a discriminação racial e de género, fez parte da organização da manifestação “Strike for Black Lives” em junho, uma campanha online que tinha como objetivo exigir que as instituições lutassem contra o racismo na ciência e na sociedade em geral.

Adi Utarini/Instagram

Adi Utarini, investigadora na Universidade Gadjah Mada

A investigadora de Saúde Pública na Universidade Gadjah Mada, Adi Utarini, coordenou o primeiro ensaio clínico aleatorizado de uma abordagem nova para o controlo da dengue: mosquitos que transmitem o vírus dengue, zika e chikungunya, infetados com a bactéria Wolbachia, que impede que os mosquitos transmitam os vírus aos humanos.

Os ovos dos mosquitos modificados eram espalhados pela cidade, muitas vezes nas casas das pessoas. O trabalho de comunicação da experiência foi tão bem sucedido que as pessoas estavam desejosas de criar estes mosquitos em suas casas. Os resultados foram muito promissores: nas áreas onde foi feita a experiência, os casos de dengue caíram 77%.

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Verena Mohaupt, coordenadora de logística de uma expedição no Ártico

A missão do Observatório Multidisciplinar à Deriva para o Estudo do Clima Ártico (MOSAiC), ao longo de um ano, foi a maior expedição de investigação ártica da história. Os investigadores passaram meses à deriva, a bordo de um navio quebra-gelo encalhado, com uma escuridão constante e rodeados de ursos-polares.

Verena Mohaupt era a responsável pela segurança da missão. Preparou os participantes para os riscos do Ártico — incluindo o frio intenso —, ensinou-lhes como escapar de um helicóptero despenhado, discutiu com eles os efeitos psicológicos do isolamento e coordenou uma equipa de guardas que protegia os investigadores dos ursos-polares enquanto trabalhavam.

Gonzalo Moratorio/Twitter

Gonzalo Moratorio, investigador no Instituto Pasteur de Montevidéu

Gonzalo Moratorio é virologista no Instituto Pasteur e na Universidade da República, ambos em Montevideu (Uruguai). Assim que teve conhecimento da ameaça global causada pelo SARS-CoV-2, entendeu que a única forma de travar os surtos era testando em massa e isolando os casos positivos. Mas o mundo inteiro estava a precisar de testes e os reagentes eram escassos — a única solução para o Uruguai era ser autossuficiente.

Em conjunto com os colegas, Gonzalo Moratorio desenvolveu um teste para detetar a infeção com o coronavírus e criou um programa nacional para o por em uso. Esta estratégia permitiu que o Uruguai mantivesse a pandemia sob controlo, mesmo quando os outros países da América Latina viam o número de casos crescer descontroladamente.

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Li Lanjuan, epidemiologista na Universidade Zhejiang

Depois de visitar Wuhan em meados de janeiro, Li Lanjuan disse que era necessário impor o confinamento de imediato para conter o surto e evitar que se espalhasse a outras províncias. As medidas restritivas, que impediam os cidadãos de entrar ou sair de Wuhan e que duraram 76 dias, foram criticadas, mas a verdade é que surtiram o efeito desejado na contenção da disseminação do vírus.

Encerrar uma cidade com 11 milhões de pessoas foi algo sem precedentes, mas não era a primeira vez que Li Lanjuan ordenava a quarentena a pessoas expostas a um coronavírus. Em 2003, enquanto diretora do departamento de Saúde da Universidade Zhejiang, ordenou que milhares de pessoas que tinham estado em contacto com casos de SARS ficassem em quarentena. A medida foi controversa, mas foi chave para conter a disseminação do vírus.

Pfizer/Twitter

Kathrin Jansen, líder do desenvolvimento de vacinas da Pfizer

Kathrin Jansen, chefe de investigação e desenvolvimento de vacinas na farmacêutica norte-americana Pfizer, conseguiu mostrar, em tempo recorde, que uma vacina baseada em ARN mensageiro era segura e eficaz em humanos, apesar de nunca antes uma vacina deste tipo ter chegado ao mercado. Em 210 dias, de abril a novembro, a equipa de Kathrin Jansen conseguiu fazer todo o percurso dos ensaios clínicos até ao final da fase III.

Jasen estava encarregue de coordenar uma operação que envolvia 650 pessoas, via Zoom, a partir da sua casa em Nova Iorque. Entre os principais desafios estavam a resolução de problemas nos ensaios clínicos da vacina, encontrar soluções de fabrico tendo em consideração a necessidade de frio e tratar dos passos para os pedidos de autorização de comercialização.

ChinaCDC

Zhang Yongzhen, investigador no Centro Clínico de Saúde Pública de Xangai

Na manhã de 11 de janeiro de 2020, o virologista Zhang Yongzhen, após dias de hesitação, acedeu divulgar o genoma do vírus que estava a causar uma doença semelhante à pneumonia em Wuhan (China) — na altura ainda sem nome, mas que viria a ser chamada de Covid-19. Estava a ser pressionado pela Nature e por um colega e tinha acabado de visitar Wuhan, onde percebeu que a situação era grave.

Zhang Yongzhen estava hesitante em divulgar o genoma porque sabia que ia deixar as autoridades de saúde descontentes. No entanto, diz que desconhecia que o governo chinês tivesse proibido a partilha de informação sobre a nova doença. Também não quer acreditar que foi intencionalmente castigado pelo governo quando recebeu uma ordem que o impedia temporariamente de estudar o novo coronavírus.

DAVID ROWLAND/EPA

Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia

A primeira-ministra neozelandesa liderou uma das respostas mais bem sucedidas contra a pandemia de Covid-19. Assim que os primeiros casos importados de infeção com SARS-CoV-2 foram detetados no país, Jacinda Ardern impôs medidas rígidas para o controlo da transmissão do vírus e, pouco tempo depois, colocou a população em confinamento.

O facto de se tratar de um país isolado e com pouca população ajudou na contenção da pandemia, mas o facto de Ardern não hesitar na tomada de medidas mais restritivas, ao contrário de outros líderes mundiais, também pode ter tido um papel relevante. Apesar disso, a líder neozelandesa não perdeu o apoio da população e foi reeleita em outubro.

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Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde

Como se não bastasse a crise causada pela pandemia de Covid-19, Tedros Adhanom Ghebreyesus foi apanhado no meio de uma guerra geopolítica entre os Estados Unidos e a China. Foi por isso que, desde o início, e perante as ameaças norte-americanas do corte de financiamento o diretor-geral da OMS sempre apelou à solidariedade global e um dos maiores objetivos, neste momento, é que todos os países tenham acesso às vacinas.

Ghebreyesus foi o primeiro diretor-geral africano da OMS e tomou posse em 2017, depois do surto de ébola que atingiu a Guiné, Libéria e Serra Leoa em 2014-2016. Já no cargo, e antes da pandemia de Covid-19, o diretor-geral da OMS teve de lidar com o surto de ébola na República Democrática do Congo.

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Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (EUA)

Desde que é diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, nos Estados Unidos, Anthony Fauci já teve de lidar com desafios tão grandes como armas biológicas ou surtos de VIH, ébola ou zika, mas nunca com um papel de destaque tão grande como durante a pandemia de Covid-19. Fauci já tinha lidado com seis Presidentes dos Estados Unidos, mas nunca com tantos conflitos: na gestão da resposta à pandemia teve, muitas vezes, de contrariar o que Donald Trump dizia.

Mesmo tendo a responsabilidade de coordenar o instituto e a task force de resposta à Covid-19, Fauci ainda arranja tempo para tratar alguns doentes com Covid-19 ou VIH. Prestes a completar 80 anos, Fauci trabalha 18 por dia, sete dias por semana.