Nem tudo o referendo levou

06 Julho 2015

O país até pode ficar divido, mas para este ex-casal foi preciso um Não para os juntar 20 anos depois de dizer o Sim, mas a uma vida em conjunto. A história de Eleni e Vaggelis.

Há 20 anos disseram Sim a uma vida em conjunto. O plano era ‘até que a morte os separe’, como nos filmes. Mas a vida não correu como esperavam e estiveram 13 anos juntos. Depois de muitos anos separados, e numa altura em que o seu país está dividido, foi preciso um Não para os juntar. Esta é a história de Eleni Efstratiadi e Vaggelis Papoudakis.

Num domingo em que todas as atenções se centravam na política, em que todas as conversas eram de política e numa altura em que poucos eram os festejos, todas as atenções na praça Sintagma, no centro de Atenas, estavam centradas nas televisões das esplanadas das imediações. Tudo de pé, olhos presos às televisões, que começavam a dar as primeiras sondagens à boca das urnas no referendo grego. A margem era pequena, mas apontava para um não. Quatro sondagens, todas diziam que os gregos tinham dito Não à proposta apresentada pelas instituições.

À margem de tudo isto, um homem e uma mulher conversam sentados, de costas para a televisão onde tudo se passa. Ambos com um autocolante no peito a dizer ‘Oxi’ (Não em grego), alheados da alegria que começava a tomar a praça. Pedimos licença para recolher um testemunho, medir o pulso aos apoiantes do Não, perceber o que esperavam do país depois deste resultado.

“De Portugal? Lisboa? Esta festa também é vossa. Senta-te aqui connosco”, diz Vaggelis. “Estamos a lutar por todos vocês. Vocês sabem o que sofremos. Estamos a lutar por todos os povos, estamos solidários com todos vocês, diz Eleni, mais efusiva e de mais fortes convicções. Felizes? “Muito felizes”, dizem ambos. Vai mudar alguma coisa? “Talvez não”, admite Vaggelis.

“Já estávamos divididos. Mas no Sim estão as grandes empresas, os canais de televisão, os banqueiros e todos aqueles que têm medo da [chanceler alemã, Angela] Merkel”, diz Eleni.

“A [chanceler alemã, Angela] Merkel fez uma aposta. E perdeu. Tentaram tirar o Governo e não conseguiram. Hoje o povo grego vai mostrar”, acrescenta Vaggelis. “Ela [Merkel] não esperava que Tsipras fosse um político mais forte que ela. (…) Mas nós não queremos que a Europa seja governada por banqueiros. Para onde foi o dinheiro que nos emprestaram? Foi para o povo grego? Chega de austeridade. Cinco anos nisto. Tu sabes o que estou a dizer”, diz Eleni.

E depois do referendo? Ficará o povo grego dividido, perguntamos, numa altura em que as sondagens ainda davam uma magra vantagem ao Não, longe dos 61% com que acabaria por ganhar. “Já estávamos divididos. Mas no Sim estão as grandes empresas, os canais de televisão, os banqueiros e todos aqueles que têm medo da [chanceler alemã, Angela] Merkel”, diz Eleni.

“Não queremos fazer nenhuma revolução com este oxi. Só queremos as nossas vidas de volta”, diz Vaggelis, que diz ter “medo do que se segue”. No final da conversa, pedimos para tirar uma fotografia aos dois. Depois de alguns risos e de um olhar comprometido, algumas palavras em grego, Eleni diz que sim, para tirar a foto, mas com um detalhe: “tira a foto que eu já te digo”.

Foto tirada, os dois juntos pelo Não. O que quer contar? “É que nós fomos casados durante 13 anos. Estamos separados desde 2008, mas só nos divorciamos oficialmente o ano passado”, explica Eleni. “Encontrámo-nos agora porque apoiamos os dois o Não”, acrescenta.

“É que nós fomos casados durante 13 anos. Estamos separados desde 2008, mas só nos divorciamos oficialmente o ano passado”, explica Eleni. “Encontrámo-nos agora porque apoiamos os dois o Não”, acrescenta.

Algum tempo depois voltamos a encontrar o ex-casal, continuavam juntos a celebrar, agora já com resultados oficiais, gritos de ordem e a certeza que o Não ganhava com mais de 60%. Mais um dedo de conversa, perguntar que tal o sentimento agora com mais certeza e quando pensamos que a história não pode ficar melhor, mais uma peripécia. “Somos só amigos. Ele tem uma namorada”, diz Eleni. Vaggelis abana com a cabeça de forma algo constrangida. E onde está a namorada, perguntamos a Vaggelis. Mas é Eleni quem responde: “A namorada está no Sim”.

Será que cometeu um erro, perguntamos a Vaggelis na brincadeira. O homem encolhe os ombros e sorri, enquanto Eleni goza a situação. “Estamos juntos pelo Não. Hoje isso é o mais importante”, remata Eleni.

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