Neta de Leitão de Barros: “Durante muitos anos não quis saber da memória do meu avô” /premium

Livre, desbocado, irreverente. Assim aparece Leitão de Barros numa biografia agora publicada por duas netas. O realizador que privou com Salazar era salazarista?

Joana ainda nem andava na escola primária quando o avô José morreu. Ana já tinha entrado na adolescência e guarda memórias de “um avô com todas as letras”. Acontece que esse avô é conhecido dos portugueses como Leitão de Barros (1896-1967), o que durante décadas impôs sobre ele um pesado silêncio – por causa da forte ligação ao Estado Novo. O nome pode até escrever-se a letras douradas na história do cinema, mas a obra que deixou, considerada nacionalista e de propaganda, mais a revista que dirigiu nos anos 30 e que terá ajudado Salazar a construir uma imagem de estadista, têm moldado a avaliação (e a de outros realizadores desse tempo, como António Lopes Ribeiro, Jorge Brum do Canto ou Perdigão Queiroga).

As duas netas decidiram agora reconstruir a narrativa e exumar um Leitão de Barros original, com base em documentos e papéis nunca revelados. O resultado intitula-se Leitão de Barros: A Biografia Roubada, primeiro livro biográfico a que tem direito o realizador de “As Pupilas do Senhor Reitor”. É uma edição da Bizâncio e teve sessão de lançamento há poucos dias na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, com presença do diretor da casa, José Manuel Costa, do jornalista José Manuel Fernandes e da historiadora Margarida Acciaiuoli.

A vida familiar é pouco aprofundada no livro, sobressai o homem público. O cineasta de “A Severa” (1931), “Mocidade Portuguesa” (1937) ou “Vendaval Maravilhoso” (1949). O jornalista e cronista do “Notícias Ilustrado” e do “Diário de Notícias”. O estudante de arquitetura e professor de desenho e matemática. O mentor das marchas populares dos bairros lisboetas. O vencedor de um prémio em Veneza com o filme “Ala-Arriba!”. O autor que levou “Camões” à competição oficial de Cannes.

Em entrevista ao Observador, Joana Leitão de Barros, jornalista e ex-assessora de imprensa, e Ana Mantero, antiga professora do ensino básico com doutoramento em filosofa, contam como surgiu o livro e que imagem passaram a ter do avô. Asseguram que não lhes foi difícil abordar a proximidade de Leitão de Barros ao antigo regime. Escrevem-no, aliás, várias vezes na biografia, em termos como este: “É alguém que se move nos corredores do poder, que se diz cético mas capta como ninguém o melhor ângulo do salazarismo.” Ao mesmo tempo, encontraram um homem “livre e irreverente” e isso, defendem, também tem que ser contado.

Leitão de Barros: a biografia roubada, de Joana Leitão de Barros e Ana Mantero (Bizâncio)

Quem é o Leitão de Barros que surge neste livro?
Joana Leitão de Barros (JLB): Não há um só Leitão de Barros, há vários, conforme as décadas. Além disso, não temos a pretensão de ter chegado ao verdadeiro Leitão de Barros, porque há muitas coisas por estudar e investigar. Cada uma das autoras ficou com a sua perceção e sem dúvida que ela é muito diferente da que tínhamos antes de termos estudado o espólio.
Ana Mantero (AM): Conhecia-o melhor porque convivi com ele até aos 14 anos. A Joana é mais nova.
JLB: A memória que tenho é da morte dele, de chegar a casa da avó e não me deixarem entrar no quarto, e eu a tentar perceber o que se passava. Cheirava a morfina ou a éter. É disso que me lembro.
AM: O olfato é uma memória tremenda.

O que pensava do seu avô antes de escrever o livro?
JLB: Durante muito tempo, eu não quis saber. Na altura do 25 de Abril era muito miúda, tinha uns 11 anos, e havia uma “overdose” de política. Não é politicamente correto dizer isto, mas tudo aquilo me cansava. Queria viver, namorar, mas toda a gente falava de política em todo o lado, era o único tema. Durante muitos anos, não quis saber da memória do meu avô. Havia a ideia de ter sido um homem que trabalhou para Salazar, um megalómano. Eram esses os lugares-comuns.
AM: Não lembro de ouvir a palavra “Salazar” em casa. Nunca. Era uma coisa de que não se falava, não se falava de política em casa. Mesmo os meus pais, não eram pessoas com grande interesse em tomar posições políticas.

Ia muitas vezes à casa do seu avô, em Colares?
AM: Em Colares era a casa de verão, onde hoje vivo. Ele vivia em São Mamede [centro de Lisboa]. Visitava-o com frequência. Havia sempre almoços à quarta-feira e ao domingo ele levava os netos a passear. Gostava muito de ir aos mercados comprar fruta e íamos atrás dele. Éramos sete netos [de dois filhos].

"Ele percebeu muito bem, e defendeu isso logo nos anos 30, que o cinema podia ser pedagógico. Não no sentido de criar uma moral, mas no ensino. Propôs uma aproximação do cinema às escolas, como ferramenta de ensino. Depois teve um papel muito ativo na criação da Tóbis"
Joana Leitão de Barros

Agora passou a ter uma imagem mais politizada do avô?
AM: Sim. Aprofundei imensas coisas que não sabia. O que me espanta é a maneira como ele se movimentou perante o Estado Novo, como usou o humor para criticar o poder, o descaramento que ele tinha. Acho que dizia sempre o que pensava. Mesmo as revistas que ele dirigiu eram muito críticas em muitos aspetos.
JLB: Ele dirigiu revistas numa fase inicial da formação do Estado Novo. Depois, não dirigiu propriamente, não foi tão jornalista, foi colunista. E foi várias vezes censurado, queixava-se imenso. Muitos dos filmes não agradaram à Inspeção-Geral dos Espetáculos e receberam pareceres negativos. O “Camões” [1946], por exemplo, não agradou por não apresentar uma faceta muito heróica e ligada a Os Lusíadas. O “Bocage” [1936] também. O “Vendaval Maravilhoso” [1949], onde entrou Amália Rodrigues, tratava a questão esclavagista e foi considerado uma defesa da liberdade, por isso foi desaconselhado. Havia cenas cortadas.

Como é que se explica que esta seja a primeira biografia de Leitão de Barros? Porque é que ninguém se interessou por ele antes?
JLB:
Houve uma tese de doutoramento há poucos anos, de Afonso Cortez, que abordou o “Notícias Ilustrado”, a parte da imagem, da fotomontagem, de como isso serviu o discurso político. A tese deixa muitos aspetos de fora, o que é normal, porque Leitão de Barros era multifacetado. Ainda há dias descobri uma cosia que nunca tinha visto: a ilustração de uma capa, feita por ele. Continuam a aparecer muitas coisas. A nossa ideia, com este livro, espero que isso seja claro, é a de soltar o assunto, para que haja investigadores que agora aprofundem. A nossa abordagem foi generalista, não podia deixar de ser.
AM: Houve coisas importantes que pouco abordámos. O urbanismo, por exemplo. Ele estudou arquitetura e pediam-lhe muitos pareceres técnicos. Depois fundou uma associação para defesa de Alfama, o Grupo Amigos de Lisboa.
JLB: Interessava-se muito pelo urbanismo e pelo património. Era muito consultado pela Câmara de Lisboa, pela de Sintra, pela do Funchal. Como cronista do “Diário de Notícias” fazia críticas sobre aspetos do urbanismo.
AM: Muitos lisboetas escreviam-lhe sobre problemas da cidade e ele depois tratava essas cartas no “Diário de Notícias” e remetia para a Câmara.
JLB: São centenas de cartas e ele guardou tudo.

Com Salazar no Forte de Santo António do Estoril, cerca de 1950

A Joana escreve na introdução que começou a desencaixotar o espólio em 2011.
JLB: Um dia, fui a casa da minha mãe e levei um caixote comigo.

Quantos caixotes são?
JLB: Não são assim tantos. Ele guardou coisas significativas, mas não foi o género de arquivista que junta todos os papelinhos e mais algum. Guardou o que tinha conteúdo, provavelmente com a preocupação de manter a memória.

A correspondência é o grosso do espólio?
JLB: Acho que sim. E há muitos projetos de filmes. Para se entender uma pessoa, é importante também saber o que quis fazer e não conseguiu. O querer fazer não era propor ao Governo e não ser aceite. Não. Ele tentava encontrar financiamento. Tentou até criar um esquema de financiamento em que os atores seriam acionistas do projeto. As pessoas viram-no como megalómano, mas há esta faceta de rigor e de quem quer fazer acontecer.

Quer dar um exemplo de um filme incompleto?
JLB: Tentou filmar África, as colónias, e tinha o grande sonho de fazer um filme biográfico sobre o Infante D. Henrique. Este filme conheceu várias versões, uma delas com argumento de Augusto de Castro [deputado, embaixador e mais tarde diretor do “Diário de Notícias”].
AM: Há uma coisa menor sobre a hotelaria. Ele queria usar o cinema para dar formação sobre como receber turistas. Ficou na gaveta.
JLB: Ele percebeu muito bem, e defendeu isso logo nos anos 30, que o cinema podia ser pedagógico. Não no sentido de criar uma moral, mas no ensino. Propôs uma aproximação do cinema às escolas, como ferramenta de ensino. Depois teve um papel muito ativo na criação da Tóbis, os primeiros estúdios nacionais onde os realizadores portugueses depositaram muitas esperanças para a criação de uma indústria portuguesa do cinema. É engraçado, porque aquelas pessoas não tinham complexos, não achavam que fossem pequenas e que não conseguiriam. Viam-se com as mesmas capacidades dos franceses ou outros, acreditavam mesmo naquilo.

"Há uma fase da vida dele em que foi um jogador, estava fascinado com o poder da imagem e não resistiu. Acreditava, nessa fase, que Salazar era uma esperança para o progresso do país. Ele acreditou, ponto final."
Joana Leitão de Barros

Mas voltemos um pouco atrás: porque é que até hoje Leitão de Barros não tinha sido objeto de uma biografia?
JLB: Essa pergunta traz-me uma culpa, porque tínhamos aqueles caixotes lá em casa, fechados.

Há preconceitos em relação ao seu avô?
JLB: Sim, ele foi arrumado numa gaveta, sem o terem visto de perto.
AM: Colaram-lhe um rótulo antes de o estudarem.

Que rótulo foi esse?
JLB:
O propagandista acima do autor, o senhor Encomendas do Estado. E não é nada disso. Há uma fase da vida dele em que foi um jogador, estava fascinado com o poder da imagem e não resistiu. Acreditava, nessa fase, que Salazar era uma esperança para o progresso do país. Ele acreditou, ponto final.

Escrevem no livro que Leitão de Barros fez parte do círculo mais íntimo de Salazar, que o nacionalismo foi central na obra, que captou o melhor ângulo do salazarismo. Foi-lhes difícil incluir esta visão, por poder dar uma imagem negativa do vosso avô?
JLB: Absolutamente nada, porque isso também é a realidade. Este livro surge de uma procura da verdade de uma pessoa. Esses aspetos são essenciais para o entendermos. Nunca poderia ser escamoteado. E, sim, ele no princípio ele acreditou no salazarismo.
AM: Chegou ao fim da vida completamente desiludido com muita coisa, não só a política. A sociedade, a miséria. É um desencanto final.
JLB: Foi, em certa medida, o desencanto da geração do Modernismo.

Houve um momento de corte? Leitão de Barros chegou a rejeitar a ideologia do regime?
AM: Não sei se cortou com a ideologia, até porque escreveu uma vez que tinha tido a sorte de nascer apolítico. Sei que é difícil entender, mas a política não estava sempre presente. Não sei verdadeiramente se ele se identificava com uma ideologia. Apreciava a democracia dos ingleses, por exemplo. Vejo-o mais como um homem que soube movimentar-se, porque punha a política de lado, a ideologia não estava presente. Ele nunca disse, como António Ferro, que se for preciso morrer, que se morra, para Salazar viver. Jamais fez este tipo de discurso.

Leitão de Barros (primeira fila, à esq.) com António Ferro (primeira fila, à dir.) na cerimónia da entrega da taça Bienalli pelo filme ‘Ala-Arriba!’, em 1942

E, no entanto, era íntimo de Salazar. Encontravam-se, correspondiam-se.
AM: Era uma relação “sui generis”.
JLB: Acho que ele conquistou um espaço, mas também deitava tudo a perder, não acho que fosse astuto. Era muito impulsivo e desbocado.
AM: Dizia o que tinha a dizer. Mas não foi um homem de ruturas, isso não foi. E temos de ver uma coisa: ele amava profundamente Portugal, nunca lhe passaria pela cabeça ir-se embora, e ainda bem que não foi, senão, não teria feito nada do que fez. Por outro lado, houve muitas coisas que não conseguiu fazer porque não era um apoiante do regime, não o vejo como apoiante do regime.
JLB: Ele diz que o cinema não é a “bagatelle” francesa, que o cinema não é propaganda.

Mas fez filmes sobre as figuras históricas que o Estado Novo defendia, que davam uma ideia de grandeza da nação.
AM:
Gostava de glorificar Portugal, sem dúvida, tinha o culto da pátria.

Foi um nacionalista?
JLB:
Acho que sim.
AM: Completamente, mas à sua maneira.
JLB: Foi também um cosmopolita.
AM: Há um discurso dele, perante um grupo de jovens, em que diz assim: “Amo a terra onde nasci. Sinto atração por tudo o que me parece belo, antigo ou moderno, sem a menor distinção de idades, de escolas, de birras e de preconceitos.” Ele tinha um pensamento independente, pensava pela própria cabeça, não seguiu uma ideologia. Era indomável, livre, irreverente.
JLB: Tinha anticorpos e por isso é que, no fim dos anos 60, quando esteve para ser aceite como membro da Academia Nacional de Belas Artes, não entrou. Tinha dito que a Academia era retrógrada, que deveria ter deixado entrar o Almada Negreiros, etc., e isso não terá caído bem. Por isso, nunca chegou a ser membro. Imagino que esse episódio lhe tenha custado. É Eduardo Malta [pintor e diretor do Museu do Chiado] que o propõe e é ele também que lhe conta o desfecho da votação. Os mais próximos faltam à votação e há muitos votos contra. Ele diz que espera relatar o sucedido num livro de memórias para os netos, que nunca chegou a escrever.

"Estar com ele era mágico, fazia coisas que não víamos os outros avôs fazerem. Os meus anos eram festejados em Colares e as festas eram um circo. Andávamos de barco numa piscina, num tempo em que não havia piscinas em casa. Ele comprava tudo em segunda mão, criava um cenário, havia um espetáculo de palhaços, ele atirava balões."
Ana Mantero

O espólio deixado por Leitão de Barros estava bem organizado, pronto para ser estudado?
JLB: Não, ficou espalhado por gavetas em casa. Depois essa casa foi do meu pai, que em grande parte não mexeu na casa e tudo aquilo lá continuou nas gavetas. Quando vendemos a casa, guardámos tudo, claro, e é nessa altura que os papéis vão parar a uma arrecadação. Foi aí que fui buscar o material para o livro.

Que pode agora acontecer a esse espólio?
JLB:
A família concordou e vai doar o espólio, para que esteja disponível para os investigadores o estudarem. Estamos a conversar com uma entidade, que poderá ficar depositária. Está a ser decidido, não queremos anunciar já.

A doação acontecerá este ano?
JLB:
Sim, sim, temos urgência até.
AM: Se o livro tiver algum mérito, é o de apontar pistas para investigação. Por isso, o acesso ao espólio será fundamental.

Porque é que optaram por uma biografia do homem público e deixaram de lado o tom pessoal?
JLB:
Foi uma escolha muito consciente, mas transparecerem alguns momentos de Leitão de Barros em família. Se tivéssemos ido para uma abordagem emocional, subjetiva, isso poderia retirar a credibilidade que achámos importante trazer ao livro.

Os leitores vão apreciar ou criticar terem sido duas netas a fazer a biografia de Leitão de Barros?
AM:
Acho que vão apreciar e criticar.

Livro apresenta o homem público e aprofunda menos a vida íntima e familiar

Porquê o título Biografia Roubada?
JLB:
Bati-me muito por este título, embora nem todos tenham concordado. Isto tem que ver com a “gaveta dos roubados”, uma invenção de Leitão de Barros para os netos, depois de ter visto que a avó Helena [Helena Roque Gameiro, 1895-1986, artista plástica] passou a fechar à chave o armário lá de casa onde estavam lápis de cor, guloseimas, papel, coisas que fascinavam os netos. Aquilo deve ter desagrado muito ao avô e ele criou uma alternativa: a “gaveta dos roubados”. Os netos tinham de procurar a chave e roubá-la, para terem acesso a um outro armário, muito melhor que o da avó Lena. Ele quis estimular a transgressão dos netos.
AM: Lembro-me bem disso.
JLB: Foi um puro elogio à transgressão.
AM: Aliás, ele proporcionou-nos uma infância mágica. Estar com ele era mágico, fazia coisas que não víamos os outros avôs fazerem. Os meus anos eram festejados em Colares e as festas eram um circo. Andávamos de barco numa piscina, num tempo em que não havia piscinas em casa. Ele comprava tudo em segunda mão, criava um cenário, havia um espetáculo de palhaços, ele atirava balões. A nossa avó era uma mulher com um olhar estético extraordinário, muito requintada, e pensou que foi ela quem mandou fazer uns búzios, que colocou por cima da porta, com o meu nome. Também havia uma casa na árvore. Era tudo mágico, porque ele sabia que a infância é um mundo à parte.
JLB: Andávamos de bicicleta pelo pinhal, rapazes e raparigas. Havia imensa liberdade.
AM: Foi um avô com todas as letras.

Ia ao cinema com os netos?
AM:
Não tenho memória disso.

Ou seja, o título aponta para uma biografia em que Leitão de Barros surge como homem livre, é isso?
JLB: Porque ele era mais transgressivo do que a imagem que temos dele, sem dúvida.

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