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Nigel Farage no discurso em que anunciou o programa do Partido do Brexit, esta sexta-feira

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Nigel Farage no discurso em que anunciou o programa do Partido do Brexit, esta sexta-feira

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Nigel Farage vai ter o Brexit que pediu, mas "é um homem a bater em retirada" /premium

De impulsionador do referendo do Brexit a empecilho para a saída da UE. É assim que muitos no Partido Conservador veem Farage, que foi anulado por Boris Johnson. Mas a sua influência ainda pode durar.

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Foi na sexta-feira, ao final da manhã, que Nigel Farage subiu a um pódio com um pequeno livro azul-claro na mão. Ao grupo que assistia à conferência de imprensa, explicou que se tratava do manifesto eleitoral do seu partido, o Partido do Brexit — que se estreou com estrondo, como partido mais votado, nas eleições europeias de maio, as últimas que decorreram em solo britânico. E explicou ao que vinha: “Sem nós, não haverá um Brexit genuíno. Queremos liderar a próxima fase, que é uma revolução política que coloca as pessoas em primeiro lugar.”

A frase, que em tempos teria caído como uma bomba, faz agora menos mossa. O Nigel Farage de outros tempos, aquele que liderou um UKIP bem sucedido ao ponto de David Cameron se sentir pressionado a realizar um referendo à permanência na UE, aquele que monopolizava a atenção nas campanhas eleitorais com as suas piadas jocosas e brindes com cerveja, está mais morno. As ideias continuam a ser fortes, é certo: o seu partido propõe, por exemplo, um número máximo de imigrantes a entrarem no país, com um teto nas 50 mil pessoas, metade do que defendia Cameron, por exemplo. Mas é mais difícil levar a sério o Partido do Brexit depois do que aconteceu nas últimas semanas.

Nigel Farage em modo campanha eleitoral, a beber cerveja num pub

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Em primeiro lugar, Farage anunciou que não se irá candidatar à Câmara dos Comuns, numa decisão que surpreendeu tudo e todos. Depois, tentou negociar uma aliança com o Partido Conservador para que não se atrapalhassem mutuamente, mas a equipa de Boris Johnson não quis nada com ele. Por fim, a 11 de novembro, fez o anúncio inesperado de que o seu partido não iria concorrer nos círculos eleitorais por onde há atualmente deputados conservadores eleitos. Farage colocou assim a questão: “Temos uma aliança pró-Leave, só que fizemos-la unilateralmente”. Não só a frase revela o isolamento a que Farage está votado, como a sua expressão corporal ilustrava bem o seu sentimento de derrota. “Parecia sombrio e triste. Murmurava e amuava. Não havia dúvidas: isto é um homem a bater em retirada”, descreveu o cronista do Telegraph Michael Deacon sobre esse anúncio, há apenas 11 dias.

Não é para menos. Se, em maio, Farage parecia demolidor, capaz de pôr os tories em causa e refazer o mapa eleitoral britânico, agora corre o risco de se tornar irrelevante e até surgir aos olhos de alguns eleitores como um obstáculo ao próprio Brexit — razão pela qual decidiu retirar-se da corrida nos círculos dominados pelos conservadores, para não dividir os votos à direita. Mas mantém-se noutros círculos onde pode complicar as contas. Ter um bom resultado eleitoral é que é um cenário que parece agora distante, tendo em conta as sondagens, que lhe dão cerca de 7% das intenções de voto a nível nacional.

Nigel Farage é agora um homem de espírito derrotado, como nunca antes. “Puxaram-lhe o tapete e roubaram-lhe o lugar de estrela”, diz ao Observador o professor Tim Bale, da Universidade Queen Mary, especialista em Política britânica. Como? “Pela decisão do Partido Conservador de eleger Boris Johnson e pelo sucesso que Johnson teve, se considerarmos o acordo que ele conseguiu (com imensas cedências relativamente à Irlanda) como um sucesso.” E agora? Irá o “tipo normal lá do pub conseguir recuperar ou foi derrotado de vez ainda antes das eleições de 12 de dezembro?

Como Farage acabou a fazer “aquilo que os tories queriam”

A novela que decorreu desde o início da campanha até Farage anunciar que o seu partido não irá concorrer aos lugares já ocupados pelos tories foi feita de pressões e negociações à porta fechada que ilustram bem como muitos à direita veem agora o Partido do Brexit como um possível empecilho ao próprio Brexit. “O meu amigo Nigel Farage devia recuar e deixar Boris Johnson acabar o trabalho”, escrevia William Cash, filho do conhecido deputado conservador eurocético Bill Cash, no início do mês de novembro.

Arron Banks, o milionário e antigo apoiante de Farage, virou-lhe costas e decidiu criar uma app para ajudar os eleitores a perceberem em quem votar em cada círculo eleitoral, a fim de dar uma maioria nos Comuns a Boris Johnson: “A aplicação é ‘apoiem o Brexit, apoiem o Boris’”, disse um porta-voz da campanha Leave.EU, dirigida por Banks.

Nigel Farage com o antigo amigo e financiador Arron Banks

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Até o Presidente norte-americano, Donald Trump, se meteu ao barulho e deu um conselho: “Eles são os dois meus amigos. Aquilo que eu gostava de ver era o Nigel e o Boris a unirem-se. Acho que é uma possibilidade”, afirmou.

Na sequência de todas as pressões públicas, ao mesmo tempo que Boris alienava Nigel — recusando reunir-se com ele ou reconhecer publicamente quaisquer negociações —, Farage começava a desesperar e ziguezagueava. Ora assumia que considerava votar nos conservadores no seu círculo eleitoral, ora negava e dizia que não podia fazê-lo, tendo em conta “o comportamento do partido”.

A situação tornava-se insustentável. “Em vez de parecerem intervenientes genuínos nesta eleição, os Faragistas parecem agora desmancha-prazeres — um argumento que lhes tem sido demonstrado, por vezes à força, pelos seus antigos apoiantes”, avisava o colunista da Spectator, James Forsyth. Até que, a 11 de novembro, Farage cedeu e anunciou que o seu partido não iria concorrer nos 317 locais onde os conservadores ganharam a eleição nas últimas legislativas.

“Puxaram-lhe o tapete e roubaram-lhe o lugar de estrela.”
Tim Bale, professor de Política na Universidade Queen Mary, sobre Nigel Farage

“Desta vez, o líder tory conseguiu um acordo que tem, na realidade, uma maioria a apoiá-lo no Parlamento, graças ao apoio dos que defendem um hard Brexit dentro do Partido Conservador”, aponta ao Observador o especialista em Ciência Política da Universidade de Sussex, Paul Webb. “Farage já não tem a vantagem que tinha sobre os tories (e sobre o eleitorado) que antes tinha. Se se opuser a Johnson com demasiado vigor, toda a gente consegue ver que ele pode impedir um Brexit concreto de acontecer. Por isso, na prática, ele acabou por fazer aquilo que os tories queriam.”

A decisão do Partido do Brexit ajuda Boris, mas também pode ajudar Corbyn

Fez aquilo que os conservadores queriam, mas não inteiramente. Sim, é verdade que, sem o Partido do Brexit na corrida naqueles círculos eleitorais, os conservadores ficam com o caminho aberto para manter 317 lugares no Parlamento. Mas 317 não chegam para uma maioria absoluta na Câmara (geralmente 320, dependendo de quantos deputados o irlandês Sinn Féin, que recusa tomar posse, obtém). Para evitar dividir o voto pró-Leave, convinha também aos tories não ter a concorrência de Farage em círculos eleitorais onde o Labour pode ter hipóteses.

É por isso que, segundo o Telegraph, as negociações à porta fechada entre Farage e os conservadores continuam. E a pressão também não abrandou. Arron Banks, o antigo amigo de Farage que doou (e muito) para a campanha pela saída da UE, já foi claro: Farage tem de retirar os seus candidatos dos locais onde “não pode ganhar” e atirar-se apenas àqueles onde os conservadores estão derrotados à partida, senão corre o risco de “dar a eleição” a Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista.

Manifestantes com máscaras de Boris Johnson e Nigel Farage, que disputam o mesmo eleitorado

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É que nesta situação, a manter-se tudo como está, a eleição continua em aberto, alertam os especialistas ouvidos pelo Observador. “Farage retirar os seus candidatos das zonas tories ajuda o partido de Johnson a agarrar-se a uns quantos lugares, mas provavelmente não muito mais”, alerta Tim Bale. Paul Webb reforça a ideia: “Os dados sugerem que há mais apoiantes do Brexit entre antigos eleitores conservadores do que trabalhistas. Portanto, ao colocar candidatos na corrida em zonas dominadas pelo Labour, Farage provavelmente enfraquecerá os tories daí.”

Os dois académicos, contudo, não pensam que essa dificuldade para Boris Johnson seja suficiente para o fazer perder a eleição: “Repare que há cerca de 40 círculos dominados pelo Labour onde Farage não está a propor candidatos pró-Brexit — e isso pode ser o suficiente para que Johnson capte aí uma maioria.”

O resumo é feito pelo professor da Universidade de Queen Mary: “A decisão de incluir candidatos do Partido do Brexit em cerca de 270 círculos eleitorais é um pequeno problema para os conservadores, porque os expõe ao risco de o eleitorado Leave ser dividido. Mas, tendo em conta quão à frente Boris segue neste momento, é improvável que isso lhe venha a custar a eleição.

E se o trabalho de Farage já estiver feito?

Chegados a este ponto, é impossível que Nigel Farage tenha uma vitória como nas eleições europeias e é até improvável que tenha um bom resultado face às suas expectativas iniciais. Não admira que “murmurasse e amuasse”, como descreveu Michael Deacon do Telegraph, quando anunciou a sua retirada de candidatos a determinados lugares.

Mas, quando o dia da eleição do dia 12 de dezembro passar e caírem esses maus resultados no colo do Partido do Brexit, o que irá Farage fazer? Terá capacidade para sobreviver e para se reinventar? E, mais do que isso, se Boris Johnson conseguir o Brexit que promete antes de 31 de janeiro, fará sentido continuar a existir um Partido do Brexit e um líder que fez da saída da UE a missão da sua vida política?

O Partido do Brexit de Nigel Farage pode estar em apuros, mas não há dúvidas da sua influência no próprio Partido Conservador

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“Suspeito que este é um momento definidor para Farage e acho que ele vai passar a ter menos influência no futuro”, alvitra Paul Webb. “Dito isto, não nos podemos esquecer que, [mesmo depois do Brexit] haverá negociações sobre um futuro acordo comercial com os europeus, que podem ser longas e difíceis — e aí Farage terá muito a dizer sobre elas.”

Tim Bale também arrisca olhar para a bola de cristal, mas vê coisas diferentes: “Pode vir a haver um nicho para o Partido do Brexit, mas teria de mudar de nome e transformar-se num partido da direita radical que se focasse, sobretudo, no combate à imigração e ao multiculturalismo”, prevê. “Esses partidos são bem sucedidos em muitos países europeus, embora a maioria opere em sistemas de representação proporcional, o que torna mais fácil elegê-los, comparado com o britânico First Past The Post, que castiga os pequenos partidos.”

“Suspeito que este é um momento definidor para Farage e acho que ele vai passar a ter menos influência no futuro. Dito isto, não nos podemos esquecer que, [mesmo depois do Brexit] haverá negociações sobre um futuro acordo comercial com os europeus, que podem ser longas e difíceis — e aí Farage terá muito a dizer sobre elas.”
Paul Webb, professor da Universidade de Essex

Arron Banks, o homem que pagou por um anúncio publicitário no Telegraph a agradecer a Nigel Farage, no dia a seguir ao referendo, insiste em repetir ao antigo parceiro que é tempo de se afastar. “O Nigel já refez o Partido Conservador à sua imagem, o Partido é o Conservador é o Partido do Brexit”, apontou na semana passada como argumento dissuasor. Os tories radicalizaram-se, o Brexit está a caminho, o euroceticismo entranhou-se na corrente sanguínea dos conservadores, argumenta Banks.

Paul Webb diz que Banks “pode bem estar certo”. “É cada vez mais evidente que os conservadores se têm tornado mais eurofóbicos e mais nacionalistas. Os novos candidatos que foram nomeados nesta eleição parecem ser, na maioria, desta ala do partido”, afirma. Tim Bale considera que a influência é bem visível e vem de trás: “Farage pode gabar-se de ser o político britânico mais bem sucedido das últimas duas décadas. Se sairmos da UE, ele poderá argumentar que a sua capacidade de assustar os conservadores para os levar a aceitar um referendo foi fundamental. E isso não foi de somenos, já que o Brexit se prepara para alterar profundamente a economia e a política do Reino Unido durante anos e anos.” Talvez Nigel Farage tenha mais motivos para sorrir do que pensa.

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