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No lugar "mais eurocético" do Reino Unido, a fé nos políticos atuais abana: "Tragam de volta a Maggie!" /premium

No círculo eleitoral de Havering, 70% votou para Sair. Quase três anos depois, não há arrependimentos, só muita desilusão por o Brexit estar a tardar — e saudades de Thatcher. Reportagem em Londres.

Reportagem da enviada especial ao Reino Unido

“Hoje era o dia.” É a primeira coisa que Sue Connelly começa por constatar, quando recebe a visita do Observador de surpresa, a 29 de março, dia em que o Brexit era para ter acontecido — mas não aconteceu. “Dois anos depois, seria de esperar que estivéssemos a sair. Dezassete milhões e meio de votos, o maior mandato da nossa História, e o que é que aqueles idiotas em Westminster fizeram? Desperdiçaram tudo porque acham que o Zé Povinho não importa.”

A festa que estava preparada para acontecer ali, na sede do Partido Conservador de Romford (Havering, Grande Londres), foi adiada. A decoração, contudo, mantém-se, já que continua a fazer sentido para os tories locais: na sala principal, ainda há balões com a bandeira nacional e cartazes que pedem Keep Calm and Leave the EU. A esperança, apesar de tudo, ainda não morreu para os Leavers como Sue, secretária dos tories em Romford há 15 anos e assistente do deputado Andrew Rosindell, eleito pelo círculo eleitoral de Havering desde 2001.

Foi a campanha desse ano que fez precisamente Sue aproximar-se da política: “Está a ver? Foi aquilo”, diz, apontando para uma fotografia afixada numa das paredes do seu gabinete, todas elas cobertas de fotografias e papéis. Nela, a antiga primeira-ministra Margaret Thatcher cumprimenta uma criança, ao lado de Rosindell. “Foi numa ação de campanha do Andrew. Aquela é a minha neta, que agora tem 20 anos.” O facto de o candidato a deputado pelos tories “fazer campanha como ninguém”, ajudou Sue a decidir juntar-se. Mas foi o magnetismo de Thatcher que ficou gravado na memória desta mulher que viveu toda a vida em Romford. A admiração dos locais por Thatcher é visível nas muitas fotografias da antiga primeira-ministra espalhadas por todo o lado na sede dos conservadores em Romford — e não é de admirar, por isso, que o edifício se chame “Margaret Thatcher House”.

Sue Connelly defende a saída da UE com unhas e dentes: "Ganhámos duas guerras mundiais para isto?", pergunta (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Estamos em Havering, um círculo eleitoral tecnicamente ainda parte da Grande Londres, mas onde o ambiente está longe de ser igual ao da grande capital. A começar pelo estado de espírito relativamente ao Brexit: se a grande maioria dos círculos eleitorais de Londres votaram pela permanência, Havering foi para o extremo oposto, com 70% a favor da saída. A empresa de sondagens britânica Yougov classificou-a mesmo como a área “mais eurocética” de todo o Reino Unido.

A mais de meia hora de distância de Westminster, a cidade de Romford guarda muito pouco do espírito cosmopolita da capital, como já tinha avisado o próprio deputado de Havering, Andrew Rosindell, no dia anterior da visita: “As pessoas da minha zona não se consideram parte de Londres, sentem muito mais afinidade com o condado de Essex. Vai notar que a atmosfera é muito diferente”, disse o deputado ao Observador, no lobby da Câmara dos Comuns, enquanto decorria o debate da véspera da votação do acordo de Theresa May. “As pessoas do meu círculo eleitoral valorizam a sua identidade e independência, bem como a sua capacidade de tomarem as suas próprias decisões. Olham para a União Europeia (UE) como algo que limita essa liberdade que eles valorizam.”

Em Romford, o espírito é o de uma pequena vila: na estação de comboios, há uma mensagem encorajadora escrita à mão pelos funcionários num dos placards informativos (“segue os teus sonhos, acredita em ti e não desistas”). Basta dar dois passos na rua principal da cidade, para encontrar um cartaz de promoção a um evento do mercado local onde se promete a presença de um “homem-estátua São Jorge” (o padroeiro inglês) e de um coro de Cockney, o sotaque típico da classe trabalhadora inglesa. De acordo com os dados oficiais, Havering tem uma das populações mais velhas (média de idades de 40 anos) de toda a Grande Londres e também uma das menos etnicamente diversas, com 83% de população branca. Os dados batem certo com a estatística que aponta esses britânicos como aqueles que votaram mais favoravelmente pela saída da UE.

Em Havering, 70% dos eleitores votaram a favor do Brexit. É uma das zonas mais envelhecidas da Grande Londres (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

“Quando nos juntámos à UE era apenas um mercado comum e não há nada de errado nisso. Mas depois isto tornou-se numa ditadura gigantesca”, declara Sue, sentada no seu gabinete. Está mais do que habituada a falar a jornais desde que o referendo se tornou tema: “O primeiro foi o The Guardian. Fizeram uma peça horrível, mas pelo menos lá dentro diziam que eu não era uma pessoa com quem se devia brincar, portanto pelo menos acertaram nessa parte”, conta a secretária, soltando uma gargalhada.

O desagrado com a UE e com as ordens de fora. “O Tusk é o novo Hitler”

Se há alguém que não tem problemas em dizer o que pensa, apesar de trabalhar em política, é Sue. Aos pés, mantém uma bandeira da UE amarrotada, por oposição às bandeiras nacionais afixadas bem alto nas paredes. “Termos franceses e alemães a dizerem-nos o que fazer? Ganhámos duas guerras mundiais para isto?”, interroga-se. “Sempre gerimos este país muito bem. Passaremos bem sem a UE”, assegura a secretária dos tories. Por enquanto, o único problema é o arrastar da situação: “Aqui as pessoas estão cheias de raiva. Ninguém nos está a ouvir”, lamenta-se.

No mercado de Romford, o talhante Steve Wickinden reforça essa ideia: “Se o Brexit não for para a frente, vai haver motins. Porque nós votámos para haver Brexit”, declara ao Observador, numa pausa para fumar um cigarro, que se transforma em vários, à medida que a conversa o entusiasma e se prolonga. “Não são as pessoas como eu que vão fazer motins, mas as pessoas de classe trabalhadora, as pessoas que acreditaram naquela mentira dos 350 milhões de libras para o Serviço Nacional de Saúde (SNS), essas pessoas vão passar-se…” Steve garante que não acreditou na afirmação da campanha pela Saída de que com o dinheiro enviado para Bruxelas seria possível injetar esses 350 milhões por semana no SNS, porque se tentou informar. “Levei o meu tempo a decidir, olhei para os factos. Havia spin doctors dos dois lados. Não votei para Sair por causa da imigração ou desses 350 milhões”, assegura este pequeno empresário.

O que o levou então a juntar-se às mais de 96 mil pessoas de Romford que votaram Leave no referendo de 2016? “Votei Leave porque nós não somos a Alemanha. A livre circulação é ótima em teoria, mas nós somos uma pequena ilha. E não se pode ter países com tratamentos diferentes”, afirma. Como exemplo, aponta o “turismo médico” de vários cidadãos europeus que, diz, vão ao Reino Unido e acabam por esgotar os recursos do SNS. “Olhe o meu pai, ele é reformado e vive em Espanha. Teve um problema de saúde renal, foi lá ao hospital e eles fizeram os mínimos e recomendaram-lhe vir para cá tratar-se, porque seria melhor para ele. Então isto é tratamento igual?”, questiona.

Havering pertence à Grande Londres, mas é mais semelhante ao condado vizinho de Essex, essencialmente agrícola (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Feita a decisão, os quase três anos que passaram desde então não fizeram Steve arrepender-se de nada. Pelo contrário: a forma como a negociação foi conduzida pela UE fê-lo ficar ainda mais certo do que o caminho correto é o da saída. “O Tusk e o Barnier querem provar aos outros países que quem tenta sair não tem hipóteses”, diz, referindo-se ao presidente do Conselho Europeu e ao negociador-chefe. “O meu avô lutou para que este país fosse independente. E agora estamos em guerra, não com balas nem com bombas, mas com palavras. O Tusk é o novo Hitler”, afirma, soltando uma gargalhada.

A imigração, motor da decisão para muitos. “Mas não somos racistas, não nos retrate como ignorantes, OK?”

John Buckley, vendedor de roupa da banca em frente, não consegue evitar meter-se na conversa: “Aquilo que queremos é que eles honrem o resultado. Nós faríamos o mesmo se o Remain tivesse vencido”, garante, interrompendo por breves momentos a conversa para dar troco a uma cliente que leva um par de meias.

“Oiça, eu sou senhorio. E tenho como inquilinos uma família de romenos que é adorável, não tenho uma queixa a fazer sobre eles. Mas eles têm uma filha com graves problemas de saúde e… O meu coração sofre por eles, sofre mesmo. Mas eles têm recorrido a tratamentos do SNS que custam milhões. Eu vi as contas: milhões de libras”, afirma, arregalando os grandes olhos azuis.

A imigração foi para John uma das razões pela qual votou para Sair no referendo, porque acredita que o sistema de entradas é atualmente demasiado permissivo, devido às regras de livre circulação da UE. “Há histórias… E não são inventadas pelo Daily Mail, nós conhecemo-las, é a nossa vida, percebe?”, afirma. Como exemplo, aponta a experiência da mulher, que trabalha num banco: “Ela lida com fraudes diariamente. E regra geral são albaneses, são romenos… A quantidade de dinheiro que eles recebem em apoios sociais é imensa, e depois muitas vezes é por razões fraudulentas. E há outras coisas, como os paquistaneses que chegam e recusam-se a ser atendidos por ela, só aceitam falar com um homem, está a ver?”

Steve Wickinden em frente à sua banca de carne no mercado de Romford. "Se não houver Brexit, vai haver motins", prevê (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Steve abana a cabeça em sinal de concordância, mas de imediato faz um pedido: “Por favor, não nos retrate como ignorantes, OK? O problema é que neste país, se alguém se assume como nacionalista é logo apelidado de racista e isso não é verdade”, sentencia. O vendedor vizinho, John, concorda. Dá como exemplo uma amiga do Gana que, embora sendo negra, votou pelo British National Party (BNP, partido de extrema-direita) por se dizer farta dos abusos de outros imigrantes. E até acrescenta que não gosta da linguagem usada por alguns durante a campanha, que falavam numa “invasão”. “Mas a verdade é que são demasiados”, remata, encolhendo os ombros e regressando à sua bancada de riscas verdes e brancas.

As queixas de John e Steve são comuns à de muitos outros habitantes de Romford que, embora seja um dos locais da Grande Londres com menos diversidade étnica, é das zonas onde os efeitos da imigração mais preocupam. Os problemas de habitação, uma área que preocupa muitos dos que se mudaram para aqui para fugir aos preços elevados do centro da cidade, são por vezes apontados como estando ligados a esse desconforto com os estrangeiros: “Quando as pessoas daqui ficam anos à espera de uma casa de habitação social e depois veem outros chegar e ter logo uma, é claro que ficam antagonizados”, aponta a tory Sue, como um dos exemplos para justificar a decisão de votar Leave.

Romford ainda é tecnicamente Londres, mas aqui não há a mesma atitude daqueles que olham para os estrangeiros como um sinal de cosmopolitismo e como uma bênção que ajudará a inverter a balança demográfica. O espírito é mais semelhante ao de uma zona rural como o condado agrícola vizinho de Essex, que elegeu o primeiro deputado do UKIP em Westminster, Douglas Carswell. “Romford é uma zona de um certo conservadorismo de classe trabalhadora, de colarinho azul”, resumiu ao Independente David Eldridge, dramaturgo de Havering, premiado pela sua peça Basildon, sobre a vida em Essex. “São famílias que vieram do East End [em Londres] para aqui. Trabalharam no duro e melhoraram as suas vidas. Não se tornaram ricos, mas sentem muito orgulho de terem subido na vida”, descreveu.

“Agora sentem que a vila está pior, está um pouco em baixo. E juntam isso ao facto de haver europeus de leste por ali durante o dia. E de à noite não parecer seguro, com gente que vem de fora para se divertir ali. Todos aqueles sotaques, todas aquelas vozes diferentes…” A Romford que conhecem está a mudar. E um voto no Leave ajudou a sentir que era possível controlar o ritmo dessa mudança.

A descrença nos deputados. “Escolher entre Labour e conservadores é como escolher a doença que se quer apanhar”

Apesar de não terem arrependimentos nem dúvidas sobre aquilo em que votaram, os habitantes de Romford não estão felizes com a demora que o processo está a levar. E a culpa, acreditam, não é só da UE: “Os políticos estão a comportar-se como crianças. O Parlamento parece uma escola. Aliás, pior, porque na escola, quando o professor fala os outros calam-se”, declara o talhante Steve.

Theresa May, acredita este pequeno empresário, faz o melhor que pode: “Ela provou o cálice envenenado, não foi? Faça o que fizer, vai ser despedida”, resume, colocando as culpas nos deputados por não terem aprovado o acordo da primeira-ministra — por três vezes. Na banca ao lado, outro habitante de Romford aproveita para se meter também na conversa, repetindo sempre a mesma mensagem, a rematar as afirmações de Steve: “Tragam de volta a Maggie!”, grita.

Um dos retratos de Margaret Thatcher na sede dos conservadores em Romford (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Outra fã de Thatcher, a secretária Sue, concorda em absoluto que o problema está no Parlamento. A começar pelo presidente da Câmara, John Bercow, que apelida de “aquela pequena doninha”. Bercow só permitiu uma terceira votação do acordo em caso de “alterações substanciais” ao documento apresentado. “Estou capaz de esganá-lo”, declara Sue. “E os deputados? Estão a arrastar-nos. Só alguns como o Andrew é que representam o seu povo.” É o único a fazê-lo? “Não”, concede. “Há o Jacob-Rees Mogg. Adoro completamente o homem”, confessa Sue, juntando as duas mãos em concha e fazendo um sorriso maroto. “É uma pena que ele seja apenas deputado, devia fazer parte do Governo. Mas há de fazer”, remata, com convicção.

O Brexit pode não ter ocorrido a 29 de março, mas, por aqui, a esperança não morreu. O deputado Rosindell — que votou contra o acordo de May nas três vezes em que foi apresentado à Câmara —, ainda acredita que uma saída sem acordo é possível. E não tem dúvidas em afirmar que seria o melhor resultado: “É como quando se está doente e se precisa de uma operação. É melhor não a fazer porque é um risco e deixar a doença avançar? Acho que é melhor fazer a operação. A recuperação pode ser difícil, mas depois de ultrapassada volta-se a ter saúde.”

Andrew Rosindell, deputado pelo círculo de Havering desde 2001, defende uma saída sem acordo (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

No mercado de Romford, o talhante Steve concorda. Embora não se oponha ao acordo de May, acha que um no deal também não traria mal ao país: “Os economistas só andam para aí a assustar as pessoas. Dizem que não vai haver comida. Ai sim? Não sei porquê, ainda não houve nenhum país do mundo a dizer que ia recusar ter comércio connosco.” Apesar disso, reconhece que o seu negócio tem estado mais em baixo, mas isso é porque “o zé povinho está assustado e por isso não gasta dinheiro”. Com o fim das negociações do Brexit, diz, tudo regressará ao normal.

Apesar disso, não acredita que um no deal venha a acontecer a 12 de abril. “Era preciso eles terem tomates para apoiar a votação do povo”, afirma, referindo-se aos deputados. Se o caminho para o Brexit lhe trouxe alguma coisa, foi a certeza que tomou a decisão certa no dia do referendo e que os principais partidos já não o representam, preferindo antes apoiar Nigel Farage daqui para a frente. “Escolher entre o Labour e os Conservadores agora é como escolher que doença se quer apanhar. Estão completamente desligados da realidade”, afirma Steve, a cabeça com o chapéu vermelho da farda a abanar, em sinal de descrença. Da banca ao lado, soa novo grito familiar: “Tragam de volta a Maggie!” Umas ruas acima, na Margaret Thatcher House, Sue concordaria.

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