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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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No Ohio, esta fábrica foi encerrada apesar de todas as promessas — e agora pode ser um problema para Trump /premium

Jon vai viver numa caravana longe dos filhos e Chuck é agora ativista anti-Trump. As consequências do fecho desta fábrica não são só para eles — também Trump pode pagar por esta promessa não cumprida.

Reportagem em Lordstown, no Ohio

Tal como nunca se habituou ao turno da madrugada na fábrica, Jon Alexander ainda não se habituou a viver longe dos filhos. “Estar sem os meus miúdos é como trabalhar no terceiro turno”, diz, cofiando a sua longa barba ruiva. “Simplesmente não é natural, vai contra a natureza humana. Quando está escuro, dorme-se. Quando se tem filhos, está-se ao pé deles.”

Não era nada disto que Jon Alexander tinha planeado para si. Quando era pequeno, cresceu a imaginar-se a trabalhar num só sítio: a fábrica da General Motors em Lordstown, mesmo ao lado de Youngstown, onde nasceu e cresceu. Nascido numa família pobre, Jon Alexander sabia que aquele era um sítio onde podia ter melhor sorte. Ali, os empregos eram todos fruto de negociação coletiva e os contratos assinados através do sindicato e, por isso, com salários e benefícios atrativos. E conseguiu — depois de ter estado na Marinha e de ter participado em missões um pouco por todo o Médio Oriente entre 1992 e 1995, Jon Alexander arranjou emprego na General Motors, tal como o avô. Era imenso o orgulho de ser como aquele homem que, enquanto foi vivo, teve à porta de casa um cartaz onde se lia: “Carros estrangeiros não são bem-vindos”.

Depois da transferência da General Motors para o México, Jon Alexander passou a ser um de 4,5 mil trabalhadores da fábrica da General Motors que foram despedidos

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Só quando conseguiu assinar contrato com a General Motors é que respirou fundo. “Agora já posso ter filhos”, pensou na altura. “Com este emprego, não vão passar pelas mesmas coisas do que eu quando era miúdo.”

Foi sobre essa certeza que construiu uma família: casou-se e teve dois filhos. Mas, depois, chegou março de 2019 e o impensável aconteceu em Lordstown: depois de 54 anos a funcionar, a produção da fábrica da General Motors foi suspensa e transferida para o México. De repente, Jon Alexander passou a ser um de 4,5 mil trabalhadores da fábrica da General Motors que tiveram pela frente dois cenários: ou ficavam desempregados ou esperavam até terem vaga noutra fábrica do país.

Por um lado, Jon Alexander queria ficar em Youngstown ao pé dos seus filhos. Por outro, não tinha como encontrar emprego naquela cidade devastada pelo choque de ficar sem a sua principal fonte de sustento. Com dívidas e a pensão alimentar dos filhos a pagar à sua ex-mulher, de quem se divorciara entretanto, Jon Alexander não teve outra hipótese: aceitou emprego em Bay City, no Michigan, a praticamente 5 horas de casa.“Eu queria ter uma alternativa, mas na verdade nunca a tive”, disse. “Ou saía de ao pé dos meus filhos ou eles iam passar mal.”

Desde que se mudou para o Michigan, Jon Alexander tem ficado em casa de um amigo. Mas isso vai mudar a partir de agora — de regresso a Youngstown durante uma semana, está prestes a comprar uma rulote, onde passará a dormir sempre que estiver em Bay City. Inicialmente pensou em comprar uma rulote de média-alta qualidade, mas acabou por comprar a mais barata de todas — isto depois de, com a pandemia e o desejo de distanciamento social, as rulotes terem disparado na procura e nos preços.

Jon foi trabalhar para Bay City, no Michigan, a praticamente 5 horas de casa e ficou longe dos filhos. Nos primeiros tempos viveu em casa de um amigo mas agora vai começar a viver numa rulote

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Já só faltam os pneus. De resto, está tudo tratado com a rulote onde Jason Alexander vai passar a viver daqui em diante: a canalização está bem, incluindo a da água quente, que foi inspecionada; o telhado não tem nenhuma racha; o fogão a gás está pronto a usar. Até a matrícula, com uma menção ao facto de ser veterano de guerra, está instalada.

Jon Alexander conta isto tudo com um certo orgulho, mas rapidamente desce à terra quando vê o que projetou para si e o que conseguiu. “Passei de viver o sonho americano para viver numa rulote”, diz.

Jon conta toda a sua história com tom de orgulho mas rapidamente desce à terra: “Passei de viver o sonho americano para viver numa rulote”

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Uma promessa que Trump não cumpriu — e que pode ter custos eleitorais

“A vossa indústria automóvel está a ser sugada”, disse Donald Trump, que a seguir prometeu logo: “Se eu for eleito, vocês não vão perder uma única fábrica, vai haver fábricas a voltar para este país e vocês vão voltar a ter empregos”.

Estas são palavras de Donald Trump a 16 de outubro de 2016, naquele que é um exemplo entre vários de promessas que fez no sentido de dar uma nova vida à indústria norte-americana — aumentando a produção e, acima de tudo, o número de empregos no setor industrial. E se é verdade que os números levaram a um crescimento do emprego na indústria em sintonia com o crescimento económico, os indicadores oficiais dos principais estados industriais (como Indiana, Michigan, Minnesota, Ohio e Pensilvânia), a verdade é que nos meses que antecederam a pandemia o número de empregos na indústria começou a descer ligeiramente. Já com a Covid-19, a queda tornou-se muito acentuada.

“Trump tem-se concentrado na ideia de um enorme regresso do emprego em fábricas e isso não se materializou”, disse ao Politico Mark Muro, economista do Brookings Institution. “De um lado há as tecnologias de melhoramento de produção e do outro a competição internacional. Para mim, esta é a receita para uma pressão contínua no emprego. Não creio que o emprego em massa esteja em vias de regressar.”

Depois de 54 anos a funcionar, a fábrica da Generel Motoros em Lordstown, no Ohio

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No caso da General Motors em Lordstown, a promessa de Donald Trump não foi cumprida — mas há ainda assim algumas réstias de esperança. No lugar da General Motors, está agora a Lordstown Motors — uma construtora automóvel dedicada aos carros elétricos. Tudo isto, porém, está muito mais na fase de projeto do que concretização. A Lordstown Motors entrou no mercado bolsista no final de outubro e, de acordo com os comunicados que tem avançado à imprensa, a produção daqueles automóveis está prevista para o final de 2020. Porém, a dois meses do fim do ano, não há operários naquela fábrica. Apenas um total de cerca de 50 engenheiros trabalham ali.

Para Chuckie Denisson, antigo trabalhador da fábrica da General Motors, Donald Trump esteve longe de fazer tudo o que estava ao seu alcance para impedir que os trabalhos naquela fábrica desaparecessem. “Ele podia ter resolvido tudo com uma assinatura, mas como eu sempre soube ele não se preocupa connosco, nem se dá ao trabalho de nos proteger”, diz.

Em causa está o facto de a General Motors ter vários contratos com o governo federal dos EUA, que vão da saúde à defesa, passando pelos carros utilizados por diferentes organismos públicos. “Bastava que ele tivesse pegado numa caneta e assinasse uma ordem executiva que impedisse qualquer empresa que tivesse contratos com o governo federal de fechar fábricas e muito menos de enviar a produção para o estrangeiro”, diz Chuckie Denisson.

Nas eleições presidenciais desta terça-feira, o fecho da fábrica da General Motors em Lordstown, e a ideia de que podia ter feito mais, pode ser um problema para Donald Trump na hora de tentar a reeleição para a Casa Branca. Nos dois condados em que se insere a fábrica e as suas redondezas — Mahoning e Trumbull —, Donald Trump conseguiu ganhos significativos em relação ao seu antecessor Mitt Romney, em 2012. Há quatro anos, Donald Trump conseguiu roubar o condado de Trumbull aos democratas, que ali venciam desde 1976 — e por pouco não conseguiu fazê-lo no condado de Mahoning.

Com o fecho desta fábrica 4,5 mil trabalhadores ficaram sem emprego

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Agora, este pode ser um fator a fazer a diferença numa corrida tão concorrida como a que se avizinha no Ohio, que além de ser um importante swing state tem também o condão de ter votado no candidato vencedor em 29 das últimas 31 eleições — isto é, desde 1896. Mais importante ainda para Donald Trump é a informação de que nunca um candidato republicano venceu as eleições sem vencer no Ohio.

E o que as sondagens indicam é que nada está garantido — mas que é Donald Trump que tem mais probabilidades de ser vencedor, mesmo que ligeiras. De acordo com o FiveThirtyEight, Donald Trump tem 55% de chances de vencer no Ohio e Joe Biden tem 45%. A mesma projeção aponta para que o resultado venha a ser de 49,8% para Donald Trump e 49,2% para Joe Biden. Ou seja, nada está decidido no estado oráculo do Ohio — e a crise de Lordstown pode fazer a diferença.

Atrás de Trump, seja onde for…

Aos 42 anos, Chuckie Denisson já viu várias fábricas da General Motors, empresa para a qual trabalhou desde que saiu da escola secundária. A primeira fábrica onde esteve foi em Dayton, no Ohio — que acabou por fechar em 2008. Dali, passou para outra fábrica da General Motors, desta vez em Shreveport, no Louisiana — mas também essa acabaria por fechar em 2012. Foi dali que regressou ao seu estado, o Ohio, para começar na fábrica de Lordstown. Até que, em março de 2019, também ali o destino foi o mesmo.

Na casa de Chuckie Denisson, o impacto foi duplo: além dele próprio, também a sua namorada trabalhava na General Motors de Lordstown. Depois de dois meses de impasse, sem emprego e por isso sem seguro de saúde, a namorada de Chuckie Denisson aceitou ser transferida para uma fábrica da General Motors em Spring Hill, no Tennessee. Já no novo emprego, foi-lhe diagnosticada uma doença grave — que pode tratar sem custos por ter acesso ao seguro de saúde da General Motors.

“Se ela tivesse adoecido umas semanas antes, em vez de ter recebido tratamentos teria ficado com meio milhão de dólares em dívidas à seguradora ou, ainda pior, podia já não estar connosco”, diz Chuckie Dennisson. Apesar desse desfecho positivo, a realidade que vive dia a dia é mais negativa — com a namorada a mais de 10 horas de carro, vive sozinho. “Levo uma vida muito solitária”, admite, de lágrimas nos olhos. “É muito difícil viver longe da pessoa que amamos.”

Na casa de Chuckie Denisson, o impacto foi duplo: além dele próprio, também a sua namorada trabalhava na General Motors de Lordstown

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Perante a hipótese de procurar um novo emprego junto da General Motors a seguir ao fecho da fábrica de Lordstown ou de sair daquele universo, Chuckie Dennison escolheu a última. “Depois de ter passado pelo fecho de três fábricas, posso dizer que não estou preparado para assistir a um quarto fecho”, diz. “Eu sempre pensei que ia morrer a trabalhar, mas depois de ter passado por todas estas coisas entendi que há algo mais importante do que andar a bater com a cabeça nas paredes.”

Por isso, aos 42 anos, tomou uma decisão que nem ele próprio esperava: reformou-se. Pegou nas poupanças, meteu os papéis para receber uma pequena pensão e cortou nos gastos. Tudo para passar a ocupar o seu tempo com o ativismo político. Admirador e seguidor de Bernie Sanders, Chuckie Dennison sabe que não poderá fazer isto para sempre. “Mas, enquanto der, vou aproveitar ao máximo”, garante.

E esse “aproveitar ao máximo” significa sobretudo uma coisa: ir atrás de Donald Trump até qualquer que seja o seu comício na zona do Ohio e da Pensilvânia ocidental. Esta perseguição ao Presidente tornou-se num hobby ainda quando tinha emprego na General Motors, na altura em que decorreu a campanha para as eleições intercalares de 2018.

“Levo uma vida muito solitária”, admite, de lágrimas nos olhos. “É muito difícil viver longe da pessoa que amamos.”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Numa fase inicial, Chuckie Dennisson chegou a tentar a via diplomática e entrava nos comícios de Donald Trump com uma organização chamada Good Jobs Nation, um coletivo contra o outsourcing de empregos dos EUA para outros países com mão de obra mais barata. Mas, depois, veio o seu despedimento. E, com ela, uma incompreensão: a de haver pessoas da classe trabalhadora, alguns deles seus ex-colegas na General Motors, a defender Donald Trump.

A incompreensão levou a revolta e a revolta levou a que Chuckie Dennisson passasse a gastar uma boa parte do seu tempo e dinheiro a ir a tantos comícios de Donald Trump e das pessoas da esfera do Presidente quanto possível. O afinco é tal que já chegou a assistir a dois comícios de seguida — acelerando o máximo possível na sua carrinha pick-up para conseguir chegar a tempo de ouvir Donald Trump, que viajava de avião. Foi uma façanha que repetiu várias vezes e que, por vezes, lhe exigiu alguma criatividade e dedicação. Uma vez, depois de ter sido expulso de um primeiro comício, a caminho do segundo cortou a barba crescida e rapou rente o cabelo que então tinha pelos ombros.

Chuckie Dennisson passou a gastar uma boa parte do seu tempo e dinheiro a ir a tantos comícios de Donald Trump e das pessoas da esfera do Presidente quanto possível

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A 27 de outubro mal teve de se afastar de casa, já que Donald Trump Jr. viajou até Youngstown para dar um comício. Enquanto o filho mais velho do Presidente falava para um grupo de apoiantes num espaço fechado, Chuckie Dennisson gritou: “Então os homens e mulheres trabalhadores de Youngstown que perderam os empregos?! 5 mil pessoas em Lordstown! Famílias separadas, comunidade devastadas!”. Não tardou para que Donald Trump Jr. começasse a falar por cima, ajudado também pelos seus apoiantes e pela segurança, que levou Chuckie Dennisson para a rua.

… seja onde for, com Trump atrás

Allan Banner entra no parque de estacionamento da escola de ensino técnico do condado de Mahoning com um daqueles carros que o avô de Jon Alexander nunca deixaria que estacionassem em frente à sua porta: uma carrinha pick-up da Toyota, marca japonesa. Porém, não é para a viatura que toda a gente está a olhar, mas antes para o atrelado: uma enorme estrutura azul onde, em cada um dos dois lados, se lê um TRUMP com letras brancas.

O atrelado foi feito há oito anos, altura em que a possibilidade de Donald Trump fazer uma entrada na vida política era vista por muitos como uma mera jogada publicitária para os seus variadíssimos negócios. Mas um amigo de Allan Banner achava que esse era o caminho — e por isso construiu aquele atrelado e começou a andar com ele e a levá-lo ocasionalmente para um sítio que poderia ter a atenção de Donald Trump. Mais tarde, já com Donald Trump a concorrer às primárias republicanas de 2016, Allan Banner comprou-lhe o atrelado. “Foi uma excelente compra”, gaba-se. Desde então, leva aquele atrelado a vários eventos de campanha — e, por vezes, até quando vai jantar fora.

O atrelado foi feito há 8 anos, altura em que a possibilidade de Trump fazer uma entrada na vida política. Mais tarde, a concorrer às primárias republicanas de 2016, Allan comprou-lhe um atrelado

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quando chega ao parque, são várias as pessoas que lhe pedem fotografias — é que, tal como Allan Banner e a mulher, vieram todos ao mesmo: para um comício de Ivanka Trump, a filha mais velha do Presidente.

Há quatro anos, Allan Banner foi o responsável pela campanha de Donald Trump no condado de Turmbull — o que o leva a falar com visível orgulho na mudança de cores daquela parte do estado do Ohio nas eleições anteriores. Desta vez, mantém a confiança: “Acho que as sondagens são falsas e que vamos ganhar”.

Porém, quando lhe perguntamos sobre a fábrica da General Motors, e como o seu encerramento pode ter influência nas eleições, Allan Banner parece confuso numa primeira fase. “A fábrica fechou antes ou depois das eleições, querida?”, perguntou à mulher. Resposta: foi quase três anos depois — e a um ano e meio das presidenciais desta terça-feira. “Claro que a fábrica ter saído daqui não é bom”, diz. “Mas eu prefiro olhar para as empresas que ou continuaram a investir aqui ou começaram”, disse, referindo-se ao projeto de uma fábrica de baterias da General Motors ou ao armazém da TJX. “Donald Trump está a fazer um excelente trabalho e isto é prova disso.”

Não muito longe de Allan Banner e do seu atrelado, está Chuckie Dennison. Está pronto para entrar em mais um comício do universo Trump. Desta vez, trouxe uma fronha para uma almofada de cama onde escreveu a letras pretas: “Trumps, vocês estão todos despedidos”.

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