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"No Outono". Duas crónicas de Karl Ove Knausgård

"Ambulâncias" e "August Sander" fazem parte do livro "No Outono", agora publicado em Portugal. Trata-se de um conjunto de textos dedicados à filha mais nova e escritos antes do seu nascimento.

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“28 de Agosto. Agora, no momento em que escrevo isto, não sabes nada, nada do que te espera, do mundo a que vais chegar. E eu nada sei de ti. Vi uma imagem na ecografia, e pus uma mão sobre o ventre em que estás, é tudo.”

São as frases que têm apresentado a edição portuguesa de “No Outono”, uma espécie de (longa) carta que Karl Ove Knausgård escreveu como dedicatória à filha mais nova — antes do seu nascimento — e que foi originalmente publicada em livro em 2015. O Observador publica dois textos que fazem parte da obra.

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“No Outono”, de Karl Ove Knausgård (Relógio D’Água)

Ambulâncias

“Na escuridão do planalto a luz azul da ambulância pode avistar‑se a muitos quilómetros de distância. Ela é diferente de todas as outras luzes na zona, das amarelas das casas e das vermelhas que piscam no cimo dos moinhos eólicos e dos postes de telefone. A luz da ambulância parece‑se com uma descarga elétrica e move‑se depressa. Avista‑se ao longe, desaparece durante uns segundos, e quando reaparece, já está muito mais próxima. Quando a escuridão é muito densa, imagino que deve ser como no interior de um cérebro, que as luzes imóveis das quintas provêm de um aglomerado de células que comandam as funções básicas, como a respiração e o metabolismo, ao passo que a luz azul que se aproxima a grande velocidade é uma súbita ideia, um pensamento terrível ou um sonho.

A descarga elétrica propaga‑se de célula em célula, está cada vez mais próxima, e eu chego‑me para o lado na estrada escura, porque a ambulância agora está só a umas centenas de metros de distância. Vem depressa e com a sirene apagada, e é como se isso aumentasse o desconforto, porque a força da luz parece aumentada pelo silêncio. Sem um ruído passa na escuridão, e desaparece. De dia tudo é diferente, não só porque a luz do dia enfraquece a luz azul, mas também porque as redondezas, os largos campos com os seus arvoredos e casas de lavoura, a suave inclinação para as falésias perto do mar e o mar em baixo como que se ligam à ambulância, o branco‑metálico contra o verde e o cinzento, e lhe dão uma explicação: alguém se feriu ou adoeceu, tem de ir para o hospital.

"Neste tempo somos como árvores, escuras e estáticas, numa frequência tão baixa de tempo, que nenhuns movimentos são apercebidos, a não ser os maiores, como a mudança das estações, e mesmo esses apenas vagamente."

Também de dia algo de desagradável se pode ligar à ambulância que não tem que ver com o que se passa no interior dela, mas com o que ela provoca. O modo como cada carro se tem de afastar para o lado e parar quando ela aparece atrás deles. É como uma divisão das águas, e quando a ambulância passa depressa através da passagem aberta, agora com a sirene além da luz azul, é como se o tempo por um momento se detivesse, e tudo o que não seja este movimento estivesse parado e na realidade não existisse, até o momento passar, os carros retomarem lentamente a sua marcha e tudo no decorrer de alguns segundos voltar ao normal, como se nada se tivesse passado.

Dentro da ambulância o tempo é outro. A pessoa que vai lá dentro deitada, amarrada à cama, não repara na velocidade, não repara nos outros carros, mas está imersa no seu próprio tempo, tempo de vida e que está em vias de terminar. A atividade febril que rodeia esta pessoa, com a confusão de fios, tubos, instrumentos, máscaras e seringas, também ela não a nota. Neste tempo real não há minutos ou segundos, não há meses ou anos. Neste tempo somos como árvores, escuras e estáticas, numa frequência tão baixa de tempo, que nenhuns movimentos são apercebidos, a não ser os maiores, como a mudança das estações, e mesmo esses apenas vagamente. Assim vão os moribundos pelas estradas a alta velocidade na ambulância, lentamente como crescem as árvores.”

August Sander

“Estive a folhear durante toda a manhã a obra principal de August Sander, Pessoas do Século XX. Consiste em muitas centenas de perfis. Não menciona nenhum nome, apenas a profissão, e as fotografias são distribuídas por grupos sociais: camponeses, trabalhadores, burguesia. São imensamente fascinantes, cada um por si e no todo.

Olho e volto a olhar para eles, para os rostos destas pessoas que viviam aqui por volta do tempo da primeira guerra mundial. Muitos têm incríveis expressões, como que mudas, mas que, contudo, dizem tanto, e isso a que se deve? A fotografia não separa apenas o seu objeto do tempo, separa-o também do espaço e isola-o do contexto em que estava. O interesse destas fotos deve-se a que todas as caras, todas as pessoas estão carregadas de tensão, mas o que provocou essa tensão está invisível. A carência de explicações cria uma especial estranheza, abre as caras fechadas, mas não sabemos para quê. Muitas das caras dos camponeses são rudes, e tanto mais rudes quanto mais velhas; decerto por terem vivido uma vida ao ar livre, sob o sol, ao vento, à chuva e ao frio. Muitas delas também mostram uma certa determinação, como que estão habituadas a rejeitar o que encontram, ou a resistir. Mesmo muitas das caras dos muito jovens, homens e mulheres, normalmente lisas e intocadas pelo espírito da vida, têm essa marca.

"Se viesse cá um fotógrafo, reunisse a família no relvado junto à casa e tirasse uma fotografia, e a fotografia fosse parar a um livro que um homem abrisse daqui a cem anos, de quanto da nossa vida que se joga agora aqui poderia ele aperceber‑se? Fitá-lo-íamos em silêncio."

O contraste com as caras que vivem outros tipos de vida, por exemplo, os magnatas da indústria ou os pintores, é manifesto. As caras destes não são rudes nem determinadas, mas abertas e refinadas. A ideia de que o seu interior também deva ser diferente é natural, que a condição humana é igual para todos, mas que a vida que vivemos corre por dentro de nós de diferentes modos. Que os sentimentos, pensamentos e representações desabrochem e se amontoem em sítios diferentes, dependendo de onde e como encontram resistência. Algumas destas pessoas devem ter sido traiçoeiras, outras leais, umas honestas, outras mentirosas, umas devotas, outras hedonistas.

Não é possível ler isso nas fotografias. Tudo o que havia entre elas desapareceu. Contudo, temos uma sensação de quem são. Então, que vemos nós quando as vemos? Se viesse cá um fotógrafo, reunisse a família no relvado junto à casa e tirasse uma fotografia, e a fotografia fosse parar a um livro que um homem abrisse daqui a cem anos, de quanto da nossa vida que se joga agora aqui poderia ele aperceber‑se? Fitá-lo-íamos em silêncio. Vanja, Heidi, John, Linda, Karl Ove. Tudo o que existe entre nós, e que na realidade é a única coisa que é importante para nós, seria invisível. O que ele veria é o que nós mesmos não vemos, que somos caras entre caras, corpos entre corpos, pessoas entre pessoas. E que a nossa vida está inscrita nas nossas caras e nos nossos corpos, mas numa linguagem tão estranha, que nem mesmo nós sabemos que é uma linguagem.”

Ao mesmo tempo, já está também disponível a tradução portuguesa do quarto volume da saga “A Minha Luta”, de Karl Ove Knausgård, “Dança no Escuro”.

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