Nos bastidores do Bloco com Catarina Martins: “A esquerda tem de assumir uma postura mais ofensiva” /premium

08 Novembro 2018184

O Observador acompanhou os últimos preparativos da Convenção do Bloco. Catarina Martins desvendou parte da estratégia para as próximas legislativas e assume uma agenda de "transformação"

Entrando na sede do Bloco de Esquerda é impossível não notar que falta muito pouco para a XI Convenção do Bloco de Esquerda: os caixotes empilhados, os voluntários que à volta deles se sentam e os panfletos alusivos à reunião magna do partido. É um momento importante para a vida do BE, mas que também pretende marcar a agenda. “Existe sempre a preocupação de tornar este acontecimento num momento político”, confirma Catarina Martins ao Observador.

Na véspera da reunião magna do Bloco de Esquerda, vários voluntários organizavam o material que chegava à sede

Existem muitas formas de o fazer e são todas analisadas nas reuniões em que se discute a Convenção. Quanto mais a data se aproxima, mais tempo se dedica à discussão e mais pormenores se ultimam. Na terça-feira, 6, a três dias do arranque, teve lugar na sede do partido a última reunião. Instantes antes do início, que estava marcado para as 14h, Catarina Martins admitia que nem tudo estava fechado. O nome do cabeça-de-lista para as eleições europeias vai ser revelado nesta convenção? “Isso ficará fechado esta tarde”, responde, deixando o enigma no ar. “Seria certamente uma forma de colocar a convenção na agenda, mas não seria propriamente um momento político”. Há prós e contras na adoção desta decisão e a coordenadora do Bloco de Esquerda ilustra-o bem sem nunca chegar a levantar o véu.

Catarina Martins assume que Bloco de Esquerda tem de ser mais ofensivo na próxima legislatura. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Era um dos pormenores que estavam por fechar nas vésperas de uma convenção que se adivinha pacífica. A edição deste ano é provavelmente aquela em que o Bloco de Esquerda se apresenta mais seguro e unido desde que Francisco Louçã deixou a liderança. Em 2012 foi preciso saber lidar com a saída de cena da figura mais importante do partido. A transição não foi fácil e os dois anos que se seguiram, com João Semedo e Catarina Martins no comando, não serviram para dissociar a imagem do BE da do seu fundador. Em 2014 houve uma disputa interna que colocou duas correntes do Bloco frente-a-frente: uma encabeçada por Pedro Filipe Soares e outra por Catarina Martins. Defendiam estratégias diferentes tanto para o BE como para o país. Foi um combate duro no seio de um partido que não estava habituado a este tipo de divisão interna. O resultado: empate. O consenso foi encontrado fazendo da atual líder porta-voz da direção e mantendo Pedro Filipe Soares na liderança da bancada. Em 2016, já com as feridas lambidas e com um ano de “geringonça”,  a solução de aproximação ao PS e o apoio a um governo socialista ainda não tinha convencido inteiramente todos os bloquistas mas Catarina Martins recebeu a confiança do partido, passando a assumir a coordenação. Os próprios protagonistas ainda não se tinham habituado à nova realidade. “Estávamos no início do processo”, lembra a coordenadora do Bloco de Esquerda.

Este ano, o caso é diferente. Já se entendeu “a geringonça” na sua plenitude e não parece haver dúvidas quanto à solução adotada depois das eleições legislativas de 2015. Existe alguma crítica interna – “o que é normal e saudável”, aponta Catarina Martins – mas é residual. O consenso em torno do caminho seguido é grande e os bloquistas parecem apostados em continuar pelo rumo apontado pela atual direção.

Nos momentos de descontração, Catarina Martins mostrou-se disponível para ouvir quem quisesse falar com a líder do BE. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Isto permite ao partido encarar esta convenção tranquilamente. Mas ninguém ousa desvalorizá-la. “É particularmente importante porque vivemos um período que nos permitiu mudar algumas das condições em que se discutem as opções políticas”, diz a líder bloquista, emprestando relevância nacional a uma reunião partidária que de história pode ter pouco.

Internamente, o partido respira de alívio por os fantasmas de 2012 e de 2014 terem sido afastados. “Foram fases complicadas porque era muito difícil substituir Francisco Louçã”, reconhece Catarina Martins. Foi um período conturbado, em que o Bloco de Esquerda teve os piores resultados de sempre e em que chegaram a fazer-se rascunhos do epitáfio mais adequado. Mas houve uma reviravolta com as eleições legislativas de 2015 e com a solução governativa então encontrada. Nas hostes bloquistas, a divisão serenou-se e Pedro Filipe Soares manteve-se no centro nevrálgico da solução, continuando a ocupar o cargo de líder da bancada parlamentar. “Foi possível ultrapassar essa divisão com trabalho em conjunto. O Pedro [Filipe Soares] e eu trabalhamos bem juntos e isso facilitou as coisas”, conta ainda, revelando a estratégia que seguiu para assegurar a paz interna e o comprometimento com a solução escolhida pelos militantes.

O tiro de partida para as legislativas

A convenção deste fim de semana vai ser o tiro de partida para um ciclo eleitoral importante, com três eleições em menos de um ano: europeias, regionais da Madeira e legislativas. O objetivo é fazer crescer o partido, claro. E a mensagem política já começa a ser ensaiada. Por mais do que uma vez, nas conversas com o Observador, Catarina Martins repetiu uma frase que pode vir a ser a base para o discurso de campanha – para as legislativas, sobretudo. “Queremos colocar o Bloco de Esquerda a disputar maiorias sociais para um programa claramente de esquerda”. Ou seja, além de haver uma preocupação com o crescimento do partido nas urnas acresce um outra preocupação: conseguir que a esquerda em conjunto volte a ter mais peso que a direita.

As contas a um bom resultado eleitoral do Bloco de Esquerda nas legislativas do próximo ano não se vão fazer olhando apenas para o umbigo. Será necessário ter em conta a correlação de forças à esquerda. E quanto maior for o peso do partido, maior será o protagonismo que vão querer assumir na próxima legislatura. Vir a fazer parte de um governo com o PS é uma solução que não está colocada de parte. Mas nesta fase ainda é muito cedo para se especular e Catarina Martins prefere recentrar a discussão: “as pessoas já perceberam que não existe voto útil, porque útil é votar naquilo em que se acredita”. Uma lógica que beneficia os mais pequenos. E repete: “um bom resultado será o crescimento do Bloco de Esquerda e uma correlação de forças que permita um programa à esquerda”.

Comitiva do Bloco de Esquerda deixa o Parlamento em direção à delegação da APRe em Lisboa. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

A mensagem e a estratégia para o próximo ano estão estudadas. Não assumindo em nenhum momento que as eleições são a maior preocupação do partido neste momento, Catarina Martins não nega a importância que esta convenção tem para preparar um bom resultado nos três atos eleitorais do próximo ano. Fala disso abertamente, embora ressalve que antes muita água vai passar debaixo da ponte.

Num desses momentos de reflexão, reconhece que o ponto de partida em relação à convenção de 2014, que também antecedia umas eleições legislativas, é muito diferente. “Há quatro anos estávamos muito na defensiva. Era preciso defender os princípios básicos da nossa Constituição porque estávamos sob ataque: era preciso defender o país das interferências externas nas suas decisões. Neste momento, tendo sido possível parar alguns ataques e reconstruir algumas das coisas que se tinham perdido, acho que a esquerda tem de assumir uma postura mais ofensiva, no sentido de nos apresentarmos com uma postura mais propositiva, de transformação”, resume.

A convenção será o ponto de viragem também no discurso. Até hoje o Bloco bateu-se por uma agenda que devolvesse rendimentos e repusesse direitos. Agora, mais do que continuar nessa linha, vai querer colocar na agenda novas ideias e mais propostas. O facto de já se terem “alcançado alguns avanços nas questões tradicionais”, explica Catarina Martins, abre espaço para que o partido coloque em cima da mesa outros temas. “Há outras questões, que sempre estiveram nas nossas preocupações, que ganham mais centralidade, como as estratégias económicas que respondam às alterações climáticas”.

À saída da reunião com a APRe, Catarina Martins apresentou propostas de alteração ao OE 2019 relativas aos pensionistas e reformados. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

No entender da líder bloquista, depois de ter sido colocado um travão “à política de direita” e de “ter ficado provado que os chavões da direita não eram necessariamente verdade”, chegou a altura de apresentar a agenda da esquerda. “Durante muito tempo foi difícil falar sobre essas causas. Mas as pessoas já perceberam que essas propostas ganham mais centralidade”, concluiu.

É um Bloco de Esquerda que quer tomar as rédeas da esquerda e apresentar-se como um partido disposto a fazer parte da solução. A palavra “governo” já não faz comichão. “Precisamos de um governo não só como foi este, temos de ir mais longe: é necessário um governo de esquerda”, assume a coordenadora do Bloco. Uma afirmação que ganha uma redobrada importância depois desta legislatura, já que o BE deixou de ser conotado como um partido de protesto.

“Candidato-me a um mandato de dois anos e quero cumpri-lo”

Os dias de Catarina Martins “raramente são iguais”. E nestas alturas, em que a agenda da líder bloquista oscila entre reuniões para a convenção, a preparação de propostas de alteração ao Orçamento do Estado e ações de contacto com o eleitorado, a hierarquização de prioridades requer mais rigor. Tem de estar mais disponível para responder às solicitações e o ritmo só deve abrandar depois de terem passado os atos eleitorais. Até lá, será um crescendo constante.

A jornada de trabalho começa geralmente cedo. Costuma levantar-se às sete da manhã por causa da escola das filhas. E garante que consegue ser produtiva assim que acorda. “Às vezes até, se quiser preparar uma intervenção de fundo com mais atenção, acordo às seis da manhã para trabalhar com silêncio”. Prefere madrugar do que deitar-se tarde. Mas nem sempre as obrigações a que está sujeita permitem que haja espaço para preferências. “Temos de aprender a viver mal ou muito mal com as coisas que deixamos de fazer por não termos tempo”, sublinha.

Catarina Martins recebeu o deputado Jorge Falcato para fechar a proposta do partido para os pensionistas com deficiência. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Esta terça-feira foi um dia ilustrativo do vaivém de ações que vão marcar os dias nos próximos meses. Na Assembleia da República, divide um escritório com a direção da bancada parlamentar: Pedro Filipe Soares, Mariana Mortágua e Jorge Costa. É ali que está o epicentro da ação do Bloco de Esquerda. À secretária, vai-se preparando para a reunião que tem agendada com a APRe (a Associação de Pensionistas e Reformados), que tem nova direção. Para o rescaldo da reunião, tem preparado o anúncio de uma proposta de alteração: a criação de um regime especial para a reforma antecipada para as pessoas com deficiência.

Depois da reunião com a aPRe, a anunciar à comunicação social novas propostas na especialidade para os pensionistas

Enquanto lima as últimas arestas, entra na sala o deputado Jorge Falcato, com quem Catarina Martins se aconselha quanto aos contornos da proposta. Falaram durante cerca de dez minutos. De caderno preto e caneta na mão, a líder do Bloco de Esquerda tira notas constantemente.

A reunião com a APRe acontece a escassos metros do Parlamento, na delegação da associação em Lisboa. O caminho faz-se a pé e à saída de São Bento a comitiva do partido, com os deputados José Soeiro e Isabel Pires à cabeça, já esperavam pela coordenadora. A caminhada demora pouco mais de cinco minutos e são trocadas mais ideias mesmo antes de chegarem ao local, com cinco minutos de atraso.

A líder do Bloco de Esquerda assume que é difícil colocar o telemóvel de lado, precisa de estar "ligada" (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

A conversa durou uma hora e meia e no fim, além da medida a cuja preparação o Observador assistiu, Catarina Martins apresentou mais propostas de alteração ao Orçamento do Estado para 2019 relacionadas com pensões. Nesta franja do eleitorado, importante para a esquerda, os bloquistas já começaram a galgar terreno.

Sem tempo a perder, Catarina Martins entra no carro em direção à sede. O tempo está cronometrado ao segundo. Falta almoçar e reunir com a organização da XI Convenção. No entretanto, a líder bloquista oferece aos jornalistas do Observador uma visita guiada à sede enquanto cumprimenta quem por ela passa.

Antes da reunião de preparação da Convenção, uma visita guiada à sede do Bloco de Esquerda

Dias como este colocam-na a assumir vários papéis num curto espaço de tempo. “São dias muito cheiinhos”. Mas é disto que gosta. E por enquanto “faz sentido” continuar por aqui. Até quando? “Candidato-me a um mandato de dois anos e quero cumpri-lo”. A resposta é a mesma, quer se pergunte se pretende continuar além desse horizonte ou se se fica por aí. Os resultados eleitorais, garante, não vão alterar esta vontade. Quando chegar a altura de decidir se volta a candidatar-se, logo dirá.

A última reunião de preparação da Convenção do Bloco de Esquerda que arranca este sábado em Lisboa

O relógio marca as 14h30. A última reunião da organização começa um pouco depois da hora marcada. A porta fecha-se para dar início a uma conversa que durará mais de cinco horas. Poucos detalhes, para além dos técnicos, ficarão por decidir. A XI Convenção do BE começa esta sexta-feira e marcará o início de um ciclo político que vai redefinir o peso que têm no país e na Europa. As expectativas são elevadas, mas no seio do BE existe confiança. As dores de crescimento foram assimiladas e, acredita-se, o Bloco está agora mais maduro e preparado para enfrentar o que se segue. Por baixo da sala, os voluntários continuam de roda dos caixotes empilhados. Com momento político ou sem ele, a convenção será a ignição necessária para colocar os motores a trabalhar.

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