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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Nos lares de idosos de Madrid, a pandemia foi uma tragédia — e teme-se que volte a ser. Relato de um enfermeiro português /premium

Diogo Vieira é o responsável pela enfermagem de um lar de idosos em Madrid. Recorda ao Observador como trabalhou sem meios, como os hospitais recusaram receber idosos e como agora teme o inverno.

Reportagem em Madrid

Há memórias que o cérebro de Diogo Vieira apagou automaticamente, como se tivesse a intenção de o proteger daqueles três meses em que o novo coronavírus entrou no lar de idosos onde trabalha, em Villaverde, Madrid. Mas há outras que persistem e que, por vezes, ainda reaparecem. Como aquela do idoso que morreu agarrado à sua mão, o único consolo que lhe restava ao saber que a mulher também tinha morrido, momentos antes e pelo mesmo motivo, a Covid-19, no quarto ao lado.

“Quando ele me perguntou como ela estava, não consegui conter-me e comecei a chorar”, conta Diogo Vieira ao Observador, explicando como acabou por confessar ao doente que a mulher já tinha morrido. Aos 25 anos já gere a unidade de enfermagem de uma residência sénior, agora localizada num dos 48 bairros que foram sujeitos a restrições de mobilidade, esta semana, por terem registado altas taxas de incidência de novos casos (todas a superarem os 500 casos por cada 100 mil habitantes).

Recebe-nos numa sala à entrada do lar onde, antes da pandemia, familiares e idosos se podiam encontrar sem qualquer barreira em acrílico. Não esconde o que viveu nos últimos meses. Pelo menos daquilo que o seu cérebro ainda lhe transmite. “Foi muito duro. Houve momentos que tive que sair e respirar uns minutos”, diz, afastando qualquer preconceito de que os profissionais de saúde “são insensíveis” e que resistem a tudo.

Diogo na sala onde estão os medicamentos de todos os utentes

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A viver em Madrid há três anos e há pouco mais de um ao serviço do lar privado do grupo Casablanca, o português nascido em Arouca conta como também ali atravessaram dificuldades, ao mesmo nível dos lares públicos cujos trabalhadores saíram este sábado às ruas para reclamar uma aprovação da lei que transfira a administração dos lares para as regiões autónomas.

"Foi muito duro. Houve momentos em que tive de sair e respirar uns minutos", diz, afastando qualquer preconceito de que os profissionais de saúde "são insensíveis" e que resistem a tudo.
Enfermeiro Diogo

“Ao princípio não tínhamos nada. Usei a mesma máscara durante uma semana e meia e desinfetava a minha máscara com álcool. Tenho uma colega que queimou a cara com lixívia porque desinfetou a máscara com hipoclorito. Não tínhamos batas, usávamos sacos do lixo”, recorda.

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O país fechou, e o lar também

Esse princípio foi logo em março. Na altura, ele próprio já tinha estado um mês com um “quadro gripal atípico”, que se estendeu para lá dos habituais 15 dias e lhe trouxe dores de cabeça mais severas do que o normal. Antes, uma colega cubana que fora visitar a família a casa sentira o mesmo. Ambos continuaram a trabalhar, porque na altura “ainda não se faziam testes generalizados”, até que foi declarado o estado de alarme. Hoje suspeitam que possam ter tido Covid-19, mas não têm como confirmar.

Ao mesmo tempo que o país fechou, o lar também. Deixaram de ser admitidos novos idosos e os familiares deixaram de poder entrar. Nesses primeiros dias, recorda, chegaram a ter de colocar proteções no gradeamento exterior do lar. “Os familiares vinham aqui para a grade esperar que os idosos viessem à rua passear e tocavam-lhes nas mãos”. Ainda agora, as proteções estão ali, bem visíveis, e poderão ter de ser usadas nos próximos meses.

“Agora que retomámos as visitas, também temos de vigiar. Já aconteceu haver familiares que passam as barreiras de proteção e tocam nos idosos, obrigando-nos a pô-los imediatamente de quarentena”, diz. Por outro lado, nem tudo é controlável. Apesar das restrições nas visitas, os familiares podem estar com os idosos quando vão aos hospitais e, aí, os funcionários do lar não conseguem controlar os contactos.

"Os familiares vinham aqui para a grade esperar que os idosos viessem à rua passear e tocavam-lhes nas mãos"
Enfermeiro Diogo

Numa lógica de controlo das infeções, agora que o lar está reaberto, só se aceita a entrada a idosos que tenham um teste ao novo coronavírus negativo. E, mesmo assim, antes de subirem aos andares de cima, têm de fazer quarentena.

A cautela explica-se, precisamente, com o facto de as memórias do que ali se viveu não se apagarem todas. E voltarem amiúde. O enfermeiro regressa a março, quando o estado de alerta foi declarado e o país se fechou. Foi por esta altura que, no lar, apareceu o primeiro caso positivo, um dos idosos. “E depois dois, e três, seis…” contabiliza. Chegaram a ser 80 os utentes infetados e colocados numa ala, entretanto, preparada para os assistir. “E muitas mortes”, embora não saiba quantas. À semelhança das contas da Comunidade Autónoma de Madrid, é difícil perceber quantos idosos morreram efetivamente durante a primeira onda de pandemia. Em toda a Espanha estima-se que terão sido 22 mil os idosos que morreram com a Covid-19.

Uma funcionária do lar vai servir as refeições completamente protegida. Diogo à entrada da zona Covid-19

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“Não posso dizer quantos mortos tivemos porque o Governo pôs tudo no mesmo saco. Tive doentes que, se calhar, morreram com enfarte, mas morreram na fase de aguda por Covid-19. Os doentes eram cremados, fechados numa bolsa, os agentes funerários chegavam e tinham de desinfetar tudo e a família não podia sequer dizer-lhes adeus”, lembra. Não havia sequer autópsias.

“Vamos recusar camas a doentes com maior risco de morrer”. Vídeo em hospital de Madrid revela medidas para evitar o colapso

Hospitais começaram a recusar doentes em lares

Em junho, os jornais espanhóis divulgaram um vídeo e e-mails trocados com hospitais de Madrid onde era clara a recusa de doentes que estivessem infetados em lares. Não havia capacidade para recebê-los. “Chegámos a um momento que não nos deixavam mandar doentes para os hospitais porque bloquearam tudo. A partir do momento em que o governo se apoderou do que era público e privado, nós não podíamos mandar doentes para o hospital mesmo que tivessem sintomas compatíveis com coronavírus. Não aceitavam, porque não havia camas, não havia recursos, não havia respiradores [ventiladores], não havia nada, os próprios geriatras diziam: ‘Esse doente não pode vir, não há sítio para ele, esse doente vai morrer‘”, recorda, ainda arrepiado. As notícias que lhe chegavam de Itália em que eram escolhidos os doentes a tratar estavam também a acontecer ali.

Diogo na sala onde antes eram feitos serviços de enfermagem aos utentes e onde agora eles não podem ir

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Sem possibilidade de levar os doentes do lar para o hospital, era o médico da residência que telefonava ao médico do hospital a perguntar o que devia fazer. Do hospital diziam para administrar azitromicina, que o hospital fornecia. Caso não melhorasse, era sedado. “Não sabíamos como tratar e não podíamos mandá-los para o hospital. E ligar à família e explicar que o pai não podia ir ao hospital porque tinha 93 anos? Não é fácil. Tentámos fazer tudo o que podíamos”. “Chegou a um momento em que não podíamos fazer nada, isto entrou num bloqueio total que, para vir buscar cadáveres, demoravam dois três dias”, recorda. Houve dias que chegaram a ter quatro mortes. “Um absurdo”, descreve.

"Era curioso, o vírus tinha uma evolução tão rápida que, às 14h00, o doente estava bem; às 14h30, fazia uma febre de 40 que não baixava, começava a entrar em dificuldade respiratórias; e às 16h estava morto"
Enfermeiro Diogo

No comportamento do novo coronavírus havia também pormenores assustadores. “Era curioso, o vírus tinha uma evolução tão rápida que, às 14h00, o doente estava bem; às 14h30, fazia uma febre de 40 que não baixava, começava a entrar em dificuldade respiratórias; e às 16h estava morto”. Noutros casos, o doente apresentava melhoria ao 10.º dia e de repente, dois ou três dias depois, piorava e “a pessoa ia”, recorda.

Manifestação pede melhores condições para trabalhadores dos lares

À força do vírus juntavam-se outras dificuldades. No lar existem 130 doentes, mas apenas quatro enfermeiros por turno. Houve uma altura em que até um dos médicos ficou infetado e teve de ficar de baixa médica em casa. A falta de recursos humanos impedia que se criassem verdadeiras bolhas entre infetados e não infetados. Por outro lado, por ser um lar privado, também não tinham direito a  testes para ir controlando o estado de saúde do pessoal médico.

As imagens de Diogo e da sua equipa durante a quarentena que estão afixadas no frigorífico do gabinete

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Se as dificuldades foram muitas, no setor público não foi melhor. Lá fora, na rua, entre a Puerta del Sol e o Ministério da Saúde, este sábado, manifestantes davam conta disso mesmo e pediam que os trabalhadores tivessem melhores condições laborais e horários dignos e coincidentes com o trabalho. Pediam também que fosse aprovada a “lei das residências”. A manifestação ocorreu no dia em que o El Mundo noticiou que o pessoal contratado durante a pandemia para reforçar os recursos humanos dos lares está agora a ser dispensado, isto antes de chegar o inverno e apesar de se prever um período difícil em que os sintomas do novo coronavírus se podem confundir com os de uma gripe, ou de outras infeções respiratórias.

O sobrevivente de 103 anos

Nas memórias que ainda subsistem na cabeça de Diogo há, porém, algumas mais alegres. Como o caso de Julian, um idoso de 103 anos que teve todos os sintomas, testou positivo e recuperou. Sentado numa cadeira de rodas por já não ter muita força nas pernas, Julian está fisicamente bem de saúde, só o seu “estado cognitivo” o atrapalha. “Passou a gripe espanhola, a II Guerra Mundial, a Covid.”

A 24 de setembro, últimos dados disponíveis, estavam internados nos hospitais de Madrid 3.215 doentes e 435 estavam em Unidades de Cuidados Intensivos. Nesse dia, só na zona da Comunidade Autónoma de Madrid tinham sido registados 4.250 novos casos.

Além dos idosos que tiveram Covid, lembra o enfermeiro, foi também preciso cuidar de todos os outros que ali vivem e que, de repente, tiveram que ficar fechados nos seus quartos para prevenir qualquer contágio. “Ficaram muito magros, perderam muita massa muscular, ao nível psicológico foi muito duro”, descreve Diogo. Por outro lado, alguns com mais problemas cognitivos perceberam de imediato que havia uma doença que podia matar e que tinham de usar máscaras. “Às tantas tinham medo de contactar connosco e de ficarem doentes e estavam sempre a pedir-nos desinfetante”, conta.

O regresso a uma normalidade

Desde julho que o lar tenta voltar a alguma normalidade, com os utentes a poderem retomar as suas consultas no hospital. Se chegaram a haver 80 positivos, agora há apenas um. “Na verdade, nós nunca tivemos um momento de acalmia, porque tivemos sempre casos”, diz. A diferença é que o hospital começou a recebê-los, as visitas começaram a ser permitidas, embora com marcação e por apenas 20 minutos.

Nas salas das visitas, as mesas são separadas com uma barreira em acrílico que mesmo assim há familiares que tentam passar

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Diogo sabe que existe o risco dos sintomas do novo coronavírus se poderem misturar com os da gripe e lembra que os hospitais estão agora a “85% da capacidade”. “Enquanto há turistas a chegar a Madrid, tenho profissionais dos hospitais a dizer-me para mandar os doentes em cadeias de rodas, porque em camas já não há espaço”, desabafa, prevendo um inverno difícil.

A 24 de setembro, últimos dados disponíveis, estavam internados nos hospitais de Madrid 3.215 doentes e 435 estavam em Unidades de Cuidados Intensivos. Nesse dia, só na zona da Comunidade Autónoma de Madrid, tinham sido registados 4.250 novos casos.

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