O álcool não aquece, o chocolate não faz borbulhas e pode acordar um sonâmbulo. Cem mitos desmontados num livro

25 Março 2018650

Acorde o sonâmbulo ou rape os pelos sem problema. Estas e outras ideias explicadas no livro "Cem mitos sem lógica" em que continuamos a acreditar. O Observador dá-lhe a conhecer dez deles.

Os dias frios que se têm feito sentir convidam a bebidas que ajudem a aquecer. Nota importante: as bebidas alcoólicas não fazem parte deste lote. A sensação pode ser de calor, mas o efeito no organismo é exatamente o oposto, podendo levar as pessoas a sofrer de hipotermia. Se optar pelo chocolate quente pode também não se conseguir aquecer, mas nada tema: o prazer desta bebida não vai provocar-lhe borbulhas. É um mito. Sara Sá e Pedro Ferreira explicam tudo no livro “Cem mitos sem lógica”, das Edições Desassossego.

O livro partiu de um desafio da editora, mas foi inspirado numa coluna da revista Visão onde Sara Sá é jornalista: Fio Mental. “São textos pequenos onde se desmistificam ideias feitas, erradas”, disse a autora ao Observador. As ideias não se ficaram só pelo que tinha sido publicado na coluna, contaram com as sugestões de familiares e amigos, porque mitos é o que não falta.

Pedro Ferreira surge mais tarde no processo, a convite de Sara Sá. “Tinha medo de me tornar muito repetitiva — e também estava com dificuldade em cumprir o prazo”, confessa. “O Pedro Ferreira trouxe novo entusiasmo à escrita quando eu já estava a entrar na fase da travessia do deserto.”

O Observador escolheu dez dos cem mitos presentes no livro.

Beber álcool aquece‐nos

Se tiver frio, não beba álcool. Em vez disso, tome uma bebida fria. Estranho, não é? Sentimos frio quando o sangue se afasta da pele, desviando‑se para os órgãos internos para que se mantenha a temperatura no interior do corpo. O álcool provoca o processo inverso: dilata os vasos sanguíneos, levando o sangue mais quente até à superfície, deixando uma sensação de calor. Fica‑se corado, as bochechas e o nariz aquecem. (Há até quem se refira a uma bebedeira como “um calor”.) Acontece que por um lado isto é enganador, dando a falsa ideia de aquecimento, e por outro dificulta a luta do corpo contra o frio, porque o movimento do sangue mais quente até à superfície faz perder calor no interior. Contraria ainda outros processos naturais de aumento da temperatura, como o tremer de frio — uma forma que o corpo tem de criar calor.

Outro processo tem a ver com o facto de que quando se toma uma bebida alcoólica se ativam os recetores nervosos de temperatura existentes na língua, cuja função é avisar o resto do corpo de que alguma coisa quente está a chegar e é preciso suar, para compensar. O que, já sabemos, vem também contribuir para baixar a temperatura corporal. Vários estudos demonstram mesmo uma relação entre o consumo de álcool e episódios de hipotermia. Contrariamente, uma bebida fria pode acabar por nos aquecer, uma vez que contrai os vasos sanguíneos, preservando o calor corporal.

O chocolate faz borbulhas

Já não basta a pessoa ter a cara pintalgada de borbulhas, ainda fica impedida de afogar as mágoas e os desgostos amorosos na terapia mais a jeito. O mito de que o chocolate faz borbulhas deve ser dos mais disseminados. Não há adolescente que não ouça isso dos pais — sendo a acne um tormento que aflige 80 a 90% dos jovens a atravessarem a puberdade, no mundo ocidental. Alguns médicos acompanham mesmo o tratamento da acne com a proibição de comer chocolate. E mesmo que não se leve a recomendação à risca, da culpa não nos livramos.

No entanto, nada foi provado relativamente à ligação entre chocolate e borbulhas na cara. A ligação, supõe a dermatologista norte‑americana Ava Shamban, terá origem na síndrome pré‑menstrual (sim, esse terror que deixa algumas mulheres como que possuídas, sob o efeito dos picos hormonais). Segundo a tese da médica, explicada ao jornal The Huffington Post, nesta fase do ciclo, as mulheres sentirão a tentação de recorrer ao poder do chocolate para acalmar a neura. Ora, durante a fase pré‑menstrual os níveis de estrogénio baixam e os de androgénio sobem, o que, nas mulheres com tendência para a acne, leva ao aparecimento de borbulhas. E quem paga é o chocolate.

Tem já quase cinquenta anos a desmistificação desta ideia. A referência, neste assunto, é o trabalho do dermatologista Albert Kligman, conhecido por fazer estudos pioneiros e marcantes em torno de tópicos como a caspa ou a acne (muitas vezes à custa da ética, aproveitando‑se, por exemplo, da população prisional). É de 1969 o seu estudo que envolveu 65 indivíduos com tendência para as erupções cutâneas. Dando barras de chocolate altamente concentradas a uma parte do grupo e um sucedâneo à outra parte, chegou à conclusão de que não havia qualquer relação entre a ingestão de chocolate e a contagem de borbulhas na cara.

A base deste muito comum problema de pele é a produção exagerada de sebo, a gordura da pele. Esta substância, juntamente com as células mortas, entope os poros e promove a proliferação de bactérias, dando origem à vermelhidão e ao inchaço. E é aqui, na produção de sebo, que se pode encontrar uma relação, ainda que indireta, entre a ingestão de chocolate e o aspeto da pele.

Em algumas pessoas, os produtos lácteos e ricos em açúcar provocam uma alteração na produção hormonal. É também por isso que deve preferir o chocolate preto ao de leite ou ao branco, já que nestes últimos o conteúdo de açúcar é mais elevado, além de que são mais pobres em antioxidantes do que o primeiro.

Ainda relativamente a esta questão, pode haver um outro efeito indireto: quem abusa dos chocolates e dos doces, fica sem espaço para a ingestão de comida saudável e boa para a pele, como as frutas e os legumes, que contêm nutrientes essenciais à saúde da cútis. Portanto, não faz mal comer chocolate, de preferência negro — desde que não deixe de comer as recomendadas cinco doses de fruta e vegetais por dia.

"Uma bebida fria pode acabar por nos aquecer, uma vez que contrai os vasos sanguíneos, preservando o calor corporal.

Não se pode congelar comida que foi descongelada

A economia contemporânea — bem como o bom senso — aconselha à reutilização das sobras das nossas refeições. Alguma desta comida será simplesmente guardada no frigorífico, enquanto muita outra terá o nosso congelador como destino.

Quando a fome — ou a carteira — aperta, descongelamos e consumimos. Que fazer, no entanto, com as sobras das sobras? Muitos de nós crescemos com o medo de voltar a congelar comida que já tenha sido previamente congelada, e com alguma razão (pois alguns alimentos não devem de facto ser recongelados). Mas será essa regra completamente universal?

Podemos encontrar recomendações específicas de como cozinhar e conservar os nossos alimentos no livro Safe Handling of Foods, editado por Jeffrey Farber e Ewen Todd em 2000, e mais especificamente no capítulo “Food Safety in the Home”, da autoria de Elizabeth Scott, consultora em higiene alimentar e ambiental. Para além das recomendações às quais estamos já habituados, como congelar a carne refrigerada caso esta não seja consumida no prazo máximo de dois a três dias, Scott adverte que o descongelamento e recongelamento de comida acarreta o perigo de possibilitar que microrganismos cresçam nos nossos alimentos. No entanto, embora este recongelamento de comida deva ser evitado — e mesmo proibido para alguns alimentos, como o marisco —, existem algumas regras que tornam a prática mais segura. Devemos sempre descongelar a nossa comida no frigorífico (ou seja, nunca descongelar à temperatura ambiente), de forma a evitar o crescimento de microrganismos nocivos à nossa saúde, e nunca recongelar carne ou peixe crus que tenham sido descongelados no microondas ou em contacto direto com água. Estes e outros conselhos são expandidos no artigo “If Your Freezer Stops”, publicado na Food and Nutrition Series da Colorado State University em 2010.

Além da importância da segurança alimentar, existe também o prazer que fruimos com a nossa comida. Ora, o problema paralelo com o descongelamento e recongelamento de comida assenta naquilo que o próprio processo de congelamento faz: comprometer a integridade das células que compõem os nossos alimentos ao expandir a água que se encontra dentro destas. Ao descongelar e recongelar comida, estamos a comprometer a textura dos nossos alimentos, facto do qual não seremos certamente fãs. O recongelamento de comida não implica só questões de segurança, mas também de sabor.

O açúcar causa hiperatividade

Há a tese da reação alérgica ao açúcar refinado, a da oscilação dos níveis de glicose no sangue e ainda a correlação encontrada entre o consumo de açúcar, ao longo dos últimos duzentos anos, e o aumento do número de diagnósticos de hiperatividade e défice de atenção. E há a constatação óbvia, que todos os pais fazem: o filho chega a uma festa de aniversário calmo, algo tímido, penteado e aprumado. Duas horas depois, já enfardou uma dúzia de gomas, um balde de pipocas, gelatina, tudo isso bem regado a sumos e refrigerantes. Está esbaforido, vermelho, transpirado, eventualmente com marcas por ter andado à pancada. Só há uma explicação possível: é do açúcar.

A ideia de que os doces causam problemas de comportamento às crianças já vem de longe. E apesar de atualmente já não haver muitos estudos nesta área, todos os que foram feitos até hoje não conseguiram demonstrar esta relação. Já em 1995, uma meta-análise, que avaliou vários outros estudos, concluiu que não havia qualquer relação entre a quantidade de doces que as crianças comem e o seu comportamento e capacidades cognitivas. No artigo, publicado há mais de vinte anos no JAMA (Journal of the American Medical Association), foram analisados 16 relatórios, concluindo‑se que “a forte crença dos pais pode ser devida à expectativa e à associação [previamente estabelecida entre o consumo e o comportamento]”.

Tudo uma questão de expectativa, avaliada num outro estudo, montado precisamente para testar a perceção dos pais relativamente a esta ligação. Para a avaliar, dividiu‑se um grupo de mães em dois. Metade das mães do grupo recebeu indicação de que os filhos estavam a ingerir uma bebida açucarada. A outra metade recebeu a informação de que as crianças estavam a beber algo com um adoçante artificial, ou seja, um placebo. Quando foi pedido às mães para avaliarem o comportamento dos filhos, percebeu‑se que aquelas que pensavam que os filhos tinham consumido açúcar mais facilmente os classificavam como estando hiperativos do que as outras que pensavam que os filhos tinham bebido algo com adoçante. Além disso, as mães que pensavam que os filhos tinham ingerido açúcar estavam mais ansiosas e controladoras, mantendo‑se muito próximas deles, criticando e tentando controlar os seus movimentos — ou seja, o suposto consumo de açúcar teve efeito nas mães, não nas crianças. É tentador culpar o açúcar, em vez de aceitarmos que enfiar 20 crianças numa sala fechada, com música alta, bolas e confetes, é uma receita para o caos.

Noutro estudo, publicado em 1986, avaliou‑se a influência do açúcar em 16 rapazes com distúrbio de défice de atenção. O método foi o mesmo: metade ingeriu‑o em jejum, a outra metade tomou aspartame, um adoçante que funcionou como placebo. Não foram detetadas diferenças significativas entre um e outro grupo nos parâmetros avaliados: aprendizagem, comportamento na sala de aula, relação com os pares, cumprimento de instruções. No artigo, os autores referem que a ligação entre o consumo de doces e o comportamento agitado poderá ser explicada pela dificuldade em recomeçar a trabalhar e acalmar a seguir ao intervalo, onde, por coincidência, os miúdos podem ter merendado alimentos açucarados.

"É tentador culpar o açúcar, em vez de aceitarmos que enfiar 20 crianças numa sala fechada, com música alta, bolas e confetes, é uma receita para o caos." — Rob Kim/Getty Images for IT'SUGAR

Não se deve acordar um sonâmbulo

Meio acordado, meio a dormir — este é o estado de um sonâmbulo. Sendo uma perturbação do sono, como a síndrome das pernas inquietas ou os terrores noturnos, o sonambulismo pode ser difícil de compreender. Nas formas mais simples, o sonâmbulo senta‑se na cama e pode dar umas voltas pela casa. Mas há quem abra a porta da rua e chegue mesmo a pegar no carro para conduzir. Também há casos de pessoas que parecem ganhar capacidades nesta fase, como demonstrar uma força que não têm quando estão acordadas. Os episódios de sonambulismo podem durar apenas alguns segundos ou até meia hora, num período em que o cérebro produz ondas delta — características das fases de sono profundo — e ondas beta — típicas da fase de concentração. Em conclusão: é de facto um estado estranho. Mas isso não justifica a ideia muito disseminada de que não se pode de forma alguma acordar um sonâmbulo, sob pena de este morrer, literalmente, de susto. Aliás, tendo em conta os riscos que algumas pessoas correm enquanto estão neste «dormir‑acordado», é bastante aconselhável que sejam despertadas. «Pode‑se sobressaltar um sonâmbulo, deixando‑o muito desorientado quando acorda, o que eventualmente o tornará violento e com reações confusas. Mas não conheço casos documentados de alguém que tenha morrido por ter sido acordado», sublinhou à revista Scientific American Michael Salemi, o responsável pelo Centro de Perturbações do Sono da Califórnia.

O sonambulismo é mais comum na infância. No adulto, o risco é maior quando a pessoa sofre de outras perturbações do sono, como a insónia ou a apneia do sono. Os comportamentos obsessivo‑compulsivos e o alcoolismo também aumentam a probabilidade de ocorrência de episódios de sonambulismo, bem como a história familiar.

Num estudo norte‑americano, feito com quase 19 mil adultos e publicado em 2012 na revista Neurology, concluiu‑se que praticamente 30% das pessoas já passaram por um episódio de sonambulismo na vida. Na população europeia, os dados apontam para 2% de adultos com esta perturbação, que já foi usada em tribunal como atenuante.

À volta do sonambulismo há outros mitos, como o de que caminham de braços estendidos ou o de que por mais peripécias que ocorram nunca se magoam. Por isso, o melhor a fazer quando der de caras com um sonâmbulo é levá‑lo para a cama, deixando‑o continuar a dormir.

Rapar os pelos fá-los crescer mais fortes

Quando se chega à idade de depilar os pelos das pernas, é muito comum ouvir‑se das amigas mais velhas ou das mães: não uses a lâmina que depois nascem mais fortes e escuros. Ou, então, alguém que se depara com uma forte queda de cabelo, optar por cortá‑lo curto na esperança de que lhe venha a crescer uma farta melena.

Felizmente para uns e infelizmente para outros, rapar o cabelo ou os pelos não tem qualquer influência no seu crescimento. A certeza tem já quase cem anos, mas mesmo assim o mito tem perdurado.

É de 1928 o primeiro estudo clínico a demonstrar que rapar o pelo não tem qualquer impacto no seu desenvolvimento. Em nome da ciência, quatro homens aceitaram rapar uma parte da barba, usando todos o mesmo sabão, uma lâmina igual e água tépida, à mesma temperatura. Os autores do estudo mediram o comprimento dos pelos «tosquiados» e chegaram à conclusão de que barbear não afeta  o crescimento da barba. Na década de 70, outro estudo pôs cinco homens a rapar os pelos de uma só perna, durante uns meses, deixando a outra ao natural. No final, e ao comparar‑se a perna rapada com a outra, o mesmo resultado: cortar os pelos não tem qualquer influência no seu crescimento, largura ou grossura.

Mas então por que razão tem sido particularmente difícil aceitar isso, deixando gerações inteiras de mulheres com um certo sentimento de culpa de cada vez que passam a lâmina pelas pernas? Por várias razões, defendeu uma dermatologista especialista em crescimento de cabelo, da Universidade de Wake Forest, EUA, num artigo da revista Scientific American: a primeira razão prende‑se com a própria natureza humana. Somos maus observadores, temos uma memória curta e falhamos ao avaliar a nossa pelagem. Outra razão tem a ver com a coincidência. Quando um rapaz, adolescente, corta o bigode pela primeira vez, é normal que quando este volte a crescer apareça mais farto, porque o jovem está a viver uma fase de florescência hormonal, e assim o natural aumento da pelugem é confundido com o efeito da lâmina. Há ainda uma razão fisiológica que contribui para esta perceção. Um pelo ou um fio de cabelo são como um lápis: afinam na ponta. Por isso, quando cortamos a parte final, um tecido morto na verdade, a parte que fica é de facto mais grossa, mais espessa e até mais escura, já que não está alourada pela exposição ao sol. Mas com o crescimento voltará a aparecer uma ponta mais fina e clara.

Arrancar os pelos com a cera também não tem qualquer impacto no seu crescimento. Mas o seu uso repetido, ao longo dos anos, pode contribuir para enfraquecer o pelo, já que o processo acaba por danificar a sua raiz.

"Somos maus observadores, temos uma memória curta e falhamos ao avaliar a nossa pelagem."

Ver televisão de muito perto estraga a vista

Todos nós tivemos a infância infernizada pela obsessão dos nossos pais em manterem‑nos afastados do ecrã de televisão. E a verdade é que a ideia de que ver televisão de muito perto estraga a vista perdura até hoje. É preciso viajar no tempo até à década de 60 para perceber a origem deste receio. De acordo com a revista Scientific American, há uma origem bem definida para esta preocupação. Naquela altura, a General Electric lançou um aparelho que emitia uma quantidade absurda de radiação. Cem mil vezes mais do que era permitido. Não tardou muito até que o problema tivesse sido detetado e aqueles televisores a cores retirados do mercado. Mas não o medo.

Não há nada nos televisores que temos em casa que possa causar danos permanentes à vista, nem ao perto nem ao longe. Ver demasiada televisão pode, no entanto, causar fadiga e cansaço ocular, especialmente a quem está muito perto do ecrã ou a olhar através de ângulos indiretos. O olho humano está preparado para focar a diferentes distâncias. A questão é que estar muitas horas de olhos pregados no ecrã, sem os desviar, leva a que se pestaneje menos vezes, o que faz lacrimejar e causa ardor. Pode haver uma sensação de peso à volta do olho e as pálpebras podem tremer. Mas nada que desligar a televisão, descansar ou fazer uma boa noite de sono não cure.

Para evitar o desconforto, a cada vinte minutos em frente ao aparelho, é recomendável descansar os olhos, olhando para um objeto mais distante e pestanejando algumas vezes. Quanto à iluminação, é aconselhável que a luz da sala não seja muito clara e que não se reflita no televisor. A sala também não deve estar totalmente às escuras, porque o contraste pode ser demasiado grande. Convém ainda estar de frente para o ecrã.

As crianças têm uma tendência natural para se aproximarem dos objetos, já que os seus olhos conseguem focar planos mais próximos do que os olhos dos adultos. Mesmo assim, e não sendo a causa, mas sim o efeito, convém estar atento ao facto de uma criança insistir em estar colada ao ecrã, já que pode ser sinal de um problema de visão, como miopia, ou de dificuldades auditivas.

No assunto «crianças e televisão», o problema mais grave está longe de ser, portanto, a questão da visão. Estudos mostram que crianças que passam mais de quatro horas a ver televisão correm um maior risco de desenvolver obesidade. Além de que, quando começam a ver televisão ou a jogar tablet ainda em bebés, têm um vocabulário mais pobre.

As baterias dos telemóveis ficam viciadas

Nunca pôr o telemóvel a carregar sem que a bateria tenha chegado ao fim e só estrear o aparelho depois de este ter estado um dia inteiro ligado à corrente. Eram estas as recomendações que acompanhavam os primeiros telefones móveis que apareceram no mercado. Os procedimentos evitavam que a bateria ficasse “viciada”. E a regra permaneceu até hoje. Só que aquilo que fazia sentido para a tecnologia inicial, de baterias à base de níquel, deixou de ser o mais adequado para as atuais baterias à base de iões de lítio.

Nos modelos anteriores acontecia o chamado “efeito memória” — a bateria “recordava‑se” da energia gasta na última utilização e este passava a ser o novo limite; ou seja, a forma como se carregava a bateria tinha impacto na sua vida útil. Nas baterias usadas atualmente, equipadas com a tecnologia de iões de lítio, desenvolvida no início dos anos 90, o problema já não se põe. Aliás, nas baterias de lítio até é contraindicado deixar chegar a carga ao fim, sendo que as cargas e descargas parciais prolongam o tempo de vida do equipamento. Ora vejamos porquê.

As baterias vêm programadas para ter um determinado tempo de vida, que se mede em ciclos (um ciclo corresponde a uma carga inteira, ou 100%). A duração é variável, mas tipicamente falamos de 300 a 500 ciclos até que se fiquem pelos 70% de capacidade inicial. O que se verifica é que se os carregamentos forem incompletos, ou seja, se o telemóvel voltar a ser ligado à corrente quando estiver a 50% em vez de no fim da carga, isto vai ajudar à sua manutenção. De acordo com a organização Battery University, só quando tiverem sido feitas 1200 a 1500 cargas e descargas a 50%, portanto, o equivalente a 600 a 750 ciclos completos, é que a capacidade decai para os 70% de fábrica — uma boa vantagem, quando comparado com os ciclos de carga e descarga completa. No site de tecnologia Gizmodo, recomenda‑se que se faça apenas uma carga e descarga completa, para calibração, uma vez por mês. No resto do tempo, o objetivo é manter a carga entre os 40 e os 80%. Outro cuidado importante é não deixar o telemóvel a carregar num local com exposição solar. Aliás, manter a temperatura abaixo dos 30ºC é essencial para a saúde do equipamento.

Mesmo cumprindo estas regras, é quase certo que o ponto mais fraco do seu telemóvel seja a bateria. Nenhuma dura mais do que três a cinco anos. Mas pelo menos, quando se fartar da pouca autonomia do seu equipamento e decidir comprar um modelo mais recente, terá a consciência tranquila.

"Estar muitas horas de olhos pregados no ecrã, sem os desviar, leva a que se pestaneje menos vezes, o que faz lacrimejar e causa ardor." — Kevin Zen/Getty Images

Não se pode dormir num quarto com plantas

Nós, humanos, gostamos de adornar os espaços que habitamos com toda a espécie de elementos decorativos. A utilização de plantas na decoração das nossas casas — quem sabe se não como uma extensão de habitats de outras eras — parece ser particularmente popular, mas levanta algumas sobrancelhas de desconfiança, e não por provocarem alergias ou algo semelhante. Segundo uma crença popular bastante disseminada, partilhar um quarto com os nossos amigos vegetais — e lá dormir — poderá ser bastante perigoso. Será esta fama letal justificada ou não?

Antes de mais, um pouco de botânica (proporcionada pelo livro Botany: An Introduction to Plant Biology, publicado por James Mauseth em 2009). As plantas são organismos fotossintéticos, e por isto queremos dizer que convertem dióxido de carbono em hidratos de carbono na presença de energia luminosa, libertando oxigénio durante o processo; essa energia luminosa, sob a forma de fotões, é transformada a partir do pigmento clorofila, que confere a cor verde às plantas (mais sobre este magnífico processo biológico no exaustivo Photosynthesis, publicado por David Hall e Krishna Rao em 1999). Isto significa que, ao consumirmos plantas, estamos indiretamente a consumir energia solar (o que é extraordinário).

O receio de dormir com plantas no quarto parece assentar na ideia de que estas irão utilizar o nosso oxigénio (pois durante a noite, e embora as plantas continuem a consumir quantidades diminutas de oxigénio tal como de dia, não produzem oxigénio como durante a fotossíntese, levando muitas pessoas a temer a competição entre nós e as plantas pelo oxigénio dos nossos quartos) ou produzir imenso dióxido de carbono, o qual poderia ser nocivo em grandes quantidades. No entanto, tal como indica o artigo «Get a Good Night’s Sleep» (publicado pelo Sleep Council do Reino Unido em 2013), as plantas que temos no quarto podem ajudar a melhorar a qualidade do ar e não produzem quantidades excessivas de dióxido de carbono nocivas à nossa saúde. Adicionalmente (e como indica o artigo «Using Houseplants to Clean Indoor Air», publicado pelo College of Tropical Agriculture and Human Resources da Universidade do Havai), as plantas podem ajudar a purificar o ar do interior das nossas casas, ao reduzirem a quantidade de compostos químicos voláteis. Tirando casos excecionais — como a comédia negra de Roger Corman, The Little Shop of Horrors (1960) —, quer de dia, quer de noite, as plantas são nossas amigas.

Quando cai na água, o telemóvel deve ser secado com arroz

Arroz: 2planta anual, da família das Gramíneas, […] cultivada […]sobretudo pelos seus grãos, comestíveis e […] que constituem a base da alimentação de grande parte da população mundial”, como refere a Infopédia. Nada se diz sobre o poder dos bagos de arroz quando se trata de ressuscitar telemóveis caídos em desgraça. Sim, porque todos sabemos que a primeira coisa a fazer depois de um telemóvel mergulhar na água é enfiá‑lo num recipiente cheio de arroz. E deve ser verdade. Os bagos de arroz absorvem a água — e até chegaram a ser usados como substitutos da sílica gel para manter máquinas fotográficas guardadas em boas condições. O que nós precisamos de fazer, com urgência, para ter o nosso telefone — e a nossa vida — de volta é eliminar a água que inunda os circuitos elétricos. Portanto, só nos resta deixar o aparelho em repouso numa terrina de arroz, durante pelo menos vinte e quatro horas. E esperar que ressuscite.

Apesar de ninguém saber muito bem de onde vem esta ideia do  arroz como salvador de telemóveis afogados, todos nós já recorremos técnica ou conhecemos alguém que o tenha feito. E, quando não resulta, é porque não se usou a marca certa de arroz.

De facto, o banho de arroz faz uma coisa muito importante: impede‑nos de tocar no telefone e sobretudo de o ligar — sim, pôr um telemóvel a trabalhar depois de um mergulho na sanita é homicídio em primeiro grau. Mas mais nada. O site de compra e venda de equipamentos eletrónicos usados Gazelle fez o teste com nove equipamentos. Como material absorvente usaram arroz, areia para gatos, cuscuz, aveia e arroz pré‑cozido. Também deixaram o telefone ao ar, quietinho. E, de todos estes métodos, deixar simplesmente ao ar, sem ligar o aparelho — muito importante! —, foi o que deu melhores resultados. O teste, divulgado no site, está bem documentado e não deixa margem para grandes dúvidas.

Se o pior lhe acontecer, siga os seguintes passos, recomendam os geeks do Gazelle: retire o telemóvel o mais rapidamente possível da água (sem comprometer a sua segurança, obviamente); desligue o aparelho — se for possível remover a bateria, faça‑o; facilite a saída da água, retirando os auriculares, o cartão SIM e todas as componentes amovíveis; lave o equipamento, caso este tenha caído em água salgada, suja, no prato da sopa…; obrigue a água a sair, abanando o telefone, soprando, usando um aspirador de humidade; abra o telefone, para ajudar a água a evaporar; deixe secar ao ar ou use uma ventoinha; resista, durante uns dias, à tentação de ligar o aparelho; junte todas as peças, faça figas e teste‑o. Mesmo que a magia não aconteça à primeira, não perca logo a esperança. Pode tentar carregar por umas horas, fazer a sincronização, para recuperar alguns dados, trocar a bateria. No final, guarde os cartões SIM e SD para, pelo menos, não perder os contactos.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Web Summit

Quem convidou Marine Le Pen? /premium

Rui Ramos

Ao tentarem criar um tabu sobre as migrações, as elites europeias criaram Marine Le Pen, Gert Wilders e os outros. Talvez a voz deles não chegue ao céu, mas já quase chegou ao Web Summit.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)