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GABRIEL BOUYS/AFP/Getty Images

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O bairro do PP tenta encontrar um culpado do falhanço eleitoral — e não chega a acordo /premium

O PP não perdeu apenas as eleições: teve o pior resultado de sempre. No bairro mais à direita de Madrid procuram-se culpados. Apontam para Rajoy e para quem votou Vox: dos filhos à amiga de 71 anos.

Reportagem em Espanha

Falam baixo, devagar e com pausas. Antonio e María del Carmen (nomes fictícios) estão sentados à mesa de uma esplanada em Chamartín, um dos bairros mais influentes de Madrid e onde a direita costuma ter melhores resultados eleitorais. Sentados com as costas descaídas para trás, cada um a olhar para o vazio, vão comentando o resultado das eleições espanholas deste domingo.

“Que desgraça, que falhanço, que… eu já nem sei”, diz Antonio, para a sua mulher. María del Carmen completa-lhe o pensamento: “Que tristeza!….”.

“Isso. Que tristeza…”, aceita o marido.

Antonio e María del Carmen têm ambos 55 anos e estão casados há 30. Conheceram-se enquanto estudavam Direito e, desde então, tiveram e criaram dois filhos. Desde que se lembram, votam sempre no PP. Foi assim com José María Aznar, em 1989, 1993, 1996 e 2000; com Mariano Rajoy, em 2004, 2008, 2011, 2015 e 2016. E em 2019 também, com Pablo Casado.

Eleições em Espanha. Os vencedores, os vencidos e os que depende do ponto de vista

O que este casal do PP não esperava era que, à décima eleição consecutiva a votar naquele partido, o resultado fosse tão mau. O PP de Pablo Casado — que ganhou a corrida à liderança em julho de 2018, depois do escândalo de corrupção Gürtel ter dinamitado o governo de Mariano Rajoy — teve 16,7% nas eleições e ficou com apenas 66 deputados, praticamente metade dos que conseguiu na última ida às urnas.

“Que desgraça, que falhanço, que… eu já nem sei.”
Antonio, 55 anos, eleitor do PP

Até em Chamartín, o bairro madrileno que mais tinha votado no PP nas eleições de 2016, com 57,1% dos votos, a queda foi vertiginosa. Desde então, muito se passou em Espanha — além do caso Gürtel, a crise na Catalunha ganhou contornos inauditos, a extrema-direita subiu e roubou eleitores ao centro-direita. E, desta vez, em Chamartín, já só 32% o fizeram. Pelo menos em Chamartín, o PP continua a ganhar — mas já não é de goleada: agora tem por perto o Ciudadanos, com 23,1%, e o Vox, com 17,8%.

“Eu sabia que o resultado não ia ser grande coisa, atenção”, diz-nos Antonio. “Mas eu não esperava que as coisas fossem assim tão más. Como é que é possível um partido como PP chegar a este ponto? Um partido essencial para a democracia espanhola chegar a este ponto parece-me fatal. Como é que pôde ser…?”

Abascal, Casado e Rivera, os três líderes da direita espanhola, protestaram juntos contra Sánchez em fevereiro. À altura, as sondagens davam-lhe maioria (OSCAR DEL POZO/AFP/Getty Images)

OSCAR DEL POZO/AFP/Getty Images

Enquanto isto, um homem de idade já avançada, pesado, caminha pelo passeio. Está ao telefone e, para quem está do outro lado da linha, diz: “Escuta, aconteça o que acontecer, Espanha continua a ser um grande império!”. Antonio e María del Carmen riem-se timidamente daquela frase.

María del Carmen retoma a conversa e responde à inquietação do seu marido. “Sabes porque é que o PP teve este resultado lastimável?”, lança, baixando o volume. E a resposta sai ainda mais sibilante, não vá alguém ouvir: “Porque andaram aí a votar nesses tontos do Ciudadanos e do Vox, é por isso”.

Assim foi o after do Vox — até termos sido expulsos do bar

Dois desses “tontos”, acabam por admitir, são seus filhos. Têm 18 e 20 anos, votaram este domingo pela primeira vez e, na altura de fazê-lo, escolheram o Vox. Ontem à noite, enquanto acompanharam o desenvolver da noite eleitoral ao lado dos filhos, trocaram poucas palavras. De manhã, enquanto se despachavam — os pais para irem para o trabalho e os filhos para a universidade — também reinou o silêncio. “É que estamos todos muito transtornados”, diz Antonio.

“Eu percebo, eu gosto de ouvir o Santiago Abascal. O homem é bom, a sério que é”, admite Antonio. “Mas não faz sentido estar a gastar votos com partidos pouco experientes”, diz à mulher. “Tens razão, tens toda a razão. A culpa é do Vox.”

Será a culpa do chefe dos registos em Alicante?

Em alguma imprensa conservadora, a procura por culpados e o passa-culpas da direita acabou por ganhar grande espaço. E, ali, há sempre um nome que muitos apontam não só como responsável da derrota da direita enquanto bloco político, como também pela hecatombe do PP. Trata-se de um homem que, desde 20 junho de 2018, é um alto funcionário dos registos comerciais de Santa Pola, em Alicante. E, que, uns dias antes, tinha sido atirado para fora da Presidência de Governo pela moção de censura socialista. Mariano Rajoy, pois então.

Mariano Rajoy saiu dos holofotes da política espanhola quando perdeu a moção de censura de junho de 2018 e voltou para o seu antigo emprego em Alicante (Pierre-Philippe Marcou - Pool/Getty Images)

Pierre-Philippe Marcou - Pool/Getty Images

“A fratura do centro-direita e o resultado destas eleições são a consequência da gestão que Mariano Rajoy fez da crise na Catalunha”, escreve o jornal La Razón no seu editorial desta segunda-feira. “Rajoy não soube lidar com a dimensão do desafio independentista nem teve visão para defender frontalmente os princípios de uma Espanha unida, com ideias e políticas claras. O plano secessionista foi executado sem que, da parte do Governo, se atuasse adequadamente. Quando se aplicou o Artigo 155, a Generalitat já tinha ultrapassado todas as linhas vermelhas e já tinha liquidado a Constituição e o Estatuto [de Autonomia da Catalunha].”

Também no editorial do El Mundo se fala do ex-Presidente de Governo — ele que, em 2011, conseguiu o melhor resultado de sempre do PP, com os 44,6% e 10,8 milhões de votos de então. “O débâcle do Partido Popular foi para lá dos piores augúrios”, lê-se na edição desta segunda-feira. “Um fracasso relacionado, inevitavelmente, com os casos de corrupção que, mesmo tendo ocorrido no passado, acabaram por vir na fatura.”

“Rajoy não soube lidar com a dimensão do desafio independentista, nem teve visão para defender frontalmente os princípios de uma Espanha unida, com ideias e políticas claras. O plano secessionista foi executado sem que, da parte do Governo, se atuasse adequadamente. Quando se aplicou o Artigo 155, a Generalitat já tinha ultrapassado todas as linhas vermelhas e já tinha liquidado a Constituição e o Estatuto [de Autonomia da Catalunha].”
Editorial do jornal La Razón

Mas há quem aponte também para a fragmentação da direita. É o caso do ABC, no qual o jornalista Luis Cano, especialista em jornalismo de dados, se pôs a fazer contas para perceber como teria sido o resultado, caso os três maiores partidos da direita tivessem concorridos juntos numa só aliança, chamando ainda o Navarra Suma, força política conservadora daquela região.

Contas feitas, na perspetiva da direita, a resposta é que mais valia que todos se tivessem entendido — escusando-se, por isso, às trocas de palavras em que Pablo Casado dizia ser “o valor seguro” e onde Santiago Abascal atirou forte contra a “direitita cobarde”. É que, se aqueles quatro partidos tivessem ido juntos, teriam tido 177 deputados. Ou seja, mais 1 do que os necessários para uma maioria absoluta.

“Os do voto útil tinham razão”, conclui o jornalista.

No OK Diario, jornal online de tendência conservadora, a conclusão também parece ir nesse sentido. “Ou a direita se une ou levará muitos anos até voltar ao poder”, lê-se no título do editorial desta segunda-feira pós-eleitoral. Naquele texto, apela-se a mais calma, racionalidade e moderação. “Soltar as rédeas da expressividade e da paixão é uma atitude frutuosa se estivermos numa oficina de artes plásticas. Da mesma forma, o taticismo do curto-prazo pode ser a atitude correta para um vendedor de carros usados”, diz. E, mais à frente, conclui: “O quid para o êxito da direita espanhola não será tanto programa, programa, programa, mas antes união, união, união”.

As duas amigas septuagenárias de direita: “Ainda nos chateamos a sério”

Estão as duas sentadas num parque do bairro de Chamartín, num banco verde escuro, onde alguém rabiscou, a vermelho, a otimista frase “Ama o mundo até ao fim”. Tanto María Gómez, de 75 anos, como Susana Cristobal, de 71 anos, parecem estar com pouca vontade de “amar o mundo até ao fim”. A primeira está sentada do lado esquerdo do banco, totalmente à sombra. A outra, a meio, tem o sol pela metade da cara. Pedem que não as fotografemos.

“Estamos em dia não”, explica-se María. Quando lhes perguntamos se é por causa das eleições, as duas respondem com uma interjeição que não deixa sombra de dúvidas. “Que mais? Com o que é que haveria de ser?”, diz Susana. A pergunta é retórica e a resposta já está evidentemente dada.

María e Susana são vizinhas há vários anos, mas só quando se reformaram, “há coisa de 15 anos”, é que passaram a ser amigas. A cada tarde que passa, marcam encontro nos jardins do bairro, onde se sentam e falam do que houver para falar. Das recordações que vão guardando, dos maridos que já morreram, da família que ainda resta, dos bisnetos que já vão nascendo, do que vão comendo e do que vão vendo na televisão. Mas, no último mês, esqueceram tudo isto. No último mês, só deu política.

São as duas de direita. “Claro que somos. A esquerda nunca deu nada a este país, entende?”, lança Susana, em nova pergunta retórica. María mete-se pelo meio e acrescenta: “Bom, até fez algumas coisas, mas bem que podia ter feito mais”.

Desde que são amigas, estas duas idosas vão falando amiúde de política. Sempre souberam aquilo em que estavam de acordo e, quando é posto em forma de lista, ainda são vários os temas sobre os quais pensam o mesmo. Não gostam da esquerda, seja a mais moderada ou a extrema; gostavam que os impostos fossem baixos, apesar de acharem que o acesso à saúde deve ser público e universal; não veem razões para que haja um referendo à independência da Catalunha; são contra o aborto e também se opõem à eutanásia.

“Olhe uma coisa, você vai votar no Vox?”
Pergunta de María à sua amiga Susana, em meados de abril

Mas, neste mês em que quase só falaram de política, María começou a notar que Susana estava a mudar o seu discurso. Falava cada vez mais da imigração — apesar de cada uma ter empregadas da América do Sul em casa — e maldizia as “desgraçadas das feministas” que “andam para aí aos gritos nas ruas”.

María conta que, a certa altura, lá para meio de abril, ganhou coragem e perguntou à amiga: “Olhe uma coisa, você vai votar no Vox?”. Susana terá respondido, a custo, que sim.

“Sim… Porquê? Há problema?”, perguntou.

“Não, não… Nenhum. A não ser que isso vai dividir a direita e e assim entregamos o poder aos socialistas e aos comunistas”, respondeu-lhe María à altura.

O Vox entrou para o Congresso dos Deputados pela primeira vez, com 24 assentos parlamentares garantidos — um número abaixo daquilo que previam as sondagens(Getty Images)

Getty Images

Desde então, fizeram um acordo tácito para não voltarem a falar de política enquanto o atual clima se mantivesse. Mas, esta segunda-feira, quando se encontraram à tarde, María não resistiu e disse à sua amiga: “Ora aí tens o que querias!”.

O tom, garante-nos, era de brincadeira. É, pelo menos, assim que nos conta a história da conversa que tinham tido alguns 30 minutos antes de as encontrarmos naquele banco de jardim. “Eu digo isto tudo a brincar, claro. O tema é sério, mas digo isto a brincar…”, atira María.

Susana, ao lado, está calada. Ao contrário da amiga, que vai ensaiando um sorriso à medida que fala, Susana está militantemente séria. “De que é que você se está a rir?”, pergunta à amiga — novamente, ao jeito de uma pergunta retórica.

Por fim, Susana pega na bengala, que tinha pousada ao seu lado, e levanta-se a custo. “Olhe, é melhor pararmos por aqui, pode ser?”, atira à amiga María.  “Ainda nos chateamos as duas a sério.”

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