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Michael Ochs Archives

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O cabelo curto, os olhos redondos e estas pestanas. Twiggy é o eterno rosto dos anos 60 /premium

A magricela que revolucionou a moda chega aos 70 anos. Fez carreira no cinema, na música e na televisão e ainda passou pela Broadway. Por muito tempo que passe, Twiggy será sempre o rosto dos anos 60.

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Em 1966, Lesley Hornby era só uma miúda de 16 anos a quem a silhueta escanzelada e a baixa estatura tinham, à partida, fechado as portas do mundo da moda. A reviravolta viria a ser drástica e a ascensão meteórica. Mais de 50 anos depois, é fácil olhar para a figura de Twiggy (derivação artística de Twigs — galhos em inglês — alcunha de infância e referência óbvia às suas pernas delgadas) e perceber a mudança de capítulo que a britânica protagonizou no mundo na moda. A carreira que fez na indústria foi curta, mas extremamente profícua no que toca a imagens icónicas. Até ela chegar, o mundo desconhecia por completo o furor que umas pestanas farfalhudas e um corte de cabelo pelas orelhas eram capazes de causar. No caso dela, foi mesmo febre e manifestou-se na corrida aos artigos de merchandising e nos atropelos dos fotógrafos quando aterrou pela primeira vez no JFK.

Da moda, onde ainda rendeu umas boas dezenas de capas, passou para a música e para a representação, no cinema, no teatro e na televisão. Percurso que foi mais do que um capricho. Em 1972, conquistou dois Globos de Ouro. Onze anos depois, chegou a estar nomeada para um Tony Award. Na esfera pessoal, a história de Leslie é bem diferente das conturbadas vidas de dezenas de celebridades  — um namorado manager, um primeiro casamento do qual saiu viúva e com uma filha e um segundo que dura até hoje e que lhe trouxe um enteado. Twiggy completa 70 anos esta quinta-feira, pretexto mais do que suficiente para lhe recordarmos os momentos altos, sobretudo aqueles olhos arregalados que marcaram os anos 60.

House of Leonard: de miúda do subúrbio a rosto do ano

Filha de um mestre carpinteiro e de uma trabalhadora de uma gráfica, Lesley, a mais nova de três irmãs, era só mais uma rapariga de classe média em Neasden, nos arredores de Londres. Ainda em miúda, aprendeu a costurar com a mãe e depressa a confeção e a modificação das suas próprias roupas se tornou um passatempo. Jean Shrimpton e Pattie Boyd eram inspirações no mundo da moda, ambas mulheres com curvas, de cabelo longo e atitude provocadora perante as câmaras. Por sua vez, a Londres da década de 60 era, em si, um mundo cultural e economicamente fervilhante, que se movia ao som dos Beatles.

Twiggy em junho 1966 © Getty Images

Getty Images

Aos 16 anos, a imagem de Twigs, como era conhecida desde pequena, era a da típica miúda lingrinhas. De altura, não chegava a um metro e 70, enquanto o peso mal passava dos 41 quilos. No dia em que entrou num salão de cabeleireiro em Mayfair, um dos mais distintos bairros da cidade, mal sabia o que a esperava. Lesley preparava-se para uma sessão de teste, de cabelos precisamente. Leonard, o proprietário, procurava raparigas em quem pudesse experimentar novos cortes arrojados e reparou nela. A adolescente entrou no House of Leonard com a cabelo pelos ombros e saiu com um corte radicalmente mais curto, masculino até, para os padrões da época. Mas não sem antes tirar as ditas fotografias. Cumprida a tarefa, regressou à sua rotina, ou seja, à escola.

Dias depois, o salão recebeu a visita de Deirdre McSharry, editora de moda do Daily Express. Fascinada com a imagem da rapariga do corte de cabelo diferente, quis saber quem era. Tudo acabou com um telefonema, seguido de um chá, seguido de mais uma sessão fotográfica. Durante três dias, William Hornby foi um pai ansioso, expectante sempre que folheava o jornal pela manhã. Ao fim de quase três semanas, no dia 23 de fevereiro, deu de caras com um título garrafal — o rosto do ano (The Face of ’66) tinha sido encontrado. “A miúda de Cockney com uma cara capaz de assumir mil formas…  e só tem 16 anos”, leu-se no jornal desse dia.

Por essa altura, Twiggy já seria o nome artístico da jovem aspirante a manequim. Nigel Davies, o namorado, encarregou-se do processo criativo, mas não sem antes escolher uma nova identidade também para si — Justin de Villeneuve. O rapaz assumiu de imediato o papel de agente da nova estrela, papel que, tal como a relação, durou quatro anos. Para ela, o voo estava só a levantar. “Eu era aquela coisa magrinha e engraçada com pestanas e pernas longas, mas que tinha crescido a odiar o meu aspeto. Na altura, achei que o mundo tinha enlouquecido”, afirmou ao Daily Mail, numa entrevista dada há três anos.

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De facto, a imagem de Twiggy não podia ser mais dissonante do padrão vigente. Muito mais magra do que as restantes raparigas, de cabelo muito curto, com três fileiras de pestanas falsas e uma quarta desenhada sobre a pálpebra inferior e de olhos redondos, constantemente arregalados numa atitude infantil e desconcertante, nada nela fazia parte da fórmula perfeita para iniciar uma carreira de manequim. O estilo boyish fez dela a primeira referência de androgenia mundialmente difundida pela indústria da moda, além de uma clara antítese da bombshell de Hollywood. Quase duas décadas depois do fenómeno, o The New York Times resumiu na perfeição o que, para muitos, foi a primeira impressão da modelo britânica. “Ela tinha o corpo de alguém que morria à fome e a cara de um anjo e tornou-se mundialmente famosa aos 16 anos. Usava três camadas de pestanas falsas, roía as unhas, dormia numa cama cheia de animais de peluche e andava sempre acompanhada pelo seu agente, guarda-costas e namorada”, escreveu Leslie Bennetts em maio de 1983.

O merchandising e a viagem ao Japão: o fenómeno Twiggy

A primeira produção de Twiggy para a Vogue Britânica chegava às bancas na edição de abril de 1966. Não demorou até que a sua imagem e popularidade fosse rentabilizada noutros formatos. Em 1967 é lançada a linha de roupa Twiggy Dresses, para não falar na batelada de merchandising que saía que nem pão quente. Na realidade, os vestidos e casacos nunca chegaram a competir com os cadernos, canetas, lancheiras, estojos, pestanas e collants (entre muitos outros objetos), esses sim, verdadeiros sucessos de vendas. Nas revistas e outdoors, a imagem da manequim era constante — grandes olhos expressivos, pernas finas, uma silhueta em A, fortemente definida pelas criações de Mary Quant, e uma predileção por produções que evidenciassem o seu lado ingénuo e infantil.

Twiggy na capa de abril de 1967 da Vogue © Getty Images

Conde Nast via Getty Images

“O físico adolescente de Twiggy foi o a moldura perfeita para os estilos andrógenos que começaram a emergir nos anos 1960. A tendência manifestou-se numa série de imagens: vestidos queridos de corte em A com colarinhos e gravatas, fatos e vestidos com detalhes inspirados em uniformes militares ou, no caso de Yves Saint Laurent, uma transposição explicita do fato masculino para as mulheres”, pode ler-se no catálogo da exposição “The Model as Muse: Embodying Fashion”, que, em 2009, ocupou o Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque.

A chegada aos Estados Unidos, pouco mais de um ano depois de ter sido descoberta, foi, no mínimo, aparatosa. A The New Yorker dedicou-lhe perto de 100 páginas, atestando o inevitável — o rosto de Twiggy era já um fenómeno mundial, até com direito a uma Barbie desenhada à sua imagem e semelhança. No JFK, acumularam-se fotógrafos e dezenas de fãs, na maioria jovens raparigas, com cartazes e uma boa dose de histeria. Tudo para receber a miúda de 17 anos que aterraria naquela margem do Atlântico com um volumoso casaco que pelo branco. “Viemos mesmo para trabalhar”, afirmou a manequim na conferência de imprensa que deu à chegada. “Adoro os americanos, acho-os super. E também gosto de Nova Iorque”, completou.

O trabalho fazia, de facto, parte da agenda. Em abril de 1967, lá estava ela no estúdio de Richard Avedon, em Nova Iorque. Por essa altura, somava já 13 editoriais de moda para várias edições da Vogue. Até ao fim desse ano, viria a figurar em três capas da Vogue norte-americana e ainda outras duas, para as edições britânica e francesa. Para a posteridade ficou também a sessão conduzida pelo fotógrafo Melvin Sokolsky e com o título “Everyone Wants To Be Twiggy”. Cada imagem é um postal fiel ao fenómeno Twiggy, com a modelo britânica nas ruas de Nova Iorque, rodeada de transeuntes sem rosto. Ou melhor, com o rosto dela. Acompanhada pelo namorado, a primeira incursão aos Estados Unidos estendeu-se a outros pontos do país. O casal passou pela Disneyland e ainda viajou até à Costa Este, onde foi recebido por Sonny e Cher, naquele que, muito provavelmente, terá sido o double date do ano.

Twiggy (à direita) numa produção de moda no final dos anos 60 © Getty Images

Roger Viollet via Getty Images

No Japão, a receção não foi diferente. Milhares juntaram-se nas ruas, só para ver Twiggy surgir numa varanda, qual membro da realeza. Entre entrevistas e desfiles, ela continuava a ser uma adolescente dos subúrbios de Londres. Ao The Guardian, disse entretanto que, no auge da sua carreira como manequim, chegou a fazer oito desfiles por semana. Ingenuidade é dos predicados que melhor assenta à Twiggy dos anos 60, a mesma que, durante uma viagem a Paris, em 1968, chocou um empregado de mesa ao despejar um copo de vinho tinto (caro) para pedir uma Coca-Cola.

Com simplicidade, ela desbrava um outro terreno. O estrelato no mundo da moda, até então reservado a quem viesse de classes ou meios privilegiados, ficava agora um pouco mais perto de miúdas como Twiggy. “Provavelmente, fui a primeira supermodelo da classe trabalhadora. Durante aquele período estava mais na moda ser da classe trabalhadora. Imensos atores pretensiosos provenientes de famílias finas decidiram deixar cair os seus sotaques. Surpreende-me hoje que a realeza já não fale com aquela pronúncia elegante e antiquada. Não é difícil de entender, mas também não é claro. Isso começou nos anos 60”, referiu numa entrevista dada, em 2016, ao Daily Mail.

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Ao mesmo tempo que a sua imagem marcou os anos 60 como fenómeno de popularidade — hoje, não hesitaríamos em usar a palavra viral –, também suscitou críticas. Acusada de propagar uma forma física pouco saudável e de ser um mau exemplo para as raparigas que viam nela um modelo, Twiggy sempre se desculpou com a sua genética muito própria, acabando mais tarde por admitir que o seu corpo de adolescente não era a melhor das referências. “[…] era uma miúda magricela que andava na escola, que enfiava lenços de papel dentro do soutien 32A. Eu não fazia nada para ser assim tão magra, era totalmente saudável. Ainda assim, aquele aspeto é totalmente impossível para mulheres com mais de 20 anos. A moda tem de responder por muitas coisas, não tem?”, confessou numa entrevista ao The Guardian, há precisamente dez anos.

Da música à televisão, a carreira depois da moda

1970 foi um ano de viragem. Twiggy já não queria ser um “cabide de roupa”, como referiu numa entrevista ao Independent, em 2009. Deu por terminada a sua carreira de modelo, mas também o namoro com Nigel Davies, seu agente até então. A relação com os grandes fotógrafos foi sendo construída, mesmo depois de abandonar a moda. Cecil Beaton, Helmut Newton, Guy Bourdin e Ronald Traeger eternizaram-na como musa nas páginas das revistas. Mais tarde vieram Linda McCartney, Norman Parkinson, que a fotografou grávida e Terry O’Neill, ligado ao trabalho discográfico de Twiggy. A lista continuou a crescer até ao início do século XXI, com Annie Leibovitz, Bryan Adams, Steven Meisel, autor da produção de 1993 para a Vogue Itália e o norueguês Solve Sundsbo, que em março de 2009 a fotografou ao lado de Kate Moss para a revista i-D.

Christopher Gable e Twiggy no filme de 1971 "O Boy Friend" © IMDb

IMDb

Em dezembro de 1969, Twiggy foi escolhida para a produção televisiva “This Is Your Life”, uma série britânica de documentários biográficos. Seria uma espécie de prenúncio do que estava por vir. De saída da indústria da moda, aproximou-se da sétima arte e, ao mesmo tempo, mudou a sua imagem. O cabelo cresceu (e surgiu muitas vezes tapado por uma boina), assim o comprimento das saias, numa imagem muito mais influenciada pela cultura hippie que chegava da América. Tornou-se próxima de Ken Russell. Em 1971, o realizador britânico apresentava “O Boy Friend”, um musical protagonizado por Christopher Gable, Max Adrian e por Twiggy. Um ano depois, com a carreira de atriz ainda a começar, a fita valeu-lhe os dois mais importantes prémios alcançados — dois Globos de Ouro, nas categorias de Carreira Mais Promissora e de Melhor Atriz num Filme de Comédia ou Musical.

Ainda em 1971, gravou o single “Zoo de Zoo Zong”. Em 1973, apareceu ao lado de David Bowie na capa do álbum Pin Ups. Sempre a somar conquistas um pouco por toda a indústria do entretenimento, 1974 também foi um ano em cheio — ganhou o seu próprio programa de televisão e ganhou um papel no filme “W”, de Richard Quine. Foi aí que contracenou com Michael Witney, com quem viria a casar em 1977 e a ter uma filha um ano depois, Carly. O alcoolismo do marido não lhe facilitou a vida. Witney morreu em novembro de 1983.

O álbum Twiggy foi o seu maior sucesso na indústria discográfica. Lançado em 1976, ascendeu ao top do Reino Unido e valeu-lhe o disco de prata. No final da década, a voz e a cara da ex-manequim chagavam à televisão norte-americana com “Twiggy’s Jukebox”. Depois da pequena caixa mágica e do vinil, os dotes vocais de Twiggy levaram-na para a Broadway. Ao lado de Tommy Tune, protagonizou o musical “My One and Only”. “Nunca vou conseguir esquecer o que me aconteceu nos anos 60. Percebi isso há muito tempo, por muito orgulho que tenha em brilhar na Broadway”, referiu numa entrevista ao The Guardian. O desempenho garantiu-lhe um lugar na lista de nomeadas ao Tony de Melhor Atriz Principal num Musical, em 1983. A bailarina Natalia Makarova levou o prémio para casa.

Twiggy, a poucos dias de completar 70 anos © Getty Images

Dave Benett/Getty Images

Volta ao cinema em 1986, ao lado de Robin Williams, em “Clube Paraíso”. Dois anos depois, uma outra produção, “Madame Sousatzka, a Professora”, com Shirley MacLaine. Nesse mesmo ano, casa com o ator e realizador britânico Leigh Lawson, que também já traz um filho, Jason. Twiggy permaneceu dividida, sobretudo, entre a música e a televisão. Nos Estados Unidos foi jurada do programa America’s Next Top Model, entre 2005 e 2007. O seu ultimo álbum — Romantically Yours — saiu em 2011, um ano antes de voltar a pôr um pezinho no mundo da moda ao lançar uma coleção com a Marks & Spencer, cadeia para a qual já tinha feito campanhas nos anos anteriores.

Aos 70 anos, Twiggy leva uma vida muito menos exposta. No início do ano foi condecorada pelo Príncipe Carlos com a medalha da Ordem do Império Britânico. Desde então que é “Dame” Lesley Lawson, embora outras coisas não estejam suscetíveis a mudança. Foi de fato — blazer e calças –, um visual boyish que parece ter resgatado do passado. Rejeita a possibilidade de recorrer à cirurgia estética, o botox assusta-a. Defende uma alimentação saudável mas sem grandes privações. Afinal, a figura esguia estava-lhe mesmo nos genes.

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