O campeonato está de volta e joga-se de trás para a frente – muito será decidido por quem está entre os postes /premium

10 Agosto 2018

O campeonato está de volta e com ele regressa o futebol, as surpresas e as decisões. FC Porto é o alvo a abater e nos principais candidatos ao título a grande diferença (e ambição) estará na baliza.

Está na hora, não precisa de esperar mais: a Liga NOS 2018/19 está prestes a começar e com os grandes jogos voltam as grandes emoções. O pontapé de saída do Campeonato está marcado para esta sexta-feira, às 20h30, com Benfica e V. Guimarães a medirem forças no Estádio da Luz, naquele que será o primeiro de 306 jogos que trarão prestações surpreendentes ou dececionantes, bons momentos de futebol, polémicas e, no fundo o que mais importa, um grande vencedor no final. Um vencedor que costuma ser construído de trás para a frente.

O FC Porto entra na competição para defender um título recuperado depois de quatro anos de domínio encarnado. Como em todos os verões, alterações nas equipas não faltam, com entradas e saídas a marcarem o mercado de transferências nacional. Avançados, médios, defesas e guarda-redes chegaram a Portugal para uma nova etapa das suas carreiras, enquanto outros por cá permaneceram para continuar uma história inacabada.

FC Porto, Benfica e Sporting reforçaram-se e a principal prova do calendário nacional servirá para avaliar se a preparação foi ou não bem feita. À partida, uma posição específica salta à vista: a de guarda-redes. Se os dragões conservaram o experiente Iker Casillas, renovando contrato por mais um ano com o espanhol que quer acabar a carreira na Invicta, o mesmo não se pode dizer de águias e leões, que chegam à Liga com caras novas na baliza.

E a diferença pode começar a ser feita por aí: Casillas tem 115 jogos oficiais pelo FC Porto; Vlachodimos e Viviano (escolhas de Rui Vitória e José Peseiro para a baliza dos seus clubes) somam zero. E, se Svilar até já esteve a temporada passada no Benfica, o mesmo não se pode dizer de Renan Ribeiro, o guardião sombra do Sporting que chegou há pouco mais de uma semana mas que promete disputar a titularidade com o italiano que era sobretudo aposta de Bruno de Carvalho… e de Mihajlovic. Uma coisa é certa: Varela e Salin, agora (ou para já) os terceiros guarda-redes de cada equipa, são os que estão há mais tempo nos respetivos clubes. 

Contratado ao seu clube do coração, o Real Madrid, em 2015, Casillas foi um dos negócios mais sonantes de sempre de um clube português a nível de currículo, talvez mesmo o maior: além de ser campeão mundial e bicampeão europeu de seleções, o guarda-redes ganhou um total de 18 títulos pelos merengues (cinco Campeonatos, duas Taças, quatro Supertaças, três Ligas dos Campeões, duas Supertaças Europeias, um Mundial de Clubes e uma Taça Intercontinental), num total de 725 jogos. Na temporada passada, onde chegou a passar uns meses pelo banco, juntou ao seu palmarés um Campeonato Nacional, com a Supertaça a surgir no passado fim de semana.

Uma coisa é certa: Varela e Salin, os terceiros guarda-redes de cada equipa (pelo menos para já, porque ainda podem sair até ao final de agosto), são os que estão há mais tempo nos respetivos clubes. 

Iker foi mais um campeão do mundo a jogar em Portugal, depois de Branco (também no FC Porto), Ricardo Rocha, Aldair, (ambos no Benfica) Anderson Polga (Sporting) e Capdevila (Benfica) e é já bem conhecido dos amantes do futebol nacional. Vlachodimos, Svilar, Viviano e Renan  tudo farão para o ser durante esta época.

Vlachodimos é alemão e grego, jogou pelos dois e chegou para ser titular

Para os mais desatentos, pode parecer que o Benfica contratou dois novos guarda-redes: Odysseas e Vlachodimos. Isto porque desde outubro – altura em os encarnados terão assinado com o então guarda-redes do Panathinaikos por cinco temporadas – que se ouve falar em Vlachodimos. Mas agora, entre os postes da baliza do Benfica, é um Odysseas que carrega a camisola número 99 (que nos transporta para os tempos de Vítor Baía, guarda-redes com uma predileção pelo 99 sobretudo na segunda passagem pelo FC Porto).

“Escolhi Odysseas porque é mais fácil de pronunciar”, explicou o guarda-redes de 24 anos. Odysseas ou Vlachodimos, a verdade é que o jogador tem contrato assinado com o Benfica desde outubro, esteve em Lisboa com autorização do exército grego (estava a cumprir serviço militar obrigatório), fez testes médicos e custou 2,4 milhões aos cofres da Luz. Chegou a falar-se de que chegaria ainda em janeiro mas a transferência só foi oficializada em maio. Aterrou no Benfica com o título de melhor guarda-redes do campeonato grego mas com a noção de que o mais provável era ficar no banco – algo que aconteceu nos primeiros jogos da pré-época mas que não durou muito.

Nasceu na Alemanha e tem dupla nacionalidade, grega e germânica. Entrou para os quadros do Estugarda aos sete anos e por lá ficou até aos 22. Cumpriu mais de 60 jogos pela equipa B dos alemães e era visto como o sucessor natural da baliza de um clube que deu ao futebol internacionais como Sami Khedira, Mario Gomez eKimmich.

Estreou-se pela equipa principal em 2015, frente ao Eintracht Frankfurt, em circunstâncias pouco habituais. O habitual guarda-redes substituto, Mitchell Langerak, estava lesionado e Vlachodimos foi convocado pelo treinador para ser a solução no caso pouco provável de ser necessário chamar o segundo guarda-redes. Mas o caso pouco provável aconteceu. O habitual titular Przemysław Tytoń foi expulso e Vlachodimos saltou mesmo do banco para defender as redes do Estugarda, numa estreia que provavelmente nunca esquecerá.

Filhos da mesma mãe e do mesmo pai, Odysseas e Panagiotis têm ambos dupla nacionalidade mas jogam por seleções diferentes: o primeiro optou pela Alemanha, o segundo pela Grécia. Ainda à espera da primeira internacionalização A, Odysseas é presença habitual nas convocatórias das camadas jovens da Mannschaft e fez parte da equipa que conquistou o Campeonato da Europa Sub-21 em 2017.

O guarda-redes cresceu com o desejo claro e assumido de se tornar o titular indiscutível da baliza do Estugarda e, nessa temporada de 2015/16, as estrelas pareciam estar a alinhar-se para Vlachodimos. Mas uma mudança na equipa técnica estragou-lhe os planos. Alexander Zorniger, o treinador que o lançou, só ficou no comando técnico da equipa de agosto a novembro de 2015 e foi substituído por Jürgen Kramny, que até então orientava a equipa B. Tinha tudo para correr bem: Kramny tinha treinado Vlachodimos nos bês e foi ele que apostou no guarda-redes alemão e lhe garantiu a titularidade. Mas na equipa principal a história foi diferente.

Vlachodimos (de verde, à esquerda) a comemorar a conquista do Europeu Sub-21 pela Alemanha (Créditos: Getty Images)

Ficou claro que Jürgen Kramny não contava com Vlachodimos e o treinador chegou a fazer críticas públicas à prestação do jovem guarda-redes nos treinos. Em dezembro, o agora guardião do Benfica deu uma entrevista à publicação alemã Kicker onde vocalizava todo o desagrado com as últimas semanas no Estugarda e revelava, pela primeira vez, a intenção de sair. “Senti falta de apoio. Nunca confiou em mim a 100%. Durante as minhas missões, provei que consigo acompanhar”, afirmou. No mês seguinte, assinou pelos gregos do Panathinaikos.

Na Grécia reencontrou o irmão mais velho, Panagiotis, extremo que também completou a formação no Estugarda mas rumou a terras helénicas logo em 2011 (passou pelo Skoda Xanthi e pelo Olympiacos antes de chegar ao Panathinaikos). Filhos da mesma mãe e do mesmo pai, Odysseas e Panagiotis têm ambos dupla nacionalidade mas jogam por seleções diferentes: o primeiro optou pela Alemanha, o segundo pela Grécia. Ainda à espera da primeira internacionalização A, Odysseas foi presença habitual nas convocatórias das camadas jovens da Mannschaft e fez parte da equipa que conquistou o Campeonato da Europa Sub-21 em 2017 – torneio onde também estava Bruno Varela, agora adversário do alemão na luta pela baliza encarnada.

Guarda-redes alemão passou pelo Estugarda e pelo Panathinaikos antes de chegar à Luz (Créditos: Getty Images)

No Panathinaikos, estranhou mas entranhou: depois de na primeira temporada só ter cumprido um jogo, ficou acima das 20 partidas nas duas épocas seguintes e em 2017/18 foi mesmo considerado o melhor guarda-redes da Liga grega. Chamou à atenção de um Benfica que não tem nome cativo na baliza desde que Ederson saiu para o Manchester City e chega com o selo de aprovação de um grego que deixou saudades: Giorgos Karagounis. “É um rapaz que, desde novo, tem a preocupação de trabalhar diariamente para progredir. Já no ano passado deu indicações de que está cada vez melhor. A transferência para o Benfica vai ajudar Vlachodimos a melhorar ainda mais”, disse o antigo médio dos encarnados, hoje com 41 anos, ao jornal A Bola.

Mile Svilar foi do anonimato ao Web Summit e é a aposta de Vieira

Uma fase de grupos da Liga dos Campeões em que o Benfica não conquistou qualquer ponto chegou para Mile Svilar quebrar três recordes com “o mais novo” no título: o guarda-redes mais novo a jogar na Champions, o guarda-redes mais novo a defender uma grande penalidade e o jogador mais novo a assinar um auto-golo. Aos 18 anos e 52 dias, tornou-se o guardião mais novo de sempre a jogar na maior competição de clubes de futebol – deixando para trás a marca de um outro guarda-redes a jogar na liga portuguesa, Iker Casillas, que em 1999 se estreou na Champions com a camisola do Real Madrid aos 18 anos e 177 dias. Antes disso, já se tinha tornado o guarda-redes mais novo a jogar pelo Benfica.

Numa temporada em que a primeira e aparentemente definitiva aposta para a baliza recaiu em Bruno Varela, Mile Svilar saltou para a titularidade no princípio de outubro: fez um jogo para a Taça de Portugal, três para o Campeonato e dois para a Liga dos Campeões, tornando-se a nova coqueluche do clube da Luz e do público geral, sendo até convidado para um painel na Web Summit.  No segundo jogo contra o Manchester United, na fase de grupos da Champions, que o Benfica perdeu por 2-0, protagonizou um erro de rookie que motivou críticas e dúvidas sobre as decisões de Vitória.

Depois disso, só voltou a jogar em dezembro, primeiro para a Champions e depois para a Taça da Liga. Num desses dois jogos a contar para a Taça CTT, errou novamente contra o Portimonense e permitiu o empate. Não voltou a calçar as luvas até final da temporada e tudo apontava para que fosse emprestado durante esta janela de transferências mas Luís Filipe Vieira já tinha avisado que o investimento no jovem belga não é para desperdiçar.

Da célere passagem por Stamford Bridge levou apenas uma coisa – a amizade com Nemanja Matic, que por lá andava antes de rumar ao Vitesse e depois ao Benfica, e com quem ainda mantém o contacto.

A verdade é que o Benfica acompanhou o percurso do guarda-redes desde os 14 anos. Svilar, que fez praticamente toda a formação no Anderlecht, não chegou a estrear-se pela equipa principal do histórico clube belga mas chamou à atenção dos gigantes europeus nas camadas jovens. Aos dez anos, foi treinar ao Chelsea e recebeu convites do Arsenal e do Manchester United mas o pai decidiu que o melhor era ficar na Bélgica. Pai esse que é Ratko Svilar, guardião das redes do Antuérpia durante 16 anos e internacional pela Jugoslávia. Deixou o futebol aos 46 anos mas Mile só nasceu quatro anos depois: só conhece a faceta de treinador e empresário do pai. Da célere passagem por Stamford Bridge levou apenas uma coisa – a amizade com Nemanja Matic, que por lá andava antes de rumar ao Vitesse e depois ao Benfica, e com quem ainda mantém o contacto.

Svilar pediu desculpa aos adeptos encarnados depois do erro frente ao Manchester United, em jogo a contar para a Champions (Créditos: Getty Images)

Assinou pelos encarnados por cinco anos (com uma cláusula de 60 milhões) em agosto de 2017, um dia depois de completar 18 anos, e garantiu desde aí a camisola número 1 do Benfica. Chegou com a reputação de guarda-redes felino que defende com as mãos e com os pés, e com a garantia de uma técnica apurada, capaz de fazer inveja a muitos titulares na frente de ataque. Este verão, Luís Filipe Vieira terá rejeitado propostas entre os 15 e os 22 milhões de euros por Svilar e garantiu que só aceita negociar valores que rondem os 40 milhões.

Com Vlachodimos – aquele que será o principal concorrente na corrida pela baliza do Benfica – tem em comum a dupla nacionalidade. Svilar é belga e sérvio, ainda que nas camadas jovens só tenha jogado pela seleção da Bélgica: algo que pode ser sol de pouca dura. O guarda-redes já anunciou que aceitou o convite da Federação de Futebol da Sérvia para representar o país e deve estrear-se pela equipa principal em março do próximo ano.

O jovem guarda-redes ainda ao serviço do Anderlecht, em jogo da Youth League frente ao FC Porto (Créditos: Getty Images)

Comparado inevitavelmente a Michel Preud’homme – guarda-redes belga que passou pelo Benfica nos anos 90 –, Svilar já deixou claro que os seus ídolos são outros: Casillas, Neuer e Navas. Jean-Marie Pfaff, lenda do Bayern Munique, garante que o jovem belga “é mesmo muito bom”, os colegas do Anderlecht chamavam-lhe “máquina de trabalho” e José Mourinho defendeu que Svilar “é uma fera”. Elogios não lhe faltam. Resta saber se o número 1 deixa de estar só na camisola e passa a estar também na cabeça de Rui Vitória.

Viviano era avançado e acabou na baliza. Onde é que já se ouviu isto?

“Quando era mais jovem, jogava como avançado no meu clube. Um dia, o guarda-redes não foi ao jogo e o treinador mandou-me para a baliza”. A frase é de Emiliano Viviano, guarda-redes italiano contratado este verão pelo Sporting, mas poderia ser de Rui Patrício, ex-guardião leonino, e responde à questão “o que há em comum entre o antigo e o atual número um da baliza verde e branca?”. Ambos começaram no extremo oposto do campo, com funções e paixões bem diferentes, antes de os deuses do futebol os enviarem para o seu destino final. Entre os postes, aprenderam a gostar da posição mais solitária de todas.

“Nem sempre foi fácil combinar a minha vivacidade e exuberância com um papel estático como o de guarda-redes”. Bem, ninguém disse que seria fácil. “Uma vez, estava com tanta raiva que me sentei à frente da baliza e deixei os adversários marcarem”. Mas também não precisava de ser tão difícil… “Aprendi a amar o papel de guarda-redes, com o tempo. As posições de guarda-redes e avançado atraem-me na medida em que são ambas posições solitárias e independentes no campo e desempenham um papel decisivo no resultado final”. Com mais ou menos facilidade, Viviano lá abraçou o seu caminho entre os postes: “Sou um rapaz de sorte. Realizei o sonho da minha vida. A minha paixão é a minha profissão”, pode ler-se na biografia presente no site oficial do guardião.

Viviano com a camisola da Fiorentina, o clube do seu coração (Créditos: Getty Images)

Emiliano Viviano é grande. Tem 1,95 metros, mais seis centímetros do que Rui Patrício. É inevitável não fazer comparações com aquele que guardou os postes leoninos durante mais de uma década e que saiu para o Wolverhampton após rescindir contrato. Mas Viviano é maior. Maior e mais velho, já que caminha para os 33, que fará a 1 de dezembro. Contas feitas, nasceu em 1985, na cidade de Florença, no bairro Borgo Peretola. Lá começou a dar os primeiros pontapés na bola. Com o pé esquerdo, o seu predileto. Tal como Rui Patrício.

Da rua passou para o West Florence e daí para a formação da Fiorentina. O jovem Viviano evoluía no clube da terra, mas seria no Brescia que tudo se começaria a desenhar. Aí, encontraria Roberto Baggio e uma realidade tornava-se clara: “Aos 16 anos, entendi que o futebol não era mais uma diversão, estava a tornar-se num assunto sério”. Os dois anos de formação que lhe faltavam completa-os no Brescia, de onde sai por empréstimo para o Cesena, que disputava a Serie B italiana.

[Os melhores momentos de Viviano com a camisola da Sampdoria em 2017/18]

Viviano, de 18 anos, estreia-se no futebol profissional na equipa do Cesena, em 2004/05, terminando a época com 13 partidas disputadas, antes de regressar ao Brescia, que tinha descido para a Serie B também. Então, o guardião repete a experiência no segundo escalão transalpino, com mais uma partida disputada (14), e brilha. Brilhou o suficiente para conquistar a titularidade e ser o número um em 40 encontros de 2006/07. Pelo Brescia, parecia condenado a jogar na Serie B. Mais duas épocas, nenhuma promoção ao principal campeonato italiano, 72 jogos, mas acabaria por ser uma página importante na carreira do guardião. Brescia era mais do que futebol para Viviano: era paixão, maturação, crescimento. Eram cinco anos de Serie B, 126 encontros, 120 golos sofridos. Era a melhor defesa da carreira, na opinião do próprio, num Brescia-Albinoleffe. Ah, e era Manuela Tosini, que viria a ser Manuela Tosini Viviano, uns anos mais tarde.

Terminado o empréstimo aos gunners, volta a Itália, para representar a Sampdoria, onde fica quatro anos e faz 115 jogos. A estreia foi contra o Palermo, em 2014/15. O treinador? Sinisa Mihajlovic – o sérvio que Bruno de Carvalho contratou para técnico do Sporting e que durou apenas alguns dias, os suficientes para pedir a contratação do guardião italiano.

Em 2009, Bolonha e Inter compram Viviano a meias, ficando cada um com 50% do passe do jogador, num negócio de co-propriedade muito habitual em Itália. Pelo Bolonha, o guardião estreia-se na Serie A, aos 23 anos. Mas a semana da estreia tem muito que se lhe diga: o primeiro encontro seria contra a Fiorentina, clube da terra e do coração de Viviano, ou não chamaria Viola ao seu filho, nascido… na semana do embate. Pois é: Viviano batizou o seu filho de Viola (alcunha dada à formação de Florença) na semana em que se estreou na Serie A contra a Fiorentina, pondo de lado o amor “roxo” e ajudando o Bolonha a empatar a uma bola.

O italiano na baliza do Bolonha, onde atuou 73 vezes em dois anos (Créditos: Getty Images)

No final desse ano, a sua equipa evitou a despromoção a três jornadas do fim, passou mais duas épocas em Bolonha e seguiu para Milão, onde o Inter queria finalmente contar consigo. Queria, mas não contou: Viviano lesionou-se, teve alguns meses parado e nunca se acabou por estrear pelos nerazzurri.

De Milão seguiu para Palermo, onde teve a oportunidade de cumprir dois sonhos. Bem, não foi em Palermo, mas sim contratualmente ligado ao clube siciliano. Foi emprestado à Fiorentina, onde pôde jogar com a camisola do seu clube na Serie A italiana, cumprindo assim o primeiro sonho; no ano seguinte, seguiu para Inglaterra, onde ganhou o único título da sua carreira: foi no Arsenal que Viviano “conquistou” uma Taça de Inglaterra, por empréstimo do Palermo, numa época de 2013/14 onde realizou… zero jogos.

Pelo meio, conta internacionalizações Sub-20, Sub-21 e AA, chegando mesmo a estar presente nos Jogos Olímpicos de 2008. Terminado o empréstimo aos gunners, volta a Itália, para representar a Sampdoria, onde fica quatro anos e faz 115 jogos. A estreia foi contra o Palermo, em 2014/15. O treinador? Sinisa Mihajlovic – o sérvio que Bruno de Carvalho contratou para técnico do Sporting e que durou apenas alguns dias, os suficientes para pedir a contratação do italiano. “Estou muito contente por reencontrar o Mihajlovic”, confessou Viviano à chegada a Lisboa.

A verdade é que o encontro durou pouco e agora José Peseiro é o treinador. A apresentação aos sócios leoninos também não deixou as melhores recordações, com o golo de Germain a ter uma grande quota de responsabilidade de Viviano. Mas o italiano foi parar à baliza da mesma forma que Rui Patrício, o segundo jogador de sempre com mais jogos pelo Sporting (apenas superado por Hilário). E é grande, maior do que o português. E esquerdino.

Renan não é Ronaldo, mas também procura o seu lugar na história

“Pelo Atlético Mineiro, lembro-me bem de um jogo contra o Palmeiras, empatámos 1-1. Pelo São Paulo, escolho um contra o Ituano. Fiz um bom jogo, com uma grande defesa logo a abrir o encontro”, respondeu Renan Ribeiro, numa entrevista à Globo, questionado sobre quais os jogos onde sentiu que esteve melhor. Nessa altura, o guardião encontrava-se no São Paulo e não sonhava que o seu futuro passaria por Portugal. Caso a pergunta fosse colocada agora, provavelmente Renan Ribeiro, emprestado ao Sporting pelo Estoril, escolheria como melhor partida com a camisola dos estorilistas o embate frente ao FC Porto, o tal que só acabou mais de um mês depois.

Nesse jogo, Renan Ribeiro apresentou-se ao futebol português. O Estoril até perdeu 3-1 com os campeões nacionais, mas o brasileiro bateu o recorde de defesas a remates feitos no interior da área numa partida de qualquer campeonato europeu, na temporada passada: dez. Sim, defesas a remates feitos no interior da área, grandes penalidades em movimento, bolas cara a cara com o guardião – Renan defendeu dez dessas bolas.

Contra o FC Porto, o brasileiro fez estatisticamente a sua melhor exibição da Liga NOS (Créditos: Getty Images)

Na altura, o guardião do Estoril ultrapassou as oito defesas conseguidas pelo alemão René Adler (Mainz), pelo italiano Christian Puggioni (Sampdoria) e pelo espanhol Oier Olazábal (Levante) e deu-se a conhecer a Portugal, onde tinha acabado de chegar, depois de rescindir com o São Paulo. No Estoril, realizou 17 jogos em meia época; no São Paulo, jogou 44 vezes em cinco anos. 

A estatística torna óbvio um dado: Renan nunca conseguiu o seu lugar na formação paulista. Ele, que até chegou ao clube para competir com Rogério Ceni nos seus últimos anos e que era visto como o substituto do ídolo brasileiro. Se em 2013 e 2014 o canhoto que ia lá à frente marcar livres ainda era dono e senhor das redes paulistas, em 2015 um buraco se formou com o abandono do veterano. Quando se esperava que Renan o ocupasse, o guardião viu-se relegado para o banco de suplentes e atuou em apenas 11 partidas. O ano seguinte foi ainda pior: três presenças.

No dia de hoje, após ter concluído a minha jornada no Estoril começo uma nova caminhada no SPORTING desde já agradeço as oportunidades proporcionadas, a recepção do clube e principalmente dos adeptos. Venho com vontade de trabalhar, alegria e satisfação para vestir a camisa desse GRANDE clube e espero poder retribuir em campo todo o carinho. Que Deus abençoe esta época que se inicia Tamu junto @sportingclubedeportugal . ????

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Mas quis o destino que aquele que Renan ia substituir fosse o único a ver o seu real valor. Rogério Ceni deixou os relvados e trocou-os pelo banco de suplentes, não para jogar, mas para treinar. A lenda paulista foi promovida a treinador principal e Renan teve razões para sorrir: 30 jogos em menos de um ano, mais do dobro das duas épocas anteriores.

Renan jogava, estava bem, mas o São Paulo não. Os resultados não eram os melhores e Ceni acabou por abandonar a liderança da equipa, chegando Dorival Júnior. Com a saída de Ceni, foi-se a titularidade de Renan, que voltou a sentar-se no banco de suplentes, vendo Sidão ocupar o seu lugar. Algo que não foi bem aceite pelo guardião campeão sul-americano de Sub-20 pela seleção do Brasil, naquele que é o seu único título da carreira para além do Mineirão, conquistado duas vezes ao serviço do Atlético Mineiro.

Em 2009, Renan Ribeiro sagrou-se campeão sul-americano Sub-20 ao serviço do Brasil (Créditos: Getty Images)

Queixando-se de não querer entrar “num rodízio de guarda-redes”, Renan rescindiu com o São Paulo e viajou até à Linha, onde encontrou o seu espaço na Amoreira. Chegou, viu e venceu entre os postes estorilistas, com exibições que o colocaram como um dos grandes destaques do Liga NOS no que a guarda-redes diz respeito. Foram, pelos menos, o suficiente para convencer Sousa Cintra das suas qualidades e levar os responsáveis leoninos a adquiri-lo por empréstimo para concorrer com Viviano, que havia chegado no início do verão.

Caso a pergunta fosse colocada agora, provavelmente Renan Ribeiro, emprestado ao Sporting pelo Estoril, escolheria como melhor partida com a camisola dos estorilistas o embate frente ao FC Porto, o tal que acabou mais de um mês depois de começar.

Na apresentação do brasileiro, Sousa Cintra não fez por menos: comparou-o a Cristiano Ronaldo. “Tenho referências fantásticas dele. Trabalha muito, de uma forma muito vincada, com muito empenho. Faz-me lembrar o nosso Ronaldo, que sempre trabalhou muito e bem”, afirmou, concluindo: “Se não fosse um bom guarda-redes, o Sporting não o contratava. Precisávamos de um guardião à altura para fazer frente ao Viviano”.

E é nesta condição que Renan chega ao Sporting: guarda-redes sombra, que irá mesmo competir pelo lugar com o italiano que tem sido aposta de José Peseiro mas que ainda não caiu propriamente nas graças nem de equipa técnica nem de adeptos e que pode ter o lugar em perigo. Se terá melhor sorte do que no São Paulo, só o futuro dirá.

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