O dever da memória /premium

21 Abril 2019544

Como foram tomadas as decisões no tempo da troika? Como foram afectados os portugueses? Uma grande reportagem de Paulo Ferreira e Isabel Loução Santos, que passou na TVI, lembra como foram esses anos.

Dos protagonistas políticos, calhou ser Paulo Portas o último a ser entrevistado. Com a referência que tínhamos dos outros participantes, pareceu-nos que o ex-líder do CDS tinha sido o mais cuidadoso e reservado nas declarações que fez. Já com as câmaras desligadas comentámos isso mesmo com o próprio: se o cuidado e precaução colocados naquelas declarações forem um indicador da probabilidade de regresso à vida política activa, então Paulo Portas será certamente o primeiro a voltar ao palco.

Isto serve de pequena ilustração para uma circunstância que nos fez avançar, neste tempo, para “A crise das nossas vidas”, a série documental que acaba de passar na TVI: o facto de os principais decisores políticos do período 2008-2014 estarem hoje afastados da vida política activa ou, pelo menos, muito distantes dos holofotes e do protagonismo de então.

O registo de que íamos à procura — mais pessoal e confessional, mais centrado nos bastidores do processo de decisão, mais claro sobre os conflitos e divergências que tantas vezes condicionam o processo político, fazendo um balanço mais distanciado sobre as certezas que foram reforçadas ou as dúvidas que, entretanto, emergiram – seria muito menos conseguido se os protagonistas se mantivessem na batalha política diária, com a reserva e o calculismo inerentes nas declarações públicas.

Dez anos depois do início da grande crise – a falência do Lehman Brothers, o rastilho que iria evidenciar grandes desequilíbrios globais, aconteceu a 15 de Setembro de 2008 – importava olhar para um dos períodos mais negros do país, agora já com um distanciamento que a voragem diária dos acontecimentos e das notícias não permitem quando se está no meio do furacão.

Era importante fazê-lo por um dever de memória e de aprendizagem.

E isso deveria ser feito em dois planos que quisemos nivelar: o dos responsáveis políticos e financeiros e o de pessoas que viram as suas vidas alteradas profundamente com as decisões daqueles. Como deram a volta, se é que tinham dado? Como refizeram as suas carreiras? Como garantiram novas formas de subsistência? Como reagiram ao embate e com que custos pessoais e familiares?

Paulo Portas foi o mais cuidadoso e reservado nas declarações que fez para esta grande reportagem

O que encontrámos, indo de novo à procura de cidadãos que tinham então sido protagonistas de reportagens da TVI, mostra que as feridas são profundas. Nalguns casos, nenhum tempo as vai curar.

Há quem tenha saído do país e por lá continue. Há quem tenha perdido, ainda sem recuperar um cêntimo, as poupanças de uma vida de trabalho. Há quem, no país esquecido longe de Lisboa, continue a sobreviver da forma precária com que sempre sobreviveu. Mas também há quem tenha aproveitado para mudar de vida, transformando hobbies e paixões de sempre em profissão e fonte de rendimentos.

A crise que começou em 2008 foi de todos, mas para todos teve peso diferente e, em alguns casos, ainda difícil de carregar. Sabendo disso, o nosso desafio foi o de tornar evidente que há ainda um, claro e definido, antes e depois na história de vida destes portugueses.

Fomos ao reencontro de João Soares e de Jorge Moreira, antigos operários da Valsan, empresa de metalomecânica em Vila Nova de Gaia que fechou no final de 2010. Para eles, foi como se tivessem sido apanhados de emboscada pela crise. Jorge não trabalhou mais desde essa altura e João transformou a música em modo de vida. Um ex-sindicalista, o outro ex-presidente da comissão de trabalhadores, garantem que pagaram fatura pesada por terem desempenhado essas funções no acesso que viram vedado a outros empregos naquela zona.

José Sócrates continua a defender que a sua solução para evitar o resgate podia funcionar. Fernando Teixeira dos Santos reconhece que em 2010 e 2011 se devia ter antecipado algumas das medidas que vieram a ser tomadas mais tarde.

Do mesmo se queixam o Paulo, o Henrique e o António. Organizaram as manifestações “Que se lixe a troika” em Vila Real. Pagaram, e ainda pagam, o custo da indignação pública e da interioridade. Paulo foi obrigado a emigrar para a Escócia. Licenciado em produção artística, é hoje pasteleiro em Edimburgo, mas ainda não perdeu o traço neo-expressionista da sua pintura que, ao contrário do país, nunca abandonou.

A Sandra, sete anos depois de a TVI a ter acompanhado na partida para Macau, relata como tem vivido a 11 mil quilómetros de distância da família e dos amigos. É jornalista de desporto, adora fazer relatos de futebol e acredita que em Macau é a profissional que talvez não tivesse sido em Lisboa, sendo ainda os relatos de futebol, domínio marcadamente masculino.

A Cristina perdeu o emprego em 2012 num hotel em Mina de S. Domingo, Mértola. Desde aí fez de tudo para se reerguer, hoje é dona de uma mercearia em Corte do Pinto.

O Rodrigo aplicou as poupanças de uma vida no BES e ainda hoje não sabe onde está o dinheiro. Banco de Portugal e governo sem solução para ele e tantos outros na mesma situação. E os 150 mil euros que aplicou, até agora, perdidos.

Por fim, a Josélia, com um café com encerramento quase certo em 2008 e que onze anos depois resistiria a todas as adversidades que o país e a vida lhe atiraram.

Da pequeníssima amostra que recolhemos podemos extrapolar para os portugueses que estão dentro das estatísticas que nos falam de milhões de pessoas e de centenas ou milhares de milhões de euros. Cada um destes casos retrata, certamente, o que se passou com milhares de cidadãos.

Podia ter sido diferente? Podia. Para melhor, certamente. Mas também para pior. Falando hoje com os timoneiros de então – José Sócrates, Pedro Passos Coelho, Durão Barroso, Paulo Portas, Fernando Teixeira dos Santos e Maria Luís Albuquerque – de comum fica claro que desde o início se estava em terreno desconhecido para todos. O que fazer com tamanhos desequilíbrios quando se está numa união monetária e não se dispõe dos instrumentos clássicos que os manuais ensinam? Como travar e inverter a perda de confiança dos credores?

Durão Barroso resume numa metáfora: “Foi como construir um bote salva-vidas quando se está no meio da tempestade”. Ninguém tinha a resposta. Na Europa como em Portugal não havia um mapa que pudesse indicar um caminho.

“Foi como construir um bote salva-vidas quando se está no meio da tempestade”, disse Durão Barroso

A vertigem começou cedo. José Sócrates continua a defender que a sua solução para evitar o resgate podia funcionar. Fernando Teixeira dos Santos reconhece que em 2010 e 2011 se devia ter antecipado algumas das medidas que vieram a ser tomadas mais tarde. Revela, por exemplo, que defendeu um corte nos salários da função pública superior aos 5% que acabaram por ser decididos. Mas não conseguiu impor a sua visão dentro do Governo. Teria servido para alguma coisa? Nunca saberemos.

O ex-presidente da Comissão diz que depois da Grécia e da Irlanda, o país teria sempre que pedir ajuda e sujeitar-se a um programa com condições.

Depois de assinado o memorando e com a troika em Portugal, já com outro governo, a vertigem não foi menor. Maria Luís Albuquerque diz que o leque de opções se foi reduzindo, numa autêntica quadratura do círculo de medidas. Elas tinham que começar por atingir os objectivos orçamentais propostos mas tinham também que passar por várias validações: da troika, dentro da coligação, do Presidente da República, do Tribunal Constitucional e aceitação social – o que não aconteceu, por exemplo, com as mexidas na TSU.

A equação quase impossível levou por duas vezes Pedro Passos Coelho a sugerir a Cavaco Silva que encontrasse outro governo, como o próprio revela. Tudo isto em paralelo com os cálculos políticos que são inevitavelmente feitos por quem está no poder. Em 2011, Sócrates não queria pedir a intervenção externa antes de ir a eleições. Em 2013, Paulo Portas não queria correr o risco de, feito o trabalho pesado, entregar o governo de novo aos socialistas. Os esforços de ambos foram em vão, como sabemos.

Nesta louca navegação sem mapa havia, no entanto, duas referências que seguiam mais à frente e que serviram claramente de bússola: a Irlanda, com um programa bem sucedido dentro do género; e a Grécia, perdida em naufrágios e resgates sucessivos. À falta de melhor, o desastre grego serviu de referência para aquilo que o governo de Passos Coelho quis evitar. “Custe o que custar”, como repete. E custou muito.

Depois de quase duas horas e meia de registo documental a partir de dezenas de horas de depoimentos e reportagem atrevemo-nos a dar resposta à pergunta que mais interessa: o país aprendeu alguma coisa nestes dez anos?  “A crise das nossas vidas” foi, desde o início, limitada temporalmente à saída da troika (Maio de 2014) porque sabíamos que se alargássemos a discussão até tempos mais próximos iríamos, inevitavelmente, cair no debate político e partidário presente. Os protagonistas poderiam perder o distanciamento que os anos sempre dão e quisemos evitar o prolongamento das discussões que diariamente ocorrem no Parlamento e nos media. Seria pouco útil e muito menos interessante.

Mas é impossível ignorar o que hoje sabemos para responder. Sim, estamos em crer que o país aprendeu com a crise. O equilíbrio orçamental que estamos prestes a atingir é, certamente, filho desses anos de chumbo a que ninguém quererá voltar. E novas tragédias também se evitam mantendo vivas na memória as tragédias passadas, tentando aprender alguma coisa com elas. Foi a esse dever de memória que quisemos responder. E ao respeito que nos devem merecer o António, o Paulo, o João, o Jorge, a Sandra, a Josélia, que viveram, como tantos outros, a crise das suas vidas.

Isabel Loução Santos e Paulo Ferreira, são os autores de “A crise das nossas vidas”. que passou ao longo da semana passada na TVI.

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Rui Ramos
2.381

Em 2016, disseram-nos que a austeridade era uma página, e que estava virada. A austeridade, porém, não é uma página. É um livro inteiro, de que já ninguém lembra o princípio e ninguém sabe o fim.

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