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Rui Oliveira/Observador

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O dia a dia de cinco bombeiros no combate à pandemia

O que acontece quando as colunas soltam o alerta “emergência médica”? E quando os bombeiros regressam? O Observador esteve num quartel em Matosinhos e conta o que viu e ouviu.

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São 10h13 e o quartel dos Bombeiros Voluntários de São Mamede de Infesta, em Matosinhos, recebe uma chamada de alerta. São os familiares de um homem, de 92 anos, que se queixa de dispneia e é suspeito de ter Covid-19. Nas colunas do quartel ouve-se “emergência médica” e a equipa escalada apressa-se a vestir o kit de proteção individual e a receber todas as informações necessárias para seguir viagem. O transporte do idoso residente na Senhora da Hora para o Hospital Pedro Hispano decorre sem incidentes e a equipa, composta por dois bombeiros, regressa à corporação cerca de 40 minutos depois.

O estacionamento da ambulância é feito no parque situado nas traseiras do edifício. O veículo é desinfetado, do volante às portas, arejado e submetido a um processo de ozonização, onde, através de uma máquina especial o ar do interior é filtrado e purificado. Os dois bombeiros despem o equipamento com cuidado num espaço de arrumos, depositando o fato, o avental, os dois pares de luvas, os óculos, a touca, o cobre botas e as duas máscaras descartáveis num dos baldes do lixo disponíveis, passando depois os pés num tapete desinfetante.

Após este ritual de 30 minutos, regressam à sala de convívio do quartel, onde a ministra da Saúde fala sobre o processo de vacinação na televisão e do balcão saem cafés escaldados. Se uns veem séries no telemóvel, outros bordam para passar o tempo enquanto não chega a próxima ocorrência. A mesa de bilhar está tapada, vários peixes coabitam no aquário e há quem já pense no almoço que vem diretamente da churrasqueira vizinha.

Sempre que chega uma ambulância de um serviço Covid-19 são necessários 30 minutos para a sua desinfeção

Rui Oliveira/Observador

Nos Bombeiros Voluntários de São Mamede de Infesta trabalham 65 pessoas, entre profissionais e voluntários, que realizam serviços em Matosinhos, Porto, Maia, Valongo ou Gondomar. Por mês, são asseguradas cerca de 500 emergências médicas e num só dia o transporte de doentes infetados para hospitais podem chegar a uma dezena.

Desde março de 2020, mês em que o vírus chegou a Portugal, que a máscara passou a fazer parte do uniforme, a distância social transformou-se numa regra e os circuitos limpos e sujos marcados no chão fizeram-se notar. A Covid-19 mudou a rotina dos bombeiros, obrigou-os a afastarem-se da família e tornou o trabalho mais demorado e cansativo. No último ano, muitos desistiram por não terem capacidade psicológica para lidar com a pandemia, outros esperam ser rapidamente vacinados para conseguirem regressar a casa todos os dias mais descansados. Exigem a profissionalização da classe, mais recursos humanos, financeiros e materiais, lamentam que sejam vistos como “carne para canhão” e admitem estar “desmoralizados”.

“No início usávamos o equipamento do tempo da gripe A. Desde que começou a pandemia, nunca recebemos uma caixa de luvas”

Gilberto Gonçalves é comandante voluntário da corporação há oito anos e engenheiro de profissão. “No fim do trabalho, em vez de ir para o café com os amigos, venho para aqui. Tenho paixão por isto.” Ao iniciar mais um turno, recorda o início da pandemia e lamenta que os bombeiros tenham sido colocados para “segundo plano”. “Numa primeira fase, trabalhamos de forma individual, não tivemos conhecimento como devíamos operar. Fomos afastados da prestação de serviços Covid-19 pelas entidades responsáveis, mas passado duas semanas já estávamos na primeira linha, afinal, 90% da emergência pré-hospitalar no país é assegurada por nós.”

A falta de equipamentos de proteção individual foi um dos obstáculos mais difíceis de ultrapassar. “Foi brutal. No início, usávamos o equipamento da gripe A, de há seis anos, porque não podíamos deixar de prestar esse socorro. É um défice nacional que nos tem chegado a conta-gotas, aliás, desde que começou a pandemia nunca recebemos uma caixa de luvas”, acusa.

Gilberto Gonçalves revela que a corporação que comanda tem acumulado nos últimos dois anos um prejuízo de “milhares de euros” para garantir o material necessário, contando ainda com o apoio “precioso” da autarquia de Matosinhos. “Estamos a endividarmo-nos para assegurar o nosso serviço”, afirma, acrescentando que “continuam a existir atropelos atrás de atropelos” no planeamento da pandemia.

Gilberto Gonçalves é comandante dos Bombeiros Voluntários de São Mamede de Infesta há 8 anos

Rui Oliveira/Observador

Transporte de doentes positivos para os hospitais e de pessoas suspeitas para centros de testagem ou evacuação de lares são agora alguns dos serviços mais comuns. E Gilberto Gonçalves não tem dúvidas de que, “se não fossem os bombeiros, haveria milhares de mortes por falta de assistência”. Para o comandante, “ninguém em Portugal quer assumir a triagem de uma emergência médica” e explica que as pessoas deviam ser referenciadas de forma diferente. “50% dos nossos doentes que não são prioritários nem urgentes, não deveriam ir para o hospital, pois poderiam ser atendidas no prazo de dois dias. No entanto, são reencaminhados pelo INEM para uma unidade hospitalar.”

Desde março de 2020, o quartel, composto por 65 pessoas, registou seis casos positivos — e em novembro chegou a ter 17 bombeiros em isolamento profilático ao mesmo tempo. “Foi complicado, não há instituição que aguente.” A falta de recursos humanos tem sido uma das bandeiras de Gilberto Gonçalves. “A profissionalização dos bombeiros está a andar ao mesmo ritmo do plano de vacinação: lento, muito lento. Duvido que no fim desta pandemia os corpos de bombeiros tenham os mesmos recursos humanos, há muitos a desistir.” Este é um cenário que já se verifica nesta corporação, onde, num total de 65 pessoas, dez pediram a sua inatividade ao serviço “por não se sentirem capazes psicologicamente” para este tipo de função. “Muitos disseram-me que não queriam ser um elo de contágio para as suas famílias. Mandei-os para casa, mesmo tendo noção de que isso iria prejudicar o funcionamento das equipas.”

Na corporação de S. Mamede de Infesta trabalham 55 pessoas, mas só vão chegar 32 vacinas contra a Covid-19

Rui Oliveira/Observador

O comandante espera que depois da pandemia exista “uma verdadeira revolução” na estrutura dos bombeiros em Portugal, que o Governo repense prioridades e atribua mais recursos, tanto financeiros como materiais. “Os bombeiros deviam ser melhor tratados e reconhecidos por aquilo que fazem. Não se trata apenas de uma questão de dinheiro, a profissionalização é urgente e é importante cativar o bombeiro voluntário. 80% da atividade de socorro em Portugal é assegurada no voluntariado e a qualquer momento ele pode estar em causa.

Gilberto Gonçalves recorda que os bombeiros “não fazem greve”, “vestem a camisola” e apenas são lembrados nos momentos mais críticos. “Os bombeiros estão desmoralizados. Além do cansaço físico, preocupa-me o cansaço psicológico.” Ainda sem informações sobre como decorrerá o processo de vacinação, nem em que data acontecerá, certo é que o quartel que dirige receberá 32 vacinas para um total de 55 operacionais ativos.

“O critério não é escolher o bombeiro mais bonito ou feio, todos fazem falta. Eu serei o último a ser vacinado, depois irei ver as escalas de serviço e escolher todos aqueles que prestam assistências Covid-19, o que não será justo, pois basta um falhar que o outro que vem reforçar ficará menos protegido.” O responsável defende ainda que os bombeiros deviam estar “no mesmo patamar” que os técnicos do INEM e, assim, receber a totalidade das vacinas. “Se sobrarem, certamente não aplicaremos a amigos ou inimigos”, sublinha.

“Filas de ambulâncias foi má gestão do hospital, garanto-lhe que não vamos ver esse cenário no Porto”

Luís Silva, chefe de equipa, é bombeiro há 20 anos e herdou do avô o sentido de missão, passou pelo INEM e chegou ao quartel de S. Mamede de Infesta em janeiro de 2021. A Covid-19 obrigou-o a alterar quase todas as rotinas, sendo que o afastamento dos colegas é a mais dura de cumprir. “Esta é a nossa segunda casa. Da mesma forma que gostamos de estar abraçados em casa, também gostávamos de estar abraçados aqui. Isto veio quebrar tudo, o que mais me custa aqui dentro é ter de manter a distância dos meus colegas.

Formado em emergência médica, Luís garante não ter medo de ficar infetado. “Só corremos esse risco se quisermos, se os bombeiros cumprirem aquilo que aprenderam, não acontece nada. Vou ao restaurante buscar comida e, só por estar fardado, as pessoas já olham para mim de forma diferente e afastam-se imediatamente. Estão enganadas, somos os mais seguros de certeza.”

Luís Silva é chefe de equipa do quartel e formado em emergência médica

Rui Oliveira/Observador

Um dos últimos temas falados à hora do almoço foi as filas de ambulâncias dos bombeiros à porta do Hospital Santa Maria, em Lisboa. Para Luís Silva, o fenómeno deve-se à “má gestão hospitalar” e ao excesso de transportes de pessoas para os hospitais “sem necessidade”. “Garanto-lhe que não vamos ver esse cenário no Porto, desde o início da pandemia que a cidade está muito mais organizada”, afirma. O bombeiro considera que existe “muita gente que não devia ir para o hospital e é reencaminhada para lá” e revela que há ainda quem não saiba o que é a linha SNS24 e contacte a corporação para pedir aconselhamento médico.

No contacto com doentes Covid-19, o que mais preocupa o chefe de equipa são as “informações ocultas” que põem em risco toda a corporação. “Temos medo dos que nos ocultam informação quando vamos buscar um doente. A família pode estar toda infetada, mas ninguém abre a boca, só depois de entrarmos em casa é que mencionam isso. Muitos têm vergonha de estar infetados, é o prato do dia.”

“Começámos a ver os profissionais de saúde a serem vacinados em dezembro e nós nada. É difícil”

De casaco polar vermelho, várias canetas presas no braço e sempre atenta ao que a rodeia, Maria João Silva já conhece os cantos à casa e é a mulher dos sete ofícios. Já trabalhou num jornal local e gosta de bordar no tempos livres, mostra orgulhosa as camaratas femininas, as camas disponíveis para a equipa dormir, os duches apetrechados e a farda já pronta a ser usada quando houver uma saída. É de Vila Nova de Gaia, tem 23 anos e trabalha como bombeira há cinco.

“Aqui faço um bocadinho de tudo, sou operadora de telecomunicações e também vou para a rua, mas o que gosto mesmo é de atender as chamadas. Sei que consigo ser a primeira a ajudar o próximo — se não fizer uma boa triagem, os outros não vão conseguir levar o material mais adequado.” Neste gabinete envidraçado, convertido em central telefónica, saltam à vista os mapas, os rádios para comunicar com as viaturas, um ecrã com as câmaras espalhadas pelo quartel ou o quadro magnético com as equipas que estão ao serviço.

Maria João Silva tem 23 anos e está na corporação de Matosinhos há dois anos

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Os pedidos de ajuda podem chegar à central do quartel de várias formas, seja diretamente pelo doente ou pela central de emergência de Matosinhos, que distribui as ocorrências por quatro corporações de bombeiros do concelho. “Tiramos a morada e o contacto, tentamos acalmar a pessoa e perceber o que se passa exatamente no local para que os nossos colegas consigam ajudar e, assim, fazer um bom trabalho.” Em casos de suspeita Covid-19 positivo, as perguntas podem ser outras. “Nesses casos, é importante perceber exatamente os sintomas, se esteve em contacto com alguém infetado nos últimos 15 dias ou se andou na rua sem máscara, para podermos fazer uma triagem profunda.”

Nos últimos meses, Maria João diz já ter visto um pouco de tudo, desde forçar portas de casas e encontrar pessoas mortas há vários dias ou sentir a impotência de não conseguir salvar alguém. “O doente estava infetado e fomos chamados porque estava com uma insuficiência respiratória. No hospital, foi diretamente para a sala de emergência e avisámos o enfermeiro de que era mesmo grave, desconfio que estava a ter um enfarte.”

Consciente da gravidade do vírus, a bombeira não tem dúvidas de que a vacina é uma arma essencial para travar a pandemia e não vê a hora de a primeira dose lhe chegar ao braço. “Começámos a ver os profissionais de saúde a serem vacinados em dezembro e nós nada, é difícil. Deveríamos ter o mesmo direito que eles, também trabalhamos na linha da frente. Para alguns, pode já vir tarde esta possibilidade.” Apesar de ter “confiança total” no material que usa todos os dias, Maria João Silva admite que a vacina lhe transmite segurança. “Tenho mesmo muito cuidado até porque tenho duas pessoas idosas em casa, uma avó com 82 anos e outra com 93. Ficaria mais descansada se elas tomassem também.”

“Não sei se quero ser vacinado quando chegar a minha vez”

João Fraga é colega de Maria João há quase dois anos, mas não partilha a mesma opinião no que toca à vacinação. “Não sei se quero ser vacinado quando chegar a minha vez, esta vacina foi feita em pouco tempo, tenho receio dos seus efeitos secundários.”

O bombeiro de 31 anos, natural de Celorico de Basto, recorda que não se trata de uma obrigação, por isso, ao contrário da maioria dos colegas, ser vacinado não faz parte das suas intenções. Ainda assim, acredita que as doses já deviam ter chegado aos quartéis há mais tempo. “Os bombeiros sempre foram postos de parte, somos carne para canhão. Os hospitais só recebem os doentes porque os levamos até lá, antes de entrarem nos hospitais estão connosco, somos nós que temos o primeiro contacto com eles.

Rui Oliveira/Observador

João ficou infetado em abril, teve dores no corpo, tosse, febre e falta de ar, “principalmente à noite”, o que o obrigou a estar 22 dias em casa. “Trabalho diariamente com isto, muito provavelmente devo ter apanhado aqui.” A pandemia tirou-lhe o convívio com os colegas, deu-lhe mais um equipamento para vestir e multiplicou os cuidados a ter em cada serviço. “A máscara dificulta-nos a comunicação, é muito incómoda. Os mais idosos quando nos veem com aqueles fatos ficam ainda mais confusos, assustados e intimidados, antigamente viam uma farda de bombeiro e reconheciam-nos logo, ficavam calmos e sentiam-se mais protegidos.

O bombeiro profissional explica que ainda existe “muita desinformação” sobre o vírus e chama a atenção para as consequências menos visíveis da pandemia. “As pessoas não são devidamente informadas pelo Serviço Nacional de Saúde, muitas vezes não sabem o que fazer e assustam-se com os números que veem na televisão todos os dias. A maioria tem mesmo medo de ir ao hospital, já fiz serviços em que os doentes preferem ficar em casa, mesmo com sintomas graves.” Entre as muitas emergências, João recorda um caso que o marcou especialmente. “Uma mãe e um filho de 12 anos estavam em casa infetados e isolados, não sabiam o que se passava e não tinham a ajuda de ninguém. Chamaram uma ambulância porque estavam desidratados, não comiam há vários dias.

No fim de cada turno de oito horas, o cansaço é grande e a vontade de ir para casa “ganhar forças para o dia seguinte” é mais do que muita. “Já não vou a casa dos meus pais, em Celorico de Basto, há três meses. Enfim, espero que isto valha a pena.”

“Vejo a minha filha pela janela há quase um ano”

João Soares tem uma filha de 3 anos e há vários meses que só a consegue ver à distância. “Vejo a minha filha pela janela há quase um ano, é muito complicado. Se tomasse a vacina, sentia-me mais seguro, mas como já tive Covid-19 acho que serei o último.” O bombeiro de Valongo contraiu o vírus em março e só regressou ao trabalho em junho, após sete testes positivos. “Foi uma sensação estranha estar em casa parado tanto tempo, a minha vida é andar sempre na rua, quando voltei não estava com o mesmo ritmo, precisei de um mês para me adaptar.” Sem saber quando é que a tão aguardada vacina chegará à sua equipa, João lamenta a discrepância de critérios no processo. “Já devíamos ter sido prioritários há muito tempo, não tenho nada contra o INEM, mas fazemos o mesmo que eles: cumprimos o socorro das pessoas.”

João Sousa admite não gostar de fazer serviços Covid-19 devido ao equipamento que é obrigado a usar

Rui Oliveira/Observador

O bombeiro de 23 anos, que já viu colegas a morrer no combate aos incêndios e já vomitou em serviço ao ver um cadáver morto há três meses, é um dos elementos que faz cara feia quando é chamado para ocorrências Covid-19. “O serviço Covid é igual aos outros, a diferença é mesmo o equipamento — o calor dentro do fato é insuportável, a comunicação através da máscara é difícil, depois queremos pegar nas vítimas e quase que nem conseguimos. Antigamente fazíamos um trabalho numa hora, agora precisamos de três.”

Os cuidados foram redobrados e os sentimentos de frustração e impotência são agora mais frequentes. “Lembro-me que fui buscar um senhor a Cedofeita positivo que estava a ter um AVC hemorrágico. Na entrada do Hospital de S. João entrou em paragem cardiorrespiratória mal o tirei da maca. Fiz tudo, mas claro que estes episódios baixam-me sempre a auto estima.”

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