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ANA MARTINGO/OBSERVADOR

ANA MARTINGO/OBSERVADOR

"O doente disse-me: 'Neste momento, estou a enterrar a minha esposa. E eu não estou lá'. Isto nunca vai desaparecer"

Daniela Marado é médica no Hospital dos Covões. Diz que, no pior dia, não aguentou e desatou a chorar. Em entrevista, lembra o doente que também perdeu a mulher para a Covid e não pôde ir ao funeral.

Naquele momento, ficou sem saber o que dizer. Daniela Marado, internista, tinha acabado de entrar na enfermaria onde um doente — que já tinha estado em situação grave — estava agora bastante melhor. Quando lhe disse isso mesmo, em tom feliz, ouviu de volta: “Não estou melhor”. Só naquele momento a médica percebeu que o doente tinha perdido a mulher, com quem era casado há 60 anos, também por Covid-19, e não podia sequer ir ao seu funeral.

São casos como este que levam a internista a acreditar que, embora seja possível que cada um saia mais forte desta pandemia, há coisas que nem o tempo poderá apaziguar. No Hospital dos Covões, em Coimbra, onde trabalha, as dificuldades uniram a equipa. Diz que a primeira vaga ficou marcada pelo medo do vírus desconhecido. Agora, também porque muitos deixaram de o sentir, o número de doentes disparou — e são cada vez mais jovens.

Num dos dias de maior trabalho, em janeiro, o volume de pessoas a precisarem de cuidados, com ambulâncias sempre a chegar e paradas à porta, levou-a ao limite: “Perdi o controle, e não devia ter perdido, e acabei por chorar, porque não conseguia mais, não conseguia mesmo mais”. Nesse dia, salvou-a um dos colegas que, só com o olhar, foi como se a tivesse pegado ao colo.

Quando tudo isto terminar, espera que tenha sido aprendida uma lição: o SNS já não tinha profissionais suficientes para as necessidades antes — e ficou a precisar de um reforço ainda maior.

[Pode ouvir aqui o podcast Saúde no Limite]

Chefiar uma urgência com cem doentes Covid a chegar. “Perdi o controlo e acabei por chorar. Não conseguia mais”

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Está há quase 11 meses na linha da frente da pandemia. Consegue dizer qual é que foi o dia, ou o momento, em que sentiu que esteve mais no limite?
Mesmo assim no limite? Talvez há 15 dias, num dia em que eu era coordenadora da urgência e recebemos imensos doentes. Já não me recordo, mas chegámos a receber 100 doentes para dois internistas, apoiados por alguns internos. As solicitações eram a cada minuto, doentes muito graves, ambulâncias à porta da urgência. A situação começou a ficar um bocadinho insustentável, porque se a cada minuto alguém me chama e diz: “Dra. Daniela, este doente aqui está mal”; um minuto depois: “Olhe este aqui”; um minuto depois estão 20 ambulâncias à porta da urgência; os enfermeiros a darem-me feedback de como é que estão esses à porta da urgência; eu a não ter onde os colocar dentro do espaço físico do serviço de urgência… Há um momento em que nós sentimos que não somos capazes, que provavelmente estamos a pôr em risco algumas vidas, mas também percebemos que não temos por onde nos dividir mais. Foi um momento em que eu perdi o controle, e não devia ter perdido, e acabei por chorar, porque não conseguia mais, não conseguia mesmo mais.

Porque estava mesmo no limite?
Sim, nesse momento valeu-me a equipa, que é uma equipa que conheço há muitos anos. Eu desde que me formei que estou aqui no Hospital dos Covões, e houve ali dois ou três enfermeiros que olharam para mim e que me disseram duas ou três palavras, e eu pensei “pronto, está bem, calma, um de cada vez, não há outra hipótese”. Nós temos de chegar a um de cada vez. Não me posso dividir. E temos de tentar fazer o melhor. Mas foi um dia muito complicado, com doentes muito novos.

"Esta terceira vaga tem sido avassaladora, do ponto de vista do número de doentes e de doentes cada vez mais novos, muitos da minha idade, com filhos, em que nós começamos também, de alguma forma, a ver ali alguém que podíamos ser nós, que podia ser o nosso marido, podia ser o nosso pai"

E eram só doentes com Covid-19? Está a dizer que está a trabalhar nas urgências, de momento.
Sim, nós aqui no Centro Hospitalar de Coimbra temos dois polos de urgências: um polo para os doentes Covid ou suspeitos de Covid, que é o polo onde eu trabalho, aqui no Hospital dos Covões; e depois o outro polo de urgências. Portanto, à partida, todos os doentes que estão aqui na nossa urgência ou são casos de Covid já conhecidos ou suspeitas.

Quando olha para este quase um ano de pandemia, o momento mais difícil que escolhe — pode ser por estar mais fresco, é verdade — é um momento em que já não é por estar por estarmos a enfrentar um vírus que é desconhecido, mas por não estarmos a ter capacidade de resposta. Foi o mais difícil?
É essa a perceção. No início da pandemia, pelo menos é o que eu acho, era o medo do desconhecido, ou seja, o medo por mim, o medo pela minha família, havia muito receio de termos ou não os equipamentos de proteção individual. Acho que na primeira vaga foi o medo. Depois, a segunda foi-se gerindo com um maior número de doentes, doentes já um bocadinho mais novos do que ao que estávamos habituados na primeira vaga. Mas, agora, esta terceira vaga tem sido avassaladora, do ponto de vista do número de doentes e de doentes cada vez mais novos, muitos da minha idade, com filhos, em que nós começamos também, de alguma forma, a ver ali alguém que podíamos ser nós, que podia ser o nosso marido, podia ser o nosso pai, e começa a custar um bocadinho mais.

Pelo que conta, não é só na Grande Lisboa que a situação está extremamente saturada e dramática. Também em Coimbra tem sido assim?
O Hospital dos Covões era um hospital que estava um bocadinho subaproveitado — tínhamos muitas enfermarias fechadas — e, neste momento, é um hospital que tem todas as enfermarias ocupadas. Temos dez enfermarias ocupadas com doentes com Covid, mais os cuidados intensivos, e tivemos de nos estender para o polo inicialmente planeado como sendo não Covid, que já tem oito enfermarias. Portanto, nós temos dez e eles já têm oito, e isto tem sido um somar de necessidades de camas hospitalares para tratar estes doentes. Na primeira vaga não necessitámos disso, tivemos quatro ou cinco enfermarias aqui no Hospital dos Covões, conseguimos responder enquanto polo Covid. Agora não, tivemos de recorrer até a um hospital que, à partida, seria só para doentes não Covid.

Portanto: temos aqui os doentes não Covid, que também têm muito menos espaço, e temos os outros completamente assoberbados. 
Houve necessidade de suspender muita da atividade não prioritária nos não Covid. Porque não se criam enfermarias Covid sem desativar outro tipo de enfermarias. É óbvio que o que é prioritário continua a acontecer, mas houve muitos outros tipos de cuidados não prioritários que se teve de suspender.

Como é que se chega até aqui? Porque acreditámos no milagre português da primeira vaga? Desvalorizámos o risco desta nova variante? Como é que se chega a uma situação deste extremo, em que aquilo que aconteceu em Itália parece estar a repetir-se em Portugal?  
Acho que desvalorizámos, acho que começámos a ouvir as coisas e deixámos de dar valor, deixámos de ter medo, aquele medo da primeira vaga, o tal medo do desconhecido. Pensámos: “Isto levou-se bem na primeira, na segunda um bocadinho pior, mas também se foi levando”. Eu acho que, no fundo, as pessoas não acreditaram, o Governo também, se calhar, não acreditou — e mal. Tudo apontava para que isto ia acontecer e acho que  houve um espírito um bocadinho latino, de que as coisas iam correr bem, mas não correram.

A urgência dos Hospital dos Covões é uma unidade dedicada a doentes Covid

Paulo Cunha/LUSA

Agora ouvimos tantos profissionais de saúde dizer que estão no limite, mas a verdade é que até o limite vai esticando um pouco mais, como explicou com as dez enfermarias que se transformaram em dezoito num instante. Isto vai dar até onde?
Não sei muito bem, porque nós também não podemos pensar que temos só doentes Covid, porque isso não é verdade. Eu acho é que temos todos de ter uma consciência individual e coletiva forte, perceber que temos de fazer alguma coisa para isto abrandar. E isso só se consegue com as medidas que todos nós sabemos e confinando.

Com estas medidas que estão agora em vigor, temos uma parte muito importante do país fechada, mas temos pessoas que continuam a resistir e a encontrar exceções onde se calhar nem sequer era preciso que elas acontecessem. Isto tem a ver com a tal mentalidade latina que está a dizer, ou precisávamos de outro tipo de exigência por parte das nossas autoridades?
Sinceramente não sei, eu acho que, individualmente, nós temos de ter esta responsabilidade enquanto cidadãos. Agora, se é preciso o Governo impedir-nos de sair de casa para percebermos que está nas nossas mãos fazermos alguma coisa? Eu, sinceramente, acho que, desde que isto se começou a agravar, há imenso tempo que eu não estou com os meus amigos, os meus sogros não vieram passar o Natal. Eu não fiz isto porque o Estado me obrigou, foi a minha consciência individual que me levou a isto, e eu acho que é isso que devia unir as pessoas e levá-las a ter comportamentos mais adequados. Porque, se todos colaborarmos mais rapidamente, é possível diminuir os números, nós sabemos que é possível. Precisamos de colaborar todos e colaborar ao mesmo tempo, e de forma rigorosa. Se uns fazem e outros não, se calhar o Estado tem de se impor.

Tem notado, mesmo que minúsculo, algum pequeno alívio nestes dias? Como hoje, por exemplo, em que o número de infeções foi menor?
Aqui em Coimbra, na urgência, nesta última semana, notámos um bocadinho de melhoria. Tínhamos dias em que estávamos a receber cem, cento e tal doentes, neste momento estamos a receber sessenta, setenta doentes. Isto vale o que vale, é uma semana, mas nós achamos que, realmente, diminuiu um bocadinho.  Portanto, isto poderá estar relacionado com o facto de as escolas terem fechado, e eu acho que isso levou as pessoas a estarem um bocadinho mais confinadas. Mas é uma semana.

É uma semana, não dá para sentir ainda um padrão, mas aquela situação difícil de escolher doentes, por exemplo, já nos disse que tem ficado impressionada com a quantidade de pessoas mais jovens que estão a chegar aos hospitais. Isso obriga a uma atitude diferente na terapêutica que é escolhida e na seleção dos doentes que podem precisar de cuidados mais intensivos?
Toda a vida se fez esse tipo de seleção. A capacidade de um doente receber um determinado cuidado é diferente de pessoa para pessoa, da sua idade, das suas comorbilidades, portanto sempre houve algum grau de seleção dos tratamentos, dependendo do doente que temos à frente.

"Na minha enfermaria, que era uma enfermaria normal, neste momento estamos a ventilar, não invasivamente, doentes, que era uma coisa, até aqui, um bocadinho impensável, ou seja, estes doentes estariam numa unidade intermédia ou numa unidade intensiva"

Mas isso acontece sempre, não estamos numa excecionalidade que leva a outro tipo de cuidados?
Isso acontece sempre, mas agora, neste momento, temos de selecionar ainda um bocadinho mais, porque os meios não são ilimitados. Se eu tenho um velhinho com a mesma doença a descompensar que um jovem de quarenta anos que não tem doença nenhuma, e eu não tenho dois médicos e só tenho um, naturalmente eu primeiro vou abordar o doente que tem maior capacidade de sobrevivência. Primeiro vou abordar o mais jovem, de quarenta anos, e depois vou ao mais idoso. Quando temos muitos doentes para tratar ao mesmo tempo, com cada vez menos recursos, não só humanos, mas também materiais, é óbvio que temos de selecionar um bocadinho.

Mas por critérios puramente clínicos, não estamos no domínio mais ético de ter que escolher num cenário de medicina de catástrofe de que tanto se tem falado nos últimos tempos?
Também não senti isso. Por exemplo, na minha enfermaria, que era uma enfermaria normal, neste momento estamos a ventilar, não invasivamente, doentes, que era uma coisa, até aqui, um bocadinho impensável, ou seja, estes doentes estariam numa unidade intermédia, ou numa unidade intensiva. Neste momento não há capacidade de resposta, então estamos em enfermarias ditas normais a fazer outro tipo de cuidados, que não fazíamos, ou fazíamos noutro tipo de unidades, com monitorizações mais contínuas, com um rácio profissional/doente se calhar mais baixo, que agora não conseguimos.

E há essa noção de que não conseguem fazer tudo? 
Não conseguimos fazer tudo da maneira que gostaríamos.

Os profissionais de saúde do Hospital dos Covões estão a ser testados com que frequência à Covid?
Eu nunca fui testada por rotina, fui testada uma ou duas vezes em contexto de surtos. Foi mais ou menos na altura do verão, em que houve ali uns meses em que eu estive em enfermarias não Covid, e houve surtos de doentes e depois testaram também todos os profissionais, mas por rotina não somos todos testados.

E isso faz sentido?
Neste momento, com a quantidade de doentes que temos,  também já estando vacinados, acho que não faz muito sentido estarmos a ser rastreados. Se tivermos alguma sintomatologia, claro que somos logo avaliados. Quando os números eram mais baixos e estávamos em enfermarias não Covid, talvez devêssemos ter sido. Nas enfermarias não Covid, neste momento, os doentes são rastreados à entrada e depois ao quinto dia, e têm aparecido alguns casos. Isso também é uma medida que começou mais ou menos depois do verão, antes não tínhamos essa prática.

E diria que isso aconteceu porque se aprendeu a criar as tais rotinas que estava a dizer, como a prática de maior segurança na relação entre utentes e profissionais.  
Isto também é um crescendo de aprendizagem, a disponibilidade de termos os testes e os resultados também foi crescendo e as técnicas que usamos hoje também são diferentes e mais rápidas, portanto houve uma evolução. Eu lembro-me de que, ao início, para pedirmos uma zaragatoa para despiste de uma infeção de Sars-Cov 2, tínhamos de telefonar para um médico que estava referenciado e ele é que autorizava, ou não, o pedido da zaragatoa. As coisas foram mudando, neste momento eu não preciso de autorização para  pedir a uma determinada pessoa para fazer um teste. Realmente, se apanharmos um surto no início é mais fácil contê-lo do que depois, portanto agora há esta prática nas enfermarias não Covid de se rastrear os doentes ao quinto dia após a admissão.

"Eu tenho os mesmos cuidados que tinha antes de ser vacinada, não facilito em nada. Dá-me um bocadinho mais de confiança. Não sei, também ainda não fiz as serologias para saber se estou imunizada ou se não estou. É uma esperança, não é?"

Já lidaram com muitos surtos de Covid-19?
Eu só tive um, mas também só estive a trabalhar em enfermarias não Covid dois ou três meses, ali na altura do verão, de resto tenho estado em enfermarias Covid. Numa enfermaria Covid, nós equipamos-nos, a probabilidade de nós transmitirmos ao doente é baixa, como considero que é baixa quando temos todos os cuidados e estamos devidamente equipados, portanto os surtos aqui no hospital relacionam-se um bocado com os cuidados que as pessoas têm na altura da alimentação nas copas, porque são momentos em que estamos um bocadinho desprotegidos. Eu sempre fui muito cuidadosa com isso — se aquela copa permite cinco pessoas e estão lá cinco, eu não vou, espero que saiam e tiro a máscara para o estritamente necessário.

Entretanto, neste processo todo de aprendizagem e de evolução, já fez aqui essa referência de que já foi vacinada contra a Covid-19.
Sim.

Sem qualquer receio? Sem qualquer dúvida?
Não hesitei em nenhum momento. A segunda dose foi um bocadinho dura, porque me pôs na cama, fiz febre, e nem consegui vir trabalhar, mas, pronto, são os efeitos secundários que estão descritos.

O que é que muda na atitude de uma pessoa que está de frente para a pandemia, a partir do momento em que está vacinada? Muda alguma coisa?
Do ponto de vista prático, não muda nada. Eu tenho os mesmos cuidados que tinha antes de ser vacinada, não facilito em nada. Dá-me um bocadinho mais de confiança. Não sei, também ainda não fiz as serologias para saber se estou imunizada ou se não estou. É uma esperança, não é? Mas, do ponto de vista prático, não suavizei nenhum dos cuidados, nem dentro do hospital nem fora, só porque estou vacinada.

Não ficou mais à vontade para se encontrar com amigos ou familiares?
Não, neste momento não. Eu continuo a ter os mesmos cuidados, vou a casa dos meus pais, eles é que ficam com os meus filhos, vou de máscara sempre, e com os amigos não tenho estado, falo com eles ao telefone.

Sobre as notícias da forma como algumas vacinas foram administradas a pessoas que não seriam propriamente de grupos prioritários, isto descredibiliza e tira até motivação a quem está a trabalhar?
É um bocadinho triste. Nós temos colegas que ainda não foram vacinados. Não sei, acho que é uma questão de ética. Primeiro têm de ser vacinadas as pessoas que estão em contacto com estes doentes. Não consigo adjetivar, é inadmissível, e acho que as pessoas deveriam ser punidas por isso.

"Desde que eu estou a trabalhar, vejo colegas a sair — e, às vezes, colegas muito jovens — que vão para os hospitais privados, que têm condições de trabalho mais aliciantes. O problema já existia antes da pandemia, mas agora só veio agravar a situação."

Começou por nos contar como o trabalho de equipa é fundamental até para levantar uma pessoa que esteja pior naquele momento.
Sim, nós temos esses momentos, há dias em que eu olho para um colega ou um enfermeiro e digo: “Não estás bem, hoje”. Isso acontece a todos, já me aconteceu a mim, e é muito importante do outro lado ter alguém que percebe isso e que, naquele dia, até está bem disposto, diz umas coisas e põe-nos um bocadinho melhor. E depois, um ou dois dias depois, é ao contrário. Nós temos estas variações de humor, acho que é próprio de todos nós, portanto é muito importante conhecermos as pessoas que estão connosco e que, nesses momentos, fazem a diferença. Naquele dia na urgência, fez-me muita diferença. Lembro-me de que olhei para um enfermeiro, ele não me disse absolutamente nada, mas a sensação que eu tive naquele momento é que ele queria me pegar ao colo, como se eu fosse um bebé. Uma coisa indescritível. O sentimento que eu tive naquele momento foi “ele quer pegar-me ao colo e dar-me colo”, porque naquele momento era aquilo que eu estava a precisar. E ele não me disse uma única palavra, mas eu vi nos olhos dele, e já tive a oportunidade de lhe dizer isso: “Naquele dia, eu olhei para ti e achei que tu…” E ele voltou a olhar para mim, não disse nada e eu percebi que era mais ou menos isso.

Agora vai chegar ajuda internacional, vamos ter profissionais de saúde, médicos alemães a vir reforçar as equipas portuguesas. Havia mesmo necessidade disso? Como é que antevê que possam funcionar formas de trabalho seguramente diferentes, culturas diferentes?
Acima de tudo, o Serviços Nacional de Saúde estava depletado de profissionais, independentemente da pandemia. Desde que eu estou a trabalhar, vejo colegas a sair — e, às vezes, colegas muito jovens — que vão para os hospitais privados, que têm condições de trabalho mais aliciantes. O problema já existia antes da pandemia, mas agora só veio agravar a situação. De qualquer das formas, é inegável que todos os médicos e todos os profissionais têm sido chamados. Ainda há pouco, cruzei-me com um interno de estomatologia do primeiro ano, que neste momento está a trabalhar na área Covid, porque as pessoas tiveram de ser mobilizadas, independente da sua área de trabalho, portanto há esse esforço coletivo para tentar melhorar as coisas. Eventualmente, há áreas muito específicas, onde não é fácil de um momento para o outro arranjar, imagine, um médico intensivista, que são coisas muito técnicas que lidam com aparelhos muito sofisticados. Portanto, eventualmente, uma ajuda externa de médicos com este tipo de formação pode ajudar neste contexto. Acima de tudo, temos é de repensar que, se calhar, o nosso SNS precisa de ser reforçado, independentemente da pandemia, mas precisa muito de ser reforçado.

Que sequelas é que vão ficar disso? Já explicou que pode se ganhar em espírito de grupo em entreajuda, em trabalho em rede, em trabalho em rede, em capacidade de se adaptar a situações novas, pode ser uma vantagem ou uma qualidade que possa sair de uma crise como esta. Mas o que é que sai mais? Como é que lhe parece, e olhando para o Hospital dos Covões, que é um hospital de referência do país, como é que vão sair disto tudo?
Nós vamos sair mais fortes, mas há coisas que não sei se o tempo vai ajudar a apaziguar. Vou lhe contar uma situação que aconteceu ontem na enfermaria: um senhor já de bastante idade, com uma pneumonia por esta infeção Sars-COV-2, que esteve bastante mal, precisou de ventilação não invasiva, e nós até tememos que ele pudesse não resistir. Ontem entrei na enfermaria e ele estava muito melhor, tinha passado muito bem o fim de semana, tinha visto nos registos de enfermagem. E eu entro na enfermaria, até muito alegre, e às vezes até vou a cantar para eles, e assim a fazer palhaçadas, e disse: “O senhor está muito melhor”. E ele, muito seco, disse: “Eu não estou melhor. Eu, neste momento, estou a enterrar a minha esposa”. Eu fiquei sem palavras naquele momento. Eu não sabia, ele nunca tinha verbalizado que a esposa também estava internada aqui nos Covões, numa outra enfermaria, que também estava gravemente doente e que tinha falecido no fim de semana. E ele dizia-me: “Ela está a ser enterrada neste momento só com o coveiro. Eu não estou lá, porque estou aqui. E os meus filhos estão no Canadá”. E o que é que se diz a um doente destes? Como é que se trata isto? A lágrima caiu e eu disse: “O que precisa de mim?”. E ele disse: ” Quero ir para a minha casa”. E eu disse: “Então vamos fazer por isso”. Mas estas sequelas psicológicas, isto vai ficar para o resto da vida. Nunca me vou esquecer desta história. E este doente nunca mais vai ser o mesmo. Ele disse “estou casado há sessenta anos com ela”.

E essa história vai ficar, não é?
Vai ficar, vai ficar para mim, vai ficar para o enfermeiro que estava lá ao meu lado e que ouviu, vai ficar para o doente. E isto nunca vai desaparecer. Eu acho que vamos sair mais fortes desta pandemia, mas há aqui pequenas coisas do ponto de vista psicológico que nós não vamos esquecer nunca.

Paulo Cunha/LUSA

Quanto tempo é que vai ter livre até ao próximo turno?
Amanhã vou entrar outra vez às nove e vou ter o dia todo de consultas, não vou estar na enfermaria Covid. Na primeira vaga, nós conseguíamos organizar-nos por equipas e tínhamos pessoas dedicadas ou só à urgência ou só ao internamento. Neste momento não, mantemos toda a nossa atividade em terreno. Portanto, eu não deixei de fazer as minhas consultas normais. Não as faço presencialmente, faço por telefone e só naqueles doentes em que eu vejo que não consigo resolver a situação é que mando vir ao hospital. E depois estou alocada a uma enfermaria Covid, desempenho a atividade normal de enfermaria, tenho os serviços de urgência, que neste momento fazemos dois bancos por semana em média, que pode ser de porta aberta ou de residência.

É muito pouco tempo. Já disse que tem filhos. Tem tempo para os filhos?
Vou tendo. Faço um esforço. Vou tendo.

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