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O golfe em Portugal: a modalidade que "seguia o próprio caminho" está a dar a tacada do sucesso /premium

Formação, proximidade com os jovens, projetos de responsabilidade social, benefícios para a saúde. A receita para o sucesso do golfe português tem todos estes ingredientes e promete dar cartas.

Em 2000, enquanto chefe de Estado, Jorge Sampaio patrocinou a criação da Taça Presidente da República de golfe, inspirada na norte-americana President’s Cup. O que poucos sabiam era que a ligação afetiva de Sampaio com a modalidade estava para lá do simples gosto ou da simples admiração. 18 anos depois, no passado mês de setembro, foi o atual Presidente da República que decidiu contar e recordar o passado de Jorge Sampaio no golfe. Por ocasião da edição de 2018 da Taça batizada com o nome de cargo que ambos ocuparam, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que Sampaio “sacrificou o talento que tinha para o golfe” para “servir Portugal” e, não podendo dedicar-se de igual forma às duas vertentes “porque o golfe exige um intenso treino”, acabou por canalizar “o seu talento ao serviço do país em inúmeros domínios”. O discurso podia nada mais ser do que o elogio de um chefe de Estado incumbente a um antecessor mas, mais do que isso, é uma pista para perceber o impacto da modalidade em Portugal.

Para entender que o golfe não é uma “modernice do século XXI” é necessário recuar no tempo. Com mais precisão, é necessário recuar 65 anos – até 1953. Ora, para se ter uma noção do panorama desportivo português nesta altura, é preciso lembrar que a Seleção Nacional de futebol só iria aventurar-se pela primeira vez num Campeonato do Mundo 13 anos depois, em 1966; que a Primeira Divisão do Campeonato realizava apenas a sua 14.ª edição; e que o Sporting, já com quatro dos Cinco Violinos, tinha acabado de conquistar o segundo tricampeonato da sua história. Tempos antigos, portanto, em que Matateu era o rei dos golos e vestido de azul encantava os adeptos. Nessa altura – 13 anos antes do Mundial de Inglaterra em que o mundo ficou a saber que se jogava futebol em Portugal –, organizava-se a primeira edição do Open de Portugal. A etapa portuguesa foi um dos eventos fundadores da primeira divisão europeia de golfe e fez parte do European Tour desde 1972, altura em que o circuito foi criado, até 2017.

O golfe, enquanto modalidade, está intrinsecamente ligado a Portugal e à história do desporto português. Ainda assim, pode ser alvo de preconceitos irreparáveis e ideias pré-concebidas: os custos que acarreta, as classes em que é praticado, os círculos em que supostamente é visto mais como um estatuto social do que como um desporto. É tudo isso que Miguel Franco de Sousa, presidente da Federação Portuguesa de Golfe a completar agora dois anos de mandato, pretende mudar – ou, pelo menos, clarificar. “Esse é um estigma que tem assombrado o golfe um bocadinho pelo mundo todo. Mas aquilo que acontece cada vez mais é que o golfe é uma modalidade cada vez mais democrática, praticada por umas dezenas de milhões de pessoas pelo mundo inteiro, e quando assim é impossível dizer que é uma modalidade elitista. O que o golfe representa hoje em dia é uma modalidade praticada por todas as classes socio-económicas, por todos os escalões etários e se assim não fosse nem sequer teria qualquer sustentabilidade”, explica aquele que já foi o capitão da Seleção Nacional.

Miguel Franco de Sousa assinala dois anos à frente dos destinos da Federação Portuguesa de Golfe

A modalidade, como qualquer outra, tem obviamente opções mais caras e outras mais baratas. “Nós podemos perfeitamente jogar num campo de golfe muito caro como podemos perfeitamente jogar num campo de golfe muito barato. É como nos carros: podemos andar em carros de gama baixa ou andar em carros topo de gama”, compara Miguel Franco de Sousa. A verdade é que Portugal já tem, de Norte a Sul do país e nas regiões autónomas, campos de treino, academias e instalações relacionadas com golfe acessíveis àquilo a que o presidente da Federação chama “toda a população”. “É claro que se quisermos ir jogar a um resort de golfe de grande qualidade, no Algarve ou mesmo em Lisboa, pagamos mais. Mas existem, hoje em dia, soluções espalhadas pelo país que permitem jogar golfe a baixo custo”, acrescenta.

Mas, mesmo ultrapassado o estigma inicial da classe social, do tipo de pessoa que pratica golfe ou dos custos associados, a modalidade está longe de ser propriamente popular. Não é futebol, não é natação, não é ginástica e não é karaté: não é nenhum dos desportos que, regra geral, os pais equacionam quando chega a hora de colocar as crianças a praticar uma modalidade. É nessa vertente que a Federação Portuguesa de Golfe pretende também trabalhar – no posicionamento da modalidade junto das escolas, talvez até integrando o plano curricular da disciplina de Educação Física, de forma a normalizar o golfe e torná-lo algo acessível e parte do imaginário das crianças em idade escolar. “Já temos mais de 100 escolas em que o golfe faz parte das modalidades extracurriculares, temos cerca de 600 professores de Educação Física que já tiveram formação em golfe e tivemos mais de 22 mil crianças que entraram em contacto com a modalidade através desse projeto”, lembra Miguel Franco de Sousa, deixando clara qual é a estratégia. Já que se torna difícil levar as pessoas ao golfe, é hora e levar o golfe até às pessoas.

"Há um estigma que tem assombrado o golfe um bocadinho pelo mundo todo. Mas aquilo que acontece cada vez mais é que o golfe é uma modalidade cada vez mais democrática, praticada por umas dezenas de milhões de pessoas pelo mundo inteiro, e quando assim é impossível dizer que é uma modalidade elitista".
Miguel Franco de Sousa, presidente da Federação Portuguesa de Golfe

“É óbvio que estamos conscientes da limitação das instalações de golfe pelo país. Isto não é futebol… Há um campo de futebol, um campo de basket e uma pista de atletismo em qualquer freguesia deste país. Nós temos cerca de 90 campos de golfe. Sabemos que temos alguma limitação na distribuição geográfica da modalidade”, ressalva o presidente da Federação. Ainda assim, a estratégia de tornar o golfe algo mais próximo através do contacto com as escolas tem já bastante impacto em várias regiões específicas do país, onde as instalações ligadas à modalidade já atingem a subsistência apenas e só a partir das crianças e jovens que começaram a praticar após conhecerem o golfe em Educação Física ou enquanto disciplina extracurricular – Cantanhede, Porto, Braga e Paredes são alguns dos exemplos. O organismo leva a sério a ideia de que o futuro está nas crianças e a aposta primordial é ir do conhecimento à introdução e da formação à especialização.

O Jamor é um dos principais centros de formação do país e abre as portas a atletas com deficiência mental e motora através de protocolos com instituições

O Centro Nacional de Formação de Golfe do Jamor, em Oeiras, é gerido pelo organismo que regula o golfe português e é um dos exemplos de localizações que visam formar novos jogadores e apostar no futuro da modalidade. O campo, ex-libris da Federação e ponto capital da modalidade em Portugal, trabalha habitualmente com crianças e jovens mas tem também protocolos com instituições e associações que levam o golfe até pessoas com deficiência mental. “É algo encarado de forma perfeitamente natural. Temos um conjunto de atletas que chega até nós através dessas instituições e disponibilizamos os nossos campos e os nossos treinadores para que seja feito esse trabalho”, conta Miguel, acrescentando que o mesmo centro do Jamor está também preparado para treinos e alta competição de golfe adaptado a atletas com deficiência motora. Portugal, em conjunto com a Associação Europeia de Golfe Adaptado, organiza inclusive competições internacionais para atletas que sofreram amputações, são invisuais ou surdos. O golfe, por exigir níveis de concentração acima da média, é também bastante eficaz em crianças com défice de atenção ou hiperatividade, assim como em jovens com problemas de inclusão social ou que foram vítimas de abuso físico e psicológico.

“Notamos que o golfe transmite uma calma e auto-confiança que essas crianças e essas pessoas normalmente não tinham. O golfe tem um conjunto de coisas que são muito boas: pode ser praticado ao ar livre, pode ser praticado por várias gerações, transmite um conjunto de valores que são muito importantes numa sociedade moderna, como o respeito, o respeito pelo ambiente, pelo adversário”, conta o presidente da Federação. O facto de o golfe quase não precisar de árbitros para ser praticado estimula ainda a auto-regulação e o controlo das emoções, assim como a gestão da competitividade e da sensação de derrota ou de vitória. Em outubro de 2016, a Universidade de Edimburgo realizou um estudo onde apontava os grandes benefícios da modalidade para a saúde – desde o combate à depressão, à obesidade, os contributos para o controlo da diabetes, a redução de risco de problemas cardíacos, já que quase não envolve esforço cardiovascular, e ainda os benefícios em casos de cancro do cólon e da mama e ainda de AVC. “A atividade física moderada que o golfe oferece aumenta a esperança média de vida, é benéfica para a saúde mental e pode ajudar a prevenir e tratar mais de 40 doenças crónicas como ataques cardíacos, AVC, diabetes e cancro do cólon e da mama. As provas mostram que os golfistas vivem mais do que aqueles que nunca praticaram golfe, graças a bons níveis de colesterol, massa gorda, bem-estar e auto-estima. Dado que a modalidade pode ser praticada tanto pelos muito novos como pelos muito velhos, isto demonstra uma grande variedade de contributos para a saúde de pessoas de todas as idades”, pode ler-se na investigação da universidade escocesa.

Portugal, em conjunto com a Associação Europeia de Golfe Adaptado, organiza inclusive competições internacionais para atletas que sofreram amputações, são invisuais ou surdos. O golfe, por exigir níveis de concentração acima da média, é também bastante eficaz em crianças com défice de atenção ou hiperatividade, assim como em jovens com problemas de inclusão social ou que foram vítimas de abuso físico e psicológico.

No próximo ano, em 2019, Portugal vai ter a representação de dois atletas no European Tour: Ricardo Melo Gouveia conseguiu garantir a manutenção na alta roda do golfe europeu e Pedro Figueiredo, mais conhecido por “Figgy”, carimbou o inédito apuramento no início de novembro, na Grand Final do Challenge Tour em Ras Al Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos. Para Miguel Franco de Sousa, a presença de dois atletas portugueses no European Tour foi a maneira perfeita de encerrar 2018, ansiar por 2019 e ainda comemorar os dois anos à frente da Federação. “Tanto o Ricardo como o Pedro começaram a sua atividade desportiva nos seus clubes e, desde 2003, altura em que entrei para a Federação, que tive a oportunidade de acompanhar e ajudar a desenvolver a carreira destes atletas. O que significa que Portugal tem condições, se existir um número de atletas alargado, para chegar tão longe como qualquer outra federação de golfe europeia”, explica o presidente, que lembra ainda que a partir daqui é necessário “capitalizar” a presença dos dois atletas no European Tour. A ideia é que todos os jovens atletas percebam que é possível, em Portugal, imaginar, pensar, criar e ter uma carreira enquanto golfista profissional.

Pedro Figueiredo conseguiu pela primeira vez o apuramento para o European Tour e juntou-se a Ricardo Melo Gouveia

MELANIE MAP'S/LUSA

Em conversa com o Observador, Pedro Figueiredo partilhou da ideia veiculada pelo presidente da Federação e sublinhou a importância da formação, já que “é desde pequenino que as filosofias do golfe são injetadas”. “É nas crianças que tudo isso é mais eficaz, elas cativam-se umas às outras, puxam umas pelas outras. Eu senti muito isto. Quando comecei a jogar, foi com um grupo de amigos”, explicou o golfista. “Figgy” vincou – tal como Miguel Franco de Sousa também fez –que existe o “estereótipo de que o golfe é elitista” mas reconheceu que existem “sítios em Portugal com pouco acesso” à modalidade: “Tem havido uma mudança mas ainda há muito caminho para percorrer”, afirmou. Sobre o próximo ano e a inédita presença no European Tour, Pedro Figueiredo garante que o objetivo primordial é a manutenção na alta roda do golfe europeu.

O golfe esteve ausente das modalidades em competição nos Jogos Olímpicos de verão durante 108 anos: integrou os Jogos de 1900 e 1904, foi excluído e só foi recuperado na última edição, em 2016, no Rio de Janeiro. Na primeira vez que o golfe esteve em competição nuns Jogos Olímpicos desde 1904, Portugal foi representado por dois atletas (Filipe Lima e Ricardo Melo Gouveia). É por isto que Tóquio 2020 não pode deixar de ser um objetivo palpável e exequível para a Federação Portuguesa de Golfe. “Os Jogos de 2016 foram muito importantes para nos encararem como modalidade desportiva. O golfe era sempre visto como uma modalidade que seguia o seu próprio caminho. Há muitos anos que seguíamos o nosso próprio caminho, porque não estávamos nos Jogos Olímpicos. Foi muito importante, tantos anos depois, ver o golfe ser uma modalidade desportiva como as outras todas. Por isso, claro que temos encarado a preparação com muita responsabilidade, estamos em contacto permanente com o Comité Olímpico Português, na preparação de atletas, na preparação de jovens esperanças olímpicas, para que possamos assegurar uma participação portuguesa com qualidade”, garante Miguel Franco de Sousa.

No início do mês de novembro, Portugal foi considerado pela 5.ª vez consecutiva o Melhor Destino de Golfe do mundo, nos World Golf Awards. Uma distinção que, segundo o presidente da Federação, é apenas a confirmação de algo que está à vista de todos: “Temos um país com condições extraordinárias para a prática do golfe”. O objetivo “a muito longo prazo” é só um: chegar aos 50 mil praticantes de golfe em Portugal, o que significaria tornar a modalidade sustentável. A curto prazo, a meta já começou a ser traçada há dois anos. “Tivemos de desenvolver um conjunto que iniciativas que permitissem reorganizar a modalidade para que ela possa ter um crescimento sustentável. E nisto, inclui-se a certificação de academias e de escolas de golfe, algo que nunca foi feito – o golfe era ensinado de uma forma totalmente desorganizada, cada clube ensinava da sua maneira, não havia um modelo de ensino, um modelo do treino –, e esse é um dos pilares fundamentais que está a ser trabalhado neste momento”, clarifica.

As primeiras academias da Federação Portuguesa de Golfe arrancam em 2019, “terminado que está o processo de desenvolvimento dos manuais”. Além disso, a aposta contínua será feita na formação de treinadores e monitores – as pessoas que pensam o golfe e têm a seu cargo a responsabilidade de incentivar aqueles que revelam interesse na modalidade – mas também nos chamados gestores de golfe, os donos de instalações, campos e resorts que permitem a prática do desporto. “Lançadas estas bases”, atira Miguel Franco de Sousa, “o crescimento da modalidade será sustentável e significativo nos próximos dez anos”.

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