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JOÃO SEGURO/OBSERVADOR

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"O Lugar da Outra": um inédito de Cutileiro/Kotter /premium

O Observador publica um texto inédito de José Cutileiro, que fará parte de "Podia Ter Sido Pior. Escritos 1953-2019", uma coleção de artigos que em breve chega às livrarias.

Em Junho de 1983, José Cutileiro — quer dizer, o inglês A.B. Kotter na quinta da Beldroega, em Colares — foi convidado por Fernando Gil a escrever para um número especial da revista Análise dedicado ao “lugar do outro”, o qual, todavia, nunca saiu.

O texto é um de três inéditos que vão constar de Podia Ter Sido Pior. Escritos 1953-2019, um grosso volume organizado por Vasco Rosa que recolhe colaborações no Almanaque, n’O Tempo e o Modo, na Mosca, num suplemento cultural do Diário de Notícias e mais extensamente antologia os obituários da coluna “In Memoriam”, além do comentário da cena internacional tanto “O mundo dos outros” no semanário Expresso como no blogue “Retrovisor” e em revistas da especialidade. A edição, que também retoma na íntegra uma antologia dos Bilhetes de Colares de 2004, é das Publicações Dom Quixote e está no prelo.

Morreu o embaixador José Cutileiro

O Lugar da Outra

Desvaneceu-me ser-me permitido escrever, neste número especial, sobre o Lugar da Outra, aldeola pitoresca da Freguesia da Ericeira, concelho de Mafra, que há muitos anos conheço e admiro. Quem siga da segunda daquelas vilas para a primeira pela Estrada Nacional 116, encontra, a certa altura, à sua direita, um desvio precedido da indicação Ribamar 7. Tome-o e, cerca de dois mil e oitocentos metros à sua frente, deixada para a esquerda Fonte Boa dos Nabos mas bem antes de Santo Isidoro, deparar-se-lhe-á um grupo de casas cinzentas semi-arruinadas, bordejando a estrada dos dois lados. São as primeiras casas de Lugar da Outra que se estende por três hectómetros no seu eixo principal que é o da estrada referida e se alarga, a espaços, quase até sessenta metros para cada lado dela. Nenhum marco ou dítico lhe revela o nome mas apareceu, individualizado, no Censo Geral da População de 1980, contando, nesse dia, duzentas e noventa e sete almas. Havia cento e onze casas habitadas; hoje há cento e quinze, devido à fixação de retornados de Angola e Moçambique, gente industriosa, que abriu um restaurante típico, uma pequena oficina para reparação de motores e máquinas agrícolas e um bordel infantil, aberto de 1 de Maio a 15 de Outubro, modesto por padrões hindustânicos mas mais do que satisfatório para a região saloia. A população restante e autóctone, ocupa-se de agricultura e pastorícia bem como dos fabricos derivados de vinhos e queijos, embora alguns homens novos se empreguem no sector de serviços em Mafra e na Ericeira e algumas mulheres trabalhem a dias, durante a estação balnear e fins de semana, em moradias de vilegiatura espalhadas ao longo da costa, próxima e de vistas admiráveis, pertencentes a famílias lisboetas remediadas. Arruinadas e vazias, contei no lugarejo, em passeio a pé com o Dr. Mário Tavares Chicó que infelizmente nos deixou já, vai para mais de vinte anos, noventa e duas casas de habitação. Ao preparar este texto verifiquei que tal número não se alterou. O Almirante Américo Tomaz, a quem mencionei este facto curioso, inferiu que não seriam todas as mesmas mas se teriam arruinado mais quatro, tendo, por sua vez, outras quatro sido recuperadas pelos retornados. A hipótese é plausível pois não parece haver construções de raiz datando dos últimos vinte anos. O próprio bordel aproveitou — com certo exagero oriental no gosto da decoração — os toscos da casa que outrora instalava, diz a tradição oral, a Roda dos Expostos. Abyssis abyssim invocat.

Em 1904, Vale Souto, no seu Relatório acerca do reconhecimento de Portugal para o estabelecimento de sanatórios dedica duas páginas a Lugar da Outra, evocando a reputação de bons ares que a aldeola teria granjeado para, logo a seguir, pôr em dúvida o bem fundado de tal fama.

O aspecto da paisagem em redor não se alterou desde que Gabriel Pereira a descreveu, no começo este século: “A estrada vai subindo pela meia encosta de um grande maciço; os largos declives dos montes povoados de culturas, vinhedos; nos sovacos mais húmidos grupos de vacas leiteiras.”

Da história pouco sabemos. O cruzado Osborne narra que três infanções normandos, duas semanas antes da tomada de Lisboa, se tresmalharam e em vez de pernoitarem com os restantes da sua hoste em Pucariço foram dormir a outro lugar mas Oliveira Marques diz não haver prova que esse «outro lugar» fosse o Lugar da Outra como pretenderam Gama Barros e, na peúgada deste, Armando de Castro. Pairam depois sobre o lugarejo três séculos de silêncio, rompido pela voz travessa de Gil Vicente que chega até nós numa tirada porventura ligeiramente antissemítica:

Do rabino a égoa
Por ser ruim potra

O choutou sem trégoa
Até meia légoa
Do lugar da outra

Em sezão de safra
Raivem os de Mafra!

Respigo a passagem de um granel do espólio literário do Dr. José Maria Rodrigues. O chorado erudito estabelecia o texto do inédito vicentino Auto das Porras quando a morte o surpreendeu. A edição, adiantada no preparo, não chegou a vir a lume e só a diligência do prestável e fino Almarjão salvou do lixo os papéis preciosos. Que não nos desalente o “lugar da outra” vir assim escrito, sem maiúsculas. A meu ver, Eduardo Prado Coelho engana-se quando interpreta o verso como referência a “outra égua”. Acrescenta ele “pois não há outro sem eu nem égua sem outra égua. A tese contém a sua antítese”. Embora as minhas luzes filosóficas sejam, além de escassas, muito diferentes das do estruturalista ilustre, estaria preparado para aceitar a sua leitura, não fossem os dois últimos versos citados acima. A menção de “os de Mafra” coloca, sem sombra de dúvida, o lugar da outra em Lugar da Outra e a sua própria raiva que sentiriam não é artifício do dramaturgo. Com efeito Raczynski, ao descrever a igreja matriz, fino exemplo de maneirismo hoje infelizmente desaparecido, alude a mossas, no alçado nascente, provocadas por pedradas que, todos os anos pelo Pentecostes, jornaleiros de Mafra vinham arremessar contra a igreja, mais precisamente contra a faceira dela virada para Mafra. Embora os trigos fossem, nessa época, mais tardios do que os que passaram a ser semeados em Portugal na segunda metade do século XIX, não parece insensato figurar que Quinta-Feira da Ascensão tombasse às vezes já na ceifa (safra).

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As origens desta prática são desconhecidas. O falecido Professor Jorge Dias via nela, talvez, vestígios de um rito de iniciação masculina; o historiador César Oliveira está convencido que se trataria de uma manifestação de “rebeldia primitiva” no sentido dado ao termo por Hobsbawm, isto é, de uma forma incipiente de luta de classes. Confesso não dispor de elementos que me permitissem ajuizar a bondade de tais hipóteses, mas não é de excluir outra: o localismo assanhado tão característico da província portuguesa. Diferenciados dos europeus restantes, eivados de patriotismo exemplar bem evidente em expressões como “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”, “só de ver um espanhol, vomito”, etc., os portugueses, suas portas adentro, não se poupam uns aos outros. Ainda hoje o forasteiro desprevenido que pergunta em Mafra qual o caminho para Lugar da Outra se arrisca a que os de Mafra pretendam ignorar tal — e vice-versa.

Entre Gil Vicente e Raczynski e deste até aos nossos dias não se conhecem referências ao lugarejo nas obras gerais de consulta mais frequente. AChorographia de Gaspar Barreiros (1561), o Dicionário Geográfico do Padre Cardoso (1747-51), a Chorographia moderna do Reino de Portugal de João Maria Baptista (1874-79), as Notas sobre Portugal para a Exposição do Rio de Janeiro (1908), o Guia de Portugal – I de Raul Proença (1924), a Descoberta de Portugal das Selecções do Reader’s Digest (1981), para enumerar só algumas, ignoram-no por completo. Exceptua-se o já citado Gabriel Pereira – mas em não mais de sete linhas.

Em 1904, Vale Souto, no seu Relatório acerca do reconhecimento de Portugal para o estabelecimento de sanatórios dedica duas páginas a Lugar da Outra, evocando a reputação de bons ares que a aldeola teria granjeado para, logo a seguir, pôr em dúvida o bem fundado de tal fama: chega a falar em “pauis miasmáticos” onde Gabriel Pereira não viria a ver mais do que “sovacos húmidos”. O calor tomado é tal e contrasta tanto com o comedimento científico do resto da obra que o leitor se sobressalta e pergunta aos seus botões porquê. A resposta — que devo ao faro etnográfico do Senhor José Fonseca e à pesquisa laboriosa de arquivos paroquiais que pôs ao serviço desse faro — é simples como o ovo de Colombo: Vale Souto nascera em Mafra…

São estes os factos mais interessantes do Lugar da Outra, sítio de muito menos importância que o Lugar do Outro, a que a revista é dedicada, e cujas facetas múltiplas especialistas abordam com competências que excedem a de um amador, curioso de tudo mas seguro de nada.

O lugarejo que conheço há quase trinta anos e frequento bastante há quatro ou cinco não deu à Pátria varões assinalados, filhos que se tenham ilustrado nas artes, nas letras, no Estado, na Igreja ou na guerra. Ao contrário do que propalou o semanário O Diabo, os ex-conselheiros da Revolução Senhor Franco Charais e Senhor Pezarat Correia não nasceram em Lugar da Outra nem de lá era oriunda, pese ao Dr. Miguel Urbano Rodrigues o que estampa no seu matutino, a madrinha do Dr. Victor Cunha Rego. Notáveis terá havido, por junto, um notário que percorreu Almeida, Leiria e Braga e um otorrinolaringologista que praticou em Lisboa. Pelas antigas colónias não consta que alguém tivesse mourejado, nem do Lugar saíram comendadores de Belo Horizonte ou grossistas abastados de Providence, R.I.

Em passado remotíssimo, porém, Lugar da Outra marcou longe a sua influência. Uma inscrição viking, encontrada em 1891 na aldeia de Knutstorp, por Göran Björkman, o célebre tradutor para sueco de poesia portuguesa, reza o seguinte:

Otto foi para o Sul
Sua espada matou guerreiros
Apresou arcas de ouro
Batido por bons ventos
Deixou uma moura
No lugar da outra
Que trouxe, sua Mulher.
Ergueu esta pedra.

José Cutileiro: cronista atento, menino travesso, sábio experiente

A palavra Ottosloge, hoje caída em desuso, significava em dialecto medieval da Escânia “o lugar de Otto” e era empregue, sempre segundo Björkman, para referir terras longínquas do Sul, soalheiras e de gente morena.

São estes os factos mais interessantes do Lugar da Outra, sítio de muito menos importância que o Lugar do Outro, a que a revista é dedicada, e cujas facetas múltiplas especialistas abordam com competências que excedem a de um amador, curioso de tudo mas seguro de nada. Não procurei senão preencher o que me parecia uma lacuna do projecto e, se decénios de residência me autorizassem desenvolturas de nativo, diria, com vénia a Montesquieu e a Raul Proença, que julgo ter ajudado os descobridores do mundo a conhecerem melhor a terra onde nasceram.

A.B. Kotter

(Tradução de J. Fonseca)

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