O Manuel chamou o António: Toy e Ena Pá 2000 estão estupidamente apaixonados

01 Fevereiro 2018942

Manuel João Vieira queria dançar e não tinha par, chamou o António, mais conhecido por Toy, e agora vão todos à festa, batizados como Ena Toy 2000, esta sexta feira no Titanic Sur Mer, em Lisboa.

Um aviso para os leitores. O artigo que se segue pode conter alguma linguagem imprópria, palavreado obsceno, atitudes duvidosas, uma saudável obsessão com o ato de procriação e doses ininterruptas de romantismo exacerbado. Aviso final, um dos protagonistas desta história é reconhecido pelo cantar portentoso e tiradas engenhosas com o próprio nome artístico. Por exemplo: “EsToy cá”, anuncia o cantor a pés juntos, quando questionado se já chegou ao ensaio por Manuel João Vieira, que sorri em resposta, satisfeito por segurar um diamante dos mais valiosos do cancioneiro romântico, para lapidar nas suas mãos de compositor subversivo de escárnio e maldizer. É para ver, chorar e bater palmas com risos nervosos, assim como fizemos no ensaio da super banda Ena Toy 2000, que se estreia esta sexta feira no Titanic Sur Mer, Cais de Sodré, às 23h em ponto.

Compenetrados, os dois compositores discutem como deve seguir a estrutura e a melodia da canção. Tudo normal, afinal é apenas o segundo ensaio de dois músicos que nunca tocaram juntos, novamente na casa do anfitrião Manuel João Vieira, em Campo de Ourique, longe da calmaria dos arredores Setúbal, onde habita o nosso maior representante de amor latino, o Toy. Face a esta seriedade na reflexão do arranjo musical, quase que nos sentimos desconfortáveis pelas reações involuntárias de riso que isto tudo provoca, ter dois cinquentões a definir que notas devem usar na canção “Quero foder contigo” (lembra-se do aviso que fizemos?), onde além de refrão auto-explicativo, uma senhora “sorri como a Mona Lisa e cheira como um queijo de Niza”. Uma coisa é clara, seja estupidamente apaixonado ou com sinónimos mais picantes, os dois têm uma vontade tremenda de procriação, um ponto em comum nestes dois ícones de proclamar o ato amoroso nas cantigas.

“Além de termos isso em comum, gostamos ambos de vinho tinto, o cimento da amizade em Portugal”, garante o líder dos Ena Pá 2000. “O vinho não é uma bebida, é uma cultura, e à mesa é que se fazem grandes amigos”, concorda António Manuel Neves Ferrão, conhecido popularmente como Toy ou o António da canção, de popa e relógio de ouro, na galhofa com o Observador. “Nós temos um amigo comum que nos falou desta possibilidade”, explica Manuel sobre a criação dos Ena Toy 2000. “Obviamente o Toy é um ícone da canção portuguesa e nós, como grupo que se interessa pelas raízes da música popular portuguesa, queremos trabalhar sempre com ícones”.

O Manuel do Bacamarte e o António Sensual

Parece, mas não foi uma tempestade que passou por ali, e se fosse não teria um nome modernista como “Ophelia”, seria mais para “Manuel”, genuíno e castiço, de barbas e camisa xadrez, rodeado de cavaletes, quadros, tijolos, peças de roupa, guitarras e livros, que nesta divisão compõem uma possível sala de ensaio. “Beto, onde é que está a bateria”, pergunta ao baterista dos Ena Pá. “Aqui”, responde o dito, com ar maroto, a bater num bongo ligeirinho, a única coisa que trouxe para o ensaio. “Mas tu é que és o meu fileteeeee”, canta Toy enquanto testa a letra, com o inconfundível vozeirão, enquanto as dançarinas burlescas planeiam desajeitadas os passos de dança. Preocupado em frente ao computador, o furacão Manuel está com uma dúvida daquelas que não deixam os artistas irrequietos dormir: como cantar esta canção francamente direta para o público da RTP, no “5 Para a Meia-Noite”, já esta quinta?

“Eles não querem nada sexual, o Toy podia cantar o ‘Bacamarte’”, sugere Manuel, sem se aperceber no entanto, que a letra desta pérola também não é propriamente educativa para uma emissora nacional, com os seguintes versos:

“Tenho um granda bacamarte
Vai da Terra até Marte
Tenho uma grande pilinha
Vai da costa até à linha”

“Poderia cantar tipo, ‘quero estupidamente contigo’, em vez de coisar”, propõe Toy, talvez inspirado pelo outro momento na história da música popular com uma questão na mesma medida, em 1967, quando outro homem igualmente sensual, Jim Morrison, foi provocado a mudar uma letra antes de atuar no Ed Sullivan Show. O vocábulo exótico dos versos diverte o cantor de Setúbal, que se entrega com dedicação a estas personagens degeneradas, diriam uns, ou sinceras, defendem outros. “Mas eu estou sempre feliz”, explica. “Para mim isto é poesia pura, as palavras existem para serem ditas e cantadas, ecoadas, quando se diz ‘amor’ deve dizer-se com a mesma força de ‘foder’, faz parte, é uma junção de sentimentos”. “Claro que há diferenças substanciais sobre a forma de dizer ‘fazer amor’”, reflete o compositor destes versos problemáticos, “mas eu queria dizer que em relação aos Ena Pá 2000 somos todos românticos, e a única razão pela qual todos dizemos palavrões infantis é porque somos tão tímidos que não conseguimos dizer as coisas de outra forma”.

Fotos do ensaio de Ena Toy 2000

JOÃO SEGURO/OBSERVADOR

A solução foi guardar a cantiga controversa apenas para o concerto e ensaiar o “Semi-Tango” para o programa, com Toy a entoar a letra mais suave:

“Queria espetá-la, mas a faca estava torta
Ai não faz mal, a vaca já estava morta”

Terminando com um fantástico trejeito de fadista, agudo até abanar as estruturas da casa. “Assim fica mais à Toy”, explica. A verdade é que estas canções soam bem a escorregar pela garganta de cantor romântico. Quem mais para cantar frases como “gemidos de prazer que tu soltas e o amor no quarto às voltas”, de “Sensual”.

“Diz-me se és mesmo tu, Marilu”, canta agora a testar outro clássico do repertório de Ena Pá 2000, a incorporar esta personagem que bem podia ser ele, o trágico campino com questionamentos da ordem sexual, ao mesmo tempo que as dançarinas se pavoneavam ao fundo. “O Titanic é um armazém que foi transformado em clube, não é o Maxime, mas também tem um ambiente muito sui generis”, descreve Vickie, dançarina burlesca e companheira dos coros com Syndie, duas partes primordiais do espetáculo, com figurino de galinha para a ocasião, por razões óbvias: porque não? “Vamos brilhar como sempre, desta vez acompanhadas por um mestre da canção portuguesa”, continua. “Aquilo no Titanic vai ser uma tourada que vai acabar em omelete”, acrescenta Syndie, a consentir com a crista de galinha.

As noites da boite Nina

O Titanic Sur Mer, no Cais de Sodré, é o melhor candidato para uma espécie de novo Maxime, o extinto espaço burlesco de cortinas de veludo que deixou muitas saudades. Quem está por detrás do novo palco de variedades é o mesmo mestre de cerimónias, o tal Manuel João Vieira, eterno candidato à presidência da República, que prometia um Ferrari para cada português. Um dos slogans de campanha era “já o conheces de gingeira, vota Vieira”, e quem segue nestas andanças notívagas pelo Cais de Sodré, não é estranho à presença do líder dos Ena Pá 2000 e Irmãos Catita.

“Não deve haver Apartheid de géneros de canções em Portugal”, diz-nos Manuel. “Quando as pessoas se conhecem e falam, tudo é possível, isto é uma mensagem também para os políticos e guardas de jardim zoológico”. Depois deste apontamento pertinente, Toy acrescenta ao regabofe que “a união faz a força e mais vale um bêbado razoavelmente conhecido que um alcoólico anónimo”.

“Em 1989 cantei numa boite em Lisboa chamada Nina”, lembra Toy sobre o elemento burlesco de Titanic. “Era uma casa de alterne, onde havia show de strip, todos os dias levava com uma menina nua na cara, que não era nada mau, eu entrava depois dela, e era ao vivo com banda, durante seis meses cantei em casas de alterne, fui um verdadeiro alternador.”

“Não deve haver Apartheid de géneros de canções em Portugal”, diz-nos Manuel. “Quando as pessoas se conhecem e falam, tudo é possível, isto é uma mensagem também para os políticos e guardas de jardim zoológico”. Depois deste apontamento pertinente, Toy acrescenta ao regabofe que “a união faz a força e mais vale um bêbado razoavelmente conhecido que um alcoólico anónimo”. Atacam “És Cruel” nesta premissa de quebrar a barreira dos géneros, com Phil Mendrix, que entretanto chega pé ante pé, a mostrar que tem a mesma aptidão para a guitarra elétrica como se ainda estivesse no Estado Novo a fazer yeah-yeah (e ele esteve). Toy canta sobre o porco imundo no modo rockabilly, a condizer com a polpa, última do reportório Ena Pá antes de recordar os maiores sucessos de uma longa carreira.

Rápido intervalo, com Manuel a oferecer uma garrafa de plástico de conteúdo suspeito. “Agora que provei, isto é um bocado forte”, e volta para trás, enquanto Toy ensaia “Day Tripper” e “Samba de Uma Nota Só” na companhia da banda. “Agora é fá sustenido”, explica sobre a próxima canção. “É aquela da mulher tão sensual, mas tão sensual, que o simples tocar faz mal”. E pronto, estamos todos tramados, “Sensual” é catchy como o diabo, todos cantam o refrão e estarão sensuais até ao fim de mês, e ainda só agora começámos fevereiro. “As músicas do Toy ficam no ouvido e as nossas também e temos isso em comum”, concorda Manuel, completando: “Acho que isto é um dom, ou se tem ou não se tem, um êxito tem de ser uma força irracional”.

Chama o António mais vezes

Toy é o nosso homem dos refrões românticos e orelhudos. Poderíamos sugerir que é o Roberto Carlos português, se em vez de consensual o brasileiro fosse sensual, e ainda um setubalense de gema. Infelizmente o António não é chamado ou aclamado como deveria ser. Vejam bem o exemplo do verão passado, quando os banhistas da Arrábida foram surpreendidos com um barco a fundear no disputado areal e decidiram protestar, mesmo com a presença de Toy na ilustre embarcação, um dos maiores representante da região. Este tipo de aparição devia ser paga, ou no mínimo, com um corredor de palmas e uivos de gente a desmaiar. Esse é o tipo de emoção que a música de Toy procura suscitar, leve-se a sério ou não.

“Coração Não Tem Idade” abre o baile na aldeia, o momento fulminante de escolher um par, de soltar, libertar, abrir as asas para o sonho, toda a noite, toda a noite. “Isto está só a começar, é o princípio de um fervilhar de ideias que vão por aí abaixo como uma cascata”, garante o líder dos Ena Pá 2000 no fim de ensaio.

“Não sabia que íamos cantar esta, pensava que era o António”, desespera Suzie. “Mas é o António”, aponta Manuel para o Toy. Siga, que este ensaio não é de meias medidas. E subitamente começa o drama. “Porque é que me arranjo e me apronto, fico a teus pés”. A desilusão. “Vou fingindo que até nem percebo”. A esperança. “Porque ainda é possível quem sabe?”. Enfim, Toy em toda sua glória, com a maçã de adão no sobe e desce desenfreado de notas lá em acima, estupidamente apaixonado. A culpa é dele, por sofrer.

Segue-se “Rosa Negra”, a tremer os lábios de efusão, que este senhor se entrega de alma a cada verso, a recitar: “Ainda consigo ter na boca, o sabor dos teus lábios de mel”. Manuel consente. “Coração Não Tem Idade” abre o baile na aldeia, o momento fulminante de escolher um par, de soltar, libertar, abrir as asas para o sonho, toda a noite, toda a noite. “Isto está só a começar, é o princípio de um fervilhar de ideias que vão por aí abaixo como uma cascata”, garante o líder dos Ena Pá 2000 no fim de ensaio, a conseguir de seguida um momento sério no meio da dispersão da entrega absurda a esta personagem de cantor burlesco.

“Espero que aconteça um cruzamento de géneros e uma casa como o Titanic tem de promover isso. Convido aqui publicamente o Toy a vir ao Titanic tocar com a banda dele”. O ícone das canções populares sorri lisonjeado com o convite, mas não se descose. “Sim, não pode ser sempre o mesmo, se for posição de missionário todos os dias a coisa fica muito chata”. É isto, seja amor ou sexo, independentemente da posição ou do género, uma coisa é certa: estes dois camaradas entendem-se. Manuel, chama o António mais vezes.

Ena Toy 2000, esta sexta feira, dia 2, no Titanic Sur Mer, em Lisboa, às 23h30. Entradas a 12 euros

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