O método de Charlotte: seduzir reformados franceses, trazê-los para Viseu e roubá-los

04 Novembro 2017639

Charlotte era o seu nome falso. O alvo? Reformados franceses. O objetivo? Roubar-lhes tudo o que pudesse enquanto os mantinha presos numa casa de luxo em Viseu, um esquema que já tinha usado em França

Já só lhe faltava abastecer o carro para sair finalmente de Portugal. Michel (nome fictício) só queria esquecer o que lhe tinha acontecido e regressar a França, de onde é natural. Queria passar ao lado da vergonha, esquecer os maus momentos que tinha passado em Viseu e, sobretudo, tentar que os filhos não soubessem. Mas estava longe de poder deixar tudo para trás e seguir em direção a casa.

Não tinha qualquer dinheiro com ele e, por isso, pegou no cartão de crédito para pagar o abastecimento do carro. Mas o plafond estava esgotado. Não o sabia até ao momento qual era a extensão do roubo, mas rapidamente percebeu que tinha ficado sem todo o dinheiro. Os filhos estavam em França e sabiam que o pai tinha ido a Portugal. Michel vive sozinho mas tinha dito aos filhos que vinha passar uma semana com uma mulher e depois voltava.

O empregado da bomba de gasolina em Nelas — concelho de Viseu, a pouco mais de 100 quilómetros da fronteira com Espanha em Vilar Formoso — chamou a Guarda Nacional Republicana (GNR). Foi então que o francês lá acabou por dizer que tinha sido vítima de um crime, contou fonte da Polícia Judiciária (PJ) ao Observador, com base em relatos de testemunhas.

Foi aqui que tivemos noção da gravidade desta situação. Se não tem sido esse incidente, esse homem ia para França e esquecia a história. E nós não descobríamos este esquema.
Fonte da Polícia Judiciária do Centro

As marcas de agressão ainda estavam bem visíveis na sua cara. Michel foi espancado quando se apercebeu que estavam a ser feitos levantamentos da sua conta bancária e reagiu. Esteve sequestrado durante três dias, revelou ao Observador a PJ, que interrogou a vítima. Só quando já não havia mais nada para roubar, o grupo que o burlou — uma mulher e três homens — o libertou.

Michel foi o gatilho que levou as autoridades a descobrirem um esquema criminoso que já tinha feito outras vítimas. “Foi aqui que tivemos noção da gravidade desta situação. Se não tem sido esse incidente, esse homem ia para França e esquecia a história. E nós não descobríamos este esquema”, diz fonte da PJ ao Observador.

“Vem daí, vem cá passar uns dias”. Dos sites de encontros amorosos à chegada a Viseu

Identifica-se como Charlotte e tem 42 anos. Viveu em França durante a infância e a adolescência, mas regressou a Viseu, onde tem família. É uma sedutora. Usa essencialmente duas armas — o aspeto e a inteligência — e uma ferramenta: sites de encontros amorosos. Procurava franceses com mais de 60 anos, reformados, que vivessem sozinhos e que fossem divorciados ou viúvos. Quando estabelecia o primeiro contacto, começava uma história de sedução.

Primeiro, através das palavras: escrevia bem e era muito simpática e amorosa, relata a fonte da PJ que acompanhou a investigação. Depois, com a imagem: loura, magra, segundo os vizinhos “usava roupas muito justas e era muito vistosa”. Já em contacto com as futuras vítimas, mostrava fotografias suas, até de quando era mais jovem, e fazia videochamadas para garantir que era, na realidade, aquela pessoa que descrevia. Não se despia. Mostrava-se apenas e insinuava-se: “Vem daí, vem cá passar uns dias”, dizia. Charlotte era, segundo uma das vítimas, uma “incendiária”, uma “allumeuse” (provocadora, em francês). Ia sempre alimentando a ideia de uma futura relação sexual, que na verdade nunca ia acontecer.

Terá feito muitos contactos com pessoas que não ligaram e não vieram mas, nesse universo, há sempre um ou outro que cai.
Fonte da Polícia Judiciária do Centro

“Terá feito muitos contactos com pessoas que não ligaram e não vieram mas, nesse universo, há sempre um ou outro que cai”, refere a PJ. Para os que caíam na conversa de Charlotte, o plano continuava. Quando chegavam à casa de Viseu, Charlotte pedia-lhes para deixarem a bagagem e o que traziam consigo num escritório com acesso biométrico, no qual só se podia entrar através de impressão digital — uma divisão que a PJ descobriu quando fizeram as buscas na vivenda. A justificação era de que a casa era frequentada por muita gente e ali ficava tudo em segurança.

O primeiro passo já estava dado: as vítimas ficavam sem poder entrar na sala onde tinham deixado os seus pertences. E Charlotte já tinha material para roubar: dinheiro e objetos de valor, como joias.

Os ajudantes: o marido, o amigo e o filho envolvidos em exploração sexual

Na verdade, a casa era frequentada por muita gente. Charlotte era só o cérebro do grupo. Havia o marido, de 47 anos, já com o cabelo grisalho, que se apresentava como Nicolas; o filho de 22 anos com o nome falso de Roman; e um amigo francês do casal — que às vezes dizia que se chamava Daniel e outras vezes Jean-Claude. Todos estavam envolvidos no esquema.

O esquema de burla que já foi testado em França

Em França, este grupo já tinha feito o mesmo esquema. Há três anos, Charlotte e o amigo francês foram condenados a “mais do que um ano ou dois de prisão” pelos mesmos crimes. Terão cumprido “metade ou um quarto da pena” e saíram antes do tempo, revela fonte da Polícia Judiciária.

O grupo instalou-se em Viseu no início deste ano, para repetir o mesmo esquema. Aqui com uma desvantagem acrescida para as vítimas por estarem num sítio que desconheciam.

Polícia Judiciária

O grupo tentava que o primeiro dia de visita dos seus alvos fosse normal. Os reformados franceses conheciam os outros membros do clã à chegada à casa, mas as histórias que ouviam eram falsas. Os nomes eram falsos, as relações de parentesco eram omitidas — diziam-se amigos. A casa era grande e, por isso, Charlotte e a vítima também mal se cruzavam com os outros.

Quando a vítima já estava instalada, o próximo passo era conseguir descobrir os códigos dos cartões bancários. Assim que o conseguiam, passavam a ser mais agressivos. Fechavam as pessoas numa divisão da casa e ali as deixavam. Por vezes, podiam sair para as refeições, mas logo a seguir regressavam, sob ameaça de violência física. Não reagiam com medo de serem agredidos pelos três homens.

“Eram cidadãos estrangeiros com mais de 60 anos — de alguma forma fragilizados — numa terra desconhecida, ficavam cheios de medo e faziam o que eles mandavam. Quando reagiam, eram agredidos”, refere a PJ.

Cidadãos estrangeiros com mais de 60 anos - de alguma forma fragilizados - numa terra desconhecida, ficavam cheios de medo e faziam o que eles mandavam. Quando reagiam, eram agredidos. 
Fonte da Polícia Judiciária do Centro

O filho do casal, Roman, era o mais violento: agredia as vítimas quando não colaboravam ou ia com elas fazer levantamentos. Roman não estuda, nem trabalha. Tem um aspeto “perfeitamente normal”, descreveu a PJ ao Observador. Os vizinhos costumavam vê-lo a passear o cão, um dobermann. Mas, por detrás desse aspeto “perfeitamente normal” estará, não só um jovem que colaborava nos esquemas dos pais, mas alguém alegadamente envolvido em casos de exploração sexual. “Temos conhecimento de que há um processo a decorrer”, disse fonte da PJ, sem adiantar mais pormenores.

Duas moradias de luxo em Vilabeira. “As pessoas daquele bairro não se misturam”

Tudo isto se passava na urbanização Vilabeira, a 10 minutos de carro do centro da cidade de Viseu. São 28 vivendas geminadas, cada uma custa cerca de 300 mil euros e têm mais de 400 metros quadrados. Charlotte é proprietária de duas casas que, juntas, funcionam como um grande casarão. Ocupam dois números: o 27 e o 28 — as duas vivendas do fim da rua. Charlotte e o marido compraram ainda um apartamento, nos prédios em frente às vivendas, para o filho de 22 anos.

A imobiliária — a Visahouse — promete uma “privacidade que raramente se encontra na cidade”. De facto, as vivendas não são fáceis de encontrar. Estão escondidas por detrás de vários blocos de apartamentos. Por fora, as casas não aparentam ser tão luxuosas como realmente são. Da estrada, vêem-se apenas dois andares, uma fachada simples e pouco mais. Mas, das traseiras, é possível ter-se uma noção do tamanho do edifício: vêem-se quatro andares e um jardim enorme. As vivendas têm ainda uma piscina coberta, jacuzzis e um ginásio. São casas luxuosas, com requinte, “tudo do bom e do melhor”, contou fonte da PJ ao Observador.

Os franceses, que deram o seu testemunho à PJ, “chegavam ali e ficavam encantados com o que viam”. O grupo tinha até uma justificação preparada para tanta riqueza: diziam que já tinham trabalhado em França como empreiteiros. Tinham lá uma empresa de construção civil, de onde conseguiam extrair bons lucros.

Os vizinhos não deram pelas burlas. A zona é exclusivamente residencial. “À noite estão aqui uns 100 carros, mas à tarde estão cá apenas uns cinco. Durante o dia não está cá quase ninguém”, explica um vizinho. Sabe quem são os membros do grupo, mas nunca falou com eles. Era dos que via o filho de Charlotte a passear o cão regularmente.

Há muitas pessoas neste bairro com uma riqueza inexplicável. Nunca percebemos muito bem de onde vinha o dinheiro. Agora, começo a perceber porquê.
Morador da urbanização Vilabeira

Outra vizinha explicou ao Observador que “as pessoas daquele bairro [moradores das vivendas] não se misturam com as de cá de cima [os moradores dos prédios]”. “Então neste caso, não tinham interesse nenhum em fazer amizades”, apontou. Outra, que também não sabia do caso, tinha-se apercebido de movimento de carros: “Sempre passaram aqui muitos carros de matrícula francesa e realmente, na semana passada passou aqui a polícia”.

“Há muitas pessoas neste bairro com uma riqueza inexplicável. Nunca percebemos muito bem de onde vinha o dinheiro. Agora, começo a perceber porquê”, refere uma moradora da urbanização Vilabeira ao Observador. Nenhum quis ser identificado.

O francês encontrado na casa de banho. “Vi aquela boneca, aquela cara”

No passado dia 19 de outubro, a PJ foi até à casa na urbanização Vilabeira — onde estava sediado todo o esquema de burla — com um mandado de busca. Abriram-lhes a porta: “Foram cordiais e não houve grande reação”. A PJ fez várias buscas e apreendeu objetos e documentos, sem revelar ao Observador quais. Quando os inspetores encontraram uma vítima fechada na casa de banho, o grupo tentou disfarçar.

— É mais um amigo que está aqui — terão respondido.

Denis (nome fictício) tinha começado a aperceber-se de que estava a ser vítima de um crime organizado há pouco tempo. Embora estivesse fechado na casa de banho — uma das dez que a moradia tem –, tinha consigo o telemóvel e recebeu algumas mensagens do seu Banco a informar-lhe que a sua conta estava a ser movimentada de forma suspeita.

Este francês sexagenário foi atraído para Viseu pelo método de sedução de Charlotte. “Vi aquela boneca, aquela cara”, disse à PJ. E veio. Daquela vez, Charlotte não quis perder tempo. Logo no primeiro dia que Denis chegou à casa, apresentou-o aos outros membros do grupo — só não conheceu o filho — e disse-lhe que precisava de ir ao supermercado, fazer compras para a casa. Foram todos. Quando chegou o momento de fazer o pagamento, começou a estratégia:

— Epa, não tenho o meu cartão. Tens aí o teu? — perguntou ao marido, que fazia apenas o papel de amigo.

— Epa, eu também não…

— Mas eu pago. Não há problema nenhum! — disse Denis.

Como era Charlotte quem já tinha o terminal de pagamento automático na mão, Denis deu-lhe o cartão para a mão e disse-lhe o código, em troca da promessa de que depois lhe devolviam o dinheiro das compras do supermercado. A promessa inverteu-se: sabendo o código, o grupo começou a fazer levantamentos logo no dia da chegada de Denis.

Cinco vítimas identificadas mas “haverá muitas outras, quase de certeza”

A vítima que foi encontrada na casa de banho e a que foi detetada na bomba de gasolina em Nelas — e que desencadeou a investigação — estão longe de ser as únicas. Já em março deste ano tinha acontecido um caso semelhante: um cidadão francês que tinha sido atraído para Viseu e ficou sem mais de 200 mil euros. A PJ encarou-o como um caso isolado e só depois de Michel se ter queixado em Nelas é que o associaram ao esquema.

Já a investigação estava em curso, quando a PJ tomou conhecimento de outro caso que tinha acontecido no mês anterior, em Vilar Formoso. Só faltava a Louis (nome fictício) passar a fronteira, para sair de Portugal e deixar para trás aos crimes de que tinha sido vítima. Mas não tinha documentos. Não sabia que não os tinha consigo, mas sabia porquê. Também ele tinha sido atraído por Charlotte e agredido pelos restantes membros do grupo. Ficou sem nada. Não tinha dinheiro nem carteira. A GNR de Vilar Formoso foi chamada ao local e, embora tenha confirmado ao Observador que tal aconteceu, não deu mais detalhes sobre o incidente com Louis, justificando-se com a mudança de comandante do posto.

Em junho, já depois do caso de Michel ter levado à abertura da investigação, a PJ recebeu um aviso das autoridades francesas: “Há um indivíduo, cidadão francês, que está em Viseu. Recebemos a comunicação da família que ele estará fechado numa casa”.

Há um indivíduo, cidadão francês, que está em Viseu. Recebemos a comunicação da família que ele estará fechado numa casa.
Autoridades francesas

Nessa altura, em junho, a PJ pensou em agir. Mas pouco depois, as autoridades francesas informaram que Adrien (nome fictício) já tinha sido encontrado e que iam interrogá-lo para tentar perceber de que crimes teria sido vítima.

Adrien foi mais um dos alvos de Charlotte, mas podia ter sido um dos mais prejudicados financeiramente. Enquanto estava fechado na casa, a grupo ter-se-á dirigido a França, com o carro de Adrien. Todas as despesas das viagens terão sido cobertas pelo dinheiro que Adrien tinha nos cartões bancários — já na posse dos membros do grupo. Apesar de não terem dados concretos, a PJ admite a possibilidade de o grupo ter ido a França para fazer levantamentos de cheques e fazer movimentos nas contas que em Portugal não conseguiam e, até, tentar vender uma propriedade. “Eles movimentavam-se bem em França. Sabiam bem o que fazer e como fazer”, disse a PJ ao Observador.

Até ao momento as autoridades conseguiram identificar estas cinco vítimas, mas a fonte da PJ revelou ao Observador não ter dúvidas: “Haverá muitas outras, quase de certeza”.

Charlotte em prisão preventiva e o filho com pulseira eletrónica

“Vários crimes de sequestro, ofensas à integridade física, furto e burla informática” levaram à detenção de todos os elementos do grupo no dia 19 de outubro — dia em que a PJ se deslocou até à casa na urbanização Vilabeira com um mandado de busca.

Burla Informática

“Quem, com intenção de obter para si ou para terceiro enriquecimento ilegítimo, causar a outra pessoa prejuízo patrimonial, interferindo no resultado de tratamento de dados ou mediante estruturação incorreta de programa informático, utilização incorreta ou incompleta de dados, utilização de dados sem autorização ou intervenção por qualquer outro modo não autorizada no processamento, é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa“.

Código Penal

Dois dias depois, no dia 20 de outubro, os detidos foram interrogados pela PJ e presentes a tribunal. O filho de Charlotte, Roman, está na vivenda de luxo em Vilabeira com vigilância eletrónica — apesar de ter outro apartamento. O marido e o amigo francês terão de se apresentar duas vezes por semana no posto policial de Viseu. Charlotte é o único membro do grupo que ficou em prisão preventiva. “Ela, no fundo, era o cérebro do grupo e, sem ela, os outros não conseguiam atuar. Ela é que atraía as vítimas, que falava, que os contactava, que dava a cara”, explicou fonte da PJ ao Observador.

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