Já com o período de campanha oficial para as legislativas a contar, Rui Rio e António Costa enfrentaram-se pela última vez antes do sprint final. Ao contrário do debate das televisões, onde Costa foi menos agressivo e Rio foi mostrar que também sabia atacar, neste debate, transmitido por três rádios (TSF, Antena 1 e Renascença), os dois candidatos a primeiro-ministro foram munidos de balas para atirar.

O socialista foi preparado para fazer pontaria à ideia de que Rui Rio também passou por casos de “familygate” na Câmara do Porto e que o seu “banho de ética” era afinal “à vontade do freguês”. E Rui Rio tentou colar o PS de Costa ao PS do “familygate”, que se acha “dono disto tudo”, e a apontar os erros da gestão de Costa nos últimos quatro anos, feita pela rama e a pensar nas eleições. Só que Rio acabaria por escorregar na sua própria casca de banana quando levou para cima da mesa a ideia de que “o meu Mário Centeno é melhor do que o teu”. A intenção era dizer que o seu porta-voz para as Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, é melhor do que o atual ministro das Finanças. Mas o que ficou foi a ideia de que Mário Centeno é sinónimo de boas gestão em matéria de Finanças, de tal forma que o nome de Joaquim Sarmento nunca se ouviu (só na flash interview, e já em jeito de adenda).

Aqui ficam os principais momentos do debate, em verão bolso, para quem não ouviu.

Centeno de Costa ou Centeno de Rio? Venha o eleitorado e escolha

A escolha não é dos eleitores, mas sim do próximo primeiro-ministro, mas o homem que ocupará o cargo de ministro das Finanças foi central no frente-a-frente entre Rui Rio e António Costa, com os dois candidatos a disputarem quem é o melhor “Centeno”, sinónimo de “ministro das Finanças” para os dois, a julgar por este debate. E até foi Rui Rio quem introduziu o tema assim mesmo: “O dr. António Costa tem o seu Mário Centeno mas eu também tenho o meu”. Rio nem disse o nome do seu Centeno, continuou a chamá-lo assim, para provar que também tinha feito contas às propostas do PSD e para avisar que “há que ter muito cuidado com o saldo externo porque foi isso que determinou a vinda da troika para Portugal”. Mas António Costa não se convenceu, garantindo que o seu Centeno é que é: “Eu não troco o meu pelo seu!”. A partir daí esta picardia não parou mais e Costa voltou a aproveitá-la para atacar o cenário macroeconómico do PSD, apontando a inexistência de uma verba para devolver o tempo congelado aos professores (o que o PSD chegou a aprovar no Parlamento para depois recuar) ou para aumentar e contratar funcionários públicos.

E voltou a apresentar o seu ministro das Finanças como principal cartão de visita das contas do seu Governo: “Pode gostar muito do seu Centeno, mas os portugueses preferem o meu Centeno que é de contas certas”. Rio não se ficou e tentou fragilizar este trunfo que Costa usa sugerindo que Mário Centeno sai do Governo assim que terminar o seu mandato como presidente do Eurogrupo (junho de 2020) e o socialista ainda lhe deu resposta: “Seis meses do meu Centeno seriam melhores do que quatro anos do seu”. Mas afinal quem é o Centeno de Rui Rio? O líder social-democrata já só o explicou quando saiu do debate das rádios: Joaquim Sarmento, porta-voz do PSD para a área das Finanças. E também cá fora, Costa ironizou que aquele nome nem candidato a deputado pelo PSD era.

Familygate. Os banhos de ética, os virgens, os telhados de vidro e os donos disto tudo

Foi o primeiro tema que fez aquecer o debate. Rui Rio tem uma estratégia clara e não a quis furar já no primeiro dia de campanha oficial: não falar de casos concretos; manter-se acima disso. Foi o que fez no caso da demissão do secretário de Estado da Proteção Civil, onde disse logo que não iria comentar o caso, mas poderia fazer uma “apreciação política” da forma como, habitualmente, o PS lida com este tipo de casos. E que apreciação é essa? A de que o PS, de cada vez que chega ao Governo, instala-se e age como se fosse “dono disto tudo”. Calma, Rio sabe que “nenhum partido é virgem” nisto de nomear pessoas para cargos porque são próximas e não propriamente porque são as melhores, mas como o PS não há ninguém: o PS “exagera” nesta forma de atuar.

Estava desferido o primeiro ataque. António Costa não perderia tempo a contra-atacar: “O que não há no PS é proclamações de banho de ética que depois são à medida do freguês”. Costa referia-se ao compromisso de honra que Rui Rio obrigou os seus candidatos a deputados a assinar, dizendo que se forem condenados na justiça suspendem imediatamente funções. Problema: como nas listas do PSD há, de facto, um acusado e outros tantos arguidos, Rio fez alterações no preâmbulo do tal compromisso de honra, para que todos pudessem assinar. E Costa não perdoou. Para Rio, contudo, nem o banho de ética se dá em apenas 24 meses, porque os partidos (incluindo o seu) têm demasiados “tiques” e “telhados de vidro”, nem o tal compromisso de honra é incompatível com o princípio que defende. O princípio de Rio é este: não é por um deputado ser arguido que isso mostra que é culpado. Inocente, até prova em contrário.

Governante demitido defendido por Costa e não aproveitado por Rio

A questão do secretário de Estado, colocada em debate, tinha sobretudo a ver com a demissão que José Artur Neves entregou ao primeiro-ministro no final da semana passada depois de ter sido constituído arguido na investigação do Ministério Público ao caso das golas inflamáveis. Até este debate, Costa ainda não se tinha disponibilizado a comentar a demissão (e já tinha estado em eventos públicos tanto como primeiro-ministro como líder do PS), apenas tinha emitido um comunicado a louvar o desempenho de funções do ex-secretário de Estado, sobretudo na reforma do sistema de gestão integrada dos fogos rurais. No debate reafirmou-o, mas também disse que por ele não saía. Ou pelo menos deu isso a entender ao dizer: “Nunca demiti ninguém por ser arguido, mas respeito quando alguém que é arguido entende que tem melhores condições de defesa” saindo das funções em que está.

Sobre a investigação concreta, Costa não quis “tirar conclusões antecipadas. No nosso Estado de direito devemos respeitar a autonomia da investigação, a autonomia do poder judicial e a presunção de inocência”, disse. Recusando fazer considerações sobre a ação da Justiça. Rui Rio não aproveitou a sensibilidade do tema para atirar ao adversário e assumiu-o: “O politicamente correto era dizer que já tinha mandado o secretário de Estado embora há muito tempo”. Mas ele não o fez e preferiu ficar-se pela apreciação política da forma de agir do PS, como se fosse “dono disto tudo” e daqui pegou com o familygate (ver acima).

Passes sociais, o trunfo de Costa, contra o “pimba, pimba, pimba” de Rio

Era a ratoeira que Costa tinha preparada para ver se Rui Rio caia. E caiu — mais ou menos. Sabendo que a medida da redução do preço dos passes sociais era uma das medidas mais populares da governação socialista, e que o PSD tinha votado contra, Costa levava o trunfo na manga. “Revogava ou não revogava a medida?”, perguntou várias vezes António Costa, até Rui Rio ser obrigado a dizer que não revogava a medida, mas que a melhoraria porque, apesar de “ser uma boa medida”, foi “feita em cima do joelho” a pensar nas eleições. Rio ainda tentou fugir à pergunta, mas perante a insistência de Costa, lá foi: “Vamos lá aos passes, não vai daqui o dr. António Costa triste porque não falámos dos passes sociais”, ironizou.

Por esta altura, o debate estava centrado na dicotomia entre a redução do preço dos passes e a falta de investimento nos transportes para compensar o aumento da procura. Dizia Costa que nos últimos anos o Governo lançou “concursos para a aquisição de 700 novos autocarros em todo o país e 10 novos navios e 22 novas composições para a CP e repor a capacidade do metro de Lisboa e recuperar a EMEF”. Mas Rio não perdoou: é verdade que os últimos meses da legislatura, com as eleições a aproximar-se, têm sido ricos em aberturas de concursos. “Pimba, pimba, pimba”, sempre a anunciar concursos. “Nos últimos seis, sete meses, o governo anunciou a abertura de concursos para tudo. Não é só nos comboios, é umas atrás das outras, até promoções nas forças armadas. Foi pimba, pimba, pimba, umas atrás das outras, sempre a dar”, disse. Para Rio, isso tem um nome: eleitoralismo.

Rio cético sobre arrufo entre PS e BE. Costa “sem cartas na manga”

E a governação? Depois da novidade de 2015, com a esquerda a entender-se para aprovar orçamentos do Estado e apoiar o Governo de Costa, o que se segue? A resposta dos candidatos foi estratégica. Rui Rio a empurrar o PS para a esquerda e a dizer que a picardia entre socialista e bloquistas é espuma de campanha eleitoral: “Há arrufos que não dão necessariamente em divórcio. Se precisarem de se entender, obviamente que se vão entender na mesma”. Costa foi cordial e disse que Rio era o seu adversário (e não nenhum futuro líder do PSD depois de uma derrota de Rio) — e ouviu do social-democrata que essa simpatia era apenas para Costa não ter de enumerar os seus “adversários internos, se não era uma lista enorme”. Já quanto ao Bloco de Esquerda, Costa provocou, sugerindo que em 2015 Catarina Martins só mudou de ideias e aceitou conversar com o PS depois da reunião dos socialistas com os comunistas, continuando a cavar o fosso entre PS e Bloco, mesmo perante o ceticismo de Rio.

Já em relação a acordos com o PSD, Costa não disse lá dentro que era uma impossibilidade entenderem-se, mas cá fora foi mais claro e afirmou que só defende essa solução do Bloco Central “numa situação de calamidade nacional”. Depois garantiu que em 2015 não escondeu nada na campanha sobre as possibilidades que teria no dia seguinte às eleições, dizendo que defendeu o fim do arco da governação no dia em que assumiu a liderança do PS, em junho de 2014, abrindo as portas à possibilidade de acordos de governação à esquerda. Como se não bastasse essa referência, António Costa ainda abriu os botões dos punhos da camisa para mostrar: “Continuo sem cartas na manga. Governarei sem cartas na manga”.