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José Frade

José Frade

O novo Teatro Maria Matos quer ser "um espaço para todos, o palco do presente" /premium

Os novos consultores, incluindo Bruno Nogueira. Um país em que se compram poucos bilhetes. A programação ainda por anunciar. Entrevista com a nova responsável pela sala lisboeta, que reabre agora.

Não se ouve um suspiro de alívio, mas quase. Afinal, passaram dois anos desde que a promotora privada de espectáculos Força de Produção venceu o concurso público para arrendamento do Teatro Maria Matos — um concurso que resultou da reorganização da rede de teatros municipais de Lisboa e que exigia a empresas privadas que apresentassem projetos artísticos para a gestão e exploração do espaço. Finalmente, depois de um processo acidentado que teve até tentativas de impugnação do concurso na justiça, o teatro reabre esta quarta-feira, 15 de julho.

Antes da reabertura de portas, que na verdade até aconteceu oficiosamente na véspera, 14, para um ensaio solidário do espectáculo “Avenida Q” — poderá ser visto pelo público a partir desta quarta-feira e até 1 de novembro, todas as 4ª, 5ª, 6ª, sábados e domingos —, a diretora da Força de Produção, Sandra Faria, falou ao Observador de quase tudo: do contrato de arrendamento e da longa espera para reabrir a sala, da programação que já foi anunciada para os próximos meses, da programação ainda por anunciar (sobre a qual deu várias pistas), dos novos consultores que ajudarão a decidir o que será possível ver e ouvir no Maria Matos (entre os quais Bruno Nogueira e Filipe Melo), da vontade de levar mais pessoas ao teatro e não apenas a este teatro em específico e do posicionamento que quer que o Maria Matos tenha nos próximos anos.

Além de defender que “quem pensa que ir para o Maria Matos é um grande negócio está completamente enganado”, porque “é um espaço de grande risco” mas que a Força de Produção vai gerir “com uma grande motivação e com muita felicidade”, Sandra Faria lamentou ainda que Portugal esteja “na cauda da União Europeia” em bilhetes de espectáculos vendidos e em consumo cultural. Deixou até propostas concretas à tutela para que se concentre mais na forma como comunica às pessoas os espectáculos que apoia: “Acho que num valor global que é dado em subsídios pela DGArtes, deveria haver um valor que não fosse entregue e que fosse canalizado para um gabinete de comunicação”, diz.

Explicando ainda que o Maria Matos, funcionando agora como teatro privado, terá de apostar numa linha programática diferente da que seguia quando era um teatro público, Sandra Faria faz algumas revelações.

Desde logo, assume que “Avenida Q”, o espectáculo que estará em cena durante os próximos três meses e meio, não era o espectáculo pensado para a reabertura: a ideia era ter como primeira aposta forte nas grandes produções de longa duração (“se fizer um espectáculo durante dois ou três fins-de-semana não vou conseguir pagar às pessoas, porque não vivo dos subsídios”) uma comédia francesa, “de um autor bastante popular”, com “encenação do Pedro Penim” — do Teatro Praga — “e com uma atriz protagonista que seria a Alexandra Lencastra, que é respeitada por todos os lados do panorama teatral e nacional”. Somados os dois anos de espera  à pandemia do novo coronavírus, a alternativa encontrada é arrancar com a reposição de um espectáculo antigo, que foi um êxito de bilheteira em Portugal e que Sandra Faria acredita que pode continuar a levar mais gente ao teatro.

Avenida Q. Nos bastidores de “uma Rua Sésamo em esteróides”

A diretora da promotora de espectáculos que gere e explora também o Teatro Villaret afirmou ainda acreditar que as produções teatrais mais populares — “o que é diferente de popularuchas” — podem funcionar como porta de entrada para levar aos teatros espectadores que deles têm estado afastados. E explicou que há espectáculos antigos, que estiveram em cena noutros teatros ou mesmo no Maria Matos durante pouco tempo, que podem ser recuperados e recriados, porque têm qualidade artística e potencial para “serem vistos por muita gente”.

Sandra Faria falou ainda sobre as apostas para consultores de programação, explicando o que cada um poderá acrescentar e dando alguns exemplos: Bruno Nogueira, por exemplo, apoiará através de ideias para desenvolver “clubes de comédia” no teatro e está “muito motivado para pensar” em propostas “mais intimistas, mais exclusivas e mais fora da caixa” para uma pequena sala de ensaios do Maria Matos, com 30 lugares, ao passo que Filipe Melo “tem muitas ideias, também para a sala principal” do teatro, que abrangem mais áreas, dado que “tanto trabalha na área da música como na do cinema, banda desenhada e genericamente na escrita”.

Outra das novidades passa pela programação que terá a cafetaria do Teatro Maria Matos, que não reabrirá já com propostas artísticas mas que de futuro deverá ter “jams sessions de jazz com curadoria do Filipe Melo, clubes de comédia com stand-up, sessões de songwriting [escrita de canções] e apresentações e lançamentos, sejam de livros, de discos ou outro tipo de projetos”, revela Sandra Faria.

Paralelamente à entrevista, ainda há uma garantia importante deixada como convite para que o público volte às salas: “É seguro estar dentro de uma sala de espectáculos, com o distanciamento todo e com as regras todas que existem, que são impostas pela DGS e que são cumpridas. Portanto não há que ter medo de ir. Estão muito seguros dentro de um espaço, vão divertir-se e emocionar-se e vão viver momentos que se calhar já não vivem há muito tempo e que fazem falta à saúde mental de todos nós”.

Teatro Maria Matos reabre a 15 de julho. O que vai poder ver e ouvir: de Avenida Q a Clã e Salvador Sobral

Antes de irmos propriamente ao que vai ser o Teatro Maria Matos daqui em diante, queria perguntar-lhe uma coisa. O dossiê enviado à imprensa, a propósito desta reabertura do Maria Matos, começa assim: “Cada português só compra bilhetes para um espectáculo de dois em dois anos. Isto incluindo concertos e festivais — se falarmos apenas de teatro, os números são ainda mais preocupantes”. Como é que isto se resolve?
Era fantástico ter uma fórmula que resolvesse esta situação. Não é fácil. Basicamente acho que há um falhanço grande nestes últimos anos de todas as políticas culturais, porque ninguém se preocupa com o acesso que as pessoas têm aos espectáculos. Mesmo o cinema tem números desastrosos, são o dobro dos espectáculos ao vivo mas continua a ser um desastre total. Acho que temos de divulgar muito o que se passa, temos de formar públicos, abrir, deixar de ter um bocadinho a ditadura do gosto que existe em alguns espaços culturais. É preciso um lado mais democrático no acesso à cultura e às artes em geral. Mas é um trabalho que não é imediato, vai levar algum tempo. Agora, não consigo ver que nos últimos anos isso esteja a ser feito por quem devia fazê-lo. Não é só desta ministra da Cultura nem deste Ministério, os últimos anos têm sido assim.

Dou um exemplo: a Força de Produção é uma entidade privada que vive absolutamente do público e da receita de bilheteira, como a maioria dos produtores de música e de festivais, mas em termos de teatro temos relação com companhias e projetos subsidiados. Aí quase existe uma desresponsabilização, é “tomem lá o subsidio e já está” — e este “já está” não chega. E depois do subsídio? E o apoio que as pessoas precisam de ter a seguir? Acho que um dos grandes problemas é a falta de acessibilidade e a pouca divulgação dos espectáculos, essencial para se chegar a todos. Por isso é que falo do acesso, é muito importante trabalhar a fruição de tudo isto. E isso não tem sido feito, ou tem sido feito de maneira pontual e não de uma maneira organizada e conjunta com uma verdadeira união do setor. Esse seria talvez o primeiro passo a dar. E muitas vezes a diferença entre o privado e o público é uma coisa que tem uma enorme importância neste país, é algo muito carregado. Acho que cada vez mais precisamos de partilhar, precisamos de parcerias que ajudem o setor todo e não só cada quinta em si.

"Portugal está na cauda da União Europeia [em consumo cultural]. Em bailado está em último lugar, na ópera está em último lugar, no teatro está em penúltimo lugar, no hábito de ler um livro está em antepenúltimo lugar. Não há nada que aconteça a nível cultural em que Portugal não esteja nos últimos três lugares da União Europeia"

Pergunto-lhe também porque a Sandra Faria é presidente da APEFE, da Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos. É uma coisa a que a associação se tem dedicado — pensar porque é que isto acontece e como é que pode deixar de acontecer?
Sim, desde o primeiro momento está na ordem do dia. Temos acesso a muitos estudos internacionais e Portugal está na cauda da União Europeia. É muito assustador. Em bailado está em último lugar, na ópera está em ultimo lugar, no teatro está em penúltimo lugar, no hábito de ler um livro está em antepenúltimo lugar. Estamos sempre nos últimos três, não há nada que aconteça a nível cultural em que Portugal não esteja nos últimos três lugares da União Europeia. Isto é muito preocupante e não tem só a ver com capacidade financeira, porque há outros países na União Europeia que são similares a Portugal e que têm maior fruição cultural.

Preocupa-nos muito, falamos muito sobre isso e falamos também com a tutela [ministério da Cultura] sobre isso. E é interessante ver: no caso da APEFE, a totalidade dos associados, que são os promotores, teve uma faturação em 2018 que somada é muito próxima do orçamento do ministério da Cultura, se retirarmos a RTP. Isto quer dizer muito, quer dizer que os bilhetes que são pagos — não são as ofertas que existem pelo país das autarquias, que este ano não aconteceram da mesma maneira devido à Covid-19 — vêm, na larga maioria, de espectáculos dos promotores privados.

Esses dados sobre a relação entre os portugueses e os espectáculos ao vivo revelam uma coisa contrária àquilo que é um discurso ouvido muito a propósito da cultura, que é: “para os festivais [e onde está festivais poderia estar concertos, ou espectáculos] há sempre dinheiro”. Mas quer esse dado quer esse discurso podem ser sintoma de que a cultura e os espectáculos ao vivo são vistos como uma necessidade supérflua, algo a que se vai muito esporadicamente. Acha que foi apenas um falhanço das políticas culturais, um falhanço do país globalmente, ou também há uma quota parte de responsabilidade dos promotores? Por exemplo na promoção de espectáculos descentralizados, públicos…
Em termos autárquicos, posso dizer que na Força de Produção fazemos muitas digressões pelo país e muitas vezes a um sábado temos cinco espectáculos em sítios diferentes de Portugal. Aí, as coisas têm vindo a melhorar. Há hoje mais oferta porque aproveitando-se todos os teatros e cineteatros pelo país, os espectáculos e os projetos começaram a rodar mais. Mesmo na área dos concertos de música existem os festivais de verão e os grandes espectáculos de verão ao ar livre, mas as bandas no inverno acabam por fazer muitas digressões em auditórios, em formatos mais pequenos, intimistas e próximos do público.

"Quando comecei a fazer espectáculos de digressão há muitos anos, lembro-me de casos como "A Conversa da Treta", com o António Feio e o José Pedro Gomes.... isto era um deserto, íamos pelo país e os teatros estavam fechados, precisavam de remodelações, as pessoas não estavam habituadas a pagar bilhete para entrar"

Este ano são aliás essenciais, porque o verão ficou, em parte, adiado… esse circuito de norte a sul é o que vai sustentar muitos artistas em 2020.
Sim, sim. Exatamente. Ainda por cima os espectáculos foram todos interrompidos em março, há um reagendamento destes espectáculos todos a partir de setembro e muito também para o próximo ano. Mas realmente sobre as autarquias, o que circulávamos há dez anos e o que circulamos agora é muito diferente. Quando comecei a fazer espectáculos de digressão há muitos anos, lembro-me de casos como “A Conversa da Treta”, com o António Feio e o José Pedro Gomes…. isto era um deserto, íamos pelo país e os teatros estavam fechados, precisavam de remodelações, as pessoas não estavam habituadas a pagar bilhete para entrar, era sempre tudo oferta.

A nível autárquico, acho que as coisas mudaram. As pessoas hoje pagam bilhete. Nem que seja um valor simbólico, é importante que não seja gratuito porque quando não se paga normalmente não há respeito pelo que está a acontecer em palco. Noto bastante diferença na oferta cultural pelo país. Mas isto tem de ser visto de forma mais global: a música é sempre mais apelativa do que teatro porque entra-nos todos os dias pela vida, através da rádio, da televisão.

Com outras artes isso não acontece…
Com o teatro, a dança e as outras artes performativas é muito mais difícil isso acontecer. Por isso é que continuo a falar muito da divulgação, porque com espectáculos que estão em cena em Lisboa ou no Porto durante dois fins-de-semana, como acontece muitas vezes, não há tempo para o espectáculo ter visibilidade. Não há muitas vezes orçamento de promoção para fazer chegar a informação às pessoas e depois não há tempo para permitir o passa-palava, que continua a ser melhor forma de promoção.

É por isto que as entidades privadas fazem temporadas maiores de teatro do que os teatros públicos. Se fizer um espectáculo durante três fins de semana não o consigo fazer, porque não vou conseguir pagar às pessoas. Não vou conseguir montar o espectáculo porque não vivo desses subsídios. Mas mesmo quem vive dos subsídios tem um problema com a divulgação, porque o subsídio serve para montar o projeto e pagar aos intervenientes — muitas vezes de maneira precária — e depois não sobra nada para promover e fazer o espectáculo chegar às pessoas, ao público em geral, para as pessoas perceberem o que podem ver. Até acho que num valor global que é dado anualmente em subsídios pela DGArtes, deveria haver um valor que não fosse entregue e que fosse canalizado para um gabinete de comunicação criado para ajudar todos os projetos que são apoiados a chegarem às pessoas. Porque há muita gente que quer ver mas não sabe [o que existe]. A música, lá está, é mais fácil — o teatro e a dança são os parentes mais pobres da área.

Depois de um ensaio solidário na véspera — terça-feira, 14 —, o Teatro Maria Matos reabre oficialmente esta 4ª, 15, voltando a acolher a apresentação de um espectáculo, “Avenida Q” (@ José Frade)

Quando lhe perguntava sobre alguma quota parte de responsabilidade dos promotores na situação do setor, perguntava-o também pela expressão que usou há pouco, de alguma “ditadura do gosto”. Mas também porque no texto relativo às motivações, intenções e desejos para o Maria Matos, escrito por si, refere que parece que há uma dicotomia e que se é forçado a escolher entre a arte e o público e entre o público e o respeito. Diz recusar essa dicotomia e diz que uma peça comercial pode ser extraordinária e uma peça experimental pode ser um sucesso de bilheteira.
Acho que existe muito preconceito. Essa carta é um bocadinho um statement nosso, é a nossa motivação para trabalhar no Maria Matos — ainda por cima também por ter sido muito polémico todo o processo de arrendamento do espaço, porque não é uma concessão, é um contrato de arrendamento para um projeto artístico. É diferente de uma concessão. Fala-se muitas vezes do que é a arte e do que é o entretenimento, podíamos estar dias a falar disto…

Aliás é tema de debate há muitos anos..
Há muitas teorias e muitas opiniões. Dou-lhe um exemplo que dou muitas vezes: em Londres, a mesma produtora pode fazer Shakespeare no National Theatre e um espectáculo mais emergente no Old Vic, mas depois também faz o musical Dirty Dancing. Portugal tem uma necessidade de colocar tudo em caixinhas com rótulos e portanto está tudo fechado nessas caixas. Nós recusamos esse paradigma. Já fizemos e arriscámo-nos muitas vezes a fazer espectáculos que não seria expectável que se tornassem sucessos de bilheteira, como também já fizemos espectáculos que eram sucessos de bilheteira lá fora que que quando chegaram cá não tiveram público. Lá está, não há fórmula de sucesso. Se houvesse, toda a gente fazia sucessos.

"Acredito que tem de haver esta balança entre projetos mais apelativos e mais populares — que é diferente de serem popularuchos — e outro tipo de espectáculos que podem ser um bocadinho mais arriscados e que são alimentados pelos outros mais populares. A pouco e pouco, pode fazer-se esta criação de público." 

Não acredito que mesmo a pessoa que tenha um trabalho experimental não queira ter público. Se está a fazer um espectáculo, está a fazê-lo para alguém, não faz para si próprio. A questão dos promotores privados é que como não têm nenhum subsídio, têm de trabalhar com os seus próprios investimentos e com o seu próprio dinheiro. Portanto, têm de ter retorno para ser possível pagar às pessoas. Se não se conseguir pagar o espectáculo e não se conseguir rentabilizar, vai ser um grande prejuízo e não se consegue fazer mais. Portanto, acredito que tem de haver esta balança entre projetos mais apelativos e mais populares — que é diferente de serem popularuchos — e outro tipo de espectáculos que podem ser um bocadinho mais arriscados e que são alimentados pelos outros mais populares. A pouco e pouco, pode fazer-se esta criação de público. Isto é muito possível.

Quer dar exemplos em que isso tenha acontecido?
Dou este, pela experiência — não é uma divagação demagógica. No Teatro Villaret, há muitos anos, o António Feio e o José Pedro Gomes começaram a fazer espectáculos para o grande público. Muitas nunca tinham ido ao teatro, começaram a ver a “Conversa da Treta”, depois viram o “Arte” e começaram a ganhar o hábito de ir ao teatro. Começavam a pensar: ‘se calhar uma vez por mês vou ao teatro’. Como não iam sempre ver a mesma peça e como temos peças de grande temporada [durante muito tempo] em cena, ao fim de algum tempo — fazíamos inquéritos e percebemos isso junto do público — aquelas pessoas que nunca tinham ido ao teatro já estavam a ir à Cornucópia, ao Teatro Aberto, ao Teatro Nacional [D. Maria II] ver outras peças. Mas é preciso abrir e aí é que não pode haver a ditadura do gosto, tem de se dar às pessoas o hábito de consumir porque se criarem o hábito de consumir cultura vão começar cada vez mais a ver outras coisas, que possam ser “mais difíceis”.

São espectáculos, portanto, que entende que podem funcionar também como porta de entrada para outro tipo de consumo cultural.
Exatamente.

O plano para o Maria Matos: "Vamos ter sempre um espectáculo principal. Nos próximos meses será o 'Avenida Q'. É uma reposição e não é o espectáculo com o qual gostaríamos de ter aberto. Aliás, quando vencemos o concurso não era este o espectáculo que tínhamos pensado para a abertura."

Relativamente ao que será o Teatro Maria Matos daqui em diante, como vai esta recusa desse paradigma entre arte e público traduzir-se na prática? Programaticamente e de um modo geral, como é que a Força de Produção vai tentar lutar contra isso?
Vamos ter sempre um espectáculo principal, o espectáculo nuclear do espaço. Será sempre um espectáculo de temporada longa. Neste caso, nos próximos meses será o “Avenida Q”. É uma reposição e não é o espectáculo com o qual gostaríamos de ter aberto. Aliás, quando vencemos o concurso não era este o espectáculo que tínhamos pensado para a abertura. O espectáculo pensado na altura tinha uma junção de fatores que achava muito interessantes: era uma comédia francesa, de um autor bastante popular, com uma encenação do Pedro Penim dos Praga [Teatro Praga] e com uma atriz protagonista que seria a Alexandra Lencastre, que é respeitada por todos os lados do panorama teatral e nacional. Achava que a junção disto tudo poderia ser muito interessante para chamar vários tipos de público.

Não foi possível fazer. Entretanto houve as impugnações [do concurso da EGEAC, vencido pela Força de Produção]  e agora a “Avenida Q” faz sentido nesta altura que estamos a viver. É um espectáculo que fala de inclusão, de racismo, de desemprego, de problemas na sociedade, dos jovens, mas também de muita esperança, união e partilha. É um espectáculo que nos dá às vezes uns murros no estômago, mas do qual saímos também de alma cheia, muito bem dispostos e com boa energia. Portanto, fazia sentido para nós isto acontecer.

Paralelamente a esse espectáculo nuclear qual é a linha que será seguida para outras propostas?
Sempre que existe um espectáculo nuclear na sala principal podem existir outros espectáculos ou outras intervenções para menos público. Por exemplo, uma apresentação sobre manipulação de marionetas, um workshop sobre o que se faz quando se sai da faculdade e não se tem trabalho, uma palestra sobre racismo, uma série de coisas diferentes que podem existir. Há uma série de atividades à volta que vão ajudar a sustentar o espectáculo na sala principal.

Queremos abrir um espaço que é para todos — o contrário daquela gaveta fechada de que falei há pouco —, a que chamamos o palco do presente, porque não estamos nem a pensar nem em como eram as coisas antigamente, “tão bom que era”, nem somos experimentais a pensar no que queremos no futuro. Não, queremos viver o presente e dar tudo a este presente, a este agora. Podemos fazer aqui a união de pessoas que à partida poderiam não fazer muito sentido [em conjunto], porque as pessoas estão muito nas suas quintinhas.

"Tivemos espectáculos que passaram pelo Teatro Nacional D. Maria II, pelo Teatro Nacional São João e pelo Teatro São Luiz que estiveram dois fins-de-semana ou três em cena, que tiveram imenso público e que tenho a certeza que se forem repostos em cena com uma boa divulgação podem fazer um mês ou dois em cena [novamente] e serem vistos por muita gente."

Pode dar exemplos?
Tivemos espectáculos que passaram pelo Teatro Nacional D. Maria II, pelo Teatro Nacional São João e pelo Teatro São Luiz que estiveram dois fins-de-semana ou três em cena, que tiveram imenso público e que tenho a certeza que se forem repostos em cena com uma boa divulgação podem fazer um mês ou dois em cena [novamente] e serem vistos por muita gente. Falo inclusivamente de espectáculos que não são fáceis. Já estamos a trabalhar nesse sentido, estamos com alguns contactos. São produções que não foram da Força de Produção, mas que achamos que têm lugar, que não se esgotaram naqueles dois ou três fins-de-semana. E foram espectáculos de companhias que se calhar a maioria dos portugueses nunca ouviu falar — ouviram falar só, se calhar, as pessoas que estão mais interessadas e que fazem parte da corrente de público dos teatros nacionais e municipais.

Há margem para abrir mais, para chegar a mais gente. Assim vai-se criando esta dinâmica de o que é arte e o que é entretenimento, o que são os públicos e o que é experimental e comercial. Aliás, não suporto a palavra comercial, não acho que faça sentido. Percebo porque a dizem, mas o comercial tem a ver com o objetivo que nos propomos. Dei aulas de produção há alguns anos e falava muito aos meus alunos logo nas primeiras aulas de um espectáculo da Lúcia Sigalho, que era para um espectador. Ela fazia quatro sessões por noite, cada uma para um espectador, e esteve três meses esgotada. Aquilo foi um espectáculo comercial porque aquilo a que se propôs, atingiu a 100%. Se estou numa sala de 447 lugares como é o Teatro Maria Matos, o que quero é ter 447 pessoas lá sentadas a assistir. Portanto, tenho de trabalhar para ter esse número. Não quero a sala vazia. Mas se estivesse numa sala só de 100 lugares, já não podia fazer o que faço numa sala de 447. Portanto, tudo depende dos objetivos que temos e do público que queremos alcançar. Isso para mim é que é ser comercial, não é ser mais fácil ou mais difícil.

A escolha para consultores de programação do Maria Matos de pessoas como o Filipe Melo — que será consultor para programação alternativa —, o Nuno Rafael, consultor para a área da música, e o Bruno Nogueira — que não sei exatamente em que áreas apoiará mais a programação, porventura na comédia e stand-up e no teatro — está relacionada com a procura desse equilíbrio entre reconhecimento artístico e popularidade?
De alguma forma sim, mas também são pessoas com quem temos tido relações de trabalho ao longo destes anos e com quem criámos uma confiança e um respeito mútuo. No caso do Bruno [Nogueira], gostaríamos de desenvolver um clube de comédia na parte da cafetaria — que vai-se chamar “Maria vai com todos” e que não vai abrir já, devido à situação da Covid-19, mas cujo nome diz muita coisa, este “todos” diz muita coisa. Tal como o diz a Orquestra Todos ter presença regular prevista no espaço, já que é uma orquestra para todos, constituída por vários imigrantes. Esta noção de “todos” é e será muito importante.

"Além da comédia, que é o óbvio, o Bruno [Nogueira] gostava de pensar em apresentar propostas muito específicas [para o Maria Matos]. A sala de ensaios pode ter propostas mais intimistas, mais exclusivas, mais fora da caixa e o Bruno está muito motivado para pensar para esse espaço, que vai ter 30 lugares. O Filipe Melo colaborará de forma mais abrangente, porque tanto trabalha na área da música como na do cinema, na banda desenhada, genericamente na escrita. Tem muitas ideias, também para a sala principal."

Mas voltando ao Bruno [Nogueira]: além da comédia, que é o óbvio, o Bruno gostava de pensar em apresentar propostas muito específicas. A sala de ensaios que também tinha espectáculos infantis pode ter propostas mais intimistas, mais exclusivas, mais fora da caixa e o Bruno está muito motivado para pensar para esse espaço. É um espaço que vai ter 30 lugares… ele está muito entusiasmado com a possibilidade de poder ter ideias para este espaço especial que é a sala de ensaios.

E em relação ao Filipe Melo?
O Filipe Melo colaborará de forma mais abrangente, porque tanto trabalha na área da música como na do cinema, na banda desenhada, genericamente na escrita. Tem muitas ideias, também para a sala principal. Não quer dizer que o Bruno [Nogueira] não possa ter ideias para a sala principal, mas no caso dele está muito motivado para esse espaço especial da sala de ensaios.

São pessoas que, para além do destaque óbvio que tiveram recentemente — no caso do Bruno Nogueira e Filipe Melo, com os diretos no Instagram —, têm-se movido muito entre os universos populares e alternativos. Os três estão também envolvidos no ‘Deixem o Pimba em Paz’, que é um espectáculo popular, que tem esgotado ao longo do tempo salas bastante grandes…
E que foi o primeiro espectáculo na era pós-Covid-19. Não sabemos de África, mas neste mundo de Europa, Estados Unidos da América e Canadá, foi o primeiro grande espectáculo desta fase. Vieram equipas de França fazer a reportagem do espectáculo de dia 1 de junho, por exemplo. Fazia sentido recuperá-lo porque é um espectáculo popular e de grande qualidade, que muita gente ainda não viu apesar de existir há sete anos e de já termos feito mais de 160 concertos. É um fenómeno. O Bruno [Nogueira], na minha opinião — e trabalho com ele há muitos e muitos anos — consegue gerir muito bem a sua carreira e o que faz e como faz. É muito inteligente a fazer esse trabalho. Felizmente tenho tido a honra e o prazer de estar com ele em muitos desses projetos que ele cria e desenvolve. Fico feliz também por ele estar connosco neste Teatro Maria Matos.

Das primeiras conversas com estas três pessoas — Bruno Nogueira, Filipe Melo e Nuno Rafael —, e podemos ir também aos restantes consultores, há já ideias de espectáculo a germinar que possam a ser partilhadas e antecipadas? Mesmo que não se venham a materializar, já se falou em ideias concretas?
Há aquelas que talvez sejam mais óbvias, que têm a ver com o clube de comédia, com alguma coisa ligada à literatura e escrita de canções [a cargo de Nuno Rafael] e com as noites de cinema que o Filipe Melo fazia no [cinema] Nimas, que terminaram e eram sessões de culto às quartas-feiras — poderão voltar essas sessões.

Tivemos muitas ideias, mas ideias mais especiais e para a sala de ensaios ainda estão a ser trabalhadas. Não sei se este ano teremos propostas muito originais, aliás também porque não sabemos o que vai acontecer, isto é quase semana a semana. Estamos a abrir o teatro aqui como um ato de coragem e loucura misturadas. Se calhar seria mais fácil abrir só quando as lotações estivessem normalizadas, quando já existisse um maior controlo desta pandemia, mas achamos importante, achamos que é preciso começar a trabalhar, é preciso ser o motor um bocadinho desta retoma toda, pôr as equipas todas — artistas e técnicos, toda aquela gente — a ter trabalho e levar dinheiro com alguma dignidade para casa. E também dar algo ao público, para as pessoas não continuarem apenas ligadas ao online e poderem assistir ao vivo, porque é completamente diferente ver um espectáculo ao vivo, com a sinergia entre artista em palco e público na plateia.

Na música, além de concertos dos Clã e dos ciclos de atuações de Salvador Sobral, há concertos agendados de Cabrita (3/8), Afonso Cabral (4/8) e RUGE (7/9 e 8/9)

José Frade

Qual será o papel do online aqui, nos próximos tempos?
Acho que o online pode apoiar, pelo menos a meu ver, na minha opinião e enquanto Força de Produção. Vamos desenvolver alguns projetos digitais mas que suportem sempre os espectáculos ao vivo, não os substituindo. Não acredito a substituição do “ao vivo” pelo online e digital, acredito é que pode haver aqui alguma ajuda e apoio a esses espectáculos ao vivo.

Ideias há muitas… vamos ter uma reunião de trabalho em breve para perceber mais concretamente algumas ideias a desenvolver. Relativamente aos outros consultores, temos por exemplo o Bruno Cochat que está ligado à vertente pedagógica e o Miguel Abreu que está relacionado com a parte de comunidade. Já tivemos uma reunião com o Bruno e temos já definida uma cedência de sala. O Teatro Maria Matos tem várias salas de escritório vazias, que não vamos ocupar e que podem ser cedidas a organizações. Neste caso, numa primeira fase vai ser à Educar Antiracista, já a partir do dia 15 [de julho] vão ter uma sala para poderem fazer reuniões de trabalho, porque não têm espaço próprio. Esse também é um trabalho de comunidade que interessa fazer e que não é uma vertente económica.

"Quem pensa que ir para o Maria Matos é um grande negócio está completamente enganado, é um espaço de grande risco para o qual vamos com uma grande motivação e com muita felicidade."

A parte económica não é a principal motivação?
Quem pensa que ir para o Maria Matos é um grande negócio está completamente enganado, é um espaço de grande risco para o qual vamos com uma grande motivação e com muita felicidade. Mas queremos também trabalhar para todos e ajudar a comunidade de alguma maneira. No caso do “Avenida Q”, por exemplo, decidimos fazer um ensaio solidário para a União Audiovisual, que são normalmente técnicos e algumas pessoas ligadas ao setor que estão a passar dificuldades alimentares. Isto tem só a ver com a parte de entrega de alimentos e bens a estas pessoas. Esta vertente de solidariedade e ajuda ao próximo é-nos muito importante e vamos continuar a desenvolvê-la ao longo destes cinco anos.

Qual foi a principal motivação para assumirem esta candidatura à exploração do Teatro Maria Matos? Sentiam que faltavam algumas propostas aos teatros de Lisboa?
Em Lisboa não temos assim tantas salas de espectáculo como era desejável. Vemos muitas vezes a dificuldade que os promotores têm para criar espectáculos de raiz, trazer espectáculos internacionais ou fazer circular artistas nacionais. É complicado. A maioria das salas também estão entregues a entidades municipais ou estatais, portanto não temos grande diversidade nem muitas hipóteses de colocar espectáculos.

Quando soubemos do concurso, foi um desafio. Pensámos que fazia todo o sentido podermos trabalhar uma sala com boas condições — temos a exploração do Teatro Villaret mas é uma sala bastante mais pequena e mais limitadas, sem todas as capacidades do Maria Matos — e desenvolver um trabalho que é para o grande público mas também para todos, para levar outras pessoas àquele espaço, para não estar em bolha mas aderir e ter uma democracia do acesso que para nós é muito importante. Também não vai ser só uma sala só para a Força de Produção, o Maria Matos vai estar aberto seja para acolhimentos seja para co-produções. Anunciámos algumas coisas, mas vamos ter muito em breve mais concertos, já estamos a marcar concertos para outubro e novembro e estamos a planear outras atividades. Em breve vamos apresentar mais programação, parte da qual não é Força de Produção, são acolhimentos que a Força de Produção fará com outros produtores e artistas. No caso de repetições especiais, há convites que partirão da nossa parte a espectáculos que já foram criados e que não se esgotaram — e também há novas versões que gostava muito de fazer.

Pode dar algum exemplo?
Há muito tempo que falo com o Tiago Guedes para fazer uma nova versão do “The Pillowman” no Maria Matos. Foi feito há muitos anos e é um espectáculo que faz todo o sentido para nós, Força de Produção. O Tiago também tem muita vontade. Há esta hipótese de poder pegar em espectáculos que já foram feitos e fazer novas versões se fizerem sentido na altura.

A nossa ideia foi mesmo: não há muitas salas em Lisboa, há esta oportunidade, vamos agarrá-la e construir aqui um projeto coerente e com consistência, que utiliza vários espaços. Por exemplo, a cafetaria era uma concessão a outra entidade e somos nós que a vamos gerir, juntamente com a LOHAD do Gonçalo Castel-Branco que tem o projeto The Presidencial e o Chef’s on Fire. Em conjunto, vamos trabalhar a cafetaria seja na parte gastronómica seja na parte da programação. A cafetaria vai ter programação diária.

"Na música, normalmente quando as pessoas compram um bilhete sabem exatamente quem é o artista, conhecem-no e já ouviram as músicas. No caso do teatro e de uma estreia, vamos tendo conhecimento do que sai na comunicação social, se calhar temos alguma comunicação nas redes sociais mas ninguém sabe se as pessoas vão gostar ou se não vão gostar. É sempre mais difícil este processo."

Voltando à reposição do “Avenida Q”. Naturalmente há um ganho acumulado de reconhecimento, mediático e junto do público, que um espectáculo como este, não sendo novo, já adquiriu e já foi ganhando. Será mais difícil fazer apostas fortes de média e longa duração com espectáculos novos, que não tenham ganho esse capital de reconhecimento acumulado com o tempo? Ou até pode ser mais fácil e não é uma questão?
Depende do espectáculo, depende do que é. Pode ser fácil se for muito apelativo… O teatro é diferente da música. Na música, normalmente quando as pessoas compram um bilhete sabem exatamente quem é o artista, conhecem-no e já ouviram as músicas. No caso do teatro e de uma estreia, vamos tendo conhecimento do que sai na comunicação social, se calhar temos alguma comunicação nas redes sociais mas ninguém sabe se as pessoas vão gostar ou se não vão gostar. É sempre mais difícil este processo. Claro que os espectáculos que já existem, como o Avenida Q [são diferentes].

Outro exemplo que gostava muito de repor daqui a algum tempo é o “Lar, Doce Lar”, da Maria Rueff e do Joaquim Monchique. Foi um espectáculo que teve muito sucesso e já passaram seis anos, pelo que faria todo o sentido voltar a fazê-lo. É uma ideia que temos em cima da mesa. Aí, haverá pessoas que vão repetir e vão ver outra vez, mas há pessoas que vão ver pela primeira vez e já sabem que foi bom, que as pessoas gostaram muito. Se calhar vão com mais facilidade. Uma estreia implica sempre um trabalho maior de comunicação, de tentar transmitir o que é — por isso é que o passa-palavra é tão importante, porque aquelas duas ou três primeiras semanas em cena são essenciais. Conseguimos perceber se o espectáculo vai ser um sucesso durante as três primeiras semanas de apresentações. Se as primeiras três semanas não forem boas e não existir um crescendo, é um sinal de que está a haver algum problema, que se calhar não vai correr muito bem. Se começar a correr bem, a onda começa e cada vez vai crescendo mais.

A programação do Maria Matos anunciada para os próximos meses inclui vários concertos. A banda Clã (na imagem) vai abrir as hostilidades, já na próxima segunda-feira, 20 de junho (@ OCTAVIO PEIXOTO)

Se vir que no caso de uma produção mais longa não há esse crescendo e sucesso durante as primeiras duas ou três semanas, descarta totalmente a hipótese de alterar a duração prevista de um espectáculo? Ou é algo que pode acontecer?
Pode acontecer… não desejando que aconteça, já tivemos casos de espectáculos que supostamente poderiam estar três ou quatro meses em cena e só estiveram dois. Não acabámos abruptamente à terceira semana. Em primeiro lugar, tentamos perceber porque é que não está a funcionar tão bem e perceber tudo o que ainda podemos fazer para puxar o espectáculo para cima. Ainda há uma margem de manobra, às vezes consegue-se dar a volta e outras vezes não. Já nos aconteceu termos espectáculos que achámos que iam ser grandes sucessos e depois não.

Por exemplo, fizemos um espectáculo com o José Pedro Gomes e o José Raposo no Teatro Villaret, chamado Nhac. Foi um espectáculo que teve sessões nos anos 1990 no CCB pelo Teatro Meridional. Tem um texto maravilhoso e alia um lado mais cómico a um lado mais poético. Tínhamos esses dois atores, pessoas que têm imenso público e são muito reconhecidas, e o espectáculo não correu nada bem, perdemos imenso dinheiro, tivemos imenso prejuízo com o espectáculo. Sem estar à espera, porque não há fórmulas de sucesso. Isso às vezes até nos surpreende, ‘porque é que isto não está a funcionar?’. Um dos espectáculos de mais sucesso no mundo inteiro, que é o espectáculo mais visto de sempre em Espanha — e um dos mais vistos de sempre em França, no Brasil… —, fez-se cá uma produção e correu muito mal. Nunca sabemos bem, a margem de erro existe. Tentamos ter todos os ingredientes para que as coisas funcionem, às vezes não funciona e temos de continuar. Depois há outros espectáculos que não estamos à espera e acabam por se tornar um fenómeno.

"O 'Deixem o Pimba em Paz' foi um espectáculo apresentado como ideia pelo Bruno [Nogueira] ao Teatro São Luiz há sete anos. Era um espectáculo que era suposto acontecer ali durante três dias. Quando começo a ver os ensaios e a ver o que é o 'Deixem o Pimba em Paz', percebi que aquilo não podia ficar por apenas três dias e depois acabar. Ia morrer ali."

O ‘Deixem o Pimba em Paz’, que há pouco referia, foi um espectáculo que foi apresentado como ideia pelo Bruno [Nogueira] ao Teatro São Luiz há sete anos. Era um espectáculo que era suposto acontecer ali durante três dias — e o Bruno, como precisava de uma produtora para pôr o espectáculo de pé, convidou-me. Quando começo a ver os ensaios e a ver o que é o ‘Deixem o Pimba em Paz’, percebi que aquilo não podia ficar por apenas três dias e depois acabar. Ia morrer ali. Marcaram-se espectáculos no Porto, mais em Lisboa e foi crescendo e crescendo, é um projeto que dura há sete anos e que poderia ser o projeto deste verão. Temos imensos pedidos para fazer mais concertos, recebo diariamente pedidos para fazer o ‘Deixem o Pimba em Paz’…

Até pela rapidez com que esgotou [em Lisboa, no passado mês de junho, esgotou em poucos minutos], não?
Sim, sim — e no Coliseu do Porto os dois espectáculos também esgotaram numa tarde. Não posso marcar mais datas porque a Manuela Azevedo neste momento está com o lançamento dos Clã, o [disco] Véspera e portanto vai trabalhar nessa digressão. Até outubro sabemos que não vamos poder fazer o ‘Deixem o Pimba em Paz’, como já aconteceu anteriormente quando o Bruno [Nogueira] fez a sua digressão de stand-up durante alguns meses. Mas a verdade é que é o exemplo de um projeto que se calhar morria ali e que já fez mais de 160 apresentações, que já esteve no Terreiro do Paço com 25 mil pessoas a ver e tem muito este lado que é preciso nos privados.

Não estou a fazer nenhuma crítica a entidades públicas mas somos mais fazedores, precisamos de fazer porque só vivemos da receita de bilheteira e do público. No caso do Maria Matos vai acontecer exatamente a mesma coisa, como não tenho orçamento dado nem pela Câmara Municipal de Lisboa nem pelo ministério da Cultura, temos de fazer — e fazer a criar todos os dias, temos de ter um espaço aberto e a funcionar de segunda a domingo com apresentações. Mesmo agora no verão e com Covid-19, contam-se pelos dedos das mãos os dias em que não vai acontecer nada no Maria Matos. Espero que a médio prazo haja programação todos os dias, com um espectáculo por dia, com programação infantil e outras atividades. Este lado fazedor e de empreendedorismo é muito necessário que os produtores privados tenham e as entidades públicas não o fazem tanto, têm outra linha de ação. Uma linha que não está errada, é a deles.

O trabalho nos privados: "Tenho muito mais liberdade a trabalhar assim, desta forma. É uma liberdade que nos dá até algum poder, por não estarmos subjugados ao dinheiro que vem de subsídios, a outras vontades, a outros prazos, outros planos."

Já não lhe interessaria hoje em dia a ideia de trabalhar num outro tipo de projeto, mais ligado a orçamento e financiamento público? Ainda se via a fazer algo assim?
Não me via a fazer. Fui bailarina profissional, deixei de dançar em 1994 e venho desse lado. Trabalhei com o Rui Horta, com a Olga Roriz, com outros pessoas e artistas subsidiados. Quando comecei o meu caminho nesta área de produção, depois de ter feito um curso de gestão de espectáculos, os primeiros trabalhos de produção passaram por produzir espectáculos de pessoas que são subsidiadas. Fundei com a Olga Roriz a companhia dela, trabalhei com ela na criação da companhia em nome próprio. E não [teria interesse]: tenho muito mais liberdade a trabalhar assim desta forma. É uma liberdade que nos dá até algum poder, por não estarmos subjugados ao dinheiro que vem de subsídios, a outras vontades, a outros prazos, outros planos.

Trabalho muitas vezes com autarquias na venda de espectáculos para circulação [pelos palcos], também fazemos agenciamento e vendemos espectáculos a autarquias, ao ministério, a entidades públicas. Já estivemos envolvidos também na produção executiva de projetos subsidiados, mas a Força de Produção nunca concorreu a nenhum subsídio para montar um espectáculo. Com o Filipe Melo, ele próprio concorreu a um subsídio do ICA. Tínhamos produzido a primeira curta-metragem dele sem apoios nenhuns, foi investimento nosso e do Filipe, e estava agendada para março a rodagem da segunda curta-metragem dele, essa sim subsidiada pelo ICA. Mas foi o Filipe que pediu o subsídio e nós aparecemos como produtor. Agora nós, Força de Produção, pedirmos subsídios para fazer espectáculos… não me parece. Não me parece que esteja no nosso caminho.

Voltando ao Maria Matos: na música a aposta da programação passa nesta fase apenas por artistas nacionais. Em parte não poderia ser de outra forma, com as restrições a viagens e a paragem das digressões internacionais. A minha dúvida é: num período em que não existam estas restrições e este contexto, o Maria Matos vai ter música exclusivamente nacional, maioritariamente nacional ou pode não ser sequer maioritariamente?
A aposta não vai ser a mesma de futuro, realmente é assim neste contexto. Uma das coisas que o Teatro Maria Matos tinha antes era uma programação musical muito própria e muito bem sucedida. Normalmente as salas do Maria Matos estavam cheias com programação musical e muitas vezes estrangeira. Queremos continuar a fazê-lo, com apostas que façam sentido para uma sala daquele tamanho.

Não podemos trazer artistas que encham o Altice Arena a fazer espectáculos no Maria Matos; artistas com cabimento para aquela lotação sim. Ou até poderá acontecer, muitas vezes, termos artistas mais conhecidos que se queiram apresentar de alguma maneira especial, com um projeto mais intimista. Mas já há alguns contactos nesse sentido [aposta em artistas ou bandas internacionais], o que acontece é que os próprios artistas internacionais não estão com muita vontade de ir já viajar, ao contrário de nós — já estamos a tratar de digressões [de artistas nacionais] para fora. Mas não, na área da música a sala vai ter, além de programação nacional, programação internacional. Quem sabe, também pode acontecer com outras artes performativas, podemos trazer um espectáculo internacional de dança, podemos ter dança nacional… isto é muito abrangente e é para todos, há uma democracia grande naquele espaço e naquele palco.

Não deixa de ser interessante que nesta altura em que não é possível recorrer a concertos de músicos e bandas internacionais, a programação da música no Teatro Maria Matos tenha concertos agendados dos Clã, de Salvador Sobral em diferentes formatos, entre vários outros. A produção musical nacional está hoje melhor? E isso dá mais conforto a um programador que queira ter artistas nacionais que também sejam, em simultâneo, procurados pelo público?
Sim, sim. E mais concertos virão brevemente, com outras confirmações. Neste verão todo, sem festivais, sem grandes concertos nas cidades e sem festas nas cidades, essa é uma área que também é possível trabalhar — e acho que é muito gratificante tanto para os artistas como para nós pôr isto a mexer. Não há milagres nem vão existir, os apoios são muito escassos. Portanto, temos de ser nós a puxar. Com o ‘Deixem o Pimba em Paz’ em junho houve alguma movimentação, com aquela iniciativa do “Regresso ao Futuro” — com 24 concertos pelo país, em sítios diferentes mas no mesmo dia — também. É necessário existirem mais atividades destas para se criar uma maior dinâmica, para voltarmos todos ao trabalho e para as pessoas voltarem às salas.

Os planos para a nova cafetaria 'Maria Vai com Todos', do Maria Matos: "Iremos ter jam sessions de jazz com curadoria do Filipe Melo, vamos ter os clubes de comédia com stand-up, sessões de songwriting [escrita de canções] e apresentações e lançamentos, sejam de livros, de discos ou outro tipo de projetos. Podemos ter encontros — um showcase, um encontro com o público, um meet and greet..."

Como será a programação do “Maria Vai Com Todos”, o nome da nova cafetaria do Maria Matos de que falávamos há pouco e que não vai ainda acolher programação numa primeira fase? Será mais à base de artistas emergentes? E mais para a área da música?
Incluirá várias áreas. O espaço é pequeno, habitualmente tem 80 lugares e um palco pequenino — não dá para grandes bandas. Iremos ter jam sessions de jazz com curadoria do Filipe Melo, vamos ter os clubes de comédia com stand-up, vamos ter sessões de songwriting [escrita de canções] e vamos ter apresentações e lançamentos, sejam de livros, de discos ou outro tipo de projetos. O espaço é pequeno, portanto tem algumas limitações técnicas para fazer grandes espectáculos, mas tanto pode servir para apresentar novos projetos emergentes como para apresentar projetos de artistas já conceituados e conhecidos mas que podem ter a sua primeira apresentação ali, num encontro que não será um espectáculo inteiro — mas pode ser um showcase, um encontro com o público, um meet and greet [encontro com fãs]. Pode ter estas variáveis todas mas nunca vai ser um sítio de grandes condições técnicas para apresentar um concerto da maneira a que estamos habituados, porque o espaço é pequeno.

Falava especificamente de jam sessions de jazz. Há alguma regularidade pensada para esse tipo de proposta?
A regularidade que pretendemos é uma regularidade diária. Neste momento, devido à pandemia ainda não vamos abrir a cafetaria. A cafetaria tem outra característica: vamos dar primazia aos produtos do pequeno produtor e à sustentabilidade, porque o Teatro Maria Matos também é um teatro verde e que fala muito de sustentabilidade. Queremos contar histórias dos produtos, por exemplo se tivermos um queijo X que só é feito no sítio Y queremos explicar porquê e humanizar estes produtos. E queremos que seja um espaço aberto durante o dia, não apenas à noite. Ou seja, não será só uma cafetaria de apoio ao espectáculo da sala principal, quando este decorrer, mas um espaço que terá a sua vida própria e que terá todos os dias as suas atividades. Não sabemos ainda quando o poderemos abrir, estamos à espera de perceber como esta situação da pandemia vai evoluir.

Salvador Sobral vai dar concertos no Teatro Maria Matos com três projetos: vai cantar as suas canções (a 24 e 25 de agosto), as canções de Jacques Brel (10 e 11 de agosto) e as da banda Alma Nuestra, de que faz parte (17 e 18 de agosto). (@ Joana Linda)

Essa situação da pandemia, que vai retardar a abertura da cafetaria, preocupa-a enquanto promotora de espectáculos e enquanto presidente da APEFE? Sobretudo a situação na região de Lisboa e Vale do Tejo preocupa-a, deixa-lhe dúvidas sobre o que será possível fazer e sobre os passos que podem ser dados pelas autoridades na resposta à pandemia?
Mais do que tudo, é preocupante o excesso de poluição de informação que existe, que faz com que se propague o pânico e o medo na população. Todos os dias, as notícias durante 24 horas abordam esta pandemia, focam-se imenso nos lados negativos e no lado do medo, quando percebemos — e temos provas disso — que isto é um vírus, tem um problema grande que é ser muito contagioso mas não tem maior mortalidade do que a gripe, há até quem diga que tem menos. Muitos especialistas dizem coisas distintas, há grandes diferenças de opiniões entre virologistas e portanto o que nos preocupa mais, enquanto APEFE, é a poluição e confusão de informação que pode ser muito prejudicial para o setor.

A APEFE preocupa-se muito em transmitir que a cultura é um bem de primeira necessidade, que é importante investir na cultura, que é importante criar parcerias entre públicos e privados, que é importante que todos trabalhemos para melhorar este estado catastrófico da cultura em Portugal. O nosso medo é esta desinformação, porque há tanta informação que é isso que provoca. Um dia é uma coisa, outro dia é outra… e isso é muito fomentado pela comunicação social. A própria OMS é uma entidade privada, está uma empresa privada a reger quase todo o mundo em relação a esta pandemia. Temos de ter atenção a esta poluição de informação. Há, claro, muita coisa que não se sabe, porque é um novo vírus, mas estamos preocupados que público, DGS e Governo vão atrás desta desinformação toda e que isso possa criar mais pânico.

Perguntava porque a Força de Produção esteve envolvida nos primeiros espectáculos pós-desconfinamento. E se por um lado esgotaram, por outro houve muitas críticas ao regresso dos espectáculos, nomeadamente nas redes sociais. Esteve a par dessas reações mais céticas, presumo…
Pessoalmente não tenho redes sociais, só a empresa tem conta — porque necessita, para a divulgação dos seus espectáculos e para interação com o público. Eu, Sandra Faria, não tenho. As redes sociais têm um lado positivo de entreajuda, da solidariedade que às vezes se consegue através delas, mas o peso maior da balança vai para o discurso do ódio, para as pessoas estarem em frente a um ecrã a dispararem acusações sem saberem, porque muitas vezes não têm conhecimento. O Bruno Nogueira sentiu muito isso na pele, passou de repente de bestial a besta, o que é algo habitual no nosso país, põe-se as pessoas muito em cima e depois atiramo-las muito para baixo.

Pelas redes sociais, parecia que estávamos ali a fazer alguma coisa proibida, que conseguimos furar um esquema qualquer e que fizemos um espectáculo à revelia. Não foi isso que aconteceu, dia 1 de junho foi levantada a proibição de espectáculos ao vivo e nós, Força de Produção em conjunto com a Everything is New, achámos que fazia sentido fazer aquele espectáculo por não existirem Santos Populares, por ser o espectáculo que é, por o Bruno estar com uma grande popularidade. E a verdade é que todas as regras foram cumpridas. O que acontece é que no meio daquelas duas mil pessoas se calhar há três ou quatro que tiraram a máscara — se calhar para beber —, são tiradas fotografias e aquilo toma tudo uma proporção que não tem. Achar-se que houve ali ajuntamentos… não houve, o que influencia é a perspetiva a partir da qual são tiradas as fotografias. As filas estavam desencontradas e as pessoas tinham sempre um lugar de distância face aos outros: tudo isso foi cumprido no Campo Pequeno. A circulação, desde logo nas entradas e saídas, esteve altamente organizada. Quando o espectáculo acabou as pessoas não se puderam levantar e ir-se embora, só se levantam após indicação dos assistentes de sala.

E ainda assim, não deixaram de existir críticas…
Nas redes sociais escreveu-se sem se saber. Infelizmente acontece em todas as áreas. Até no próprio Teatro Maria Matos, quando se soube do concurso público [para arrendamento com proposta artística], as pessoas foram para as redes sociais dizer coisas que não sabiam. Não sabiam porque não queriam… bastava ir ao caderno de encargos e perceber exatamente o que se pedia naquele caso do Maria Matos.

O perigo das redes sociais e tudo o que provocam, porque também alguma imprensa e alguns órgãos de comunicação social vão atrás, passa pela desinformação, pela falta de conhecimento e por falar-se do que não se sabe. Toda a gente tem uma opinião a dar mesmo sem saber exatamente o que se está a passar. No ‘Deixem o Pimba em Paz’ foi muito triste e o Bruno [Nogueira] fez este último especial do ‘Como é que o bicho mexe?’ um bocadinho para explicar o que aconteceu, como se viu por aquele início de discurso dele. Realmente estava a ser demasiado — em todos os canais de televisão, imprensa escrita, na rádio, nas redes sociais, continuavam a atacá-lo como se estivesse a fazer alguma coisa proibida. Não fez. Nem é o Bruno [Nogueira] que decide nada, só aceitou o convite.

O regresso dos espectáculos fez-se com pimba: tirem-nos tudo na vida, o carro, a casa e as jóias, mas não nos deixem sem eles

Por acaso, não me recordo de ter visto ataques ao Bruno Nogueira por ter feito esse espectáculo na imprensa escrita— apenas nas redes sociais. Pelo menos nas reportagens e peças que vi sobre o espectáculo. Pelo contrário, eram mencionadas as medidas de restrição adotadas, fosse de distanciamento físico fosse de saída ordenada dos espectadores…
Mas houve muitos comentários políticos, também. Na televisão, ouviram-se comentários proferidos por comentadores políticos, por comentadores de futebol… questionou-se a certa altura o porquê de os espectáculos poderem ter espectadores ao vivo e o futebol não. De repente há aqui guerras políticas de que estamos completamente afastados, não queremos estar por dentro. A questão é: é possível fazer espectáculos ao vivo com lotações reduzidas. E foi isso que começámos a fazer para trabalharmos.

O processo de concurso e depois cedência do Maria Matos à Força de Produção foi longo e relativamente tortuoso, pela ação judicial interposta pela Yellow Star contra a EGEAC, que foi retirada já este ano. A ação contestava o resultado do concurso. Como foi esse período de incerteza, sobretudo 2018 e 2019?
Não estamos diretamente envolvidos nesse processo. A queixa foi para a EGEAC. A Yellow Star perdeu em primeira instância e depois colocou recurso. Nós, como entidade concorrente, tivemos de responder à queixa. A única intervenção nossa foi uma resposta. Desde o primeiro momento tivemos a consciência muito tranquila sobre o que era o nosso projeto. Aliás, agora os projetos poderão ser públicos e qualquer pessoa, qualquer entidade, qualquer jornalista pode pedir à EGEAC para consultar as três candidaturas.

Infelizmente, enquanto decorre processo judicial as candidaturas não são públicas. Agora que está tudo resolvido já ficam públicas. A única coisa que tenho a dizer é que tenho a consciência tranquila sobre o que apresentámos, sobre o que pretendemos, sobre a honestidade de todo o processo e sobre o rigor e paixão que temos e vamos ter por esta candidatura e agora por termos vencido o concurso e podermos estar a trabalhar. De resto, alguma crítica… haverá sempre, é um problema humano, faça-se o que se fizer haverá sempre críticas de alguma parte. Nem toda a gente gosta da mesma coisa. Em relação à legalidade terá de ser a EGEAC a responder, mas neste momento as candidaturas já são públicas e consultáveis.

"Não conseguirmos abrir da maneira que gostaríamos. Queríamos fazer uma apresentação grande, uma celebração no dia 27 de março, dia mundial do teatro. Não era só uma apresentação à imprensa, era aberta ao público. Isso não foi possível e também não a conseguimos fazer agora."

Exato. E muito já se escreveu e falou durante todo o processo. A minha curiosidade nesta fase é sobre como se lida com essa incerteza sobre o que pode ou não acontecer.
É muito difícil. Quando nos candidatamos a um programa, vencemos, depois é impugnado e é tudo muito moroso… mesmo assim foi analisado com caráter de urgência, se não ainda demorava mais. Mas são processos sempre morosos. Depois percebemos que a Yellow Star tinha impugnado e tinha perdido, mas depois ainda recorre, depois volta… é muito desgastante. Às tantas o que resolvemos fazer foi esperar. Não podíamos fazer nada, tínhamos de esperar que o processo decorresse, esperar que se resolvesse e fazê-lo com a maior serenidade. O que pusemos foi tudo em standby, isso foi transmitido à EGEAC, e quando tivéssemos uma resposta do processo ou uma resposta sobre se poderíamos começar a trabalhar íamos perceber o que podíamos fazer, porque se calhar já não era possível fazer tudo o que estava proposto de início. A pandemia ainda veio agravar esta situação de não conseguirmos abrir da maneira que gostaríamos. Queríamos fazer uma apresentação grande, uma celebração no dia 27 de março, dia mundial do teatro. Não era só uma apresentação à imprensa, era aberta ao público. Isso não foi possível e também não a conseguimos fazer agora. Foi triste e desgastante, mas foi algo visto sempre com alguma serenidade.

Não me tinha apercebido — e entretanto a partir disto apercebi-me — que muitos concursos públicos em Portugal são muitas vezes impugnados. Achava que quando as pessoas impugnam, primeiro havia alguém a fazer alguma triagem. Era uma ingenuidade, uma ignorância completa minha, achava que não se poderia impugnar por ‘isto, isto e isto’. Entretanto tive conhecimento de que muitos concursos públicos são impugnados por concorrentes para serem impugnados, porque depois demora mais tempo. É uma característica… as pessoas têm direito a fazê-lo, a Yellow Star estava no seu direito, vivemos em democracia e tendo essas possibilidades, podem fazê-lo. Foi só desgastante, pensar se se resolve, como se resolve, depois não sabermos prazos. No fundo, estamos a abrir dois anos depois de termos vencido o concurso. Foi em julho de 2018 que soubemos que tínhamos vencido o concurso e finalmente vamos agora abrir e começar a trabalhar.

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