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A ação da PJ foi lançada depois de a Guardia Civil ter detido em Vigo os dois líderes da organização, encontrando na sua casa uma referência a Coimbra

A ação da PJ foi lançada depois de a Guardia Civil ter detido em Vigo os dois líderes da organização, encontrando na sua casa uma referência a Coimbra

O refúgio da Resistência Galega em Coimbra e a portuguesa que se tornou terrorista por amor /premium

Líderes da organização terrorista guardavam explosivos num armazém em Coimbra, encontrado pela PJ. Ligações a Portugal são antigas — e incluem histórias de amor com portuguesas.

Eram procurados há já 13 anos quando a polícia os encontrou, em junho de 2019, numa casa numa aldeia abandonada em Vigo, perto da fronteira com Portugal. Os independentistas galegos Antón García Matos e a companheira Asunción Losada Camba, suspeitos de serem os líderes da Resistência Galega pela qual protagonizaram vários ataques terroristas, estavam visivelmente mais velhos, pálidos e muito magros, e não ofereceram qualquer resistência.

Losada Camba e Garcia Matos estiveram mais de uma década a viver na clandestinidade (Ministério do Interior)

Em casa tinham apenas três armas de fogo, mas, depois de muito vasculhar, a Guardia Civil encontrou uma prova que poderia indicar que o casal tinha uma casa de refúgio no centro de Portugal, em Coimbra. Cerca de cinco meses depois, a PJ acabou por localizá-la: um armazém que não servia apenas de garagem, mas também não era só um apartamento. Era, sim, um verdadeiro depósito de material explosivo.

As ligações de organizações terroristas espanholas ao território português não são novas. Como a própria coordenadora da Unidade Nacional Contra Terrorismo fez notar na conferência de imprensa desta segunda-feira, “Portugal foi sempre um país onde os espanhóis se moviam à vontade”, à semelhança do que aconteceu com a ETA. Pelas parecenças físicas, pela aproximação da língua e pelo facto de um espanhol em solo português não levantar qualquer suspeita.

Garcia Matos, conhecido por “Toninho”, e Losada Camba estiveram mais de uma década a viver na clandestinidade enquanto preparavam vários ataques a dirigentes políticos, a zonas industriais ou às sedes de partidos e de agências bancárias numa luta pela independência galega. As autoridades espanholas acreditaram sempre que se moviam a partir do norte de Portugal, onde, anos antes, nos primórdios desta organização, também os seus líderes se instalaram. E, neste caso, até havia uma portuguesa: Alexandra Vaz Pinheiro, que se apaixonou pelo líder do grupo — então denominado Exército Guerrilheiro do Povo Galego Ceive (EGPGC) –, acabando detida e condenada por terrorismo.

Toninho não foi sempre discreto, como descreveram os vizinhos da aldeia onde vivia em Vigo. Em 2014, chegou mesmo a publicar um vídeo caseiro pedindo que se desse “continuidade à luta” pela independência da Galiza, numa altura em que a maior parte dos membros da Resistência Galega já tinham sido detidos e condenados pelas autoridades espanholas.

Suspeitos arrendaram um armazém no centro de Coimbra onde pernoitavam de vez em quando

Universal Images Group via Getty

Como Losada Camba chegou a Coimbra

Terá sido precisamente nesse ano de 2014, e já procurada pelas autoridades espanholas, que Assunción Losada Camba chegou a Coimbra e que, alegando ser estudante de Direito, arrendou um armazém, onde ela e os companheiros chegaram a pernoitar uma ou outra noite. “Era uma garagem que funcionava também como habitação, de uma  forma algo rudimentar tinha o necessário para que se pudesse pernoitar”, descreveu Jorge Leitão, que lidera a diretoria da PJ do centro, na conferência de imprensa que se seguiu ao anúncio da operação.

Os vizinhos ainda a avistaram um par de vezes, poucas para descrevê-la a ela e à sua vida, até que, em junho de 2019, o casal foi detido em Fornelo de Montes, em Vigo. Para as autoridades espanholas, até foi estranho, na altura, encontrar tão pouco material relacionado com a atividade terrorista. Mas havia um indício que os ligava a um local em Coimbra.

"Era uma garagem que funcionava também como habitação, de uma forma algo rudimentar tinha o necessário para que se pudesse pernoitar"
Jorge Leitão, diretor da PJ de Coimbra

Jorge Leitão lembra que, assim que a Guardia Civil lhe pediu colaboração, abriu de imediato um inquérito para chegar ao local. Não chegou a passar meio ano para a descoberta, mantida até agora em segredo para que as autoridades garantissem não haver qualquer outra ligação a portugueses ou a Portugal. “Entre a operação policial e o dia de hoje, era importante escrutinar se havia ligação entre elementos portugueses ou outros que fornecessem materiais explosivos, por exemplo”, acrescentou Jorge Leitão.

Material era perigoso e operação da PJ foi arriscada

Assim que a Polícia Judiciária localizou, no centro de Coimbra, o local que seria usado como refugo da organização terrorista Resistência Galega, percebeu que tinha de entrar com toda a cautela porque podia haver material explosivo que podia por em risco não só a polícia, mas também todos os vizinhos.

A hipótese viria a confirmar-se. Numa operação considerada de alto risco, os inspetores encontraram diversos materiais explosivos e utensílios usados no fabrico de engenhos/artefactos explosivos, nomeadamente relógios, temporizadores e telemóveis preparados como dispositivo de ativação remota de cargas explosivas, dispositivos pirotécnicos e engenhos explosivos improvisados e uma carga total de aproximadamente 30 quilos pólvora. Ali encontraram também livros, apontamentos manuscritos e manifestos de propaganda dos ideais daquela organização independentista. Foi ainda encontrada uma carta bomba “já muito avançada”, como descreveu Jorge Leitão, assim como carimbos, plastificadoras a quente, impressora e documentação que levam as autoridades a crer que também falsificassem documentos. “Apreendeu-se ainda uma panela de pressão, para confinamento de carga explosiva, igual às usadas por este grupo terrorista em diferentes atentados”, lê-se ainda no comunicado enviado ainda pela manhã.

3 fotos

Esta prova recolhida em Portugal é essencial para o julgamento. “Na sequência das detenções ocorridas em junho de 2019, por via desta apreensões foi possível reunir muito mais informação que apontou para este local que se veio a descobrir. Acreditamos que não existe outro local, mas isto vale o que vale”, disse, por seu turno, a coordenadora da Unidade Nacional Contra Terrorismo.

Organização está desativada. Estará mesmo?

Para Manuela Santos, e pelas informações que tem trocado com as autoridades espanholas, esta operação vai permitir “respirar um pouco mais de alívio porque a estrutura está desativada”. No entanto, esta inativação traz à memória os primórdios desta organização — que também se se chegou a considerar extinta e que renasceu.

É que o combate a esta organização de terrorista não remonta apenas à última década, mas aos finais dos anos 80, ainda sob liderança de Antón Arias Curto, que foi preso por um atentado à bomba em Orense. Com ele foi detida uma portuguesa, Susana Poças, que tinha conhecido no Porto e com quem mantinha uma relação amorosa. Susana foi condenada em Espanha a uma pena de três anos por posse ilegal de arma. Quando soube que iria ser devolvida à liberdade, sofreu um ataque epilético e teve que ser trazida pelos pais para Portugal, em imagens captadas pela RTP.

"Acreditamos que não existe outro local, mas isto vale o que vale"
Manuela Santos, coordenadora da UNCT da PJ

Manuel Chao Barro foi quem substituiu Curto na liderança. Foi, aliás, Barro quem verbalizou a existência desta organização quando foi julgado em tribunal com outros dois ativistas por um assalto a um banco, ainda em 1987. Os três admitiram integrarem o Exército Guerrilheiro do Povo Galego Ceive (EGPGC).

Uma (outra) portuguesa e uma (outra) história de amor

Barro foi condenado a três anos de cadeia e acabaria por aproveitar uma saída precária para fugir para Portugal. Nesta altura, o seu coração já era de um portuguesa, Alexandra Vaz Pinheiro, que tinha emigrado para a Galiza para estudar e com quem mantinha uma relação. Foi em território nacional que Barro viveu na clandestinidade com Alexandra, com o apoio de meia dúzia de militantes na Galiza, que não estavam referenciados pelas autoridades, e a saberem-se procurados pela polícia espanhola. Até ao dia em que decidiram ir visitar amigos à Holanda e, no regresso, acabaram detidos. O El Pais noticiou-o em 1991.

Alexandra Vaz Pinheiro, era, à semelhança de Asunción Losada Camba (detida em junho de 2019), vista também como a líder feminina da organização.

A dupla foi detida depois de um atentado a uma discoteca em Santiago de Compostela do qual resultaram três mortos, ocorrido em outubro desse ano. A maioria dos ativistas do grupo tinha deixado os ataques armados em fevereiro de 1989, depois de um ataque em Irixoa que culminou na morte de um guarda civil e na detenção de dois operacionais. Terá sido a partir dessa data que Chao se instalou de vez em Portugal, continuando a defender a luta armada com a colaboração da portuguesa Alexandra Queiroz.

Alexandra, nascida em Vizela e muitas vezes alvo de notícia no jornal da terra (uma delas dá conta da sua libertação em 2013), foi condenada a uma pena única de 80 anos de cadeia por militância terrorista, posse de explosivos, uso de identidade falsa, homicídio, depois de passar por dois julgamentos. Hoje terá perto de 60 anos.

A coordenadora da UNCT da PJ, Manuela Santos

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Presença em Portugal continuou

Anos depois, as notícias sobre a presença desta organização em Portugal continuaram. Em 2006  foram apreendidos engenhos explosivos numa casa abandonada em Vieira do Minho, a cerca de 40 quilómetros da fronteira espanhola. No local estava também material de propaganda da Resistência Galega.

Em 2015, Héctor José Naya Gil, de 33 anos, suspeito de ter planeado um ataque contra a sede do PP em Pontevedra e condenado a 11 anos de prisão, foi detido na quarta-feira no aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, quando tentava embarcar num voo para Caracas (Venezuela) com um passaporte venezuelano falso.

Em 2012, um juiz da Audiência Nacional, que julgou seis membros da Resistência Galega, atribuiu as origens desta organização ao Exercito Guerrilheiro do Povo Galego Ceive — que desenvolveu a sua atividade entre 1986 e 1993. Após ser desarticulado, os seus militantes passaram a dedicar-se à participação política, através do Nós-Unidade Popular, de onde nasceu a Resistência Galega. De forma semelhante à ETA, a Resistência Galega tinha uma secção ilegal, encarregada de preparar os atentados e a luta armada.

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