Dark Mode 96,3 kWh poupados com o MEO
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Hoje é um bom dia para mudar os seus hábitos. Saiba mais

i

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O regresso dos espectáculos fez-se com pimba: tirem-nos tudo na vida, o carro, a casa e as jóias, mas não nos deixem sem eles /premium

Máscaras, talos, grelo, tronco-nu, biquíni e António Costa na plateia. Bruno Nogueira, Filipe Melo e Manuela Azevedo. Esta segunda-feira voltámos a cantar juntos, em coro e com Deixem o Pimba em Paz.

A dúvida não era tanto como se processaria o regresso dos espectáculos ao vivo. As regras já tinham sido divulgadas e, restritas, não deixam grande margem para criatividade. A execução das novas estratégias para aglomerar multidões em segurança também não seria o maior temor — o momento, a sala e o espectáculo eram demasiado importantes para grandes fugas ao guião. A dúvida era outra: seria possível, cumprindo as regras, neste regresso dos espectáculos culturais que em Lisboa fez-se com Deixem o Pimba em Paz, deixar para trás os receios, as desconfianças e o medo da Covid-19 por um segundo que fosse? Seria possível voltar a assistir a um espectáculo ao vivo com uma multidão ao lado sem estar permanentemente alerta?

Os rostos que se viam no interior do Campo Pequeno esta segunda-feira estavam todos cobertos por máscaras, salvo para discretos goles nas cervejas que ainda se podem comprar como antigamente, em pontos de venda da sala — menos sorte têm os vendedores ambulantes, que bem percorreram as bancadas gritando em vão “olha a queijada”, “olha a garrafa de água”, “olha o gelado”, “olha as pipocas”. Mas ainda assim nas caras quase integralmente cobertas ainda se viam muitos olhos perscrutantes, a medir a distância para o espectador sentado na cadeira mais próxima, a calcular mentalmente se o afastamento era seguro.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Porém, as saudades eram muitas, os receios de um medo que paralisa e interrompe a vida não são de menosprezar e também por isso, não só por isso, o Campo Pequeno “encheu” — não à antiga, desta vez com lotação mais reduzida, mas com duas mil pessoas que em 11 minutos compraram todos os bilhetes para ver Bruno Nogueira, Manuela Azevedo e sua entourage revisitarem o repertório popular português (chamemos-lhe pelo nome: música pimba) nesta primeira de duas noites de Deixem o Pimba em Paz.

Se no interior a preocupação era notória — confirmava-se e voltava-se a confirmar que aquele era mesmo o lugar, examinava-se quem estava atrás, em baixo e ao lado, dizia-se entredentes “é a nova vida cultural” —, há sinais que indiciam que mesmo que por breves momentos foi possível a muitos fugir de um país em pandemia. A cultura tem efeito transportador e há um truque para o confirmar: num momento de apogeu do espectáculo, o momento grandioso de uma canção épica, basta olhar para o lado. Na Bancada B, setor 1 ímpar, quando Bruno Nogueira e Manuela Azevedo berravam a plenos pulmões que “ninguém, ninguém / poderá mudar o mundo”, os narizes e bocas estavam tapados, mas os olhos estavam todos fixos no palco. Por um segundo, a nova normalidade não parecia assim tão estranha. E quase apostávamos que nas outras bancadas não terá sido muito diferente.

As entradas, as saídas e uma manifestação tauromáquica

A hora marcada era as 21h30, as portas abriam uma hora antes e os promotores deste que foi o primeiro grande espectáculo ao vivo em Lisboa em mais de dois meses pediam aos espectadores para chegar cedo, para evitarem filas. O que não evitaram foi uma manifestação que toureiros, aspirantes a toureiros e defensores de touradas ali organizaram, à porta da sala. Juntos (muito juntos), a maioria, quase todos (não todos), de máscara na cara, queixavam-se em silêncio ao fim da tarde com uma grande tarja na mão: “A cultura não se censura”.

Sabe-se que o novo dono do Campo Pequeno, Álvaro Covões, não é o maior aficionado das touradas, não explora o negócio das touradas — deixa a produção desses eventos no Campo Pequeno para quem os quiser organizar — e o desconsolo dos aficcionados por um regresso dos espectáculos no Campo Pequeno que fintou a tauromaquia era evidente. Notou-o também o líder e deputado do Chega, André Ventura, um dos poucos políticos que ali foi visto a conversar com descontentes, demonstrando-lhes apoio, estendendo-lhes a mão e distribuindo bacalhaus (“passou bem”) avulsos.

À entrada, depois de recebido por um assistente que confirmava a validade do bilhete — físico ou eletrónico —, o espectador era encaminhado para o interior do Campo Pequeno, sendo recebido à porta por um frasquinho de desinfetante de mãos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

As muitas portas de entrada da sala — nove contando com a dos artistas, por onde não entraram apenas artistas —, que aliás são um dos motivos para que o Campo Pequeno seja um dos espaços com mais espetáculos agendados nesta fase (só esta semana três, dois de “Deixem o Pimba em Paz” e um do cantor Dino D’Santiago), evitavam filas volumosas. No interior, muitos assistentes de sala iam reencaminhando os espectadores até que estes chegassem à sua bancada, onde um funcionário aguardava para indicar onde ficava exatamente o lugar.

Mais problemático do que o sistema de entradas era, em teoria, o sistema de saídas. E por um motivo óbvio: é mais fácil ir colocando duas mil pessoas dentro do Campo Pequeno ao longo de duas horas do que retirar essas pessoas da sala assim que o espectáculo acaba, de uma assentada. Talvez por isso tenha havido cuidados redobrados: já o relógio apontava 23h30 quando os funcionários começaram a desdobrar-se, coordenados, para irem retirando à vez os espectadores por fila. Antes, logo à entrada, tinha havido avisos de que era obrigatório esperar a vez para sair. E durante o próprio espectáculo o cicerone Bruno Nogueira fez de porta-voz da organização: “Pediram-me para dizer isto: quando acabar não se levantem logo à parva. É o novo normal. É como quando um avião aterra. Não sejam aqueles anormais que se levantam logo para sair ainda o avião está a andar”.

É preciso paciência. Já não é preciso estar num estádio de futebol junto da claque visitante para ter de aguardar a olhar para o relógio o momento propício de sair, mas um speaker ia apaziguando as gentes com vontade de se levantar e ir embora: apelava à calma e disciplina, explicava o quão importante era cumprir as regras, lembrava que o primeiro-ministro António Costa, que ali esteve presente, também ainda estava sentado a aguardar a sua vez, gracejava com signos — ficámos a saber o seu, o de Costa ou o de Álvaro Covões — e com ex-namorados.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mas e o espetáculo, como foi?

A piada estava feita à partida e a punchline era tão óbvia que à posteriori parece uma daquelas ideias já anacrónicas à nascença: pegar na herança da música popular portuguesa, com as suas cantigas teatrais — sofridas, épicas, recheadas de trocadilhos maroto-brejeiros —, e transformá-la em coisa mais erudita, cantando-a e recitando-a com sobriedade e seriedade ou, em alternativa, descontraindo-lhe o ritmo, aqui e ali acentuando-lhe a ira e a mágoa latente na letra.

Como é que não nos lembrámos disto antes? E quem diz que bailarico não rima com erudito? É possível não rir vendo Bruno Nogueira, Manuela Azevedo e sus muchachos apropriarem-se de “Ninguém, ninguém” para nos fazer marchar gloriosamente sobre a sobranceria e o aborrecimento? Está claro que é só uma “piada”, mas desde quando é que uma piada é só uma piada? E se as próprias letras têm um piscar de olho maroto, ou em alternativa uma gravidade já de si cómica (que desamor é aquele de “Comunhão de Bens”, Ágata?), porque não fazer delas matéria humorística, tornando-as canções que, tão bem tocadas e cantadas numa língua desconhecida, nos fariam comover e não sorrir?

O espetáculo, “Deixem o Pimba em Paz”, já tinha percorrido o país. Não tinha nada a provar e não tinha muitos segredos na manga. Desta vez prometiam-se novos convidados, Samuel Úria e Salvador Sobral. Mas convenhamos, foram muito mais as saudades dos espetáculos ao vivo, celebrados em comunidade e não via telemóvel, mas também a cada vez mais pop star Bruno Nogueira que levaram dois mil desconfinados a atirar o receio e a desconfiança às urtigas. Assim se cozinhou, no Instagram e com um bicho que teima em mexer, um fenómeno pop para este 1 de junho, outrora mês da bifana e da sardinha assada, dos santos populares e da dança sem dois metros de distância.

Mal as luzes se acenderam, o sonómetro disparou. Contrariamente a um espectáculo normal as palmas não dominavam, os gritos estridentes rivalizavam com os aplausos, soava tudo a uma espécie de reconquista, como uma multidão que celebrasse efusivamente, gritando em histerês que agora também isto volta a ser possível. E quando a grupeta de Deixa o Pimba em Paz apareceu em palco— Bruno Nogueira na voz e outros afazeres, Manuela Azevedo na voz e nas percussões, Nélson Cascais no contrabaixo, Nuno Rafael na guitarra e eletrónica, Filipe Melo no piano —, os gritos subiram de tom, volume a que não será certamente alheio o fenómeno gerado pelas sessões diárias de Bruno Nogueira no Instagram ao longo da quarentena.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Era precisamente Bruno Nogueira, o ator e humorista que já antes tinha conquistado parte do país com produções como “Odisseia” ou “Último a Sair”, que se apresentava como protagonista principal logo de início: de pé, fatiota vestida, aquela altura descabida (mais de um 1.90m de gente) a encarnar em cantor romântico resgatando com solenidade os versos iniciais de “24 Rosas” de José Malhoa:

Eu, o último dos teus grandes amores
Eu, louco por te dar meu coração
Hoje mandando-te estas 24 flores
Recebe-as mulher, não digas não

Seguiu-se do clássico florista de José Malhoa para esse clássico de Nel Monteiro que é “Azar na Praia”, com referências a “perninhas” e “marmelinhos”, a uma personagem masculina — um “eu” — de “tronco-nu” e uma personagem feminina — um “tu” — de “biquíni”, ouviu-se a primeira grande ovação à grande voz de Manuela Azevedo mas que era também merecida à banda, que tornou o clássico pimba numa espécie de cantiga de saloon, humorística mas elegante, espécie de western pimba-blues.

Da plateia alguém gritou a plenos pulmões a palavra começada por “c” que rima com esfregona, muito usada por Bruno Nogueira no seu “Como é que o Bicho Mexe?”, mas nada de especial aconteceu, importava mesmo era ouvir Manuela Azevedo a cantar — com pinta descomunal e a carga dramática que muitos anos de palco e experiência em teatro lhe deram — o êxito sofrido que é “Sozinha”.

Bruno Nogueira disse “boa noite” e ficou tudo em êxtase

Continuavam-se a desfilar as novas versões dos clássicos da música popular portuguesa tão ouvidos em mês de Santos Populares, seguindo-se para “Na Minha Cama Com Ela”, agora transformada canção traquina-cool, cheia de ginga, cantiga de big band com Filipe Melo a brilhar no piano. Mas o momento que ilustrou a fama atual de Bruno Nogueira veio a seguir, quando depois de duas palavras atiradas ao público ele próprio há-de ter tido vontade de tapar os ouvidos tamanha a reação.

O que disse o humorista, rei da quarentena portuguesa? “Boa noite”. Bastou para o barulho, foi o suficiente para um rapaz, ali na bancada em que estávamos, erguer de repente umas luzes de Natal, iluminação a evocar a grande despedida de Bruno Nogueira das suas sessões diárias no Instagram. Uns segundos de entusiasmo e lá foi possível retomar o discurso: “Poder voltar a um palco e ter pessoas desse lado é o que de mais alegre nos pode acontecer. Muito obrigado. Ficam lindos de máscara. Tipo crocodilos, só se veem os olhinhos. Mas já vi que há aí máscaras personalizadas… vi malta que investiu, que tem máscaras a dizer merdas e cenas africanas”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O espectáculo ainda estava no começo e já se resgatava Graciano Saga e o seu “Vem Devagar Emigrante”, história de uma morte de um emigrante português no regresso ao país que serve de alerta pedagógico para o cumprimento dos limites de velocidade na estrada. Foi aí que ouvimos Bruno Nogueira, com uma cama instrumental meio trip-hop meio hip-hop, a apropriar-se das palavras de Saga para nos recordar que “lá diz o velho ditado, mais vale um minuto na vida do que a vida num minuto”, para recordar memoráveis rimas — “Alemanha” com “Espanha”, “sozinho” com “filhinho”, “deu” com “perdeu”, “de repente” com “Benavente”.

Melhor ainda foi a interpretação de Manuela Azevedo em “Comunhão de Bens”, de Ágata, com o volume bem alto e a tensão sempre latente até ao final, quando a mulher magoada remata a canção com um “não fiques com ele” atirado já como lamento triste, desesperançado. Prosseguiu-se para “A Bela Portuguesa” e os aplausos marcavam o ritmo, só faltava o cheiro a sardinha. Desta vez, sentados, mais facilmente notamos a solenidade dos versos que a força do refrão, que quase todos sabem de cor, afinal esconde:

É no Inverno que no meu peito é maior a solidão
E essa tormenta de ter que esperar o agosto em Portugal
Na minha oração eu peço ao Senhor o milagre de voltar
E olhar essa cara bonita e esse corpo divino
Que eu nunca esquecerei

Pausa para se introduzir mordazmente o primeiro convidado, que “já teve um coração, agora curiosamente tem outro coração”, e eis que chegava Salvador Sobral para cantar “Som de Cristal”, dando a impressão que não só é capaz de cantar qualquer coisa com uma desenvoltura vocal apreciável como que se levasse esta versão (Marante com groove jazzístico) à Eurovisão sem legendas era bem capaz de voltar a trazer o caneco.

“Deixem o Pimba em Paz”: uma lição de vida em (pelo menos) 15 cantigas

E foi a partir daqui, do primeiro convidado, que o espectáculo começou a mudar, que as brincadeiras entre músicos começaram a acentuar-se, normalmente patrocinadas por Bruno Nogueira. Acentuou-se o tom humorístico, com cumprimentos artísticos com os pés, discussões sobre o compasso certo para a banda começar a tocar, debates sobre desinfeção de microfones (encosta a boca ou não encosta, eis a questão) e instrumentos e contágio com Covid-19 e apresentações dos elementos da banda com a anti-empatia cómica em que Bruno Nogueira se especializou. Ora veja-se o que tem a dizer de Filipe Melo:

“Tem dois braços e tanto toca nas [teclas] pretas como nas brancas, porque ‘racismo não’. Às vezes nem era preciso tocar todas, mas ele toca na mesma”.

Ou sobre Nélson Cascais:

“O Nélson, a gente chama-lhe o mer… não é um músico que as pessoas digam: estás a tocar com o Nélson! Mesmo no meio do jazz, não é aquela coisa. Tu és uma ótima pessoa, atenção, isto vem de um sítio bom. Agora se me perguntas: ó Bruno, eu toco bem? Epá, não é por aí… O Nélson toca. Pronto. Toca bem? Hm, hm… não acho que toques maaaal, não és o pior contrabaixista de Portugal. Conheço dois ou três que se calhar tocam pior”.

Ou sobre Nuno Rafael:

“Estás a tocar muita coisa, não sei se é preciso tanta coisa. Tirava o tabuleiro, o bombo… ficava com o resto. De resto és uma pessoa impecável: és pai do teu filho, filho do teu pai, marido da tua mulher, primo dos teus primos, tio do teu sobrinho e sobrinho dos teus tios. Quando tenho uma ideia de uma pessoa, és tu. És o irmão que nunca tive, mas também não quero ter. Mas por outro lado, também não dizia logo que não… És uma pessoa, pronto”.

Ou sobre Manuela Azevedo:

“Quando isto começou não sabia quem tu eras. ‘Olha, é aquela, vai’. Hoje em dia continuo sem saber quem tu és, Manuela. Não tens habilitações para aquilo que dizem que tu és. Não sou eu que te vou dar lições de moral… mas se calhar vou. Tenho o teu marido a ligar-me a meio da noite, que ‘ela está a beber, está a beber’. A filha a ligar, a dizer ‘não sei onde é que a mãe está…’ (…) Tu tens de atinar. Cantar bem qualquer pessoa canta. Olha a Mariza”.

Claro que também houve música depois da passagem de Salvador Sobral por este revivalismo pimba. Houve uma incursão por “Porque Não Tem o Talo Nabo?”, uma canção “sobre agricultura, que é um tema negligenciado” na música portuguesa e que está cheia de inquirições existenciais, como “porque não tem talo o grelo?”.

Ouviu-se “Sensual”, um clássico de Toy aqui tornado pop-rock, mais rock do que pop. Mas também “Já Não Sou Bébé”, uma afirmação de maturidade e chegada à idade adulta de Romana. Ou ainda “A Garagem da Vizinha” — começada em duo por Bruno Nogueira e Nuno Rafael —, “O Melhor Dia para Casar” (spoiler alert: é o 31 de julho, porque a seguir entra agosto), “Taras e Manias” (n.d.r.: o segredo desta canção está na utilização do “você” entre íntimos), poemas de Samuel Úria e “Mãe Querida” pelo mesmo Samuel Úria, “Não És Homem Para Mim”, “Ninguém Ninguém” (um dos momentos da noite), “Taras e Manias”, “Vendaval”, “A Cabritinha” e um medley com hits de Quim Barreiros, com Manuela Azevedo a cantar “O Pito Mau”, “A Padaria” e “Os Bichos da Fazenda”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Na régie, víamos técnicos a dançar e saltar no final e estava tudo certo: por mais que já ninguém estivesse habituado a assistir a um espectáculo ao vivo tão longo, por mais que se começasse a fazer tarde “que isto é dia de semana”, por mais que na segunda metade a descontração tenha imperado e o espectáculo musical se tenha tornado também espectáculo de stand-up — os fiéis devotos de Bruno Nogueira não se queixarão —, pareceu tudo encaixar no sítio certo. Afinal não soou só a uma reconquista, foi-o mesmo. E agora que nos voltámos a habituar a isto, como é?

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.