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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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O relógio parado do Cessna, listas, Guttmann e um regresso à Luz: um dia com Rui Gomes da Silva, candidato à presidência do Benfica /premium

Já fez de tudo na vida. Na Assembleia, no partido, na advocacia, na NATO. "Nem de cair de avião tenho medo", diz. Aos 62 anos, assume-se como candidato anti-sistema. Reportagem com Rui Gomes da Silva.

Pede dois minutos quando chegamos ao local que tem servido como uma espécie de quartel general da campanha. Uma ameaça, mais uma volta para trás. Sentado na cadeira, Rui Gomes da Silva ajeita a gravata vermelha, tira a máscara vermelha (com o símbolo do Benfica, como não poderia deixar de ser), olha e arruma o telemóvel que tem a capa em tons de vermelho escuro e prepara-se para a entrevista. Em pouco menos de 40 minutos, atende uma chamada logo a abrir, repete uma resposta porque alguém abriu a porta, faz uma interrupção quando alguém bate à porta. É um dia especial em qualquer candidatura, aquele dia em que se entrega uma das partes que deveria ser mais fácil mas que se pode tornar deveras complexa: as listas e todas as assinaturas dos proponentes à liderança do clube. Mais tarde, percebemos que o porta-chaves é vermelho, com o símbolo da águia e o nome. Aí, sente-se que está aliviado. Respira melhor, respira fundo, combina ir ter a seguir com a mãe e com a mulher.

“O clube não é um negócio, um projeto financeiro, um entreposto”: Rui Gomes da Silva apresenta candidatura à presidência do Benfica

Há dois momentos no antes e no depois que mostram bem esse alívio de uma tensão natural mas que não devia existir. Um deles admitido por nós. “Sabe, acabou de estar a dizer em 20 minutos aqui à porta o que nos tinha dito em metade da entrevista mas o tom mudou de forma radical”, atiramos. “A sério? Consegue-se perceber assim tão bem isso?”, responde o advogado. O outro, mais delicado, quando falamos do acidente de aviação que sofreu em setembro de 1989 com João Soares e José Luís Nogueira de Brito, numa viagem de regresso da Jamba. “Olhe, às vezes a brincar até digo que nem de cair de avião tenho medo”, comenta ao final do dia. “Sabe, pela forma como saí disparado do meu lugar foi uma questão de centímetros”, recordara antes do almoço que não chegou a fazer.

Na semana em que nos encontramos com o antigo dirigente e atual candidato à liderança do clube da Luz, houve uma coincidência a esse propósito. A brincar com a filha, que lhe pedira boleia uns dias antes, perguntou se agora era o seu chauffeur e agarrou num chapéu que tinha no armário perdido. Olhou o que tinha na mão e aquele era o mesmo chapéu que lhe tinha sido oferecido nessa mesma viagem. “Ainda tenho também os óculos grandes que usava na altura, que agora não uso óculos desde 2003. E o relógio que tinha quando caiu o avião, e que parou por causa do embate às 7h15. Continua lá e nunca lhe troquei a pilha”, conta o então deputado do PSD, entre as memórias do dia em que por pouco não perdeu a vida. “Agora, tanto tempo depois, não posso dizer que tenha sido algo que me mudou a vida. E quando penso que foi uma viagem decidida numa quinta-feira à noite, que pensava que na segunda-feira já estava a trabalhar e que afinal na terça-feira ainda não tínhamos falado com Savimbi…”. É nesta altura que surge a última interrupção antes da entrega das listas, a interrupção que faria com que não tivesse tempo para almoçar. Há sempre um pormenor por confirmar, por verificar. Nada que o chegue a assustar.

Rui Gomes da Silva, no espaço que tem servido de quartel general nesta campanha e onde andou em grande azáfama a tratar dos últimos pormenores antes da entrega da lista

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“O problema do Benfica hoje é que é uma máquina de perseguição a quem critica quem lá está. Posso contar que fui almoçar com um ex-jogador do Benfica para falar da estrutura, disto e daquilo, num lugar muito público que ele fez questão que fosse mesmo público. Ainda não tinha acabado o jantar e estava a ser contactado por um vice do Benfica a dizer ‘Não faças isso ou nunca mais entras no Estádio da Luz, vais ter graves consequências’. O grande problema é este, o medo que existe. Não é um clube livre, fazem pressão sobre as Casas do Benfica”, acusa. Mas sentiu essas pressões? “Senti, claro! Pessoas que foram altamente pressionadas para me retirar o apoio e não o fizeram. Como também senti uma vergonha como qualquer um deve sentir da BTV e do jornal… Tenho respeito por alguma dessas pessoas, pela idoneidade, pela capacidade, pela independência profissional. O que está a acontecer no Benfica é uma vergonha, terão de reconhecer. Mais: conheço pessoas que têm cargos no Benfica cuja vida foi de exemplo na luta pela liberdade e hoje estão ali porque dependem daquele dinheiro para viver…”, prossegue.

"Fui almoçar com um ex-jogador do Benfica para falar da estrutura, disto e daquilo, num lugar muito público que ele fez questão que fosse mesmo público. Ainda não tinha acabado o jantar e estava a ser contactado por um vice do Benfica a dizer: 'Não faças isso ou nunca mais entras no Estádio da Luz, vais ter graves consequências'"

Voltamos a uma perguntas que já tínhamos feito no início: mas isso não acontecia quando estava no Benfica como vice e administrador da SAD, entre 2009 e 2016? “Quando lá estava não era nada disto, antes pelo contrário. As pessoas que estão hoje no Benfica não eram ligadas ao Benfica e acabaram por se tornar grandes aliados da atual Direção. No meu tempo havia pessoas livres, havia discussões. Até admito que fosse uma liberdade dirigida mas as pessoas podiam dizer o que quisessem. Hoje em dia é uma vergonha. O caso mais escandaloso é esta não cobertura das eleições. O momento mais solene de uma instituição é a definição da sua liderança, da sua estrutura de poder, são as eleições. Prestaram-se a esta triste figura de terem a Direção a dizer por eles numa Assembleia Geral que os profissionais do Benfica não iriam cobrir a campanha eleitoral. Sabe porquê? Pelas razões que levam o presidente do Benfica a recusar-se a ir a debates, a recusar até há poucos dias entrevistas, só vai a sítios onde estão presenças simpáticas. Um candidato a primeiro-ministro recusar entrevistas?”, pergunta.

“Não pode haver ato eleitoral sem debate entre candidatos. Aplaudo de pé e entusiasticamente o que diz Bernardo Silva”

A estátua de Bella Guttmann e o regresso à Luz, quatro anos depois

A ideia passava por entregar as listas às 15h30 na Luz. Entretanto recebe uma chamada. “Estou um bocado de nada atrasado, são só uns minutos mesmo. O centro de Lisboa está um caos por causa do trânsito”, explica. Confere. A chuva que não pára de cair não ajuda mas a zona perto do Marquês, que ainda por cima estava com um acidente em fase de rescaldo com as autoridades por perto, tornara-se quase um labirinto para o Tesla preto do advogado, com um enorme computador de bordo que podia ser um ecrã de TV em vez do sistema de navegação. Entretanto já se sabe que Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública que ganhou grande espaço mediático durante a pandemia, vai ser o número 2 da lista. Chegada pelo Alto do Moinhos, estacionamento no parque do Media Markt. A Via Verde não está a funcionar. “Verde, já se estava à espera…”, diz.

Poucos se apercebem mas aquele era um momento ainda mais especial para Rui Gomes da Silva. “Foi normal, tudo normal”, resume depois da entrega da lista a Virgílio Duque Vieira, presidente da Mesa da Assembleia Geral, e João Salgado, secretário-geral do Benfica que o advogado conhece há muitos, muitos anos. No entanto, não é só uma mais uma visita porque, desde 2016, não mais o antigo dirigente voltou à Luz por aquela porta 18. Nem nunca mais passara pela estátua de Bella Guttman, à frente à de Miklos Fehér. “Esta estátua tem uma história diferente para mim porque fui eu que a inaugurei. Tratei de tudo com a embaixada da Hungria e na altura o presidente teve de ir para Moçambique pelas piores razões, para estar no funeral do Coluna. Fui eu que representei o Benfica nesse ato. E fui eu que fui vendo os detalhes do desenho antes de chegar a este resultado final”, frisa. Em cada braço do técnico magiar que um dia teria dito que sem ele os encarnados não mais voltariam a ganhar lá fora estão as duas Taças dos Campeões Europeus ganhas no início dos anos 60. E ainda hoje prevalece essa “maldição”.

Rui Gomes da Silva voltou a entrar pela porta 18 do Estádio da Luz quatro anos depois e passou por uma estátua com um significado especial para si: a de Bella Guttmann

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(entretanto apercebemo-nos que também Rui Gomes da Silva reparou que, enquanto falava à imprensa junto à porta 18, um associado passa e diz ‘Vai-te embora, pá!’, enquanto outro ia filmando o que se estava a passar e as pessoas que iam consigo, mas preferiu não ligar a nenhum deles – não sendo a primeira vez que isso acontece)

“Cheguei em 2009 com uma narrativa, assim como em 2012. Tive várias conversas com Luís Filipe Vieira sobre o que achava do Benfica e qual devia ser o projeto do Benfica. Havia antes dois momentos: um primeiro momento foi de salvação do Benfica face à anterior presidência do Benfica de Vale e Azevedo e um segundo momento foi de credibilização do Benfica em termos financeiros, que estava quase garantido. A partir daí era o projeto desportivo e passava pela Europa. Não era a Liga Europa, era a Liga dos Campeões. Apesar de, no tempo em que lá estive, ter sido o tempo em que se ganhou mais, porque nesses sete anos foi quatro vezes campeão, abdicou-se desse projeto desportivo. Quando envereda por uma parceria estratégica, percebi que esse projeto estava posto de lado. Mas não é só isso: durante sete anos, como administrador da SAD e vice do clube, tentei que a Europa, a Champions, devia ser a prioridade e diziam-me para eu ter juízo porque era impossível um clube como o Benfica nos tempos que correm ser candidato a campeão europeu. Se me dissessem o que aprendi lá dentro é que ninguém de quem está lá acredita que seja possível e eu, da realidade que encontrei e constatei, acredito que é possível”, ressalva sobre um dos pontos mais importantes do seu programa: a ambição europeia.

"O Benfica vendeu ganhou mil milhões em jogadores ao longo de dez anos, gastando 400 milhões. Ou seja, há um saldo de 600 milhões positivo. Onde está? Não está em lado nenhum. Para diminuir passivo foi buscar 120 milhões de contratos da NOS, até 2026 o Benfica tem 50% dessa verba antecipada. Não foi uma redução feita com resultados operacionais positivos, que seria um bom critério de gestão"

“Três razões para isso: a disponibilidade que existe em termos internacionais de respeitar o Benfica como grande clube europeu, que é um pressuposto essencial; a possibilidade de sermos hegemónicos em termos nacionais; e uma política desportiva verdadeiramente dirigida para esse objetivo. Repare: depois de eu dizer que em quatro anos colocava o Benfica com condições para lutar para ser campeão europeu, uns dias depois a mesma pessoa que me disse que não era possível já dizia que em quatro anos ia ser campeão europeu. O que falta ao Benfica é essencialmente cultura de vitória. Não é de adepto, de paixão, é cultura de considerar que é um elemento essencial. Passa a ideia que não é muito relevante perder em termos europeus e que de vez em quando não há problema ter algumas derrotas. Ou, como dizem os adeptos, não ganhar porque o Benfica nunca perde”, diz.

“Se não tivéssemos vendido estes jogadores todos teríamos agora uma grande equipa, tínhamos possibilidade de mantermos essa equipa. Dois exemplos, um negativo e um positivo: o Benfica perdeu com o PAOK para a Liga dos Campeões e o PAOK tem um orçamento dez vezes inferior ao Benfica. A cultura de vitória exigiria que o Benfica tivesse outra atitude do que aconteceu: o presidente escondeu-se, fugiu como é normal nas derrotas, só assumiu a derrota quando tinha de despedir Bruno Lage e sabemos agora que tinha Jorge Jesus contratado ainda quando ele não tinha renovado, o que em termos de gestão são atos de gravíssimo prejuízo para o Benfica. Ou seja, deu mais anos de contrato a Bruno Lage, dizendo que se dava uma benesse a Bruno Lage para garantir que quando saísse não ia ter problemas, com o futuro garantido. O Benfica foi uma caixa de previdência, uma instituição de solidariedade social a alguém que serviu o clube. Não pode ser”, salienta o advogado.

Rui Gomes da Silva com Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública que é número 2 da lista, e Virgílio Duque Vieira, presidente da Mesa da Assembleia Geral

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“O Benfica vendeu ganhou mil milhões em jogadores ao longo de dez anos, gastando 400 milhões. Ou seja, há um saldo de 600 milhões positivo. Onde está? Não está em lado nenhum. Para diminuir passivo foi buscar 120 milhões de contratos da NOS, até 2026 o Benfica tem 50% dessa verba antecipada. Não foi uma redução feita com resultados operacionais positivos, que seria um bom critério de gestão. Se juntar estas peças, grande equipa, respeito internacional, não venda, não desperdício de dinheiro em jogadores que nunca jogarão, mostra que pode ter uma equipa competitiva na Champions. Não posso ter jogadores a 200 ou 300 mil euros em vésperas de irem embora. Tem de haver um contrato de compromisso, com cultura de vitória, a ideia de que assinam por ‘x’ anos, vão ter níveis salariais como os melhores porque nunca teremos 109 jogadores, alguns que nunca representarão o Benfica. Assim, ficam confortáveis cá e não sentem necessidade de ir ganhar mais. A SAD gera condições objetivas para que os jogadores se vão embora e esse é um erro desportivo do Benfica”, acrescenta.

“As outras duas candidaturas são as que representam os interesses”

No final da intervenção após entregar as listas, que se revelou bem mais longa do que se estava à espera, Rui Gomes da Silva deixou no ar uma frase para bom entendedor: “E escusam de vir dizer para não nos atacarmos uns aos outros porque isto é uma campanha, é mesmo assim o debate”. Ao Observador, o advogado não quis falar sobre um encontro entre listas que pudesse levar a uma fusão de toda a oposição a Luís Filipe Vieira num só projeto, como aconteceu com João Noronha Lopes e Francisco Benítez. Mais uma vez, como referiu noutras ocasiões ao longo do dia, defende que há conversas que devem ficar apenas entre as pessoas que as têm, que não devem chegar à praça pública. No entanto, tem um posicionamento claro em relação a este ato eleitoral: é a cara contra os poderes que estão instalados contra duas candidaturas que defendem os interesses instalados.

“O Benfica perdeu com o PAOK, o presidente escondeu-se e os dois outros candidatos, que hoje até fazem parte da mesma lista [Noronha Lopes e Franciso Benítez] sabe-se lá porquê, vieram dizer que o que interessava era o próximo jogo. Perdemos 40 milhões e os grandes dirigentes que vinham aí falaram no próximo jogo… Tantas vezes que dei a cara nessas situações porque Vieira fugia e agora os outros consórcios disseram também que era importante ganhar ao Famalicão. Ganhámos 5-1 ao pior Famalicão e parecia que já éramos campeões europeus outra vez. Depois esta coisa extraordinária do ‘Perdemos mas se tivéssemos ganho este ano é que era…’. E as pessoas cá fora não percebem, sentem-se impotentes. Tenho algumas contas, que não essas que andam para aí, e vão ter uma grande surpresa no voto ponderado e expresso”, contextualiza antes de passar ao ataque.

Rui Gomes da Silva olha para o relvado do Estádio da Luz a caminho da entrega das listas. Advogado foi vice do Benfica e administrador da SAD de 2009 a 2016

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“O problema do Benfica são os interesses. Eu não represento os interesses, do outro lado estão duas candidaturas que representam os interesses, estão ligadas. Uma é a que está lá, ligada à Olivedesportos e a Jorge Mendes, e a outra é a candidatura inventada por esses interesses para que eu não ganhasse o Benfica. Como sempre. Tem muito mais dinheiro do que eu? Claro que tem, tem lá toda a gente. Só há possibilidade de junção quando há projetos comuns. Quando ficam indignadas por eu dizer que representam a Olivedesportos e não são capazes de dizer o contrário publicamente, e o mesmo em relação a Jorge Mendes… Essa candidatura existe para me repetir, o guru da gestão no outro dia nem conseguia alinhar três ideias. Não sabe nada de Benfica, é um mero ator contratado para uma temporada que vai acabar”, considera, antes de vaticinar quatro factos na calha que podem acontecer no Benfica caso não ganhe as eleições “e que irão acontecer rapidamente, até janeiro”.

“Para mim, ser segundo é sempre ser o primeiro derrotado. Comigo o projeto vai continuar. O projeto dos sócios, contra os interesses, contra os negócios, contra a venda de jogadores na primeira oportunidade, o projeto que visa o Benfica campeão europeu, tudo isso. O que acho que vai acontecer nesse cenário caso não ganhasse as eleições? 1) alteração dos estatutos para pagar aos membros dos órgãos sociais que entrem na SAD, embora a realidade jurídica seja outra; 2) vai haver alteração das transmissões televisivas, que vão deixar de ser na BTV; 3) alteração do enquadramento do capital social da SAD, permitindo que a posse da SAD possa ser em minoria; 4) venda na primeira oportunidade de muitos jogadores que estão ali no plantel principal porque o Benfica vai ter problemas e aquela história de que existe grande capacidade de gestão e que torna o clube no único do mundo estão só a passar para estas eleições e se ganhassem seria o descalabro”, baliza.

"O Benfica vendeu ganhou mil milhões em jogadores ao longo de dez anos, gastando 400 milhões. Ou seja, há um saldo de 600 milhões positivo. Onde está? Não está em lado nenhum. Para diminuir passivo foi buscar 120 milhões de contratos da NOS, até 2026 o Benfica tem 50% dessa verba antecipada. Não foi uma redução feita com resultados operacionais positivos, que seria um bom critério de gestão"

Mais uma vez, voltamos ao ponto inicial: se existem tantas coisas mal no Benfica, porque foi sete anos vice de Luís Filipe Vieira entre 2009 e 2016? Ou foi depois de sair que o clube se tornou “num negócio, num entreposto”?

Rui Gomes da Silva está fora do Benfica. Conheça a lista de LVF

“Passou a ser mais evidente aí, passou a ser mais consequente, passou a ser escandalosamente mais um negócio a partir do momento em que faz uma parceria estratégica com um empresário. Até ali havia alguns momentos a que a isso obrigava. Até 2016 o Benfica foi vendendo alguns jogadores, demonstrando alguma incomodidade… Não é verdade que antes tenha sido. Se até ali havia alguns negócios feitos com Jorge Mendes, alguns negócios feitos com outros empresários, a partir daí ficou a fazer só negócios com Jorge Mendes”, defende.

“Foi uma parceria anunciada, o presidente do Benfica numa reunião de quadros em 2016 anunciou a todos os quadros ali, e eu era vice-presidente, que o Benfica deixava de ter em Jorge Mendes um empresário com quem trabalhava e passava a ter um parceiro estratégico e a partir daí essa parceria estratégica era para ser levada até às últimas consequências. O Benfica não tem necessidade de ter parcerias estratégicas, muito menos com quem quer vender jogadores. Compreendo que alguém que tenha um produto para vender ou para escoar no mercado possa fazer isso com um ponto de distribuição, como se fosse um supermercado. O Benfica não precisa de pontos de venda, é um projeto desportivo. A partir desse momento, desse anúncio do qual discordei, e de uma conversa que tive sozinho com o presidente antes da Assembleia Geral de junho de 2016, essas duas razões e um acumular de outras situações levaram com que em 2016 tivesse dito que não ia continuar. Não foi em cima das eleições, está gravado na Assembleia Geral que disse ‘Eu vou-me embora’. Foi uma conversa privada, depois houve esse anúncio público, afastei-me e tudo o resto são meras versões noticiosas da máquina do Benfica”, acrescenta.

Após a entrega da lista, no carro, Rui Gomes da Silva admitiu que tinha saído um peso de cima. "Agora é ir à guerra, mesmo sem haver debates", diz

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Mas será que houve a possibilidade de uma aproximação com Luís Filipe Vieira? “Não, nunca. Nunca, nunca, nunca houve uma aproximação. Assumi quando rompi, tenho um projeto diferente. Mas não podemos dizer só mal: Luís Filipe Vieira disse-me em 2010/11, em relação aos direitos televisivos, que achava que não se devia renovar com a Olivedesportos, que possivelmente a decisão ia no sentido de renovar mas que se era essa a minha convicção que devia defendê-la publicamente. Fiz isso, na TV, em todos os programas do “Dia Seguinte” na SIC Notícias. Defendi essa decisão nos órgãos sociais e perdi por 12-6, o resto foi uma factualidade. Depois, o presidente rompeu com a Olivedesportos mas não foi nada de estratégico. Houve ainda um aburguesamento da estrutura, declarações de outros dirigentes das quais não senti solidariedade mas ainda assim achei que o Benfica merecia isso. Depois de 2016, só falei uma vez com Luís Filipe Vieira, uns meses depois de ter saído, em que me encontrei com ele, almoçámos no Altis e lhe disse ‘Com Bruno Varela nunca serás campeão, nunca conseguiremos o penta’. Ele disse-me que sim. Infelizmente eu é que tinha razão…”, confidencia o advogado.

O advogado e político que fez tudo na vida (e que está sempre a citar Os Maias)

A primeira vez que vai buscar Os Maias para fazer alguma analogia é quando fala da saída de Luís Filipe Vieira caso fizesse mais um mandato e da colocação de Rui Costa como sucessor. Até ao final do dia, recorreria mais duas vezes à obra de Eça de Queirós para dar outros exemplos de quem diz uma coisa e faz outra. “Isto vai ter um fim, não é uma coisa eterna nem acredito que exista saída. A única certeza que eu tenho é essa. Aliás, tenho duas certezas: da morte e de que Luís Filipe Vieira nunca deixará de ser presidente do Benfica por vontade própria”. 

“Quantas vezes já ouviu que Rui Costa é o sucessor? Houve uma entrevista recente onde disse que Rui Costa não era um sucessor, ainda faltava um grande caminho… E diz que se fosse pelo penta se calhar não era o último mandato… É como acaba Os Maias, o João da Ega e o Carlos da Maia a dizer que não aceleravam o passo nem que fosse a última coisa do mundo que pudesse acontecer, passa um carro e eles começam a correr para apanharem o americano… Aquilo que o Eça de Queirós gozava com a maneira de ser dos portugueses é o que aconteceu… Como se o ser penta violasse alguma decisão já tomada. O problema é que no subconsciente nunca lhe passou ser o último mandato voluntariamente. Eu estive lá várias vezes, vi o Rui Costa ser colocado de parte várias vezes, ser substituído pelo António Carraça e depois voltar e ser substituído por outra pessoa. E depois voltar a funções quando aquilo estava mal e ser substituído por Tiago Pinto. Para o bem ou para o mal, passei lá muitos anos e vi muita, muita coisa. Essas declarações são mero fogo de artifício”, comenta.

"Isto vai ter um fim, não é uma coisa eterna nem acredito que exista saída. A única certeza que eu tenho é essa. Aliás, tenho duas certezas: da morte e de que Luís Filipe Vieira nunca deixará de ser presidente do Benfica por vontade própria"

Rui Gomes da Silva foi “tudo na vida”. “22 anos na Assembleia da República, fui ministro, membro do Conselho Superior do Ministério Público durante seis anos, vice-presidente do partido a que pertenço, 14 anos delegado da Assembleia Parlamentar da NATO, dos quais dois como presidente e oito como vice-presidente… E fiz em plena liberdade, com todo o gosto e nunca me privei de nada. Tudo o que fui atacado por coisas que defendi fi-lo com a plena consciência de que era aquela posição que deveria defender e fui atacado até de forma injusta, muitas vezes criando factos por pessoas que hoje até são vice-presidentes do Benfica, que sabia que eram falsos, e não foi por isso que me andei a lamentar de que os jornalistas andavam a criar cabalas contra mim, realidades fictícias”, diz. Por isso, admite: “A vida leva a ter grandes desilusões e a determinado momento percebemos que há gigantes com pés de barro, que mesmo quando discorda percebe que tem qualidade mas que depois quando trabalha com elas percebe que a qualidade é rigorosamente igual a zero”.

Nas várias conversas que tem nota-se que existem guerra antigas que vêm ainda dos tempos do Benfica e que não se resumem a Vieira. Foi isso também que fez em quase 50 Casas que foi visitando desde que anunciou que era candidato à presidência do Benfica, muitas delas no anonimato para que não sofressem represálias. Barcelos, Sines, Espinho, benfiquistas de Bragança, Alfândega da Fé, Santo Tirso. Foi também aí que tentou explicar o que gostaria de mudar em termos de governance da SAD, sempre lançando “farpas” a João Noronha Lopes e aos vários pontos do seu programa que entende terem sido copiados pelo gestor e também antigo vice.

“Muda desde logo a não unipessoalidade da decisão. O Benfica tem de mudar algumas coisas. A estrutura da própria governance da SAD, o que dá alguma margem para algum dos candidatos vir copiar aquilo que eu digo, que é o que tem feito em podcasts. O Conselho de Administração vai ser alargado e funcionará como instrumento de definição geral da política desportiva e de contratações do Benfica e depois haverá uma comissão executiva para executar estas decisões de lidar no dia a dia com a equipa. Conto com algumas pessoas, não vale a pena dizer quem porque uma delas já não está na estrutura agora por causa disso, o Lourenço Pereira Coelho. Essa era uma das minhas ideias, era desejado por Jorge Jesus e não foi porque tinha de se desligar de mim”, explica.

De regresso ao quartel general, ao final do dia, Rui Gomes da Silva apressou-se a ver o que se passava na atualidade (enquanto respondia a mensagens que foi recebendo)

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Esse é um dos vários pontos que foi abordando nesses encontros, não só em Casas mas também com outros grupos de benfiquistas com quem se ia encontrando. Como a aplicação em associação com o Pagaqui, “que disponibilizaria um cartão utilizado pelos sócios do Benfica, sem qualquer custo ou pagamento, que funcionaria como cartão não bancário que daria dois milhões de euros por ano e mais tarde cinco milhões de euros por ano que serão destinados apenas às modalidades e às Casas do clube”. Apenas mais uma ideia, neste caso concreta, que projeta um Benfica assente em alguns grandes vértices: a ambição europeia com maior exigência no futebol, a democratização do clube pela alteração dos estatutos tendo outra estratégia de comunicação mais transparente, a procura de novas fontes de receitas através das vias digitais, do naming do estádio e da rentabilização da marca, e o reforço da aposta das modalidades, para lutar pelas provas europeias ou para ir criando condições nesse sentido.

De regresso ao ponto de partida, e sem se recordar que pouco ou nada tinha comigo até aí, a conversa termina com as recordações das modalidades e do tempo em que ainda fez um jogo na equipa campeã de hóquei em patins, em vez da habitual formação das reservas, no tempo de Ramalhete, Picas ou Piruças, entre outros, quando António Livramento continuava a mostrar que era um dos maiores génios de sempre da modalidade. Quando fala do que considera estar errado no clube, Gomes da Silva pode ser duro, áspero – e com mensagens nas entrelinhas. Quando fala dos rivais ou de quem se mete com o clube, ainda mais. Quando fala de jogos antigos, dos seus tempos nos antigos pavilhões quando era praticante ou de histórias que tem com figuras do clube como Eusébio, acelera ainda mais as palavras que já costumam sair a alta velocidade. Tudo Benfica. Desde que seja mesmo Benfica.

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