O tarado romântico: a vida de Nelson Rodrigues

02 Setembro 2017306

Cronista de primeira água, reaccionário por excelência, orgulhoso anti-comunista. A propósito da edição portuguesa da biografia escrita por Ruy Castro, Bruno Vieira Amaral recorda o anjo pornográfico.

Quando Ruy Castro publicou O Anjo Pornográfico, em 1992, o biografado tinha morrido há doze anos, mas foram os vivos que deram voltas na tumba: mulher e filhos de um lado, irmãs do outro, num Fla-Flu rodriguiano. No ano passado, Ruy Castro esteve em Portugal para promover o lançamento de Chega de Saudade e contou ao Observador qual foi a reacção da família quando a biografia de Nelson Rodrigues foi publicada: “Os dois lados ficaram contra mim.” Bom sinal.

Nelson Rodrigues tinha marcado uma época no jornalismo e no teatro brasileiro. Era um dramaturgo conceituado, algumas das suas peças tinham sido adaptadas ao cinema, como o premiado Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, e um cronista de primeira água, fossem as crónicas confessionais, políticas ou desportivas, ou até tudo ao mesmo tempo. Era também o reaccionário por excelência, o orgulhoso anti-comunista, e exibia o ódio que os seus detractores lhe dedicavam como o maior galardão da sua carreira. Mas, doze anos após a sua morte, era uma figura praticamente esquecida, símbolo apagado de um outro tempo, de um outro mundo. As peças teatrais eram levadas a sério, mas o resto da sua produção literária era desvalorizado. Se nas suas crónicas melancólicas Nelson Rodrigues chorava o desaparecimento do Rio da sua infância, lembrando com afecto anacrónico as escarradeiras e as viúvas machadianas, no início dos anos 90, a escarradeira, a viúva machadiana, era ele.

“O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues”, de Ruy Castro (Tinta da China)

A biografia de Ruy Castro reabilitou-o, trouxe para o presente aquele sujeito que parecia ter nascido velho e de cigarro no canto da boca (apesar de se definir como um eterno menino). A reabilitação foi tal que muitos, incapazes de esquecer o apoio de Nelson à ditadura militar e a misoginia inequívoca de certas tiradas, acusaram o biógrafo de “limpar” a imagem do biografado, de o transformar num herói. O único problema dessas críticas é que ignoravam o conteúdo factual do livro: o que está n’O Anjo Pornográfico é Nelson Rodrigues na sua totalidade, tanto quanto é possível uma vida caber em 500 páginas. Ruy Castro disse que não escondeu “a vaidade, os exageros, as brigas pessoais”. Podemos acrescentar as antipatias, embora passageiras, as sacanagens, perdoáveis, as amizades traídas, e depois reatadas, as caricaturas ferozes, mas de uma obsessão ternurenta. Um hagiógrafo omitiria de bom-grado essas zonas cinzentas da personalidade do escritor e traria para primeiro plano as suas qualidades, sobretudo as literárias. Mas como seria possível falar de um homem com uma vida tão cheia, de tragédias familiares a fracassos profissionais, sem abordar as contradições que alimentavam o seu talento? As zangas, as birras e os ódios não eram menos geniais do que as suas melhores páginas. Nelson Rodrigues era tão melodramático quanto algumas das suas crónicas, rápido na ira e rápido na paixão, capaz da auto-comiseração e do flagelo, senhor de uma perversidade de fundo sentimental. Moderação não era palavra do seu léxico e, apesar do requinte estilístico ou do abuso de certas fórmulas (normal de quem vivia da escrita como um “remador do Ben-Hur”), parecia sempre absolutamente genuíno, mesmo quando mentia.

Translúcido canalha

Uma das fontes de Ruy Castro foi, como não podia deixar de ser, a produção literária e cronística do próprio biografado. Sobretudo nas crónicas, o tema de Nelson era, quase sempre, a sua vida, as suas obsessões, as suas amizades, os seus desgostos, relidos com um exagero que podia trair os factos, mas nunca o temperamento. Será que Nelson Rodrigues escreveu aos oito anos uma composição em que narrava a vingança sanguinária de um marido traído e que a professora premiou o texto? Ruy Castro acredita que sim, embora não tenha outras fontes. Se Nelson escreveu, não se sabe, mas não restam dúvidas que poderia ter imaginado. Talvez o que muitos entenderam como “santificação” do escritor tenha sido o facto de o biógrafo não censurar abertamente certos comportamentos menos honrosos. Mas quem é que quer um biógrafo moralista que abra parêntesis para reprovar a conduta do morto? Seria preciso um canalha daqueles que povoam os contos de Nelson Rodrigues para se entregar a tão infame tarefa. Seria preciso um “translúcido canalha”, como o próprio Nelson se chegou a retratar.

Essa impressão de que a biografia é demasiado reverente terá mais que ver com os méritos literários do biógrafo. De facto, a “culpa” é de Ruy Castro, do seu talento de biógrafo e investigador, de cronista e historiador desengravatado, capaz de recriar épocas com um aparente à-vontade que leva o leitor a questionar-se se o seu talento não será o espiritismo. “Para Mário Rodrigues, em 1920, as coisas estavam ficando azuis como um domingo de regatas” ou “Mário Filho tinha cabelos e sobrancelhas vermelhas. Não um vermelho qualquer, cor de ferrugem, mas um desses vermelhos vivos e sangrentos, que às vezes se pensa que só existem em almofadas”: que leitor, por mais insensível que seja, pode ler passagens semelhantes sem esboçar um sorriso de admiração, agradecimento e boa inveja?

A prova de obra e vida serem duas partes que se iluminam entre si como raramente acontece é que a publicação da biografia marcou o início do justo reconhecimento de Nelson Rodrigues como um dos grandes escritores, tout court, do século XX brasileiro. E consagrou Ruy Castro como o príncipe dos biógrafos de língua portuguesa.

Ainda em defesa da inocência de Ruy Castro, diga-se que o tratamento que dispensou a Nelson Rodrigues foi o mesmo que dispensou à Bossa Nova (Chega de Saudade), a Garrincha (Estrela Solitária), a Carmen Miranda (Carmen) ou à cidade do Rio de Janeiro (Carnaval no Fogo). Lemos cada um desses livros e o retrato pessoal e de época é tão minucioso e envolvente que temos vontade de voltar atrás no tempo e salvar aquela gente toda, salvar Carmen da depressão, salvar Garrincha do álcool e salvar Nelson Rodrigues… bem, Nelson não precisava que o salvassem de nada porque ele transformou tudo o que lhe aconteceu noutra coisa superior, talvez com a excepção do sofrimento do filho mais novo, Nelsinho, preso e torturado durante o período do regime militar. Essa foi a sua grande derrota, a ponto de, na altura, ter feito um lancinante apelo ao presidente João Figueiredo: “Solte esses moços, Figueiredo. Por favor, Figueiredo, solte meu filho”. Deve notar-se que Nelson Rodrigues defendia o regime justificando-se com o facto de não acreditar que havia tortura. A verdade foi-lhe revelada da forma mais dolorosa e cruel.

De resto, os seus sofrimentos, como a morte trágica do irmão Roberto, assassinado por uma bala destinada ao pai, foram sendo incorporados na sua obra contínua, nas suas crónicas e ficções. Até a fiel úlcera se tornou personagem recorrente nos seus artigos. Ruy Castro nem precisou de analisar a obra com o rigor que seria exigível a um estudioso para nos mostrar a grandeza dessa obra. O próprio biógrafo se demite dessa tarefa na introdução: “Esta é uma biografia de Nelson Rodrigues, não um estudo crítico. […] O que se conta em O Anjo Pornográfico é a espantosa vida de um homem – um escritor a quem uma espécie de imã demoníaco (o acaso, o destino, o que for) estava sempre arrastando para uma realidade mais dramática do que a que ele punha sobre o papel.” A prova de obra e vida serem duas partes que se iluminam entre si como raramente acontece é que a publicação da biografia marcou o início do justo reconhecimento de Nelson Rodrigues como um dos grandes escritores, tout court, do século XX brasileiro. E consagrou Ruy Castro como o príncipe dos biógrafos de língua portuguesa.

A infância

Todo o homem é um exilado da infância. Não foi Nelson Rodrigues que escreveu a frase, mas poderia ter sido. Muitas das suas crónicas e contos eram a continuação da infância por outros meios. Se era um escritor de obsessões – Cláudio Mello e Souza chamava-o de “flor de obsessão” – muitas remontavam à infância. O título da biografia é retirado de uma frase de Nelson:

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco de fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”

Nasceu no Recife, mas cresceu no Rio de Janeiro, começando por uma rua cujo topónimo, Alegre, era enganador visto que a história do lugar abundava em mortes e consequentes velórios e enterros. Nelson cedo revelou um interesse mórbido pelos funerais, no que seguia o resto da população, cujo desejo de emoções fortes era alimentado pelo espectáculo do sofrimento de mulheres que tinham perdido os filhos ou das viúvas, que viam a sua sinceridade minuciosamente escrutinada pelos vizinhos. Não descartando o peso da sua própria personalidade precocemente retorcida, o seu fascínio pela morte e todos os seus rituais pode atribuir-se a este ambiente tétrico que facilmente se inscrevia na ultra-sensibilidade das mentes infantis.

O jornalismo

A Nelson só faltou nascer numa redacção. O pai, Mário Rodrigues, era jornalista e, quando Nelson tinha treze anos, tornou-se proprietário de um das duas dezenas de jornais do Rio, “A Manhã”, que contava entre os seus colaboradores externos com Monteiro Lobato, o autor do “Sítio do Picapau Amarelo”. Nelson estreou-se aí na secção de polícia, na altura das mais importantes de qualquer jornal.

O repórter policial era uma figura respeitada na redacção e o seu dever deontológico era o de apimentar qualquer notícia com liberdade poética, mesmo que os crimes passionais já de si contivessem pormenores escabrosos para deliciar de horror os leitores. Sem uma ERC à perna, o jornalista, quando acontecia chegar ao local do crime ainda antes da polícia, julgava-se no “direito de vasculhar as gavetas da família e surripiar fotos, cartas íntimas e róis de roupa do falecido”. Nelson aderiu entusiasticamente a estas práticas, que incluíam a obrigatoriedade da hipérbole.

Quando já era um nome célebre, lamentava que os jornalistas não mentissem tanto como outrora. Por necessidade, escreveu quilómetros de prosa para os jornais ao longo de toda a vida e, a partir dos anos 60, tornou-se uma celebridade televisiva com participações em debates desportivos. Nunca se sentou para escrever a grande obra. Sentava-se para escrever a crónica seguinte e foi assim, à vista de toda a gente e sem que ninguém visse, que escreveu a sua grande obra.

Os amores

O “grande tarado” casou com Elza sem que se conhecessem na intimidade. Casaram-se pelo civil mas só consumaram a união uma semana depois, já após o casamento pela igreja. Ele tinha 27 anos. A recuperar da tuberculose contraída poucos anos antes, Nelson sofria também de “tuberculose literária”, um romantismo em que cada adjectivo depositava uma pequena mancha de sangue na página, em que cada exagero tinha como acompanhamento musical um asfixiante ataque de tosse, como se pode ler nas cartas que escrevia à noiva enquanto esteve internado num sanatório:

“Se eu pudesse – se os Deuses o permitissem – teria assistido hoje ao teu despertar. E, então, teria feito uma festa de luz, de cor, de aroma. Eu transportaria para tua alcova toda a vibração musical da aurora, todo o estremecimento solar.”

A culpa não era da febre, Nelson Rodrigues era mesmo assim. Do casamento nasceram dois filhos, Joffre (em homenagem ao irmão de Nelson, que tinha morrido de tuberculose) e Nelsinho. Em 1961, Nelson apaixonou-se por Lúcia Cruz Lima, de vinte e cinco anos, menina da alta sociedade, “leve e delicada como Audrey Hepburn” e casada. Dois anos depois, com Lúcia grávida, foram viver juntos, enfrentando a desaprovação de meio mundo. Nelson era experiente em tragédias pessoais, mas não estava preparado para o que vinha aí: por complicações no parto, a filha, Daniela, a “menina sem estrela”, ficou com paralisia cerebral, “jamais iria andar ou articular um movimento. Também seria muda. E irreversivelmente cega”. A grande paixão da idade madura, que tinha contornos de enamoramento juvenil com direito ao ódio da família da mulher e tudo, ficava assim marcada por um sofrimento inominável. Separaram-se em 1969, após oito anos juntos.

Nelson ainda conheceria um último amor, uma jovem de 22 anos, Helena Maria, de quem o separavam muito mais do que os 35 anos de diferença. A relação com Heleninha era de um romantismo piedoso, como a de uma enfermeira com o seu paciente, mas Nelson disse que era o seu “terceiro amor eterno”, atirando as restantes paixões para a gaveta das tempestades passageiras. Como sempre contraditório e exagerado, haveria ainda de escrever uma dedicatória a outra mulher (“A Ana Lúcia, meu último amor”) e em 1977, perto do fim da vida, regressou ao primeiro amor. Elza recebeu-o como se tivesse estado sempre à espera dele.

As polémicas

Se era Nelson Rodrigues que inventava polémicas ou se, a partir de certa altura, eram as polémicas que vinham ter com ele, é caso para intermináveis discussões. Desagradar a todos e ser perseguido era o seu dom e a sua sina. Era uma tendência que vinha de longe e que despertara até a cólera do próprio pai. Em 1928, Mário Rodrigues promoveu o filho, então de imberbes quinze anos, da secção policial do jornal “A Manhã” para a página 3, a dos editoriais. Nelson agradeceu a oportunidade atacando o falecido intelectual e político (sim, coisas do passado) Rui Barbosa, grande ídolo do seu pai. O pai, furioso, recambiou-o para a secção de polícia.

Nos últimos anos de vida, a virulência das polémicas diminuiu. Até aqueles que eram alvos dos seus ataques desculpavam-lhe a contundência, atribuindo-a aos deveres da personagem em que Nelson se tornara.

Quando o insultavam pelo seu reaccionarismo, Nelson Rodrigues lembrava, com vaidade, que tinha sido o autor brasileiro mais censurado da sua época. Quando, em 1966, publicou O Casamento (o seu único romance originalmente publicado em livro e não como folhetim e que foi recentemente publicado em Portugal pela Tinta-da-China), as portas do inferno abriram-se. O livro foi proibido e ninguém, da esquerda que o odiava à direita a que supostamente pertencia, o defendeu. O jornal “O Globo”, onde Nelson escrevia diariamente, publicou um editorial na primeira página a defender a proibição do livro que “atentava contra os princípios basilares da nossa organização social, e entre esses o do matrimônio.” O reaccionário atrevia-se a denunciar a hipocrisia da sociedade e, como paga, recebia ou o silêncio de toda a classe intelectual, progressista ou conservadora, ou mesmo a condenação pública.

Em 1968, a censura proibiu a peça Toda Nudez Será Castigada, mas aí Nelson já contou com o apoio de figuras relevantes do meio teatral. Nos últimos anos de vida, a virulência das polémicas diminuiu. Até aqueles que eram alvos dos seus ataques desculpavam-lhe a contundência, atribuindo-a aos deveres da personagem em que Nelson se tornara. Outros faziam a distinção entre o cronista ácido e o homem que, na intimidade, era generoso e de bom coração. É verdade que ele era assim, mas havia alguma condescendência nessa observação, a condescendência reservada aos párias que a sociedade não pode dispensar.

Bruno Vieira Amaral é crítico literário, tradutor e autor dos romances “As Primeiras Coisas” (vencedor do prémio José Saramago em 2015) e “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”.

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