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Michael K. Williams fez muito mais do que "Omar Little" em "The Wire", mas foi esta personagem a sua obra maestra

Michael K. Williams fez muito mais do que "Omar Little" em "The Wire", mas foi esta personagem a sua obra maestra

Omar Little entre a ficção e a realidade: o compromisso de Michael K. Williams (1966-2021) /premium

Além de tudo o resto, construiu uma das personagens mais marcantes da televisão dos últimos 20 anos. Num percurso em que o pessoal se misturou com os guiões, acabou por sucumbir aos seus demónios.

De cada vez que ouvíamos “Omar is coming, yo”, endireitávamo-nos no sofá, uma pequena corrente elétrica percorria-nos a espinha, um friozinho tomava conta da barriga – porque nunca sabíamos o que ia acontecer, mas porque automaticamente o nosso cérebro sabia que tinha de estar alerta: ninguém impôs a sua presença com tanta facilidade numa séria como o Omar Little de Michael K. Williams (que morreu a 6 de setembro aos 54 anos) em “The Wire”, que era e não era uma série sobre polícias e bandidos. Não sabíamos o que ele ia dizer, mas sabíamos que seria memorável; não sabíamos o que ele ia fazer (se matar alguém ou dar um beijo no namorado), mas sabíamos que não parecia televisão nem realidade, era da ordem do mito.

Se “The Wire” fosse apenas uma série de traficantes e polícias, Omar não teria sido possível – porque a grande vitória de “The Wire” sobre as restantes séries feitas ao longo da televisão é o tempo que o olhar se demora sobre cada uma das suas personagens. O tempo que concedia a Omar para ser Omar. O tempo que concedia a Michael K. Williams para habitar Omar e o transformar no mais ambíguo ícone de honra alguma vez criado em televisão.

Isto só foi possível graças a uma meia-verdade: quando David Simon fez o pitch de “The Wire” à HBO, disse que queria fazer uma série que fosse a antítese da habitual série de polícias, mas escondeu-lhes o seu grande plano: “The Wire” não queria apenas contar uma história sobre ladrões e traficantes, lentamente iria expandir o seu universo, até revelar todos os mecanismos subterrâneos (o tráfico, a corrupção, o imobiliário, as docas) que se movimentam longe do olhar e do conhecimento das pessoas comuns e que tornam uma cidade na pequena selva que (no caso em apreço) Baltimore era (e talvez ainda seja).

[“Michael K. Williams como Omar Little em “The Wire”:]

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Simon não queria fazer uma série de televisão, com as suas personagens robóticas e os seus cliffhangers a metro – queria fazer um romance filmado sobre as forças que dominam uma cidade. Um romance impiedoso, diga-se: em “The Wire”, todas as personagens (que apareciam, desapareciam, voltavam a aparecer, pelo menos até desaparecerem de vez) estavam pejadas de defeitos, alguns dos quais monstruosos, e por vezes quase que tínhamos a impressão que as personagens se submetiam à série, não subiam acima da série, porque estavam ali para demonstrar a tese central da série: que quase nenhuma daquelas pessoas deixava alguma vez de ser o produto do ambiente em que crescera.

“The Wire” era o pináculo do realismo – e não deixa de ser admirável que tenha sido uma série assim a criar Omar, um nobre das ruas, nobre mesmo quando despachava um dealer.

Aqui estava um criminoso gay num mundo profundamente machista, que tratava os seus namorados com ternura, que nunca usava violência com civis e que ganhava a vida a roubar traficantes. Era impossível vê-lo chegar a um bairro degradado, com a sua gabardina (na qual escondia a sua fiel chumbeira), e não admirar a insolência, a coragem até, com que Omar desafiava a ordem natural dos territórios do dealanço, como uma espécie de Robin Hood do crack.

Em cada frase, em cada gesto, no simples olhar, Williams conseguia ser de uma frieza imensa, um peão que é mestre em xadrez, inteiro no seu fito de sobreviver sem causar baixas entre os civis, inteiro no seu fito de viver à sua maneira, com as suas próprias regras.

Eia a grande contradição de “The Wire”, que só um grande ator, como Williams, poderia resolver, graças ao seu carisma: na mais realista das séries, a única personagem que se elevava acima das restantes era uma personagem quase improvável, quase irrealista – em suma, mítica.

A personagem, contudo, era baseada num homem que realmente existiu (e que realmente roubava aos dealers, nunca disparando sobre um civil ou roubando um civil); mas Simon, que foi jornalista de giro durante anos em Baltimore, deu-lhe uma volta ao tornar Omar gay. Williams deu-lhe uma volta ainda maior, com o carisma que lhe emprestou. Quando vimos Omar pela primeira vez a beijar, cheio de ternura, um namorado, a cena parecia simultaneamente irreal (um bandido gay terno?) e ao mesmo tempo lógica, porque Williams habituou de tal forma Omar que este pareceu ter sempre a temperatura certa.

“The Wire” nunca se mostrou muito interessado em psicologizar demasiado as personagens, o que em certos casos concedeu a estas uma aura de mistério — não sabemos bem o que aconteceu para Omar ser assim, embora uma curta prequela à personagem, incluída nos DVDs da série, nos mostre o pequeno Omar a apontar a arma ao irmão e obrigá-lo a devolver o produto de um roubo a um civil; o que sabemos é que Omar estava plenamente consciente das consequências do que fazia: “The game is the game” ou “It’s all in the game”, eram duas das frases que repetia, explicando que sobrevivia um dia de cada de vez.

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Havia em Michael K. Williams uma fragilidade, uma nobreza na dor que só os melhores atores conseguem transmitir

Getty Images

Omar sabia que era um peão, como todos os outros, num xadrez incompreensível em que todos tentam garantir vantagem sobre todos e que a qualquer momento podia ser eliminado. Num dos momentos mais memoráveis da série, quando Omar se senta no tribunal para acusar um dos dealers que a série segue, o advogado de defesa do dealer tenta diminuir a sua credibilidade, apontando o facto de ele andar por aí de chumbeira em punho a despachar dealers.

“Tu tens a tua pasta, eu tenho a minha arma”, é a resposta de Omar. Isto pode soar cínico mas é, acima de tudo, realista: do ponto de vista de Omar, se um advogado ganha a sua vida a defender criminosos (dos que não perdem um segundo a despachar um civil), então que diferença há entre o advogado e ele, Omar, com a sua chumbeira? Ou, colocando as coisas nos termos que a série sub-repticiamente nos ensina a colocar: tanto a arma como a pasta podem ser armas letais, depende é de quem as usa e de como as usa.

“Um homem tem de ter um código de honra”, dizia, um episódio antes, quando aceita sentar-se no banco dos réus (para servir de testemunha ocular a um crime a que não assistiu, fazendo-o por vingança e porque para ele os dealers eram lixo): parece quase uma piada, tendo em conta que Omar também mata, mas este tipo de frases obrigava-nos a tentar imaginar que pathos carregaria uma pessoa assim – se eu tivesse nascido num bairro como o de Omar, a ser ensinado a roubar e empunhar uma arma desde tenra idade, a saber que a minha vida estava em jogo desde tenra idade, conseguiria ter a nobreza de não ser dealer e só roubar dealers, poupando os civis que a maior parte dos dealers não poupavam? Teria eu ainda amor para dar ao meu namorado e a coragem de me assumir gay como Omar, e de, deixando um rasto de inimigos, levar a minha adorada avó todos os domingos à missa?

Não sabemos que pathos moveria uma pessoa assim, tal como é impossível saber que desespero moraria em Michael K. Williams, o ator que transformou Omar num dos grandes anti-heróis da contemporaneidade.

Em cada uma destas frases, em cada gesto, no simples olhar, Williams conseguia ser de uma frieza imensa, um peão que é mestre em xadrez, inteiro no seu fito de sobreviver sem causar baixas entre os civis, inteiro no seu fito de viver à sua maneira, com as suas próprias regras. Talvez fosse a cicatriz que lhe atravessava o rosto (e que era real) a conceder-lhe uma espécie de autoridade; talvez fosse o orgulho com que impunha a sua gayness num mundo de machos – de certa forma, ele acabava por representar todos os machos que não haviam nascido para serem alfas, todas as pessoas que tiveram de lutar para se impor nesta pequena selva.

Não sabemos que pathos moveria uma pessoa assim, tal como é impossível saber que desespero moraria em Michael K. Williams, o ator que transformou Omar num dos grandes anti-heróis da contemporaneidade.

Idris Elba tornou-se uma estrela, Williams sucumbiu aos seus demónios – quando morreu, há uma semana, o seu apartamento estava repleto de parafernália para uso de drogas intravenosas, no que terá sido uma sobredose após uma recaída no abuso de estupefacientes.

Williams teve uma infância dura, era um sobrevivente de abuso sexual infantil (o que o deixou confuso sobre a sua sexualidade durante muitos anos), cresceu nas ruas a praticar crimes menores, completamente enterrado em coca, até encontrar na dança (na qual não teve qualquer formação) uma forma de se sustentar (entrando em vídeos de Madonna, entre outros).

[Michael K. Williams fala sobre o papel de “Omar Little” no programa de Stephen Colbert:]

A depressão foi uma constante na sua vida, bem como as sucessivas quedas de volta às drogas. Durante as gravações de Wire, confuso acerca da sua identidade (durante toda a vida fora um pária, um rejeitado, um abusado e agora era endeusado) caiu de tal forma no consumo que um dia entrou numa igreja e pediu ao padre para o salvar (o padre não fazia ideia de quem ele era, mas ajudou-o).

A carreira de Williams não se resume ao Omar de “The Wire” – há o Albert “Chalky” White de “Boardwalk Empire”, o Freddie Knight de “The Night Of”, papéis em séries dolorosas como “When They See Us The Road”, em bom cinema (“Inherent Vice”, “12 Years a Slave”), mas também em remakes de “Robocop” ou “Ghostbusters”. O que ele alcançou, nos seus melhores momentos, foi uma nova forma de mostrar a masculinidade, fosse quando desempenhava uma personagem gay ou não (Williams nunca se assumiu como gay e deixou um filho): havia nele uma fragilidade, uma nobreza na dor que só os melhores atores conseguem transmitir.

Mas não vale a pena fingir: Omar é o seu magnum opus e durante umas temporadas Williams fez-nos acreditar que era possível, até ao mais frio dos assassinos, ter um código de honra e, mesmo condenado a uma vida no outro lado da legalidade, discernir entre o bem e o mal — ou, pelo menos, escolher o menos horrível dos males.

Que Michael K. Williams tenha agora descanso.

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