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MICHAEL M. MATIAS /OBSERVADOR

MICHAEL M. MATIAS /OBSERVADOR

"Os cirurgiões não gostam de admitir os seus próprios erros"

Aos 66 anos, Henry Marsh operou perto de 500 doentes acordados. Muitas vezes correu mal. O neurocirurgião explica como é fácil errar e que o importante é aprender com os erros e ser honesto.

Admitir que se cometeu um erro nunca é fácil, muito menos para alguém como Henry Marsh. Mas o conceituado neurocirurgião britânico, — a quem os doentes atribuem superpoderes dignos de “deuses” — fá-lo, sem problemas e sem medos.

Neurocirurgião desde 1987, Henry Marsh já operou perto de meio milhar de pacientes só com recurso à técnica da qual é pioneiro — cirurgia com o paciente acordado. Reformou-se no ano passado, mas não abandonou o bloco operatório. Nos últimos anos tem-se dedicado sobretudo ao cancro. Esteve em Lisboa, no final da semana, a apresentar o seu livro “Não Faças Mal”, e o Observador falou com ele.

Esta é uma entrevista com um médico que faz questão de dizer que é humano. E que, como humano que é, tem sentimentos e comete falhas. Henry Marsh lembra que o importante é aprender com os erros e que na relação entre médico e doente é fundamental que haja confiança, mas que os doentes também têm de perceber que os médicos são falíveis.

Henry Marsh, medicina, 2016, marlene carriço, sociedade,

Henry Marsh começou por se licenciar em Política, Filosofia e Economia. Só depois enveredou pela medicina (MICHAEL M. MATIAS/OBSERVADOR)

Porque decidiu ser médico, especificamente, neurocirurgião?

Originalmente estudei Política, Filosofia e Economia, na Universidade de Oxford. Ao fim de dois anos abandonei o meu curso para trabalhar como auxiliar num hospital no norte da Inglaterra. Foi então que decidi tornar-me médico. Tive muita sorte que a Universidade de Oxford me tivesse aceitado de volta e esforcei-me muito durante um ano para terminar o curso que tinha interrompido, o que me permitiu depois entrar na Royal Free Medical School, em Londres. Eu queria ser cirurgião, mas, na realidade, quando me tornei médico não gostei, era aborrecido. Tinha a ideia de que ser médico envolvia usar as mãos e o cérebro — eu sempre gostei muito de usar as minhas mãos –, mas achei a cirurgia tão malcheirosa e nojenta… Só por acaso tive a oportunidade de ver uma operação a um aneurisma e ajudar. E percebi imediatamente o que queria fazer. Foi terrivelmente excitante, minucioso, perigoso. Despertou o meu sentido de drama e de vaidade. Mas também foi algo de muito bonito.

Bonito?
Sim. Pode sê-lo, uma operação a um aneurisma, porque estamos dentro do cérebro. Mas também é muito assustador e emocionante, porque a qualquer momento o aneurisma pode rebentar, como uma bomba. E se acontecer é, normalmente, desastroso para o doente. Mas foi amor à primeira vista. Eu soube imediatamente que era o que eu queria fazer. Então decidi que ia especializar-me em neurocirurgia. E nunca me arrependi, apesar de ser muitas vezes horrível, porque é muito perigoso. Acabamos por carregar um grande fardo, uma grande culpa. Mas temos de aceitar isso e aprender a viver com isso. Os triunfos não seriam triunfos se não houvesse desastres. Se as operações fossem sempre seguras não seriam especiais. Então temos de aceitar que existirão maus momentos e que teremos de dar o nosso melhor para ajudar o paciente e a sua família. Apesar de ser muito difícil, às vezes.

"Os triunfos não seriam triunfos se não houvesse desastres. Se as operações fossem sempre seguras não seriam especiais."

Como é ter nas mãos a vida de alguém, e saber que se está a mexer nas suas emoções, memórias e pensamentos?

Sinto-me muito importante. Mas depois pago um preço muito grande, porque muitas vezes as operações são mal sucedidas e podemos fazer mal aos doentes. É por isso que o livro se chama “Não faças mal”. É uma piada irónica inglesa. Porque nós temos de fazer mal, temos de magoar alguns doentes para conseguir ajudar outros. Não devemos esquecer os pacientes que magoamos. Muitos médicos tendem a “varrê-los para debaixo do tapete”, a esquecê-los. Mas é muito importante não os esquecermos porque, como em tudo na vida, nós aprendemos mais com os erros. O sucesso não nos ensina nada. O problema com a medicina, em específico na cirurgia, e na cirurgia ao cérebro, é que os nossos pacientes pagam um preço terrível pelos nossos erros. E as consequências dos nossos erros são horríveis.

O que sente quando a operação corre mal?

Quando era mais novo e me tornei médico especialista sentia-me terrível durante semanas. Assustado, ansioso, culpado. Passados todos estes anos continuo a sentir-me assustado, ansioso e culpado, mas apenas por poucos dias. Aprendemos a lidar com isso. E o importante é discutir com os colegas e os médicos internos para eles aprenderem com os meus erros, assim como eu aprendo. Mas é difícil para os cirurgiões. Nós não gostamos de admitir os nossos próprios erros. É um grande desafio para nós sermos honestos.

"Nós [cirurgiões] não gostamos de admitir os nossos próprios erros. É um grande desafio para nós sermos honestos."

E qual é o maior desafio desta profissão?

É precisamente ser honesto na tomada de decisão. A operação, em si, na verdade, não é difícil. Tudo se resume a mãos firmes. Quando começamos a operação temos de terminá-la. O problema está antes, está na decisão. Saber quando devemos operar ou não. Os erros ocorrem sempre no momento da decisão.

E porque é tão difícil tomar a decisão?

Porque, para recomendar uma operação, temos de dizer quais são os riscos da operação, quais são os riscos de não operar, e temos de chegar a uma conclusão. Mas, muitas vezes, nós não sabemos exatamente quais são os riscos. Os cirurgiões são notoriamente maus em ser honestos em relação aos riscos. Muitas vezes somos desonestos connosco próprios. Somos sempre otimistas e esperamos o melhor. Como se diz em Inglaterra: demoramos três meses a aprender a operar, três anos a aprender quando devemos operar e 30 anos a aprender quando não devemos operar. Todos nós queremos operar. Como se diz em inglês, para um homem que tem um martelo tudo lhe parece um prego. E nós adoramos operar. Nós não nos tornamos cirurgiões por causa do desejo de ajudar a humanidade. Tornamo-nos cirurgiões porque adoramos a excitação de operar. Mas operar é excitante porque nos preocupamos com os doentes.

Henry Marsh, medicina, 2016, marlene carriço, sociedade,

Henry Marsh percebeu, mal assistiu à primeira operação ao cérebro, que era o que queria fazer (MICHAEL M. MATIAS/OBSERVADOR)

Mas a decisão está sempre nas mãos do doente, certo?

Em teoria sim. Mas a decisão do doente é normalmente determinada pelo que o cirurgião diz.

Os médicos são sempre honestos com os pacientes?

Nem sempre. Porque se é para operar um paciente que tem cancro, e sabemos que ele vai morrer, ainda assim operamos. Nunca devemos retirar-lhes a esperança. Temos de fazer um balanço entre dizer-lhes a verdade, mas não toda a verdade. Pode ser muito difícil. Se eu sei que um doente enfrenta uma morte horrível, que vai cegar, que o cérebro vai falhar, será que vale a pena contar-lhe esta verdade tão detalhada? Por isso, às vezes, temos de proteger os doentes da verdade.

"Como se diz em Inglaterra: demoramos três meses a aprender a operar, três anos a aprender quando devemos operar e 30 anos a aprender quando não devemos operar."

Como se sente quando entra no bloco operatório?

Sinto-me sempre ansioso, como alguns atores famosos com um estranho medo do palco. Às vezes sinto-me muito nervoso. E a linha entre a ansiedade e a excitação é muito ténue.

E quando termina a operação, qual é a sensação? Cansaço?

Falar com os doentes, conhecê-los e pôr-me no lugar deles é muito mais cansativo do que operar. Operar é excitante e refrescante.

Mesmo quando a operação corre mal?

A gestão de uma operação que corre mal começa quando conhecemos os doentes e as famílias, antes da operação. Quando temos de criar uma relação de confiança. E temos de dedicar algum tempo a isso. Temos de ouvi-los e nunca lhes dar sermões. Eu vou sempre visitar os meus doentes na noite anterior à operação porque eles adoram e por egoísmo. Porque se as coisas correrem mal na operação, a relação sobrevive. Se for querido e simpático para os doentes, se as coisas correrem mal, será mais fácil para mim porque a família continuará a confiar em mim.

É fácil cometer erros durante uma operação ao cérebro?
Não. É muito difícil cometer erros físicos. O erro está sempre na tomada de decisão. Se uma operação correu mal é porque, provavelmente, nunca deveria ter sido feita.

"Se for querido e simpático para os doentes, se as coisas correrem mal, será mais fácil para mim, porque a família continuará a confiar em mim."

Toda a gente comete erros. Porque acha que se desculpa menos o erro médico?

Porque resulta em danos horríveis para os doentes, que podem mesmo ser irreversíveis. As pessoas ou morrem ou saem da operação muito incapacitadas. E por isso é que eu escrevi este livro. A confiança cega dos doentes em relação aos médicos corrompe-os. Porque lhes dá demasiado poder. Alguns pacientes olham para os médicos como se fossem deuses e isso torna os médicos arrogantes. Por outro lado, se o paciente perceber melhor as limitações dos médicos torna-os melhores.

Cometeu muitos erros na sua carreira? E qual o maior?

Há três anos quando estava a trabalhar no meu livro tentei lembrar-me de todos os meus erros e analisá-los. E é muito difícil, porque quanto mais pensava mais me lembrava e, como não escrevia na hora, acabava por me voltar a esquecer.

É mais fácil esquecer.
Sim, é mais fácil. E honestamente não me lembro de todos os meus erros. Uma parte importante da cirurgia é ensinar os futuros cirurgiões [os internos]. Temos de decidir qual o grau de participação dos internos numa operação e no passado cometi sérios erros. Calculei mal a capacidade deles. Porque achava que, por serem bons rapazes, iam ser bons cirurgiões. É o chamado “efeito halo [auréola]”, que nos torna demasiado otimistas. Não é porque uma pessoa é boa num determinado aspeto que é forte nos restantes. A conclusão a que cheguei é que a relação com os colegas é fundamental para se ser um bom cirurgião. Que sempre me ajudaram a evitar cometer erros.

Há erros e erros. Que erros são desculpáveis e quais os que devem ser punidos?

Quando se está no meio de uma batalha não se consegue pensar como um advogado. Eu próprio fui descuidado. Eu não queria fazer mal, mas nós cometemos erros descuidados e fazer de conta que esses erros não existem é mais perigoso do que admitir que os cometemos. Não estou a dizer que os médicos não devem ser punidos. A questão é se a punição vai tornar o médico melhor. Se formos mais abertos e honestos em relação aos erros que cometemos aprendemos com eles. Se vivermos numa cultura de castigo é óbvio que as pessoas tendem a escondê-los. Nós não queremos deliberadamente magoar os doentes, mas nós somos seres humanos falíveis. A questão de punir os médicos é muito escorregadia.

Henry Marsh, medicina, 2016, marlene carriço, sociedade,

O neurocirurgião diz que é muito difícil os médicos serem honestos e admitirem os erros (MICHAEL M. MATIAS/OBSERVADOR)

Em Portugal, um jovem de 29, com um aneurisma roto, entrou num hospital a uma sexta-feira e ficou a aguardar por cirurgia até segunda-feira. Acabou por morrer antes disso. Isto é um erro médico?

Em Inglaterra essa é a prática. Nós não temos recursos para operar aneurismas ao fim de semana. É uma questão de recursos. Se estivéssemos na América, onde se gastam vastas quantias de dinheiro no sistema de saúde, poderíamos operar 24 horas por dia, sete dias por semana. É terrível para os doentes que morrem, mas não significa necessariamente um erro médico. O risco de uma segunda hemorragia nos anos seguintes pode ser muito alto, mas, normalmente, esperar dois ou três dias não fará mal. Em Inglaterra não é tratado como uma operação de emergência. A questão é: se o hospital não está bem equipado para operar ao fim de semana, deve o médico ser culpado ou, na verdade, a falha não é dele? Isto começa a ser um problema crescente, em particular na Inglaterra, onde o Serviço Nacional de Saúde está a perder fundos orçamentais. Eu tenho de tomar decisões, que são ditadas pela falta de recursos, mas a culpa é minha se o paciente vier a sair magoado. Há aqui um desfasamento entre a responsabilidade e a autoridade. Qualquer erro que seja cometido num hospital, por qualquer pessoa, um enfermeiro, um auxiliar, um cirurgião, há um dever do médico sénior pedir desculpa ao paciente e à família. Os médicos têm cada vez mais responsabilidade e menos autoridade. E isso deixa-os frustrados e zangados.

"A questão é: se o hospital não está bem equipado para operar ao fim de semana, deve o médico ser culpado ou, na verdade, a falha não é dele?"

Alguma vez admitiu aos seus pacientes que estava errado ou que tinha cometido um erro?
Sim.

Sempre?
Fi-lo mais vezes à medida que fui ficando mais velho. Para admitires que cometeste erros e que foste fraco tens de ser muito forte. Quando era um jovem consultor sentia-me mais intimidado e tinha maior dificuldade em admitir que tinha cometido erros.

E qual foi a pior coisa que alguma vez um paciente lhe disse?
Já disse há pouco que não é muito usual ter feedback dos pacientes. Quanto muito cartas de advogados meses ou até anos mais tarde. Tenho milhares de cartas a dizer “obrigada”, não muitas a mandarem-me “to fuck off“. Às vezes recebo cartas a acusarem-me de ser arrogante para as pessoas, desinteressado e insensível. E talvez tenham razão. Talvez tenha estado mal com aqueles doentes em particular e as suas famílias. Isso magoa-me profundamente, mas é bom pois se não me magoasse talvez não seria um bom médico. Mas eu orgulho-me sempre por não me ter deixado iludir. Gosto de pensar que era bom a falar com os doentes, em parte por causa da minha experiência, quando o meu filho teve um tumor no cérebro, antes de me ter tornado neurocirurgião.

Isso mudou a sua visão?
Provavelmente sim. E por isso, num sentido, considero mais doloroso ser acusado de ter falado mal do que de ter operado mal.

Porque decidiu escrever este livro?
Eu sempre gostei de escrever.

Mas porquê este livro em concreto?
Há quem diga que é uma confissão. Mas eu não usaria essa palavra. Eu quis escrever para mim próprio, é como se fosse o meu diário reformulado. Eu só queria escrever um relato preciso e honesto do que é na verdade ser médico. Porque senti nos últimos anos que os médicos são cada vez mais tratados como um negócio. A relação entre médico e paciente não está muito longe da relação entre um advogado e o seu cliente ou uma ida ao supermercado. E isso é um erro. Há ainda alguma coisa especial na relação entre pacientes e médicos, em ambos os sentidos. O dever do médico de tratar o doente tão bem quanto possível, mas também o dever do doente ser realista naquilo que espera do médico. Eu quis restabelecer a importância da relação do médico com o paciente.

Henry Marsh, medicina, 2016, marlene carriço, sociedade,

Em “Não Faças Mal”, Henry Marsh fala sobre medo, culpa, erros e o lado humano da medicina (MICHAEL M. MATIAS/OBSERVADOR)

Mas este livro expõe as fraquezas, dúvidas e fragilidades dos cirurgiões. Não acha que seria melhor as pessoas continuarem a não saber, de maneira a poderem continuar a confiar?
Como se pode confiar num médico se ele não é honesto? Se os doentes quiserem ser como crianças e olhar para os médicos como uma figura paterna é justo, mas não haverá progresso.

O que sentiu quando o seu livro se tornou um bestseller?
Fiquei contente. Não esperava que fosse traduzido em 22 línguas em todo o mundo. Eu sabia que estava a escrever algo fora do comum, mas estava muito incerto de como seria recebido pelos outros médicos, principalmente na América. E se eles não gostaram, não me disseram. Mas não estava honestamente à espera. Foi muito bom.

Os seus colegas deram-lhe os parabéns?
Não. Eles são ingleses. Mas gosto de pensar que estão contentes com o livro. Acho que devem estar um bocado envergonhados, não falam comigo sobre o livro.

Dr. René Leriche escreveu um dia, como repete no seu livro, que “todos os cirurgiões trazem dentro de si um pequeno cemitério onde vão rezar, de tempos a tempos”. Também tem o seu próprio cemitério?

Sim.

Este livro é o seu cemitério?

É uma pequena esquina do cemitério. Porque quantos mais anos operamos, mais túmulos aparecem. Mas é natural. E o importante é aprender com os maus resultados e aprender a diferença entre azar e má avaliação.

"Eu só queria escrever um relato preciso e honesto do que é na verdade ser médico."

E consegue ir para casa e não pensar no trabalho, nem nos pacientes?
Não. Foi essa uma das razões que levou ao fim do meu primeiro casamento. Estava disponível sete dias por semana. Com a idade tem melhorado, mas isto é constante. O bom de estar reformado é não nos sentirmos permanentemente ansiosos.

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