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Os Emmys vistos do sofá: há aqui qualquer coisa errada, mas eu ainda quero a minha TV /premium

Na noite em que a “Guerra dos Tronos” provou que se podia ganhar perdendo tudo, os Emmys mostraram que isto se faz bem sem apresentador e que a televisão que nunca foi tão boa como depois de morta.

Olá, o meu nome é Alexandre e não acho o Netflix uma coisa assim tão extraordinária. Nem a HBO. Nem que haja assim tantas séries tão incríveis como se diz.

Na noite em que a Academia de Artes e Ciências da Televisão se junta para atribuir os Emmys pela 71ª vez, talvez valha a pena começar por aí. O cinema anda pela rua da amargura, entre boas ideias sem dinheiro e muito dinheiro sem ideias, ao passo que a ficção televisiva vive anos de fulgor, mas respiremos fundo. Uma pessoa anda agora pela vida a desviar-se dos nomes de séries que lhe arremessam (“já viste isto? Tens de ver isto! Não viste? Não sabes nada! Já viste a segunda temporada? E o episódio 5? Tens de ver, tens de ver, tens de ver!”). Sentimo-nos tão moralmente obrigados a ver tudo o que nos recomendam que arranjamos à força o tempo para nos sentarmos em frente ao ecrã. Deixamos de ir visitar o avô ao lar, de levar o puto à ginástica, de ler o Proust, de caprichar nas limpezas de sábado, roubamos uma hora directamente ao sono para ficar a ver o tal episódio que nos colocará no mesmo patamar de desenvolvimento que a restante humanidade, aquela-série-que-temos-absolutamente-de-ver-como-é-que-ainda-não-vimos?-e-que-é-muito-melhor-que-a-outra-é-que-nem-se-compara-tu-não-brinques.

E qual é o resultado? Não tão poucas vezes assim, algo decepcionante. “Stranger Things” e “A Casa de Papel” serão mesmo obras assim tão extraordinárias? Donde veio o fascínio pela “Boneca Russa”, ao certo? “Chernobyl”, a melhor série de sempre? Por favor. Três episódios esquemáticos mais dois muito bons e o mérito de conseguir passar cenas inteiras a explicar física nuclear e, mesmo assim, não nos deixar desistir – só isso. E não é pouco.

Mesmo assim, a cerimónia desta noite no Microsoft Theatre estará longe de se poder considerar representativa de toda essa televisão tão aclamada de agora. É que os Emmys distinguem apenas “os melhores programas de televisão no horário nobre dos Estados Unidos exibidos no período de 1 de Junho de 2018 a 31 de Maio de 2019” e têm tantas regras – e mudam-nas tanto de ano para ano – que esta edição deixa de fora “The Crown”, “Stranger Things” ou “Westworld”, entre outros, cria absurdos como “The Handmaid’s Tale” estar representada não pela última temporada, mas pelos três últimos episódios da temporada anterior (e que já foi distinguida pelos Emmys) e redunda num catálogo de categorias que tenta ser tão específico que quase mata toda a excitação. Ninguém pode sair de lá a dizer que foi o melhor actor, por exemplo; foi “o melhor actor secundário numa série limitada ou telefilme”. Ou a “melhor actriz convidada numa série de comédia”.

E, enquanto pensamos em bons nomes para futuras categorias (melhor actor principal com menos de um metro e setenta numa série pretensamente histórica envolvendo animais míticos. Ou: melhor actriz caucasiana numa série longa emitida às quintas-feiras não abertamente cómica), sentamo-nos para redescobrir que temos na box um canal chamado SIC Caras e acompanhar tudo, a par e passo. Mas deixemos desde já lavrado em acta que estaremos a torcer pelas duas magras nomeações de “O Método Kominsky”, contra as 32 recorde da temporada final de “A Guerra dos Tronos”.

01h00: Começa a cerimónia. Sem apresentador, que é a moda inaugurada pelos Óscares. E a maneira como o espírito do tempo resolve um drama: para não ser acusado de não ter escolhido um homem, ou uma mulher, ou um homossexual, ou um heterossexual, ou um transexual, ou um negro, ou um branco, ou um indiano, ou um animal, ou um bambu anão, escolhe simplesmente não escolher.

01h01: Há que reconhecer, no entanto, que os Emmys se safaram muito bem. Homer Simpson (“alguém” tudo menos politicamente correcto) começa a apresentar o espectáculo, dirigindo-se a todos os que perderam a esperança nos seus sonhos: se ele conseguiu triunfar, toda a gente consegue. Até que lhe cai um piano em cima. Anthony Anderson assume as rédeas e pula para os bastidores, em busca de uma alternativa (“este é demasiado negro, este é demasiado branco”…), até passar o testemunho a um Bryan Cranston cheio de gravitas (e de gamar alguns Emmys para a bolsa da mãe).

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01h04: Bryan Cranston faz o elogio da televisão, num tempo em que outros diriam estar morta. Parte dos 50 anos da chegada à Lua para falar do seu poder, dos milhões de pessoas que, graças a ela, pisaram a Lua em directo, com Neil Armstrong. Cranston tinha 13 anos e percebeu, então, que graças à televisão, poderia ser quem quisesse, ir aonde quisesse – “até Albuquerque”. Passa por Winterfell, o Upside Down, o paraíso e até as casas de família onde acontecem alguns dos nomeados deste ano, para terminar, em choque frontal o nosso argumento de abertura, declarando que: “A televisão nunca foi tão grande, nunca importou tanto, nunca foi tão boa”. Mas ele é o Bryan Cranston. Ele tem razão.

01h09: Primeiro Emmy: Tony Shalhoub, em “The Marvelous Mrs. Maisel” (Amazon), é o melhor actor secundário numa série cómica. Que é como quem diz, isto ainda agora começou e já perdemos metade dos nossos favoritos. Alan Arkin, o seu Norman Newlander de “The Kominsky Method” (e a próstata de ambos, claro).

01h19: Segundo Emmy, segundo prémio para “The Marvelous Mrs. Maisel”: Alex Borstein é a melhor actriz secundária numa série cómica e faz um discurso que é uma pérola da concisão e do alcance: como é que alguém que começa por partilhar que não tem roupa interior, acaba a arrepiar uma sala, três frases depois, recordando a avô que sobreviveu ao holocausto e escapou ao fuzilamento por ter simplesmente saído da linha, gritando à sala: “So, step out of line, ladies! Step out of line!”

01h23: Melhor argumento numa série cómica: Phoebe Waller-Bridge, “Fleabag” (Amazon/BBC), subindo assim para duas o número das séries premiadas e, portanto, das séries-incríveis-que-ainda-não vimos-e-temos-mesmo-de-ver.

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01h32: Melhor realização numa série cómica: Harry Bradbeer. Outro para “Fleabag”.

01h34: Maya Rudolph e Ike Barinholtz, num bit magnífico, vêm entregar o prémio seguinte dizendo que acabaram de fazer uma operação laser aos olhos. Teve de ser hoje porque era o único dia em que havia vaga (já que os pacientes estão todos na entrega dos Emmys, presume-se). Entre muitas dificuldades na leitura do teleponto, anunciam os nomeados para “Best Actor in a Comedy Series”. Ou melhor: “Here are the nimrods for dead ascots in a chocolate staircase…”

01h36: Melhor actor numa série cómica: Bill Hader, “Barry” (HBO). E lá se foi Michael Douglas, “O Método Kominsky” e a segunda metade dos nossos preferidos. A partir daqui, isto é como a Liga dos Campeões depois da fase de grupos: tudo muito giro, mas o Benfica já foi.

01h42: Jimmy Kimmel e Stephen Colbert, noutro bit precioso, brincam com a falta de um apresentador. “Qualquer dia, é a Alexa que anuncia os vencedores”. E, imediatamente, a voz de Alexa chega-se à frente para dizer que:

01h44: Phoebe Waller-Bridge, de “Fleabag”, volta para receber um Emmy, agora por melhor actriz numa série cómica.

01h46: Vamos para a parte “reality” do serão e entram as Kardashians. Que a família Kardashian represente o que é supostamente a “realidade”, é uma ironia requintada.

01h48: “RuPaul’s Drag Race” (VH1) é o Melhor Programa de Competição. Se eles dizem, quem somos nós para duvidar. E já não é a primeira vez.

01h56: O elogio da “Guerra dos Tronos”. Sala de pé para receber o elenco principal. “It will be missed”, diz-se. E, apesar dos pesares, será. Claro que será. Colocou a fasquia da televisão noutro nível. Parou o mundo, semana a semana. Entrou directa para a galeria da cultura popular. Há gritinhos na sala quando fala cada actor, como se as estrelas na plateia se convertessem em simples fãs perante as estrelas em palco e que conquistaram, na última década, o direito a pairar sobre as demais. Surpresa: quem recolhe mais gritinhos não é Jon Snow nem Daenerys nem sequer Arya, mas Brienne Gwendoline Christie of Tarth.

O produtor de "Chernobyl" agradece às pessoas de Kiev e da Lituânia, onde aconteceu a maior parte da rodagem. Tem esperança que, no seu modesto contributo, “Chernobyl” nos tenha recordado do perigo da mentira e da importância da verdade.

02h00: E é todo esse elenco – Peter Dinklage com as palavras decisivas propriamente ditas – que entrega o Emmy de melhor actriz secundária numa série limitada ou telefilme a Patricia Arquette por “The Act” (Hulu). Arquette congratula-se por, aos 50 anos, estar a receber os melhores papéis da vida dela. Para logo passar a um discurso pelos direitos dos transexuais, que “ainda são perseguidos, vamos dar-lhes trabalhos e acabar com este preconceito, ele são seres humanos, sabiam?”, que soou a discurso de intervenção instantâneo a que se juntou um pouco de água e mexeu.

02h03: Melhor realização por uma série limitada ou telefilme: Johan Renck, por “Chernobyl” (HBO).

02h10: Dois dos grandes vencedores até agora – Phoebe Waller-Bridge e Bill Hader – vêm entregar o Emmy para melhor actor secundário numa série limitada ou telefilme. E o que é uma série limitada?, perguntam: uma série que foi retirada do ar. Vai para Ben Whishaw, “A Very English Scandal” (Amazon/BBC), que começa o discurso de aceitação por confessar que está ressacado (mais um momento de demasiada informação, depois da falta de roupa interior de Alex Borstein).

02h14: Bradley Whitford e Jimmy Smits, dois grandes da supremamente escrita “West Wing”, vêm entregar o prémio de melhor argumento numa série limitada ou telefilme a Craig Mazin, por “Chernobyl”. Lá está: a justa distinção por conseguir falar de física nuclear sem nos fazer clicar na cruzinha ao canto do ecrã e passar à sugestão seguinte.

02h18: Sala de pé para Jharrel Jerome, melhor actor numa série limitada ou telefilme, por “When They See Us” e batendo duríssima concorrência: Mahershala Ali, Benicio del Toro, Hugh Grant, Sam Rockwell e Jared Harris, (“Chernobyl”). A Netflix sai, finalmente, da seca. E a sala emociona-se com o discurso breve, em honra dos cinco adolescentes negros injustamente condenados por uma violação que não cometeram e cuja história a série recorda.

02h25: James Corden vem entregar a estatueta para o melhor telefilme. Guerra dura entre os três gigantes do streaming: “Bandersnatch” (na verdade, um episódio de “Black Mirror”), da Netflix, “King Lear” da Amazon, “My Dinner with Herve”, “Brexit” e “Deadwood: The Movie”, da HBO. O cerco da HBO não mete medo e “Bandersnatch”/”Black Mirror” arrasa.

02h31: Sala de pé para o elenco de “Veep” (HBO), que, como “A Guerra dos Tronos”, também chegou este ano ao fim da linha, após sete temporadas.

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02h35: Michelle Williams é a melhor actriz numa série limitada ou telefilme por “Fosse/Verdon” (Fx). Um discurso emocionado (e nada instantâneo a que se juntou água e mexeu) pela igualdade de ordenados entre pessoas de géneros e raças diferentes. Sala de pé.

02h37: Jon Hamm e Naomi Watts vem entregar o Emmy para melhor série limitada. Sem surpresa e, provavelmente, com justiça, o envelope diz: “Chernobyl”. O produtor agradece às pessoas de Kiev e da Lituânia, onde aconteceu a maior parte da rodagem. Tem esperança que, no seu modesto contributo, “Chernobyl” nos tenha recordado do perigo da mentira e da importância da verdade.

02h49: Melhor argumento para talk-show/variedades: “Last Week Tonight With John Oliver” (HBO), batendo Jimmy Kimmel, Stephen Colbert ou Trevor Noah.

02h52: Melhor série de sketches/variedade: “Saturday Night Live” (NBC), o recordista mundial no número de Emmys: 66. No ar há 44 anos (rés-vés com “A Praça da Alegria”, portanto).

03h00: Melhor realização numa série de sketches/variedades: Don Roy King, Isto é, mais um para “Saturday Night Live”.

03h02: Melhor talk-show/variedades: quarto Emmy consecutivo para “Last Week Tonight With John Oliver”.

03h12: O chairman da Academia de Artes e Ciências da Televisão entra ao som de “Whatta Man”?! Fala de uma idade de platina na televisão (o ouro já é pouco, pois). E parece responder directamente à nossa introdução: “Quando as dizem ‘Tens de ver isto!’, o que querem dizer é ‘quero partilhar isto contigo’. E que é isso que a televisão faz: ”procurar um território comum.” “Vamos continuar a ver. E a ter esta conversa.” Pronto. Não está cá mais quem falou.

03h12: A grande Viola Davis faz o elogio do drama. Entrámos na galeria dos pesos-pesados da cerimónia. Porque a comédia, apesar de tudo, parece continuar a não gozar do mesmo prestígio. É também o território da “Guerra dos Tronos” e das suas 32 nomeações.

03h12: Sala de pé para o senhor Peter Dinklage. O seu imortal Tyrion Lannister volta a valer-lhe o Emmy para melhor actor secundário (quão discutível é isto?) numa série dramática. A vitória dele significa a derrota de Alfie Allen (Theon) e Nikolaj Coster-Waldau (Jaime), mas tinha de ser. Dinklage sabe coisas – e vai certamente beber a isso.

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03h19: Melhor argumento para uma série dramática: Jesse Armstrong por “Nobody is Ever Missing”, episódio de “Succession” (HBO) bate a “Guerra dos Tronos”.

03h21: Melhor actriz secundária numa série dramática. Em seis nomeações, quatro vêm da “Guerra dos Tronos”. Ganha Cersei, Brienne, Arya ou Samsa? Não, Julia Garner, de “Ozark” (Netflix). Já não se via uma devastação tão grande do elenco de “Guerra dos Tronos” desde que o dragão esturricou King’s Landing no penúltimo episódio.

03h29: Halsey canta “Time after Time” no ‘In Memoriam’. Entre outros, este foi ano em que dissemos adeus a Doris Day, Rutger Hauer, Luke Perry, Peter Fonda, Stan Lee e ao grande Albert Finney.

03h38: Jon Snow perde também este trono. Billy Porter, em “Pose” (Fx) é o melhor actor numa série dramática. Outro discurso poderoso sobre inclusão arrebata a sala.

03h43: Jason Bateman perdeu o prémio de melhor actor, mas ganhou o de melhor realizador numa série dramática por “Ozark”.

03h45: Melhor actriz numa série dramática: Jodie Comer, por “Killing Eve” (BBC/AMC). O que significa que Emilia Clarke, a.k.a., Daenerys Targaryen é agora A primeira de seu nome, Rainha de Westeros, Dos Ândalos, Dos primeiros homens, Protetora dos sete reinos, Mãe dos Dragões, Quebradora das correntes, Mãe dos escravos , Khaleesi dos Dothraki, Rainha de Mereen – e a que ficou a arder nos Emmys.

3h55: Sala de pé para Marisa Tomei e Norman Lear (entre outras coisas, o homem a quem devemos “Uma Família às Direitas”). Vem anunciar que a melhor série cómica do ano é “Fleabag”. Quarto Emmy para “o” vencedor da noite.

Afinal, sempre há um bocadinho de Benfica… Michael Douglas vem entregar o último prémio do serão. Melhor série dramática: “Guerra dos Tronos”. O evoluir da noite chegou a fazer parecer que não seria assim, mas tinha de ser assim.

03h58: Afinal, sempre há um bocadinho de Benfica… Michael Douglas vem entregar o último prémio do serão. Melhor série dramática: “Guerra dos Tronos”. O evoluir da noite chegou a fazer parecer que não seria assim, mas tinha de ser assim. Tinha de ser esta homenagem final e ouvir-se aquela música mais uma vez. Penas os discursos de David Benioff e DB Weiss estarem tão em linha com o que foi a última temporada: um debitar de nomes e mais nada de especial.

04h01: Acaba a noite. Tudo somado? Foram 27 categorias e 17 programas de televisão premiados. A HBO levou 9 Emmys e a Amazon 7 (6 em colaboração com a BBC, que foi buscar o seu próprio 7º com a AMC). A Netflix ficou-se por 4. E nós arranjámos mais onze-séries-absolutamente-incríveis-que-temos-mesmo-de-ver-ou-seremos-proscritos. É isto. E uma pessoa que estava a contar com a velhice para ler o “Ulisses” e o “Guerra e Paz”.

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