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AFP/Getty Images

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Os melhores discos de jazz de 2015

A hegemonia americana continua a estilhaçar-se e o jazz está cada mais multipolar. José Carlos Fernandes assegura que há discos surpreendentes com raízes no Iraque, na Albânia e na Arménia.

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Há poucas coisas mais afastadas da realidade do que a descrição que alguns viajantes e quase todas as revistas e suplementos de viagens/evasões/fugas fazem de New Orleans como o local onde pulsa o verdadeiro espírito do jazz. É verdade que foi aí que o jazz nasceu, há cerca de um século, mas logo foi forçado a migrar Mississipi acima, rumo a Chicago, de onde alastrou para Nova Iorque. Acontece que muito do jazz que é tocado pelas esquinas de New Orleans não passa de uma encenação para turistas, de uma contrafacção de uma relíquia e muito do melhor jazz nova-iorquino é editado por etiquetas europeias e é mais calorosamente recebido do lado de cá do Atlântico do que em casa. Se, em 1960, quase todo o jazz relevante era fruto de músicos americanos e editoras americanas – com predominância esmagadora de Nova Iorque e contributos menores de Los Angeles e Chicago – hoje o panorama é bem diverso.

O jazz não tem parado de evoluir, de disseminar sementes, de hibridar-se, de lançar raízes em terras distantes, fazendo com que o conceito de mundo unipolar, em que os EUA eram a hiperpotência do jazz e a “nação indispensável” (para usar a expressão de Hillary Clinton), se tenha tornado obsoleto.

[Veja aqui as capas dos álbuns recomendados neste artigo]

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Crisis, de Amir ElSaffar & Two Rivers Ensemble

Num ano em que a actualidade internacional de 2015 foi dominada pela tragédia sem fim à vista no Iraque e na Síria, pelas atrocidades do ISIS e suas sucursais e pela turbulência no Médio Oriente no rescaldo sombrio das Primaveras Árabes, Crisis (Pi Recordings), de Amir ElSaffar & Two Rivers Ensemble, mereceria destaque por a sua inspiração provir destes eventos (como é perceptível em títulos como “The great dictator” e “The people”). Mas acontece que o disco é, ao mesmo tempo, uma obra-prima intemporal.

O trompetista Amir ElSaffar nasceu em 1977 em Chicago, de pai iraquiano e mãe americana, e embora a sua linguagem primordial seja o jazz e a sua base de operações seja Nova Iorque, os dois rios no Two Rivers Ensemble não são o Hudson e o East River mas o Tigres e o Eufrates. Os aturados estudos de música árabe, e em particular do maqam, o sistema de modos em que aquela assenta, levados a cabo por ElSaffar em Londres e no Iraque, confluíram com o seu background jazzístico e influências de música de câmara.

Embora os outros projectos em que ElSaffar está envolvido também incorporem, em maior ou menor medida, a sua paixão pela música árabe, é no Two Rivers Ensemble que a fusão dos dois universos atinge a mais completa expressão. Se Two Rivers (2006) e Inana (2011) já eram dois magníficos exemplares do “jazz mesopotâmico”, Crisis representa um grau de refinamento superior, com um trabalho de composição e arranjos cuidado e inventivo, que gera uma riquíssima paleta de cores e texturas. A equipa é a mesma de sempre e alia músicos e instrumentos de ascendência árabe – Zaafir Tawil, em buzuq, e Tareq Abboushi, em oud e percussão – a jazzmen americanos – Carlo DeRosa, em contrabaixo, e Nasheet Waits, em bateria – e europeus – o norueguês Ole Mathisen, em saxofone (que rendeu Rudresh Mahanthappa no ensemble após o primeiro disco), com ElSaffar a repartir-se entre a trompete, a voz e o santur, um instrumento de cordas percutidas originário da Pérsia e afim do saltério.

Não há no Two Rivers Ensemble nada do orientalismo de bilhete postal típico de muitas experiências multiculturalistas bem intencionadas mas superficiais, antes uma perfeita mistura das águas dos dois grandes rios do Ocidente e do Oriente, produzindo uma síntese que só tem par na obra do alaúdista libanês Rabih Abou-Khalil.

[Amir ElSaffar apresenta Crisis]

Mockroot, de Tigran Hamasyan

As raízes do pianista Tigran Hamasyan estão um pouco a norte do Iraque: nasceu, em 1987, em Gyumri, na Arménia, começou a tocar piano aos três anos, a estudar jazz aos nove e a fundir jazz e música tradicional arménia a partir da adolescência. Aos 19 anos lançou o primeiro disco, World passion, e tem vindo a produzir uma discografia de nível irregular, onde se casam jazz, pop, rock, metal e música arménia. A amplitude dos seus interesses e talentos está bem patente nos discos lançados em 2015: Luys i luso (ECM), com arranjos para coro e piano, de sua lavra, de cânticos litúrgicos arménios, e Mockroot (Nonesuch), em trio com o americano de origem iraniana Sam Minaie (baixo eléctrico) e o suíço Arthur Hnatek (bateria), uma obra em que os crescendos épicos do prog rock, a rítmica intricada do math rock, a potência e alta temperatura do metal, as pungentes melodias arménias e um pianismo atlético, atingem um equilíbrio improvável. Quem associe jazz a música de fundo suave e embaladora, apropriada à degustação de bebidas espirituosas de provecta idade, se confrontado com uma faixa como “Entertain me” melhor fará em pôr a garrafeira a salvo.

[“Entertain me”, pelo trio de Tigran Hamasyan]

Silk moon, de Renaud García-Fons & Derya Türkan

Silk moon (E-Motive) pelo duo Renaud García-Fons & Derya Türkan é outro fascinante encontro entre Ocidente e Oriente, envolvendo dois mestres da improvisação e das cordas friccionadas. O turco Derya Türkan toca kemançe, um instrumento de arco de origem iraniana, aparentado com o rebab, o francês Renaud García-Fons toca um super-contrabaixo de cinco cordas do qual, recorrendo a arco e dedos e com a ajuda de pedais e loops, é capaz de fazer a vez de todo um quarteto de jazz.

Silk moon saiu em França no final de 2014, mas só chegou ao resto do mundo no início de 2015, pelo que é justo incluí-lo no balanço deste ano. Mas há outra razão para “puxar” este disco para 2015: num ano em que o Mediterrâneo se tornou numa fronteira marcada pela tragédia, é consolador ver o mesmo mar a servir de união entre géneros musicais tão afastados como o cante jondo andaluz e a tradição musical turca. Mais uma vez, não há aqui nada de multiculturalismo de pacotilha, ou não fossem estes dois músicos profundos conhecedores das tradições musicais dos povos mediterrânicos.

[Silk moon, por Renaud García-Fons & Derya Türkan]

Dallëndyshe, de Elina Duni

Sem sair da esfera do antigo Império Otomano, temos Dallëndyshe (ECM), o terceiro disco do quarteto da albanesa (radicada na Suíça) Elina Duni, que prossegue, na senda de Lume Lume (2010, Meta Records) e Matanë Malit (2012, ECM), o nobre ofício de transformar canções tradicionais albanesas em jóias inclassificáveis. Boa parte do mérito está no trio de cúmplices suíços: o pianista Colin Vallon e o contrabaixista habitual do seu trio, Patrice Moret, e o baterista Norbert Pfammatter, que urdem uma delicada teia sonora em torno das melodias repassadas de melancolia que falam de amor, exílio, separação e saudade. O despojamento e rigorosa economia do trio instrumental contribuem para pôr em destaque a voz de Duni, belíssima, ágil e tão expressiva que nem é necessário saber albanês para que nos comovamos com ela.

[“Sytë”, pelo Elina Duni Quartet]

Untold stories, de Shai Maestro

Untold stories (Continuité du Torrent) é o terceiro disco do trio do jovem pianista israelita Shai Maestro, sempre com o contrabaixista peruano Jorge Roeder e o baterista israelita Ziv Ravitz, tudo músicos com base de operações em Nova Iorque. O entrosamento do trio é telepático, a música pode ser lírica e meditativa ou agigantar-se em crescendos épicos que evocam o prog rock. As afinidades com o trio do contrabaixista Avishai Cohen – e em particular com o incendiário Gently disturbed (2008) – não são mera coincidência: afinal Maestro foi o pianista do trio de Cohen entre 2006 e 2011.

[Nos bastidores de Untold stories]

Everyday, de Yaron Herman

Tal como Maestro, Yaron Herman é pianista e nasceu em Israel na década de 80. Mas ao contrário de Maestro, que se iniciou no piano aos cinco anos, Herman só começou os estudos de piano aos 16. Não tardou, porém, a recuperar o tempo perdido: aos 18 já ganhava prémios e aos 21, após a mudança para Paris, gravou o primeiro disco. O seu formato de eleição tem sido o trio, no qual registou A time for everything (2007, Laborie), Muse (2009, Laborie), reforçado por um quarteto de cordas, e Follow the white rabbit (2010, ACT). Alter ego (2012, ACT), em quarteto, não atingiu a excelência dos discos em trio, mas Everyday, que marca a sua estreia na lendária etiqueta Blue Note, opta pela subtracção em vez da adição – apenas piano + bateria – e volta a atingir um nível excepcional. O cúmplice de Herman é o israelita Ziv Ravitz (mais uma afinidade com Shai Maestro) e o entendimento telepático entre ambos compensa plenamente a ausência do tradicional apoio do contrabaixo. Na verdade, a alquimia é tal, que um ouvinte distraído pode ouvir o disco inteiro sem dar pela falta do contrabaixo.

Como é usual nos discos de Herman, as faixas da sua autoria convivem com peças de origem erudita (neste caso o “Prelúdio op.74” de Aleksandr Scriabin) e pop (“Retrograde”, de James Blake), mas são assimiladas de forma tão completa que nem por um momento o ouvinte se apercebe da presença de corpos estranhos.

[“Vista”, por Yaron Herman e Ziv Ravitz]

Mein Beethoven, de Dieter Ilg

Outro músico de jazz que se tem notabilizado no repensar do património erudito à luz do jazz é o contrabaixista alemão Dieter Ilg, cujo trio, com o pianista alemão Rainer Böhm e o baterista francês Patrice Heral já nos ofereceu duas estimulantes reinterpretações do Otello de Verdi, em Otello live at Schloss Elmau (2011, ACT) e do Parsifal de Wagner, em Parsifal (2013, ACT). Agora, chegou a vez do mestre de Bona com Mein Beethoven (ACT), em que Ilg torna sua a música de Beethoven. Se, no processo de assimilação, na maioria dos casos, o espírito do original foi preservado, em “Ode”, baseado no trecho mais famoso da Sinfonia n.º9, o trio dá um salto mortal: onde o “Hino à alegria” é exultação e exteriorização, “Ode” é um canto intimista, melancólico e resignado.

Quem conheça a obra de Beethoven poderá divertir-se a identificar as peças que serviram de inspiração ao trio e a maravilhar-se com o engenho com que foram desconstruídas e reconstruídas.

[Excertos de Mein Beethoven, pelo trio de Dieter Ilg]

In the morning: The music of Alec Wilder, do Stefano Battaglia Trio

Desconstruções, reconstruções e assimilações são também o assunto de In the morning: The music of Alec Wilder (ECM), por um trio italiano de piano, contrabaixo e bateria liderado pelo pianista Stefano Battaglia. As peças podem ter sido compostas por Alec Wilder (1907-80), que saltitou, sem preconceitos, entre a música erudita (deixou 11 óperas), o jazz e a pop (alguns hits de Sinatra e Peggy Lee são de sua lavra), mas a apropriação que sofrem às mãos de Stefano Battaglia, Salvatore Maiore e Roberto Dani é tão completa que nenhuma das faixas soaria deslocada nos dois discos anteriores do trio, The River of Anyder (2011, ECM) e Songways (2013, ECM). O que este concerto ao vivo no Teatro Vittoria, em Turim, em Abril de 2014, nos oferece é um universo sonoro sem uma nota ou um golpe de címbalo a mais, um prodígio de depuração e transparência, mas cujo lirismo e intensidade emocional evitam a armadilha da aridez hierática que aflige algumas produções da ECM.

[Stefano Battaglia Trio, ao vivo nos PianoForte Studios, 30 de Maio de 2015]

La ligne de Kármán, do trio Jean Kapsa/Antoine Reininger/Maxime Fleau

O título de La ligne de Kármán (Mélisse), o terceiro do trio Jean Kapsa/Antoine Reininger/Maxime Fleau alude à fronteira entre a atmosfera terrestre e o espaço exterior, situada cerca de 100 quilómetros acima das nossas cabeças. É apropriado para descrever o efeito produzido por este jovem trio francês de piano contrabaixo e bateria, que recorrendo a uma poderosa aliança de lirismo, intensidade e melodias singelas e belíssimas, na linha dos trios de Brad Mehldau, Esbjörn Svensson ou Helge Lien, consegue fazer levitar o ouvinte, em majestosas espirais, até ao topo da atmosfera.

[“L’alliance”, por Jean Kapsa/Antoine Reininger/Maxime Fleau]

Obsession 3, do Andy Emler MegaOctet

Desde West in peace (2006, Nocturne) que do Andy Emler MegaOctet não se esperam discos que não sejam avassaladores e Obsession 3 (La Buissone) não é excepção. O segredo está nas elaboradas e desafiantes composições do pianista Andy Emler e de uma mini big band que é um verdadeiro “exército de generais” (para usar a expressão com que o musicólogo Charles Burney descreveu a célebre orquestra de Mannheim), com talentos como Laurent Dehors, Guillaume Orti, François Thuillier, Claude Tchamitchian ou Eric Echampard. Seguindo a cartilha de Stravinsly, que entendia que a criatividade é estimulada pelos constrangimentos, Emler, cujo disco anterior, E total, se fundara na nota mi (E, na notação anglo-saxónica), impôs a si mesmo que todas as peças de Obsession 3 seriam em ritmo ternário.

[Teaser de Obsession 3]

Lest we forget what we came here to do, dos Sons of Kemet

Uma banda filarmónica atestada de ácidos e anfetaminas? Uma escola de samba atacada de epilepsia? Drum’n’bass de fabrico caribenho? A versão free jazz de uma cerimónia vudu? Nada disso, são os Sons of Kemet, um quarteto britânico que emparelha, contra todo o bom senso, um saxofone/clarinete (Shabaka Hutchings), uma tuba (Theon Cross) e duas baterias (Seb Rochford, Tom Skinner). Por comparação com o disco de estreia, Burn (2013), o novo Lest we forget what we came here to do (Naim Jazz) dispensa os efeitos electrónicos, mas prossegue, com admirável insolência, o seu programa de demolição de fronteiras entre géneros musicais.

[“In the castle of my skin” pelos Sons of Kemet]

Silver Mountain, dos Elephant9 com Reine Fiske

A associação do trio norueguês Elephant9 (Stale Storløkken em teclados, Nikolai Eilertsen em baixo e Torstein Lofthus em bateria) ao guitarrista sueco de prog rock Reine Fiske, que gerou o vulcânico Atlantis (2012) parece ter sido considerada como frutuosa, pois repetiram-na em Silver Mountain (Rune Grammofon). O disco abre com “Occidentali”, uma espécie de lounge music ominosa e catatónica, que assentaria na perfeição a um filme de David Lynch, mas não tarda que o quarteto inflicta para a mistura efervescente de jazz-rock adstringente e psicadelismo cáustico que lhes é peculiar. Não faltará quem se recuse a admitir que este filho de Bitches brew e de uma declinação sinistra do prog rock possa ser classificado como jazz – mas a verdade é que o hoje canónico Bitches brew também não foi aceite pacificamente no seu tempo.

[“Occidentali”, por Elephant9 & Rainer Fiske]

Epicenter, do Chris Lightcap’s Bigmouth

A multipolaridade do jazz moderno não significa que Nova Iorque não continue a ser a mais importante cidade do jazz mundial – é ela que está no fulcro do magnífico Epicenter (Clean Feed), do Chris Lightcap’s Bigmouth. As oito faixas de Epicenter foram extraídas de uma obra mais vasta, intitulada Lost & Found: New York, que nasceu graças a um programa de encomenda de peças a compositores de jazz. O terceiro disco do quinteto Bigmouth, liderado pelo contrabaixista Chris Lightcap, mantém as virtudes dos anteriores, embora parte da exuberância tenha cedido o lugar a um maior refinamento das composições e arranjos mais detalhados, privilegiando o ensemble sobre os solistas – não é por falta de qualidade destes, já que o grupo conta com “craques” como Chris Cheek e Tony Malaby (saxofones), Craig Taborn (teclados) e Gerald Cleaver (bateria).

É um jazz caloroso, ancorado nos clássicos dos anos 50 e 60, mas com um toque de modernidade – e uma inesperada incursão pela pop, com uma versão psicadélica e inflamada de “All tomorrow’s parties”, dos (também nova-iorquinos) Velvet Underground. Mas não deixa de ser significativo que esta declaração de amor a Nova Iorque seja editada por uma editora lisboeta, a incansável Clean Feed.

[“Nine South”, pelo quinteto Bigmouth de Chris Lightcap]

Radiate, de Liberty Ellman

Os nove anos de espera desde o último disco como líder do guitarrista Liberty Ellman, com Ophiuchus butterfly (2006, Pi Recordings) valeram a pena, pois o novo Radiate (Pi Recordings) está ainda mais apurado. A formação é semelhante à de Ophiuchus butterfly: mantêm-se Steve Lehman (saxofone), Jose Davila (tuba) e Stephan Crump (contrabaixo), entra Damion Reid (bateria) para o lugar de Gerald Cleaver e soma-se Jonathan Finlayson (trompete). A estética é uma declinação assaz original do M-Base, em que a linguagem do jazz se alia aos grooves do funk e do hip hop. A peça menos vulgar da formação é a tuba, que tanto se articula com o contrabaixo para gerar um ritmo contagioso, como age como sopro solista – e quem tenha o instrumento em fraca conta espantar-se-á com a agilidade que Davila lhe imprime. Na derradeira faixa, “Enigmatic runner” os ritmos quebrados e enviesados evocam o universo da música de dança, efeito reforçado pelo som processado electronicamente.

[Amostras de Radiate, pelo sexteto de Liberty Ellman]

High risk, de Dave Douglas

A música de dança e electrónica são referência ainda mais marcante em High risk (Greenleaf) de Dave Douglas. O trompetista norte-americano já incorporara a electrónica em Sanctuary (1997) e Witness (2001) e no projecto Keystone, mas em High risk ela assume claramente o primeiro plano. O disco conta com Jonathan Maron (baixos, eléctrico e sintetizado), Shigeti (electrónica) e Mark Guiliana (bateria, acústica e electrónica), excepcional e original baterista que ganhou projecção em 2014 com Taming the dragon, pelo duo Mehliana, com Brad Mehldau (outro músico de jazz “respeitável” convertido à electrónica). A aliança trompete/electrónica tem uma respeitável tradição, mas High risk não invade o território de Jon Hassell ou Nils-Petter Molvaer, antes cria um espaço próprio.

O título do disco é susceptível de dupla leitura: por um lado, é um alerta para o riscos que ameaçam o planeta devido às alterações climáticas – Douglas é dos jazzmen mais politicamente empenhados da actualidade e usa o disco (ilustrado com fotos de satélite de fenómenos atmosféricos) para lançar um apelo: “É altura de arranjar coragem para confrontar um problema urgente”. O outro risco é o de atrair o desagrado dos “polícias do jazz”.

[“High risk”, do álbum homónimo, por Dave Douglas]

Os melómanos de gostos mais conservadores acolherão, todavia, com agrado dois outros discos lançados por Douglas em 2015: Brazen heart (Greenleaf), pelo quinteto “ortodoxo” de Douglas (com John Irabagon, Matt Mitchell, Linda Oh e Rudy Royston) e enraizado no jazz clássico dos anos 50-60 e nos espirituais negros, e o ainda mais convencional Soundprints (Blue Note), em parceria com Joe Lovano.

Fabliaux, de Dave Douglas com o Monash Art Ensemble

Porém, a generosa “colheita de 2015” de Douglas inclui ainda um quarto disco, de natureza bem diversa dos atrás mencionados: Fabliaux (Greenleaf), em parceria com o Monash Art Ensemble, um grupo de improvisadores de Melbourne (Austrália). A suíte composta por Douglas destina-se a três trompetes (uma das quais é a de Douglas), trombone, quatro palhetas, violino, violoncelo, guitarra, piano acústico/eléctrico, contrabaixo, bateria, percussão e electrónica e, embora tenha swing jazzístico, colhe inspiração, diz-nos o press release, nos procedimentos composicionais típicos dos compositores da Ars Nova do século XIV (dos quais o mais afamado é Guillaume de Machaut). A esmagadora maioria dos ouvintes, não tendo um doutoramento em composição nem em musicologia medieval, não será capaz de identificar quanto estas peças devem ao hoquetus, à isorritmia e ao contraponto modal, mas tal não é necessário para fruir do sofisticado jazz de câmara de Fabliaux – com Douglas é garantido que, por elaborados e esotéricos que possam parecer os conceitos que presidem aos seus discos, estes são sempre fluidos e espontâneos e não se perdem em sorumbáticas elucubrações académicas.

[“Legions”, por Dave Douglas & Monash Art Ensemble]

Amon, dos Klezmerson

John Zorn, de quem Dave Douglas foi parceiro no Masada Quartet, é um músico inequivocamente associado à vanguarda nova-iorquina, mas lança os seus tentáculos por todo o planeta. Disso tem dado testemunho a série Book of Angels, em que as três centenas de composições de inspiração klezmer que Zorn gerou num único ano de trabalho têm vindo a ser confiadas a músicos das mais diversas geografias e credos estéticos. Quem tenha acompanhado esta saga desde o princípio – e ela merece seguramente ser acompanhada – sentir-se-ia inclinado a pensar que, após 23 extravagantes volumes (para formações tão diversas como violoncelo solo ou quarteto vocal feminino a cappella), já nada poderia causar surpresa. Todavia, o volume 24, Amon (Tzadik), pelo grupo mexicano Klezmerson, consegue preparar um cocktail inebriante a partir de vários líquidos supostamente imiscíveis: klezmer, música mariachi, jazz, lounge music, funk e rock. Há que tirar o sombrero a Benjamin Shwartz, líder dos Klezmerson, cujos arranjos detalhados e criteriosos, destinados a um ensemble alargado (oito elementos mais outros tantos convidados) com trompete, trombone, flauta, saxofone, violinos, violoncelo, guitarra, jarana leona e requinto (variedades mexicanas de guitarra), oud (alaúde árabe), contrabaixos, bateria e percussão, geram um colorido variegado e em incessante mutação. Acaso um dia seja necessária banda sonora para o trecho de um filme da série James Bond em que 007, perseguido por hitmen a soldo de narcotraficantes, irrompe por um casamento judaico num hotel em Acapulco já existe – está na faixa 4, “Yefefiah”.

[“Zikiel”, composição de John Zorn na interpretação dos Klezmerson]

Cerberus, da Spike Orchestra

O volume 26 da série Book of Angels, Cerberus, pela Spike Orchestra (Tzadik) troca a Cidade do México por Londres, mas não fica atrás de Amon em opulência, fogosidade e variedade. Os efectivos são ainda mais numerosos – uma big band de 18 elementos – e o resultado é como se a orquestra de Stan Kenton (ou de Duke Ellington) tivesse sido reconvertida para animar bar mitzvahs e os músicos estivessem possuídos da exuberância e irreverência que resulta de se ter bebido um copito a mais, mas sem que a alcoolemia comprometa a precisão da execução. Nos arranjos, a cargo do trompetista Sam Eastmond e da cantora Nikki Franklin, líderes da Spike Orquestra, insinuam-se influências de Latin Jazz e Frank Zappa e tira-se partido da presença de um acordeão, instrumento sem tradição nas big bands, para alargar ainda mais a paleta orquestral.

[“Hakha”, composição de John Zorn na interpretação da Spike Orchestra]

John Zorn é um dos músicos mais multifacetados de sempre, mas alguns dos seus discos mais recentes poderiam fazer crer que a sua veia sinistra e hiper-violenta, patente em projectos como Naked City, Painkiller ou BladeRunner, estaria enterrada. Com efeito, nos seus lançamentos de 2015 contam-se o encantatório, rendilhado e distendido Pellucidar: A dreamer’s fantabula, pelo sexteto The Dreamers (uma das mais amáveis formações congeminadas por Zorn), e o gentil, colorido e ensolarado Forrozinho, pelo grupo Forro In The Dark, uma incursão pela música do Nordeste brasileiro (mesmo quem acompanha o peculiaríssimo e retorcido trajecto de Zorn há décadas seria incapaz de antever isto).

Simulacrum, do trio Medeski/Hollenberg/Grohowski

Porém, Simulacrum (Tzadik) pelo trio Medeski/Hollenberg/Grohowski, mostra que o Zorn necromante continua, afinal, bem vivo. Esta revisão em modo psicótico e hiper-corrosivo do clássico trio órgão + guitarra + bateria conta com o organista John Medeski (do trio Medeski, Martin & Wood), o guitarrista Matt Hollenberg (da banda de metal experimental Cleric) e o baterista Kenny Grohowski (cujo ecletismo o faz oscilar entre o jazz de fusão, o freak pop e o progressive metal) e corre o risco de assarapantar quem estava à espera de algo na linha de Jimmy Smith.

Zorn parece ter ficado satisfeito com o resultado, pois num ápice compôs mais uma mão-cheia de peças e fez o trio Medeski/Hollenberg/Grohowski gravar mais dois discos, The true discoveries of witches and demons (Tzadik), em que a formação é reforçada pelos velhos cúmplices Marc Ribot (guitarra) e Trevor Dunn (baixo), e Inferno (Tzadik), que se apresenta como sendo inspirado “pela obra e pensamento de August Strindberg”, embora a audição deste magma de metal, prog rock, jazz e psicadelismo sugira que a obra seria, mais plausivelmente, devedora de H.P. Lovecraft ou Aleister Crowley. Os taxonomistas musicais, se não desistiram há muito de tentar catalogar as obras de Zorn, talvez descrevessem este tríptico como Satanic doom jazz ou Twilight Zone jazz.

[“The power of the runic symbols”, composição de John Zorn, por Medeski/Hollenberg/Grohowski et al., do álbum The true discoveries of witches and demons]

Outras recomendações da safra de 2015

Roller Trio: Fracture (Lamplight Social Records)

O disco deste trio de Leeds surgiu demasiado tarde em 2014 para poder ser contabilizado no balanço anual, pelo que é justo que transite para 2015. Saxofone, guitarra e bateria, com pinceladas de electrónica, criam uma música nervosa e com ritmos em incessante mutação, algures entre jazz, post rock e electrónica.

Get The Blessing: Astronautilus (Naim Jazz)

À fórmula-base trompete + saxofone + baixo + bateria, este quarteto britânico adiciona electrónica e teclados, já que os seus membros se desdobram por várias funções. Este é o seu quinto disco e o leque de soluções que têm para oferecer, pedindo empréstimos ao rock, drum’n’bass, música africana e o que esteja ao alcance da mão, não pára de alargar-se. Como poderá depreender-se, dificilmente obterão a benção das altas hierarquias da ortodoxia do jazz.

Alexander Hawkins Trio: Alexander Hawkins Trio (Alexander Hawkins Music)

O pianista britânico Alexander Hawkins ouviu atentamente Thelonious Monk e Art Tatum e usou o que aprendeu para elaborar um estilo pessoal, anguloso, quebrado e caprichoso. O disco de estreia do trio, com Neil Charles (contrabaixo) e Tom Skinner (bateria) é uma viagem deslumbrante, mas apenas para aqueles a quem a sucessão de curvas e contracurvas apertadas não cause enjoo.

Troyka: Ornitophobia (Naim Jazz)

Esta é uma troika que nenhum país se importará que lhe entre pela casa dentro. Chris Montague (guitarra), Kit Downes (teclados) e Joshua Blackmore (bateria) operam uma fusão maligna e sarcástica de jazz, electrónica, metal e música para máquinas de jogos (particularmente presente em “Arcades”). Inexplicavelmente, embora o pop-rock britânico domine o mundo, o novo jazz britânico pouco ou nenhum eco encontra do lado de cá do Canal.

[“Arcades”, de Ornitophobia, pelos Troyka]

Papanosh: Oh yeah ho! (Enja/Yellowbird)

Homenagem a Charles Mingus por um jovem quinteto francês com trompete, saxofone, piano, contrabaixo e bateria, que conta com o veterano Roy Nathanson (Lounge Lizards, Jazz Passengers) como convidado. O grande contrabaixista americano haveria de orgulhar-se destes seus herdeiros que abordam as suas composições sem subserviência – a sua fidelidade é à fogosidade e ao instável equilíbrio entre disciplina e anarquia dos grupos de Mingus. Se Mingus pudesse ouvi-los, diria certamente: “Oh, yeah!”.

Yves Rousseau: Akasha (Abalone)

Aos quatro elementos tradicionais, o contrabaixista francês Yves Rousseau juntou um quinto, o éter (akasha na cosmogonia hinduísta). O seu quarteto, com Jean-Marc Larché (saxofone), Régis Huby (violino) e Christophe Marguet (bateria) não precisa de um quinto elemento para criar um universo sonoro caleidoscópico e arrebatador.

Quatuor IXI: Temps suspendus (Abalone)

A formação corresponde à do quarteto de cordas clássico, mas a atitude é jazzística e dá espaço à improvisação. Régis Huby e Théo Ceccaldi (violinos), Guillaume Roy (viola) e Atsushi Sakai (violoncelo) criaram um universo sonoro muito próprio, que não se confunde com o do Kronos Quartet ou do Radio String Quartet Vienna e é dominado por tonalidades escuras e agitação incessante.

Edward Perraud Synaesthetic Trip: Beyond the predictable touch (Quasart)

Segundo disco do quarteto Synaesthetic Trip, do baterista francês Edward Perraud, na companhia de Bart Maris (trompete), Benoît Delbecq (piano), um músico cuja presença funciona como selo de excelência, e Arnault Cuisinier (contrabaixo). Como o título sugere, estamos no reino do imprevisível: turbulências de inspiração free e lagos plácidos reflectindo as estrelas, ruminações melancólicas e música de dança electrónica destrambelhada.

Arnault Cuisinier: Anima (Mélisse)

Lirismo aéreo e elegante, por um quarteto francês com Jean-Charles Richard (sax soprano), Guillaume de Chassy (piano), Arnault Cuisinier (contrabaixo) e Fabrice Moreau (bateria)

Orchestre National de Jazz/Olivier Benoît: Europa Berlin (ONJazz)

Europa Paris (2014) anunciara que a nova encarnação da Orchestre National de Jazz, sob a “administração” do guitarrista Olivier Benoît, era uma das mais excitantes versões de sempre da ONJ. O segundo disco, Europa Berlin, partilha das qualidades do opus 1 – ecletismo, virtuosismo, intensidade, arranjos elaborados. Só se lamenta que, tendo os mandatos de direcção da ONJ três anos de duração, Benoît não tenha tempo para pintar retratos musicais de todas as capitais europeias.

[A ONJ de Olivier Benoît toca “Révolution”, de Europa Berlin, ao vivo em Mulhouse, em 2014]

Aka Moon & Fabian Fiorini: The Scarlatti Book (Outhere)

Não é o primeiro disco de jazz integralmente inspirado pelas sonatas para cravo de Domenico Scarlatti – nisso, o pianista italiano Enrico Pieranunzi foi pioneiro – mas a perspectiva assumida pelo eclético trio belga Aka Moon e pelo seu compatriota (e cúmplice usual) Fabian Fiorini, em piano, é mais irreverente e ousada. Os puristas irão horrorizar-se, alheios ao facto de as sonatas de Scarlatti serem também o produto da “contaminação” da tradição do cravo barroco pela música popular ibérica.

Aka Moon & friends: Aka Balkan Moon + AlefBa (Outhere)

Quando se viaja com os Aka Moon nunca se sabe onde poderemos desembarcar. Neste duplo CD regressa-se aos territórios do antigo Império Otomano, em dois concertos ao vivo em que Fabrizio Cassol (saxofone), Michel Hatzigeorgiou (baixo) e Stéphane Galland (bateria) se juntam a outros músicos de jazz e a músicos balcânicos (em Aka Balkan Moon) ou do Próximo Oriente (em AlefBa), para forjar uma exaltante mescla de jazz e “músicas do mundo”.

De Beren Gieren: One mirrors many (Clean Feed)

Há tantas maneiras de esfolar um gato (usemos a expressão enquanto o PAN não logra a sua interdição) quantas as de articular um trio de piano, contrabaixo e bateria. Os belgas Fulco Ottervanger, Lieven van Pée e Simon Segers inventaram uma muito particular: irrequieta, fragmentada, multiforme. Engrenagens enlouquecidas e marchas lúgubres, momentos de quase imobilidade que desembocam numa torrente furiosa – é esta a imagem do jazz devolvida pelo espelho estilhaçado dos De Beren Gieren.

[Teaser de One mirrors many, pelos De Beren Gieren]

Roots Magic: Hoodoo blues (Clean Feed)

Blues do Delta do Mississipi, free dos anos 60 e afro-funk remisturados, com convicção, humor e energia, por um quarteto italiano. Não é preciso ter nascido em New Orleans para ter os blues a palpitar nas veias.

Zu: Cortar todo (Ipecap)

O trio italiano continua a fazer jazz feio, porco e mau. Na verdade, a entrada de Gabe Serbian para o lugar de Jacopo Battaglia na bateria parece ter contribuído para tornar a sonoridade dos Zu ainda mais ominosa, compacta, tensa e brutal e obsessiva. Que esta tormenta seja produzida por apenas um sax barítono (Luca T. Mai), um baixo eléctrico (Massimo Pupillo) e uma bateria é motivo de sempre renovado pasmo.

Giovanni Guidi: This is the day (ECM)

O segundo disco do trio do pianista italiano, com o contrabaixista americano Thomas Morgan e o baterista português João Lobo, consegue extrair ainda algum ar à atmosfera já rarefeita do anterior City of Broken Dreams. Em “Quizás, Quizás, Quizás” o resultado é brilhante: desacelerada e esvaziada de sensualidade latina, a canção de Osvaldo Farrés converte-se num torpor encantatório.

[Sessões de gravação de This is the day, pelo Giovanni Guidi Trio]

Pablo Held Trio: Recondita armonia (Pirouet)

O pianista alemão já tinha visitado ocasionalmente a música de Falla e Mompou, mas o material para este registo, com os habituais parceiros Robert Landfermann (contrabaixo) e Jonas Burgwinkel (bateria), vem exclusivamente do universo erudito: Tournemire, Mompou, Scriabin, Bartók, Stravinsky, Hindemith, Rachmaninov e, claro, Puccini, cuja ária da Tosca dá título ao disco. Quem não conheça as fontes poderá crer tratar-se de um álbum de baladas jazz, de uma elegância melancólica.

Michael Wollny: Nachtfahrten (ACT)

Sob o nome de [em] ou em nome próprio, os trios do pianista alemão Michael Wollny continuam a deslumbrar-nos disco após disco (o contrabaixista é agora Christian Weber; mantém-se na bateria o fiel Eric Schaefer). O ecletismo desconcertante (mas nunca incongruente nem gratuito) do anterior Weltentraum está atenuado (ainda assim o programa inclui composições de Guillaume de Machaut, Angelo Badalamenti e Bernard Herrmann) e a atmosfera é mais contida, introvertida, rarefeita e sombria – como convém a um disco intitulado “Viagem nocturna”.

Klaus Paier & Asja Valcic: Timeless suite (ACT)

Uma dupla de acordeão e violoncelo corre o risco de ser um “one trick pony”: uma ideia engraçada, mas que se esgota rapidamente. Sendo os intervenientes o austríaco Klaus Paier e a croata Asja Valcic (do Radio String Quartet Vienna), não há esse risco e até custa a crer que um acordeão e um violoncelo possam articular-se de formas tão variadas e criativas. Os humores também variam, do solene ao traquinas, do meditativo ao eufórico. Neste seu terceiro encontro a dois, a dança é o motivo condutor – e isso tanto quer dizer tango (Piazzolla) como a Suíte Pulcinella de Stravinsky, como as suítes para violoncelo solo de Bach.

[Uma espreitadela para dentro de Timeless suite, de Paier & Valcic]

Daniel Herskedal: Slow eastbound train (Edition Records)

Atribuir à tuba o papel de avozinho obeso, bem-humorado e algo ridículo da família dos sopros é um equívoco que se desfaz instantaneamente ao ouvir o disco de estreia como líder do jovem tubista norueguês Daniel Herskedal, um solista de virtuosismo assombroso (mas nunca espalhafatoso ou inadequado). Herskedal é também um compositor inspirado, que extrai da articulação tuba + piano + percussão + orquestra de cordas (The Trondheim Soloists) uma admirável variedade de atmosferas (que na faixa-título até têm perfume oriental).

Espen Eriksen Trio: Never ending January (Rune Grammofon)

O mundo do jazz precisa de mais um trio escandinavo de piano, contrabaixo e bateria na linha de Esbjörn Svensson e Tord Gustavsen? Com certeza que sim, desde que tenham o lirismo, o refinamento e o sentido de concisão dos noruegueses Espen Eriksen (piano), Lars Tormod Jenset (contrabaixo) e Andreas Bye (bateria). Este é o seu terceiro disco e a fonte de melodias frescas e inebriantes não parece ter fim.

Emil Brandqvist Trio: Seascapes (Skip)

Na verdade, até há lugar para mais outro trio: o dos suecos Emil Brandqvist (bateria) e Max Thorberg (contrabaixo) e do finlandês Tuomas Turunen (piano). No disco de estreia, Breathe out, o trio tivera o complemento de um quarteto de cordas; no novo opus há sopros no lugar das cordas, com intervenções menos frequentes mas mais inventivas. Também as composições se tornaram menos “redondas” e previsíveis, fazendo de Seascapes uma paisagem que ninguém se cansará de contemplar.

Iiro Rantala: My working class hero (ACT)

O pianista finlandês vira pelo avesso o cancioneiro de John Lennon (nos Beatles e a solo), no 75.º aniversário do seu nascimento. Apesar de ser um atleta do teclado, na maioria das canções Rantala escolhe antes a via da depuração.

All Included: Satan in plain clothes (Clean Feed)

Os grupos podem mudar mas o espírito militante e “politicamente empenhado” do saxofonista norueguês Martin Küchen mantém-se, pelo que este colectivo escandinavo acaba por ter muitas afinidades com os dois grupos liderados por Küchen, o Trespass Trio e os Angles: jazz de combate, com raízes em Charles Mingus e no free dos 60s, com um espectro emocional que vai do lamento doloroso à revolta furiosa (a homenagem a Mingus era, aliás, logo explicitada no título do disco anterior: Reincarnation of a love bird).

Adam Baldych & Helge Lien Trio: Bridges (ACT)

Não são precisas pontes muito extensas para unir o violonista polaco Adam Baldych ao trio do pianista norueguês Helge Lien. O violino de Baldych assume um rosto diferente em cada faixa: tanto evoca a música de câmara, como as rabecas do country, como a hardingfele norueguesa; e quando a música inflecte para o jazz-rock não é difícil visualizar faíscas a saltar do arco.

[Nos bastidores das gravações de Bridges, por Adam Baldych & Helge Lien Trio]

Tim Berne’s Snakeoil: You’ve been watching me (ECM)

Ao terceiro disco dos Snakeoil, o saxofonista americano Tim Berne adicionou o guitarrista Ryan Ferreira aos habituais Oscar Noriega, Matt Mitchell e Ches Smith. Ganhou-se em cor e subtileza, perdeu-se alguma da intensidade obsessiva dos dois discos anteriores. Quem conheça os grupos Bloodcount, Hard Cell e Sciencefriction reconhecerá aqui as composições de desenvolvimento lento e atmosferas variadas típicas de Berne. E não há que recear pela “banha-de-cobra” no nome: isto é jazz genuíno, mesmo que não seja capaz de curar todas as maleitas.

Vijay Iyer: Break stuff (ECM)

Após uma estreia algo hirta e académica na ECM, com Mutations (2014), o pianista americano de ascendência tamil regressa ao seu trio usual com Marcus Gilmore (contrabaixo) e Stephan Crump (bateria). Por comparação com os geniais Historicity e Accelerando, a intensidade reduziu-se um pouco, mas nunca faltam motivos de interesse num disco que consegue convencer-nos de que misturar Thelonious Monk, Billy Strayhorn, Steve Reich e música para pistas de dança nada tem de incongruente.

Mostly Other People Do The Killing: Mauch Chunk (Hot Cup)

A saída do endiabrado trompetista Peter Evans (substituído pelo pianista Ron Stabinsky) parece ter contribuído para amansar um pouco os MOPDTK, que em Mauch Chunk se divertem a subverter, moderadamente, os padrões do hard bop das décadas de 1950-60. “Mehoopany”, a encerrar, soa como Herbie Hancock circa 1963, mas com breves acessos de insanidade pelo meio. Para quem prefira a formação com Peter Evans, em 2015 foi também editado Hannover (Jazzwerkstatt), um registo ao vivo.

Bret Higgins’ Atlas Revolt: Atlas revolt (Tzadik)

Klezmer, rock, lounge music e Latin jazz; a encerrar, uma faixa que poderia servir de banda sonora a um film noir que não se leva a sério. É a estreia como líder de um contrabaixista de Toronto com larga experiência na pop, na folk e nas tradições balcânicas, klezmer e do Próximo Oriente. As faixas mais nocturnas e melancólicas são as mais conseguidas.

Hypercolor: Hypercolor (Tzadik)

Disco de estreia de um power trio com sede em Nova Iorque, que reúne os talentos do prodigioso guitarrista israelita Eyal Maoz, do baixista americano James Ilgenfritz e do baterista austríaco Lukas Ligeti (filho do compositor húngaro György Ligeti). O rock, áspero e quase sempre nervoso, prevalece sobre o jazz. Há ferocidade punk em “Palace” e o ziguezaguear entre registos de “Far connection” faz pensar nos Naked City.

Les Rhinocéros: III (Tzadik)

O trio Les Rhinocéros, de Washington DC, tem afinidades com os Hypercolor: na formação com guitarra, baixo e bateria e na orientação rock-jazz. Porém, são mais ecléticos (acolhem influências klezmer e orientais), trocistas e alucinados e levam mais a peito a abrupta estética de colagem dos Naked City. São, aliás, os momentos mais à Naked City que proporcionam as mais esfuziantes faixas do disco: “Coltun’s pink crusher” e “Ethi ethi ethi” (que também tem algo de Ethio jazz). Tão psicótico e azougado como os dois discos anteriores do grupo.

Anna Webber’s Percussive Mechanics: Refraction (Pirouet)

O septeto Percussive Mechanics, da saxofonista canadiana (radicada em Nova Iorque) Anna Webber, junta o melhor de dois mundos: o carácter encantatório da música minimal-repetitiva, com a flexibilidade, liberdade e imprevisibilidade do jazz.

[Sessões de gravação de Refraction pelo grupo Percussive Mechanics de Anna Webber]

Romain Collin: Press enter (ACT)

Um pianista francês que estudou nos EUA e assentou arraiais em Nova Iorque aliou-se aos americanos Luques Curtis (contrabaixo) e Kendrick Scott (bateria). Este segundo disco da formação mostra um aumento das influências pop (até se recria uma canção de Bon Iver) e prog rock, com entusiasmantes resultados.

Myra Melford: Snowy egret (Enja/Yellowbird)

Para a pianista americana, cada novo disco representa uma nova demanda estética e uma nova formação (sempre com músicos de primeira água). Desta feita, Melford inspirou-se em Memoria del fuego, de Eduardo Galeano, uma história, poética e fragmentada, do continente americano, para criar música que tanto tem melodias belíssimas e sonoridades depuradas como tempestades medonhas.

Charlie Hunter: Let the bells ring on (There)

Mais um trio improvável: guitarra, trombone e bateria. O facto de Charlie Hunter tocar uma guitarra de 7 cordas, na qual assegura, em simultâneo, a linha de baixo, mantém o groove fluido, o que também é ajudado pela bateria estar a cargo de Bobby Previte. O trombone “sujo” e chocarreiro de Curtis Fowlkes é perfeito para esta música firmemente enraizada em blues, folk, soul, funk e rhythm ‘n’ blues.

Kris Davis’ Infrasound: Save your breath (Clean Feed)

A pianista canadiana surge aqui à frente de um octeto inusitado com três clarinetes ou clarinetes baixo, um clarinete contrabaixo, guitarra, piano, órgão e bateria, cujas composições complexas e cheias de detalhe proporcionam uma instrutiva viagem por lugares cuja existência desconhecíamos.

Avishai Cohen Trio: From darkness (Razdaz)

Após o arrasador Gently disturbed (2008), em trio, o contrabaixista israelita Avishai Cohen (não confundir com o trompetista homónimo, bem mais convencional) tem-se desdobrado por registos e formações variadas. From darkness confirma que o formato piano (Nitai Hershkovits) + contrabaixo + bateria (Daniel Dor) é aquele que mais lhe convém. O registo é atlético e hiperactivo, próximo do jazz-rock, mas também se descortinam melancólicas melodias com aromas do Próximo Oriente (“Halelyah”) e balanços latinos (“Amethyst”).

[“Amethyst”, pelo Avishai Cohen Trio]

Majid Bekkas Afro-Oriental Jazz Trio: Al Qantara (Igloo)

O marroquino Majid Bekkas (oud, guembri, kalimba e voz), com Manuel Hermia (bansuri, sax soprano e clarinete) e Khalid Kouhen (percussões africanas e tablas), constrói uma ponte que une o Norte de África, ao Médio Oriente e à Índia. O jazz serve de argamassa.

Sokratis Sinopoulos: Eight winds (ECM)

Quando a conceituada revista de jazz Downbeat criou as polls para eleger os melhores executantes do ano em cada instrumento, não teve a presciência de incluir uma categoria nem para o guembri nem para a lira de Creta. É deste último instrumento, em forma de pêra, com três cordas friccionadas por arco, que Sokratis Sinopoulos extrai um som plangente e doce, que desenha meditativos arabescos sobre o fundo diáfano criado por um trio de piano, contrabaixo e bateria. Resta apurar 1) se isto ainda é jazz (uma questão bizantina); 2) se o som despojado deste quarteto grego é escolha assumida ou foi mais uma cruel imposição da troika.

Ahmad Jamal: Live in Marciac 2014 (Jazz Village)

Ainda que seja pouco provável que os devotos do jazz mais ortodoxo tenham tido a paciência de chegar até aqui, a recomendação final vai (até que enfim!) para um venerando mestre, cujo primeiro disco como líder foi gravado em 1951 e que neste concerto de 2014, em Marciac (França), em quarteto com piano + contrabaixo + bateria + percussão (o seu formato favorito), continua a exibir, aos 84 anos, uma elegância, um sentido de humor e uma agilidade (intelectual e digital) invejáveis (a traquinice juvenil de Jamal pode ser integralmente desfrutada no DVD que acompanha o CD). Jamal sabe que a única maneira de o jazz se manter jovem não é repetindo as poses, tiques e trejeitos dos tempos de moço, é nunca deixando de desafiar as convenções e as expectativas.

[Um tratamento pouco ortodoxo de um clássico – “Blue Moon” – por Ahmad Jamal, Reginald Veal, Herlin Riley e Manolo Badrena, ao vivo em Marciac, 2014]

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