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Gareth Cattermole

Gareth Cattermole

Os milhões deste português crescem por amor a Lily Cole. Nada é Impossible

Há um apartamento no Chiado que fatura 3 milhões a desenvolver soluções digitais para a Google, Samsung ou Intel. Na Impossible, de Kwame Ferreira, nem amar uma atriz e supermodelo foi impossível.

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– Porquê Impossible?
– Porque me apaixonei por uma supermodelo. É essa a história. Se me pesquisares no Google, é ela que aparece. Sou um apaixonado desnaturado.
– Mas esse amor não foi impossível.
– Não.

Kwame Ferreira, 39 anos, líder da Impossible Labs, cofundador da Enchufada, da Vinil Factory, de revistas de moda e música, um dos membros da equipa fundadora da consultora de inovação Fjord. Pai de Wylde e namorado de Lily Cole, a atriz que interpreta a rainha Elizabeth I na série documental com o mesmo nome, e a supermodelo que já foi corpo e rosto dos desenhos de Alexander McQueen, Louis Vuitton ou Jean Paul Gaultier. “Há um ditado que diz que os empregos são para os robôs. E é verdade. Nós devíamos ser poetas, filósofos, amantes”, disse ao Observador, numa pausa de 24 horas, antes de seguir para a Somália.

Kwame Ferreira, 39 anos, o criativo, o gestor, o designer, o professor, o investidor, o piloto de helicópteros, o carpinteiro nas horas vagas. O realizador. O líder da empresa que num escritório escondido no Chiado, em plena baixa lisboeta, resolve problemas digitais de algumas das principais marcas tecnológicas do mundo. “Não temos muitos clientes, mas temos os grandes nomes.” Google, Samsung, Roche, Intel. Empresas com soluções nascidas e criadas entre três ou quatro salas de um escritório que não é bem escritório, é mais uma casa — uma casa onde não há tarefas definidas, nem horas, nem assentos. Onde se fez uma pulseira que junta corações não partidos, mas distantes, através do toque. Um toque na pulseira do lado de lá do Atlântico sente-se na outra pulseira, do lado de cá.

O líder da Impossible Labs no escritório que tem em Lisboa e onde estão instaladas várias startups

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

“A ideia das pulseiras nasceu com o Cris, o meu braço direito nos EUA, no Dia de São Valentim”, conta, como se a banda sonora dos negócios da Impossible fosse uma eterna canção de amor. Foi em Lisboa que as Bond Touch nasceram — pulseiras hight tech vendidas aos pares para quem está longe, mas quer estar perto –, que graças a uma app, ao bluetooth e a uma bateria carregável já ajudam casais de 17 países a sentir-se à distância. E não são peça única nesta história. “Quando há tanta paixão, há um negócio. Tem de haver um negócio. É só uma questão de estrutura e não de deixar morrer”, diz o homem que viu os lucros da Impossible crescerem 18% para um milhão de euros no último ano, sem ter recorrido a investimento externo.

Kwame Ferreira, 39 anos, o angolano filho de mãe portuguesa e pai brasileiro que cresceu no Algarve profundo, “a morrer de tédio”, numa infância que conta que foi “idílica” e lhe deu espaço para pensar — a infância e o tempo que passou em Belas Artes. O homem que em quatro ou cinco salas escondidas no Chiado faturou, entre março de 2015 e março de 2016, 3,18 milhões de euros, mais 28% do que no ano anterior. Quando o Observador lhe pergunta o que contribuiu mais para a rampa de lançamento desta missão (im)possível, volta a Lili.

“Há dois dias tive uma discussão com a minha mulher. Tenho andado muito fora e agora vou para a Somália por causa de um documentário e ela não quer que vá, porque acha que é muito perigoso. Mas é esta coisa de ser apaixonado. Acho que é isso, sentes isso. As pessoas que conseguiram criar estruturas mais ou menos interessantes fizeram-no por pura paixão“, afirma Kwame num português que denuncia todos os sítios onde já viveu nos mais de 2 metros de altura que ocupa na cozinha da Impossible Labs.

Onde começa a história da agência de design e inovação mundial que emprega 70 pessoas e fornece soluções tecnológicas para gigantes internacionais e é, ao mesmo tempo, um ninho de startups? Em Londres. Não, em Berlim. Não, começou em Boston. Não, em Lisboa. Não, em Angola. Não. Esta história começou numa montanha em Monchique.

Parte I: És tu, tu és especial, és único e vais ser fabuloso

Kwame nasceu em Angola, enquanto os pais filmavam documentários, mas depressa a família mudou-se para o Brasil e depois para Portugal. Cresceu no Algarve profundo — não no das praias e dos turistas, mas naquele onde o sol queima sem trazer água salgada –, depois de a mãe ter casado com um alemão. No verão, trabalhava como servente com o pai, que tinha uma empresa de construção civil. “Ainda hoje me sinto um bocado explorado. Devia-lhe ter pedido uma diária maior“, conta, entre risos, para explicar ao Observador porque ainda hoje sente necessidade de voltar ao Algarve para fazer uma mesa ou uma cadeira. Com as mãos. Porque precisa de agarrar, mexer, construir as coisas palpáveis que lhe faltam no digital.

“Sabes que a minha avó sempre dizia… Nós, hoje, somos sobreestimulados e eu tive uma infância muito pouco estimulada. Estava nas montanhas em Monchique a morrer de tédio e a perguntar-me quando é que ia sair dali. Pegava no cavalo e ia para a escola. Agora, olho para trás e acho que foi uma infância bastante idílica e é o que quero para a minha filha. Mas é um tédio autêntico, tal como as Belas Artes foram um tédio autêntico. Mas acho que precisas de períodos de tédio na tua vida para te prepararem para isto. Dão-te espaço para pensares, dão-te demasiado espaço”, conta.

"Se voltasse atrás, não tinha feito nenhum dos dois cursos. Teria optado por engenharia genética ou assim, qualquer coisa que brincasse com a biologia. Porque isto dos zeros e uns é interessante, mas sabes... nunca imaginei um mundo onde os aparelhos fossem tão feios"

É em Monchique que decide concorrer à escola de cinema, em Lisboa. Uma semana na capital para fazer exames e eis que chega o telefonema com a boa-nova que recusou na hora, sem pensar duas vezes. Como se recusar uma coisa boa fosse a prática corrente no ano em que, no país, se vivia a euforia da Expo 98. “Telefonaram-me a dar os parabéns por ter entrado em cinema e disse-lhes que não queria, que estava mais interessado em fazer outra coisa.” A outra coisa era uma licenciatura em Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes — o “período romântico” que lhe deu uma perspetiva mais abrangente de como o mundo funcionava. E era esse o mundo que Kwame queria descobrir nos anos em que a bolha da Internet rebentava no mercado e fazia estragos em efeito dominó nas empresas tecnológicas.

“Foi bom. Foi demasiado bom”, recorda. “Acho que tudo começou com esta minha curiosidade de tentar saber como é que as coisas funcionam.” E funcionaram, mas não em cinema. Quando o Observador lhe pergunta porque é que recusou a entrada em cinema, explica que foi nessa altura que o digital começou a aparecer e lhe aguçou a curiosidade. “Não te sei dizer porquê, mas acho que, se voltasse atrás, não tinha feito nenhum dos dois cursos. Teria optado por engenharia genética ou assim, qualquer coisa que brincasse com a biologia. Porque isto dos zeros e uns é interessante, mas sabes… nunca imaginei um mundo onde os aparelhos fossem tão feios [como agora]”, diz, antes de começar a idealizar aspiradores que são, na verdade, mini-elefantes. Regresso à terra. Ou melhor, a Berlim.

Quando começas em Belas Artes, entras num mundo clássico que privilegia o ego. És tu, tu és especial, és único e vais ser fabuloso. E quando entras no mundo da tecnologia, lidas com clusters cada vez maiores e com o conceito de utilizador: as pessoas vão utilizar a tua obra. (...) O suprassumo disso é a política, é quando tens o maior número de utilizadores para gerir"

Terminada a licenciatura, Kwame Ferreira faz as malas e rumou à Alemanha, onde continuou a estudar num mestrado em Artes. Depois, voltou a fazer as malas. A curiosidade levou-o até ao sonho americano e foi em Boston que tirou um doutoramento em Sociable Media. Estava cada vez mais entranhada e do sotaque norte-americano passou para o britânico. Foi em Londres que saiu da esfera académica para entrar na empresarial. Estávamos em 2005.

— O que foste fazer para Londres?
— Estava farto da academia e queria perceber mais do mundo empresarial. Percebi que as organizações tinham cada vez mais poder no mundo, independentemente do tecido político. E quis perceber como funcionavam.

Em Inglaterra, Kwame fez de tudo um pouco: esteve a trabalhar nos maiores sites de dating (relacionamentos) do Reino Unido, quando o romance ainda não se tinha tinderizado, e mexeu com o dinheiro dos outros, enquanto gestor de fundos de capital de risco. Pelo meio, teve um convite para dar aulas de Ciências Políticas na Universidade de Cambridge, que recusou. “Quando começas em Belas Artes, entras num mundo clássico que privilegia o ego. És tu, tu és especial, és único e vais ser fabuloso. E quando entras no mundo da tecnologia, lidas com clusters cada vez maiores e com o conceito de utilizador: as pessoas vão utilizar a tua obra. E é aí que começas a criar uma relação com vários utilizadores. O suprassumo disso é a política, é quando tens o maior número de utilizadores para gerir”, explica Kwame.

Kwame tem 39 anos, nasceu em Angola, mas mudou-se para o Algarve quando tinha 4 anos

Parte II: Toma lá 500 euros. Quero mil de volta

Recusou o convite para dar aulas de Ciência Política na mesma altura em que conheceu os fundadores da consultora de inovação digital, em 2006, que anos mais tarde seria comprada pela Accenture, a Fjord. “Eles estavam a focar-se muito no telemóvel, ainda antes do iPhone. Mas perceberam que isto de teres um computador contigo ia explodir. Fomos a primeira empresa de consultoria e apostar no telemóvel. Pusemos os ovos todos naquele cesto e funcionou. Crescemos até termos 14 escritórios no mundo inteiro e sermos comprados”, revela.

— Por que resolveste sair?
— Porque se tivesse ficado já me tinha reformado. E estava com medo de me reformar cedo.
— Tinhas que idade quando pensaste isso?
— Tinha menos de 30 anos.

Os desafios, os problemas, a urgência em resolvê-los era o que definia a Fjord. Talvez tenha sido o sítio que mais impacto teve na trajetória de Kwame, revela ao Observador. Foi na consultora que viu crescer em Londres que percebeu que a inovação era, afinal, resolver problemas, adicionando valor à vida das pessoas. Pega no iPhone que está em cima da mesa, fala do vício e do tabaco para só depois regressar à Fjord. “A primeira coisa da qual te tornas consciente é do quão valioso é o teu tempo. Com os serviços que crias, começas a ganhar consciência sobre o valor do tempo. Não só do teu tempo, mas do tempo de criação, do tempo que vais poupar às pessoas através dos produtos ou serviços que crias”, afirma.

Depois da paixão, a frustração. Processos criativos que passavam para fases de conceptualização e depois para protótipos. Ficavam por ali. “Aquilo frustrava-me, porque nunca (ou muito raramente) chegávamos ao produto final. E eu queria mesmo chegar ao produto final, porque senão ficas sem saber qual é o teu impacto. E a minha rebeldia foi nesse sentido”, conta.

O rebelde consultor passou a rebelde músico. Enquanto estava na Fjord, Kwame juntou-se a Kalaf e a João Barbosa (Branko) para lançarem a Enchufada, em 2006. “O panorama da música portuguesa estava assim um bocado ‘para onde vamos agora?’ e eu vi duas pessoas com imenso talento. Montei o site, pusemos aquilo a funcionar muito rapidamente e cresceu. Pus o meu irmão à frente daquilo e continuei o meu percurso.”

A caminhada podia ter sido virtual — como seria de esperar no ano em que rebentou o iPhone –, mas Kwame quis um regresso às origens (ao offline) e ajudou a fundar a Vinyl Factory, responsável pela edição em vinil de álbuns de artistas como os The XX. “O vinil é o mais analógico que podes ter. É uma espiral de puro prazer“, conta ao Observador enquanto explica o porquê de se ter afastado do digital. “Passas a vida a fazer coisas que cabem numa pasta na Dropbox e, de repente, perguntas-te onde está a pasta. Não sabes bem como, mas a pasta foi-se”, diz. E depois o vinil não é só um vinil, é um objeto de luxo e culto, diz Kwame. E quando há luxo e culto, há sempre uma oportunidade de negócio.

— É aqui que começas a ter olho para o negócio? Porque os vinis bateram recordes de vendas.
— Eu sempre tive olho para o negócio. O meu pai deu-me 500 euros quando era mais jovem e disse-me: quero mil de volta. E tive de me desenrascar. Emprestava na escola e conseguia uns juros porreiros. O dinheiro é quase inevitável quando és apaixonado por diferentes coisas, verdadeiramente apaixonado. E acho que foi sempre isso que senti.

Com “bicho-carpinteiro” no corpo, Kwame ainda estava entre o cheiro e a paixão pelo vinil e pela música quando criou a Kwame Corporation, entre amigos, sem agenda, apenas porque sentiu falta do digital. “Quando voltei dos EUA, vim dar aulas para a ESTAL e conheci um conjunto de pessoas interessantes em Portugal. Em Londres, também já tinha criado uma rede social interessante por causa da Fjord. Então, decidi juntar um grupo de amigos, porque o melhor é mesmo trabalhar com amigos ou amigos de amigos, porque a vida é demasiado curta“, conta. Estavam espalhados entre Lisboa e Londres quando arrancaram com o primeiro projeto de inovação digital.

A estreia foi premonitória e o primeiro cliente da Kwame Corporation foi a Intel. O objetivo era simples: Kwame queria criar coisas. “Sempre quis ter uma organização à minha volta que me permitisse estabilizar ideias, que podiam ser de qualquer tipo. Quanto mais malucas, melhor. Mas, ao mesmo tempo, e sendo pragmático, continuo a dizer que nós resolvemos é problemas. E resolvemos problemas para a Google, Samsung, Intel. Não temos muitos clientes, mas são os grandes e são relações de há muitos anos.” Com escritórios em Lisboa, Londres e São Francisco, a Kwame Corporation emprega atualmente 70 pessoas de 15 nacionalidades.

Kwame Ferreira no escritório que a Impossible Labs tem em Londres

Parte III: De Impossible, este amor não teve nada

A Impossible começou por se chamar Kwarme Corporation, quando o português vivia em Londres. Mas o amor por Lily Cole mudou-lhe a vida, os planos e a empresa. O processo de rebranding do projeto que fez nascer sem investimento externo e com um grupo de amigos criativos fez-se à boleia da plataforma de economia social que a supermodelo tinha lançado quando se conheceram. A missão continuou a mesma — a de reimaginar o mundo com um produto de cada vez –, mas a área de atividade expandiu-se. Decidiram juntar forças sob uma identidade comum, a Impossible Labs.

“Conheci a Lily em Londres. Ela tinha um projeto chamado Impossible, que era uma app bastante utópica, no domínio da economia social e achei interessante. Já tínhamos tido uma startup nessa onda, que tinha falhado redondamente. E de repente apaixonei-me por ela ou ela por mim, não sei — nem sei se foi sincronizado, na verdade — e disse que a ajudava. Mas não a conhecia, nem fazia a mínima ideia quem ela era. Por estranho que pareça, tinha ajudado a lançar uma revista de moda em Portugal e foram eles que me disseram quem ela era”, conta, entre risos envergonhados.

Lily Cole na passadeira vermelha dos Óscares, em 2016

AFP/Getty Images

Hoje, a Kwame não é a Impossible Labs por ser impossível. É um jogo com as palavras “’I’m Possible” para mostrar que é possível transformar ideias aparentemente impossíveis em coisas reais. A app de Lily já tinha esse nome. E, depois de terem fundido as vidas, as tecnologias, a criatividade e a empresa, fundiram-se na Wylde. “A minha filha chama-se Wylde e nem te sei bem dizer porquê. Tem um bocado a ver com Oscar Wilde. Acho que o mundo precisa de be wilding (ser selvagem). Acho que é preciso trazer um bocado da selva ao mundo urbano. E agora há um ser wild na nossa vida”, contou.

— Tens filhos?
— Não.
— Faz um filho. Vai já fazer um filho, por favor. Houve uma altura em que dizia a todos os meus amigos para fazerem filhos, porque não queria ter um filho sozinho. E agora isto parece uma creche. Mas sabes quando compras um computador e ele não vem com software?
— Isso é que é ser pai?
— É. Não tem apps nenhumas no início. Nenhumas.

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Kwame Ferreira com Lily Cole

Alguns dos filhos da Impossible Labs já ganharam pernas, cresceram, foram para a universidade e têm casa própria. Nasceram de problemas da empresa e conquistaram outras empresas. São startups que estão lá incubadas, mas Kwame não gosta do termo startup, porque se é startup não faz dinheiro e ele quer é fazer dinheiro. Então não são startups, são negócios. “Tivemos aqui um problema, porque ninguém gostava de fazer as folhas para picarmos o ponto e sabermos quem está a fazer o quê. A Nika, que é a nossa office manager não queria fazer isso, então tornámos a Nika numa bot. E agora temos um robô, a Nikabot, que faz esta função através do slack. É um negócio fixe e foi uma coisa que desenvolvemos internamente”, conta.

Das mentes criativas dos engenheiros e designers que trabalham diariamente no Chiado, além do chat de produtividade empresarial Nikabot, nasceram projetos e negócios como o Fairphone, que é o primeiro telemóvel com preocupações éticas, desenhado para ter um impacto mínimo no planeta e nas pessaoas, que se autonomizou e já fatura 200 milhões, segundo Kwame Ferreira. Também foi do talento da equipa da Imposisble que saíram as aplicações para a Tango (plataforma de realidade aumentada) da Google, a plataforma financeira empresarial Braveno (qua foi lançada na Web Summit, em 2016) e, mais recentemente, o projecto Nikabot (chat de produtividade empresarial) ou as pulseiras Bond Touch só para dizer “gosto muito de ti” à distância. A empresa conta ainda com uma loja online que vende produtos que têm um impacto positivo no mundo.

“Achávamos que éramos muito bons naquilo. Aprendemos bastante e agora temos três ou quatro startups e todas elas funcionam como negócio já. Percebemos que não queremos ir à procura do unicórnio, prefiro o cavalinho que chega ao destino

Parte IV: Não queremos unicórnios, queremos cavalinhos

Dois anos depois de lançar a Kwame Corporation, o português conheceu a família do herdeiro da fortuna da Guinness. “Eles vivem num palácio fora de Londres. Fui lá visitá-los e achei aquilo muito decadente e fascinante. Puseram dinheiro na Kwame Corp quando nós já nem precisávamos. Ficaram com 6% da empresa, mas nem fazem parte do conselho de administração, foi algo mais simbólico. Mas com esse dinheiro, pudemos começar a brincar às startups”, conta.

Com a brincadeira, gastaram vários milhões em investimentos que falharam. “Achávamos que éramos muito bons naquilo. Aprendemos bastante e agora temos três ou quatro startups e todas elas funcionam como negócio já. Percebemos que não queremos ir à procura do unicórnio, prefiro o cavalinho que chega ao destino“, diz, entre risos, Kwame.

— Como é que isto tudo aconteceu?
— Vais conhecendo pessoas, vais fazendo sardinhadas. E se realmente és apaixonado por algo…
— És apaixonado por quê?
— Por resolver problemas, por criar produtos que tragam algum valor às nossas vidas.

É sem vergonha que diz que sempre sentiu inveja por não ter feito parte das conversas que deram origem ao primeiro telemóvel. “Alguém criou o primeiro telemóvel, alguém pegou nele e inovou. E depois as coisas vão evoluindo e adicionando ou tirando valor à tua vida. Sempre senti bastante inveja de não ter feito parte destas conversas iniciais do telemóvel. Teria sido porreiro, porque talvez tivesse dito para fazerem algo mais social ou colocarem um botão que desse para chamar logo a avó. E é isto — tentar fazer parte destas conversas. Como é que se faz parte? Porque, no final, o mundo é um conjunto de conversas e essas conversas vão criando produtos ou serviços”, diz.

— Lembro-me do que disseste do ego. Na inovação, acaba por ser a mesma coisa. É perverso.
— Na inovação há muito ego. Mas nós aqui matamos egos. O ego é muito do artista, a inovação mata egos, mas os inovadores em si têm egos enormes. Já matei o meu há muito tempo.

Para o futuro, Kwame tem dois desejos: abrir mais um escritório em África, outro na América Latina e dois na Ásia. “Depois, estou feliz. Quando chegar às 120 pessoas, fico feliz, porque o limite são as 150 pessoas. A partir daí deixas de conhecer as pessoas”, conta. E para a Impossible Labs isso é importante? “Não sei se é tão importante como uma boa sardinhada, mas gostava de ter nesta sardinhada pessoas que conheço, sem ter de estar sempre a lidar com estranhos, que é o que acontece nas grandes empresas. Não tenho nada contra as grandes empresas, são nossas clientes, mas… isto para dizer que precisávamos de um nome mais sexy e então mudámos.” São Impossible, de I’m Possible. Porque Lily Cole também foi.

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