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Philip Pullman em Oxford, em agosto de 2000. Foi neste ano que saiu o último volume da trilogia "Mundos Paralelos", "O Telescópio de Âmbar"

Getty Images

Philip Pullman em Oxford, em agosto de 2000. Foi neste ano que saiu o último volume da trilogia "Mundos Paralelos", "O Telescópio de Âmbar"

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“Os Reinos do Norte” fazem 25 anos. O que podemos ainda aprender com a trilogia de Philip Pullman? /premium

Há 25 anos, Lyra tornou-se numa das personagens mais famosas e queridas da literatura fantástica. Que lições podemos ainda aprender com ela e com a trilogia de "Os Reinos do Norte" de Philip Pullman?

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Foi em julho de 1995 que Philip Pullman publicou o primeiro volume da trilogia Mundos Paralelos. Pullman tinha-se estreado como autor vinte anos antes, com The Haunted Storm, obra galardoada com o New English Library’s Young Writer’s Award, mas sem ser capaz de alcançar o sucesso de Os Reinos do Norte, volume inaugural de Mundos Paralelos, e dos livros seguintes. No ano da sua publicação, o romance de fantasia recebeu a Carnegie Medal de literatura infantil e, em 1996, o The Guardian Children’s Fiction Award. Elogios que se foram multiplicando ao longo das décadas, ao ponto de a série de Os Reinos do Norte ter sido várias vezes incluída entre as melhores obras literárias em língua inglesa. Já o trabalho de Pullman, considerado uma das figuras mais influentes da cultura britânica, tem sido comparado a autores fundamentais como C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien ou Lewis Carroll, comparações com as quais provavelmente discordará — pelo menos nos dois primeiros casos.

Mas não foram apenas os críticos que Os Reinos do Norte conquistou. Quando a história de Lyra, uma rapariga de 12 anos que cresceu no fictício Jordan College, em Oxford, foi publicada, conquistou uma legião de fãs no mundo inteiro (a série já vendeu mais de 18 milhões de cópias em todo o mundo e foi traduzida em mais de 40 línguas, incluindo para português). Publicitada como uma trilogia dirigida aos mais jovens (em Portugal, foi comparada a Harry Potter, talvez numa tentativa de capitalizar o boom dos livros de J.K. Rowling), a complexidade dos temas tratados por Pullman — que vão da filosofia à física quântica, passando pela poesia ou a religião — com uma coerência e fluidez surpreendente, fazem com que Os Reinos do Norte e restantes volumes de Mundos Paralelos possam ser apreciados por qualquer leitor de qualquer idade. Talvez seja esse um dos segredos da eterna popularidade da saga, de que são prova as várias adaptações, teatrais e cinematográficas, feitas desde que foi lançada há 25 anos. A mais recente é uma série produzida pela BBC e HBO, bem recebida pelos críticos.

Mas qual será a verdadeira razão para a longevidade de uma saga que conta já com mais de duas décadas de vida? O que é que existe de tão fascinante no mundo (ou mundos) criado por Philip Pullman, que é tão próximo do nosso e, ao mesmo tempo, tão diferente? E que lições podemos tirar hoje dos seus livros? Falámos com três investigadores (um deles um grande fã de longa data) para tentar perceber o que que leva tantos leitores ao mundo de His Dark Materials.

O Paraíso Perdido, “mas de outra forma”

Philip Pullman começou a trabalhar na trilogia de Mundos Paralelos em 1993, quando ainda era professor, profissão que abandonou em 1996, um ano depois da publicação de Os Reinos do Norte, para se dedicar inteiramente à escrita. Até 1993, o mundo da literatura fantástica era totalmente estranho a Pullman, cuja bibliografia era então composta por alguns romances iniciais, livros infanto-juvenis e três dos quatro volumes da série Sally Lockhart (o último, The Tin Princess, saiu em 1994), passada na época vitoriana. Foi quase por acaso que surgiu a ideia de um livro de fantasia, durante uma conversa sobre projetos futuros com o seu editor de longa data, David Fickling. Quando Flicking lhe perguntou o que ia fazer a seguir, Pullman respondeu que queria escrever o “Paraíso Perdido, mas de outra forma”.

Philip Pullman fotografado em Oxford, em 2000. A localidade, onde o escritor estudou, é importante para a história de "Os Reinos do Norte"

David Levenson/Getty Images

A obra de John Milton tem sido desde sempre apontada como uma das principais influências de Mundos Paralelos, influência que Pullman nunca negou. É, aliás, ao poema de Milton que Pullman foi buscar o nome da trilogia, His Dark Materials, referência à matéria obscura que Deus usa para criar o universo. O primeiro contacto do escritor com o poema épico deu-se antes da entrada para a faculdade — uma professora de inglês obrigou-o e à restante turma a ler os dois primeiros livros, “os melhores dois livros, na verdade”, em voz alta durante as aulas. Essa experiência teve um efeito profundo em Pullman: “Isso teve um efeito físico em mim. Fiquei arrepiado e o meu coração começou a bater mais depressa. Foi a primeira vez que compreendi que a poesia não é uma maneira chique de transmitir informação; é um encantamento. É realmente um feitiço. Muda as coisas, muda-nos. É isso que tenho experimentado com a grande poesia desde então. Sei muitos poemas de cor. E não são apenas de Milton, de Wordsworth, Keats. São também dos poetas da Beat, também o ‘Uivo’, de Allen Ginsberg”, contou em entrevista à The New Yorker.

Esse amor pela poesia que deve à sua professora do secundário, a Miss Jones, levou a que chegasse a ponderar tornar-se poeta. “Mas depois virei-me para a narrativa, para a ficção”, e, graças a David Fickling, que tinha lido os mesmos livros que Pullman na escola, para a ficção: “Ficámos a trocar citações durante o almoço e a terminar as frases um do outro. Quando o almoço chegou ao fim, tinha um contrato para escrever fantasia.” Um género que, verdade seja dita, nunca impressionou muito Pullman enquanto leitor: “Nunca foi um leitor de fantasia. Como toda a gente nos anos 60, li O Senhor dos Anéis, e fiquei temporariamente impressionado, mas não li mais nenhum livro de fantasia”, admitiu também à The New Yorker, explicando que foi a falta de sexualidade do trabalho de Tolkien que fez com que deixasse de o apreciar. “E assim que nos apercebemos do que falta, conseguimos ver as falhas que existem. Ele não faz qualquer tipo de pensamento especulativo sobre o que é bom e o que é mau. A única personagem interessante é o Gollum, mas não é interessante o suficiente”, considerou.

Descobrir que era um escritor de fantasia foi, por isso, “uma surpresa” que permanece ainda hoje. Passados 25 anos, e com a sua obra definitivamente rotulada como ficção fantástica, Pullman continua a olhar para os seus livros como uma espécie de literatura realista, porque as suas personagens são sempre “o mais reais possíveis”. É essa “fantasia realista” que faz com que o mundo de Os Reinos do Norte seja tão parecido com o real e, ao mesmo tempo, diferente deste, tanto no que diz respeito às personagens como aos cenários onde a história se desenvolve — por exemplo, as primeiras cenas do livro passam-se na Universidade de Oxford, onde a heroína, a pequena Lyra, foi criada; mas a Oxford de Pullman não é a Oxford que o escritor frequentou, e o colégio onde Lyra cresceu, o Jordan College, não existe a não ser em Mundos Paralelos. Para Pullman, o fantástico sem ligação ao real não produz efeito nenhum, e é com essa base que ele trabalha.

“A crítica que ele faz ao abuso de poder de instituições religiosas [através do Magisterium] torna-a uma obra muito ética. Há uma grande carga moral, a escolha entre o bem e o mal. Lyra vê-se constantemente confrontada com estas escolhas, nas pessoas que observa e vice-versa.”
Rogério Miguel Puga, professor e investigador na Universidade Nova

Lyra é a heroína da saga — é a sua história que ela conta. A jovem é apresentada em Os Reinos no Norte, quando tem 12 anos e vive no Jordan College, em Oxford, onde tinha sido criada pelos académicos, professores e criados depois da morte dos pais num acidente de dirigível muitos anos antes. Inteligente e curiosa, mas muito indisciplinada, Lyra dedica-se a uma vida de aventuras dentro do campus universitário na companhia do seu melhor amigo, Roger Parslow, prestando pouca atenção aos estudos. A sua vida Oxford é interrompida quando Roger desaparece e a jovem decide embarcar numa viagem ao desconhecido e selvagem Norte em busca do seu amigo e do seu tio e único familiar conhecido, Lord Asriel, onde descobre a prática de experiências científicas terríveis envolvendo o misterioso Pó.

Esta história passa-se num universo paralelo, dominado por uma organização religiosa chamada Magisterium, que substitui o Papado depois da morte do Papa João Calvino. Neste mundo, as almas dos humanos existem fora dos seus corpos, sob a forma de animais. Estes génios (a que Pullman chama daemons no original em inglês) podem mudar de aparência, transformando-se em qualquer espécie de animal até que as crianças atinjam a puberdade, assumindo depois uma forma definitiva. O génio de Lyra chama-se Pantalaimon e é tão importante para o enredo como ela própria.

Estas e outras referências religiosas em Mundos Paralelos levaram alguns críticos a interpretar a trilogia como uma crítica negativa à Igreja Católica (Pullman é conhecido pelo seu ateísmo), enquanto outros preferem ver na série um reformulação de As Crónicas de Narnia, de C. S. Lewis. Lewis é, juntamente com Tolkien, um dos autores a que Pullman tem sido mais comparado. O curioso é que o Pullman não tem boa opinião de um ou de outro — acerca do primeiro, disse, na mesma entrevista à revista The New Yorker, tratar-se do autor de uma obra “sem profundidade”, com “orcs e hobbits que não nos dizem coisa alguma”; em relação ao segundo, admitiu, no Hay Festival de 2002, considerar As Crónicas de Nárnia, que leu quando era ainda professor, um trabalho de propaganda a favor da “religião em que ele acreditava” e uma obra misógina e extremamente racista. As influências de Pullman terão de ser necessariamente outras.

Além de Milton, o escritor admitiu ter sido inspirado pela obra de um outro inglês, William Blake, e também pelo escritor alemão Heinrich von Kleist, em particular por um ensaio sobre teatro de marionetas. A influência de Blake será, porém, a mais evidente — na opinião de Rogério Miguel Puga, investigador da área dos Estudos Ingleses, “a própria experiência de Lyra e das outras crianças [na série], a passagem da inocência para a experiência, ecoa intertextualmente as Canções de Inocência e de Experiência de William Blake. É, aliás, um paralelismo que Philip Pullman faz”, apontou o professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, lembrando que apontou o professor universitário, lembrando que “o título da trilogia [His Dark Materials] é tirada de Milton e toda a série, que é iniciada com Os Reinos do Norte, joga com o Paraíso Perdido, com a ideia do pecado, do erro humano, da queda trágica”. “É quase o universo de John Milton”, disse ao Observador. “A intertextualidade dá-lhe espessura e só o leitor informado é que é capaz de captar todas estas referências — aos clássicos, a Milton, à Bíblia”.

“A literatura infantil moderna confia mais nos seus jovens leitores do que os escritores iniciais confiavam. O que também é justo — as crianças podem ser inexperientes, mas isso não significa que devam ser impedidos de lidar com temas mais complexos.”
Dimitra Fimi, professora de Literatura Infantil e Fantástica na Glasgow University

O diálogo que o autor estabelece entre várias obras não serve apenas para acrescentar uma nova camada de complexidade a uma obra que já é por si densa; serve também para apresentar questões que são importantes para Pullman, “como o ostracismo social, a pobreza, a marginalização”. A “grande preocupação social” é, aliás, bastante evidente ao longo de toda a obra: “A crítica que ele faz ao abuso de poder de instituições religiosas [através do Magisterium] torna-a uma obra muito ética. Há uma grande carga moral, a escolha entre o bem e o mal. Lyra vê-se constantemente confrontada com estas escolhas, nas pessoas que observa e vice-versa”, apontou Rogério Miguel Puga. “Mesmo a magia, presente na trilogia mas sem a dominar, “contém lições, aprendizagens, tal como as que a literatura oral nos ensina”. Trata-se de “uma estética fantástica, que é muito ética, que tem uma grande relação com a realidade e com o universo dos jovens adultos que, à partida, são o público de Philip Pullman”.

Outras questões abordadas por Pullman são a teologia, a metafísica ou a ciência. Dimitra Fimi apontou ainda “o processo de crescimento, incluindo a descoberta da sexualidade, o poder e a corrupção, o livre arbítrio e a procura pelo conhecimento, a religião versus ciência, e questões mais filosóficas sobre o que é a alma humana ou a consciência”. Temas que talvez se aproximem mais da chamada literatura para adultos, mas que parecem ser uma das chaves para o sucesso de Mundos Paralelos. “Acho que os temas de Pullman desempenham um papel muito importante na popularidade dos livros, mas também as personagens fortes (especialmente Lyra enquanto personagem feminina forte), a sua visão imaginativa e a sua construção de um mundo que existe entre muitos mundos”, defendeu a professora de Literatura Infantil e Fantástica na Glasgow University, para a qual não existem dúvidas de que os livros do escritor inglês são literatura infantil, uma discussão que há muito se mantém.

“A literatura infantil tem uma longa tradição de lidar com temas complexos e até negros, e a literatura infantil moderna confia mais nos seus jovens leitores do que os escritores iniciais confiavam. O que também é justo — as crianças podem ser inexperientes, mas isso não significa que devam ser impedidos de lidar com temas mais complexos”, considerou Dimitra Fimi numa conversa, por email, com o Observador. Rogério Miguel Puna tem uma opinião diferente: “As obras dele são literatura crossover, literatura que é escrita para crianças e adolescentes e que é lida por adultos, que é consumida por leitores de todas as idades”, começou por explicar o professor da Universidade Nova. “Têm uma camada de profundidade a que só os adultos conseguem chegar e tem outra de superfície que é para as crianças. O Principezinho, de Saint-Exupéry, é um caso desses. O leitor informado e competente em termos literários ou interessado faz uma leitura profunda da obra e identifica referenciais que uma criança não consegue identificar. Isso é óbvio no caso de Philip Pullman.”

Dafne Keen interpreta o papel de Lyra na adaptação televisiva de "His Dark Materials" da BBC e HBO

D.R.

Simão Côrtes, que descobriu os livros de Philip Pullman quando tinha 11 ou 12 anos, não sabe dizer “até que ponto” tinha naquela altura consciência da complexidade de alguns dos temas tratados em Os Reinos do Norte e nos outros livros, mas admite lembrar-se bem de ter por eles “um encanto juvenil” que lhe que havia ali “alguma coisa era muito especial”. “Não consigo dizer honestamente até que ponto é que tinha consciência destas coisas, porque aquilo que para mim é importante nos livros é que eles foram realmente formativos no sentido de serem professores. Ou seja, eu tenho alguma noção destas dimensões dos livros precisamente porque os livros me apresentaram essas dimensões. Aquilo de que eu me lembro bem é de ter um encanto juvenil que me dizia que alguma coisa era muito especial nos livros, independentemente de quanta noção das nuances eu tivesse. E depois isso acabou por influenciar muito todo o meu percurso.”

Licenciado em Ciências da Linguagem pela Faculdade de Letras de Lisboa, Simão Côrtes acabou por enveredar pelos Estudos de Religião, uma área que sempre lhe interessou, focando-se em questões relacionadas com “o daemon pessoal” que tudo têm a ver com a obra de Pullman. “Diria que as questões filosóficas e morais dos livros marcaram todo o meu percurso de uma forma que, pelo menos para mim, foi muito única”, admitiu o investigador ao Observador. “Há mais de dez anos que dou por mim a usar personagens do Pullman como o meu compasso moral, por exemplo. O que é muito engraçado, porque naturalmente já li muitas outras coisas depois, mas há um papel dos livros que é muito fundamental para mim. E os dois livros da nova trilogia expandem um bocado estas coisas também.”

Para Simão Côrtes, “a principal questão do livro é sobre a nossa relação com o religioso e o sagrado, em especial a tensão entre monoteísmo e politeísmo, encanto e desencanto. Os mundos do Pullman são complexos e múltiplos. Existem cientistas, bruxas, instituições religiosas, anjos, adivinhação, graça, etc., e dá para perceber que ele tem algum horror à monocultura que certas linhas de monoteísmo promovem. Em Pullman, existe uma multiplicidade da verdade que viola as expectativas de um monoteísmo que objetifica a verdade num messias, num profeta, num livro. É um pouco daí que o lado mais transgressor do livro vem, porque os livros são, no fundo uma revolução contra a Autoridade, que é o nome de Deus no universo da Lyra”, explicou o investigador da área dos Estudos de Religião, atualmente na Canterbury Christchurch University, e fã de longa data de Mundos Paralelos. “Contra esta ‘monocultura’, ele apresenta a ideia da República do Céu, um espaço em que o sagrado é múltiplo, desestruturado e livre”. Para Simão Côrtes, esta “é uma ideia muito poderosa, e é praticamente uma poética moderna do politeísmo. No entanto, ele é muito cuidadoso em deixar aberta a questão de Deus.”

“Há mais de dez anos que dou por mim a usar personagens do Pullman como o meu compasso moral, por exemplo. O que é muito engraçado, porque naturalmente já li muitas outras coisas depois, mas há um papel dos livros que é muito fundamental para mim."
Simão Côrtes, fã e investigador

A história de formação de Lyra é a história da humanidade

A história de Mundos Paralelos é, na sua essência, a história de Lyra. A passagem da infância para a adolescência é explorada nos seus três volumes — Os Reinos do Norte, A Torre dos Anjos e O Telescópio de Âmbar, publicados em 1995, 1997 e 2000, respetivamente — e continuada numa sequela e numa prequela, de menores dimensões, que Philip Pullman lançou depois de 2000. Existe ainda uma terceira novela, Serpentine (também uma sequela), que foi escrita em 2004 para um leilão de caridade e que será publicada pela primeira vez em livro neste ano, em outubro. Apesar destas incursões ao mundo de Lyra Belacqua (depois Silvertongue), Pullman sempre pôs de lado a ideia de voltar a escrever um romance sobre a heroína. Considerava ter o “assunto encerrado”.

Foi por isso com grande surpresa que os fãs receberam a notícia do lançamento de uma nova trilogia focada em Lyra, O Livro do Pó. O anúncio da publicação de La Belle Sauvage em 2017 abanou o mundo editorial britânico e foi o grande evento literário desse ano no Reino Unido. Assim que chegou às livrarias, La Belle Sauvage atingiu instantaneamente o número 1 do top nacional de vendas, tornando-se no livro infanto-juvenil com mais cópias vendidas na primeira semana nas livrarias britânicas desde o lançamento da peça de teatro Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, em 2016. Foi a primeira vez que um livro de Philip Pullman entrou diretamente para o número 1.

La Belle Sauvage passa-se dez anos antes do início de Os Reinos do Norte. Começa com o nascimento de Lyra e acompanha os primeiros meses de vida da bebé que parece estar destinada, desde muito cedo, às mais incríveis e perigosas aventuras. Apresenta também uma personagem que será importante mais à frente na nova trilogia, Malcolm Polstead. O palco dos eventos narrados volta a ser Oxford. O segundo volume desta nova trilogia, A Aliança Secreta, publicado no Reino Unido em 2019 e muito recentemente em Portugal, avança várias décadas no tempo, relatando episódios que se passam duas décadas depois do final de O Telescópio de Âmbar quando Lyra é já uma mulher adulta. O terceiro volume de O Livro do Pó está neste momento em preparação, desconhecendo-se o título ou a data prevista de publicação.

Philip Pullman em 2017, por altura do lançamento de "La Belle Sauvage", volume inaugural da nova trilogia, "O Livro do Pó"

AFP via Getty Images

Em entrevista ao programa de rádio “To The Best Of Our Knowledge”, o escritor admitiu que “há coisas que decidimos quando estamos a escrever um livro e há coisas que decidimos pelas nossas personagens, pelas situações, pelas musas”, e que foi assim, quase que por instinto, que decidiu dar início a uma nova trilogia: “Senti que tinha de escrever a história”, afirmou. “Não fiz de propósito”, confessou por sua vez à The New Yorker. “Dei por mim a sonhar com um número de episódios envolvendo Lyra e as pessoas à sua volta. E existia sempre uma espécie de mistério que não tinha resolvido satisfatoriamente nos Mundos Paralelos.” Esse “mistério” tem a ver com “a natureza do Pó”, uma substância misteriosa que existe em todo o lado, da qual algumas personagens poderosas parecem ter medo, e que “tem alguma coisa a ver com a consciência”. “Não explorei totalmente isso, e estou a usar esta história, entre outras coisas, como forma de descobrir o que esta ideia significa”, explicou à mesma revista norte-americana.

Para Rogério Miguel Puga, “esta série toda, já com os livros satélites, mais pequenos, funciona como um romance de formação, onde testemunhamos, enquanto leitores, a formação, o desenvolvimento da personalidade de Lyra, que é confrontada com obstáculos que tem de ultrapassar e com escolhas éticas e morais. Há aqui também a questão da perceção, de como percecionamos o mundo. No final de O Telescópio de Âmbar, ela vê-se livre do aletiómetro [um objeto capaz de revelar a verdade] e passar a usar a sua própria consciência, a sua própria intuição. Isso é a prova maior de que ela cresceu e se tornou autónoma”. A “demanda para salvar o mundo” que Lyra leva a cabo insere-se, na opinião de Dimitra Fimi na “tradição da fantasia infantil”. Os Reinos do Norte “até começa com uma jovem escondida num armário e a descoberta de algo crucial, à semelhança de Lucy quando encontra a entrada para Nárnia”.

O crescimento de Lyra Belacqua serve de desculpa para Pullman levantar uma série de questões que têm a ver com “a consciência humana, as escolhas”. “O Paraíso Perdido de Milton é muito sobre isso, e Os Reinos do Norte também. As fugas de Lyra, as próprias escolhas que ela faz, a aprendizagem dentro da academia, depois em confronto com o mundo real, a questão dos marginalizados…”, exemplificou o professor da Universidade Nova. “Há também a ideia de que é na nossa infância que estão muitas das nossas matérias obscuras, dos nossos fantasmas e dos nossos traumas, e [a série] acaba por ser um bocadinho sobre a perda da inocência também, sobre obediência, desobediência, a própria desobediência civil. Lyra desobedece para que o bem prevaleça.”

“Podemos debater questões muito relevantes através da literatura e, como estamos a falar de ficção, não há o extremismo que há quando estamos a falar de política. Podemos debater, falar a verdade a mentir. A ficção dá-nos esse poder, e ele utiliza-o. Philip Pullman não é um autor ingénuo.”
Rogério Miguel Puga, professor e investigador na Universidade Nova

Para Rogério Miguel Puga, Mundos Paralelos trata-se sobretudo de “uma trilogia sobre a condição humana, o escape, a fuga, a necessidade que o ser humano tem de fugir para a fantasia. Já o Aristóteles o dizia, o ser humano precisa de histórias, precisa de narrativas. A literatura tem uma dimensão antropológica, no sentido em que é fruto do ser humano e é quase uma necessidade. Precisamos de narrativas, e estes mitos antigos vão sendo atualizados — as aventuras, a viagem, os perigos. A série mais não é do que uma atualização de mitos antigos, e a literatura vive disso, desta renovação, e isso gera intertextualidade”, afirmou, acrescentando: “Acho que esta série é muito sobre o poder da imaginação”. É “literatura do impossível”, como lhe chamou Dimitra Fimi.

A própria questão do Pó, “uma grande metáfora” para a “busca pela transcendência”, tem muito a ver com o que significa ser humano. “A vontade de partir, de descobrir e de manipular e controlar — há sempre aqui essa vontade, que faz parte da natureza humana, e é essa relação ao ligação psicológica com a vida real e todas essas situações metafóricas que são metonimicamente símbolos da nossa natureza humana que torna a obra muito interessante”, considerou o especialista em literatura inglesa. “Os próprios daemons são uma ideia muito inovadora na época, porque não são bem animais de estimação, fazem parte do ‘eu’, fazem parte de nós. Claro que uma criança lerá um daemon de forma literal, como um animal de estimação, mas uma leitura mais profunda do revelará que funciona como um alter ego ou como uma parte de nós. É o tal amigo invisível que muitas crianças têm. Isso cola bem em todos os públicos.”

Simão Côrtes acredita o conceito de daemon é também fundamental: “É muito importante, e isto é uma noção de que o Pullman faz uso mesmo na sua vida pessoal. A ideia de existir um gémeo espiritual, que te acompanha e te guia no dia a dia e que tens de aprender a ouvir. Há um momento em que uma personagem qualquer diz sobre o Lord Asriel uma coisa do tipo: ‘Não admira que o homem que começou esta revolução venha de um mundo onde se sabe que o daemon existe’. E isto é uma dimensão importantíssima para a nossa cultura, e está na base de toda a nossa filosofia. Quem torna a noção mainstream é Platão na voz de Sócrates. O daemon é o ‘deus’ que leva Atenas a acusar Sócrates de impiedade. E imensas vezes na obra platónica vemos referências diretas a Sócrates que ouve uma voz que mais ninguém ouve e a mudar de opinião porque lhe foi dito que o fizesse”.

Uma história para os tempos modernos

Nos últimos anos, com o surgimento da nova trilogia, O Livro do Pó, e também com a estreia de uma nova série televisiva baseada em Mundos Paralelos, “His Dark Materials”, voltou a dar-se mais atenção à obra de Philip Pullman, cujo mundo ficcional, dominado por uma organização  com laivos ditatoriais, tem sido comparado à realidade dos tempos de hoje. Esta é uma comparação que, na opinião de Rogério Miguel Puga, faz “todo o sentido”. “A literatura sempre se preocupou com isso, e a ficção tem essa capacidade de comentar e documentar ficcionalmente a realidade. E fá-lo sem o perigo de haver extremismo ao debatermos”, considerou o investigador e professor universitário. “Podemos debater questões muito relevantes através da literatura e, como estamos a falar de ficção, não há o extremismo que há quando estamos a falar de política. Podemos debater, falar a verdade a mentir. A ficção dá-nos esse poder, e ele utiliza-o. Philip Pullman não é um autor ingénuo.”

"Os livros podem ser um bocado moralistas às vezes na sua crítica ao cristianismo mas, tirando isso, não são muito moralistas, nem tentam ensinar o que fazer, mas têm nuance e multiplicidade que chegue para nos ajudar a fazer algumas das perguntas certas."
Simão Côrtes, fã e investigador

Isso não quer dizer que Mundos Paralelos tenha menos valor por causa disso. “Todas as obras são, no fundo, ideológicas”, e as de Pullman não são exceção: “Há uma forma de ver o mundo, as relações humanas, a interação social” e, por isso, romances como Os Reinos do Norte são “também marcadamente ideologicamente. Isso é óbvio”. “Depois basta ver as entrevistas, as posições que ele toma, que são muito próximas das focalizações, dos pontos de vista, que vão sendo veiculados pelas personagens, em diálogo e pelo narrador omnisciente. Isso é muito interessante também, a ficção como repositório ideológico. A literatura não muda ninguém per se, pode é ajudar o ser humano a refletir sobre o mundo que o rodeia. A literatura só ensina aos leitores aquilo que eles conseguem aprender”, afirmou Rogério Miguel Puga.

Mundos Paralelos é também “uma obra culturalmente consciente, em termos de género, de etnia, de uma série de questões atuais, da contemporaneidade, que agradam a uma nova geração” e às quais Philip Pullman é sensível. “É uma atualização do Tolkien, para os anos 1990 e 2000”, considerou o professor, acrescentando que “há muitos autores que usam a fantasia para aligeirar obras muito sérias” e que “isso acontece cada vez mais nas distopias sobre cataclismos ecológicos, por exemplo. Ou seja, o elemento fantástico nos romances sobre a contemporaneidade é utilizado para enriquecer a componente estética e aligeirar a componente ética, para que aquilo não se torne num panfleto ideológico-político”. Também Dimitra Fimi apontou que, “apesar de parecer conjurar mundos alternativos, a fantasia está geralmente em diálogo com o mundo real e quase sempre com um momento histórico ou cultural particular”, disse ao Observador.

Mas, claro, “cada leitor tem liberdade total para fazer as leituras que entende. A partir do momento que o livro é publicado, aquilo que o autor pensou ou desejou é irrelevante. Cada leitor lerá His Dark Materials filtrado através dos seus sonhos, expectativas, conhecimentos, ignorâncias, traumas e vivências pessoais”, que podem variar consoante a idade. É também por isso que “voltamos aos clássicos e encontramos sempre coisas novas. Em diferentes fases da vida, prestamos atenção a temáticas e atitudes diferentes”, afirmou Rogério Miguel Puga.

Passados 25 anos da publicação do primeiro livro da trilogia e outros tantos desde que se apaixonou pela saga, Simão Côrtes não tem dúvidas de que há ainda muito a aprender com Philip Pullman. “Por outro lado, acho que podemos aprender a pensar o sagrado e o mágico do ponto de vista da nossa modernidade. Isto é muito giro, porque o Pullman durante muitos anos foi um neoateu muito crítico de todo o tipo de crendices, mas há poucos anos publicou uma apologia da magia como forma válida de estar no mundo e de pensar o mundo. E isto é interessante porque a obra precede o próprio autor de alguma forma. Ou seja, se há coisa que transpira em His Dark Materials é que a magia é uma forma maravilhosa de pensar o(s) mundo(s), mesmo num mundo pós-científico. Mas isto é algo a que o autor chegou depois da obra.”

Mas talvez o aspeto mais importante seja o que se prende com a importância de “fazer as perguntas certas”. “Acho que o Pullman tem esse poder de brincar sempre com as fronteiras do que sabemos ou pensamos saber. Acho que isso é muito cativante também, especialmente porque, no fundo, não há grandes respostas, só muitas perguntas. Os livros podem ser um bocado moralistas às vezes na sua crítica ao cristianismo mas, tirando isso, não são muito moralistas, nem tentam ensinar o que fazer, mas têm nuance e multiplicidade que chegue para nos ajudar a fazer algumas das perguntas certas.”

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