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Os últimos meses da vida de Kurt Cobain. A eterna busca por droga, o reencontro com o pai, as discussões com a mulher, a depressão e o fim /premium

"Mais Pesado do que o Céu", a biografia escrita por Charles R. Cross, é finalmente publicada em Portugal. O Observador revela um excerto que regressa ao período final da sua vida e à ultima digressão.

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Uma pesquisa por biografias de Kurt Cobain vai dar sempre vários resultados, mas o livro de Charles R. Cross continua a ser uma referência, mesmo 18 anos após a publicação original. Nesse ano de 2001, “Mais Pesado do que o Céu” mostrou-se obrigatória pela quantidade de detalhes que revelavam os testemunhos que conseguiu reunir. Agora, é publicada pela primeira vez em Portugal, com um prefácio atualizado. Chega às livrarias a 13 de dezembro.

Charles R. Cross é o autor. Jornalista e escritor, acompanhou o panorama musical de Seattle, cidade onde vive, sobretudo entre os anos de 1986 e 2000, testemunhando o movimento que ficou na história como “grunge”, e que envolveu bandas como os Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden ou Alice in Chains. Os direitos de adaptação ao cinema de “Heavier than Heaven”, o título original desta biografia, foram entretanto adquiridos pela Universal Pictures. Cross é também um dos jornalistas que mais escreveu sobre Kurt Cobain, o líder dos Nirvana, que morreu a 6 de abril de 1994 e que se transformou num ícone do rock’n’roll.

O Observador faz a pré-publicação da nova edição desta biografia, revelando um excerto que recupera o dia-a-dia de Cobain, entre os acontecimentos que se seguiram à edição do álbum “In Utero”, o período da gravação do “Unplugged” da MTV e os meses que antecederam a morte do músico.

A capa de “Mais Pesado do que o Céu”, de Charles R. Cross (PIM! Edições)

SEATTLE, WASHINGTON
NOVEMBRO DE 1993 – MARÇO DE 1994

“E que o título do nosso álbum duplo seja Doença de Cobain. Uma ópera rock sobre um rapaz grunge de Auschwitz  quase anorético e que vomita sucos gástricos.” (De uma entrada do diário de Kurt.)

Quando gravou o Unplugged, Kurt escondia um segredo que condicionava a sua disposição: os problemas de estômago tinham regressado, e ele voltara a vomitar bílis e sangue. Viu-se outra vez numa roda-viva de médicos e a ter de consultar especialistas por todo o país ou onde quer que a digressão parasse. Ouviu as mais variadas opiniões sobre as suas queixas: houve quem achasse que sofria de síndrome do intestino irritável, mas o diagnóstico deixava dúvidas; fez o teste para despiste da doença de Crohn e o resultado foi negativo. De qualquer das formas, não melhorou com nenhum tratamento. Kurt garantia que a heroína o ajudava a atenuar os sintomas, embora a questão de saber se a droga era parte do problema ou da cura seja discutível.

Houve quem achasse que sofria de síndrome do intestino irritável, mas o diagnóstico deixava dúvidas; fez o teste para despiste da doença de Crohn e o resultado foi negativo. De qualquer das formas, não melhorou com nenhum tratamento. Kurt garantia que a heroína o ajudava a atenuar os sintomas, embora a questão de saber se a droga era parte do problema ou da cura seja discutível.

Na manhã da gravação do Unplugged, passou uma hora a preencher um questionário médico acerca dos seus hábitos alimentares. Nele descreveu um percurso de vida repleto de fome, tanto espiritual como física. Escreveu que os seus sabores preferidos eram “framboesa e chocolate” e os de que menos gostava eram “brócolos, espinafres e cogumelos”. Quando questionado sobre pratos preferidos feitos pela mãe, respondeu: “Guisado, batatas, cenouras e piza.” À questão “O que é que davas de comer ao cão da família por debaixo da mesa?”, a resposta que respondeu: “Comida da madrasta.” Kurt dizia ainda que os seus pratos de fast food de eleição eram os da Taco Bell, bem como piza de pepperoni com massa fina, confessando que a única comida étnica que detestava era a indiana. Por outro lado, quando o questionário indagava sobre o seu estado de saúde em geral, omitiu a toxicodependência e escreveu apenas “dores de estômago”. O único exercício físico praticado era “atuar com a banda”, e à questão “Gosta de atividades ao ar livre?”, respondeu com duas palavras: “Oh, poupem-me!”

[“On a Plain”, no “Unplugged” da MTV:]

Kurt ia abordando no diário a evolução dos seus problemas gastrointestinais e gastava páginas em pormenores como a descrição de uma endoscopia — exame no qual se insere uma câmara de vídeo minúscula através da garganta até ao estômago, que ele já fizera três vezes. De certa forma, vivia atormentado com esse problema, mas, em parte, isso também o distraía. Numa das entradas diarísticas, implorava:

Por favor, Deus, que se fodam os discos de sucesso; permite só que eu tenha uma doença de estômago rara e inexplicável batizada com o meu nome. E que o título do nosso álbum duplo seja Doença de Cobain. Uma ópera rock sobre um rapaz grunge de Auschwitz quase anorético e que vomita sucos gástricos, com o vídeo caseiro de uma endoscopia a acompanhar!

A relação entre Kurt e os managers deteriorou-se ao ponto de a equipa dos Nirvana começar a parecer uma família disfuncional — na verdade, havia alguns aspetos em comum com a própria família de Kurt: os colegas da banda desempenhavam o papel de meios-irmãos e os agentes eram os pais.

Embora o Unplugged tivesse sido um momento de grande adrenalina para Kurt, dez dias depois, já em Atlanta, a sua saúde física decaiu bastante, a ponto de ficar estendido no camarim, agarrado à barriga. A empresa de catering que acompanhava a digressão ignorou o pedido de Kurt, ou seja, macarrão com queijo da marca Kraft e, em vez disso, preparou-lhe um prato com massa em forma de búzios, queijo e malaguetas jalapeño. Courtney levou o prato ao agente John Silva e exigiu explicações: “Mas que caralho estão a fazer os jalapeños e o queijo [Monterey] Jack nesta massa?” Segurando no prato como uma empregada de mesa, mostrou-lhe o impresso com instruções a negrito: “Só macarrão com queijo da marca Kraft.” Para marcar posição, atirou a comida para o lixo. “A Courtney estava-se borrifando para o que o Silva pensasse dela; a única preocupação dela era que só servissem ao Kurt coisas que ele pudesse comer”, recorda Jim Barber, que assistiu à cena. “Ela disse ao John: ‘Porque é que não deixam o Kurt ser como é?’” Como reforço adicional do seu ponto de vista, obrigou Silva a analisar o vómito de Kurt, que continha sangue. Depois de Courtney ter saído, Silva comentou com Barber: “Vês o que eu tenho de aturar?”

A relação entre Kurt e os managers deteriorou-se ao ponto de a equipa dos Nirvana começar a parecer uma família disfuncional — na verdade, havia alguns aspetos em comum com a própria família de Kurt: os colegas da banda desempenhavam o papel de meios-irmãos e os agentes eram os pais. “O Kurt detestava o John”, recorda um antigo funcionário da Gold Mountain, talvez por lhe fazer lembrar um bocado o próprio pai. No final de 1993, a desconfiança de Kurt em relação à Gold Mountain era de tal forma forte que já contratava sistematicamente Dylan Carlson para lhe analisar os relatórios de contas, com a perceção de que andava a ser enganado. Além de Carlson, Kurt só interagia com o assistente de Silva, Michael Meisel.

Silva, por seu turno, descrevia o cliente mais famoso, sem pudores, como “um drogado” — o que, no fundo, era verdade, embora parecesse desleal às pessoas que o ouviam. Também não era menos verdade que Silva, como toda a gente à volta de Kurt, incluindo Courtney, simplesmente não sabia o que fazer quanto à dependência dele. Seria o amor bruto melhor do que a aceitação? Era preferível apontar-lhe o dedo ou consentir que se drogasse?

Outro dos managers de Kurt, Danny Goldberg, trabalhara em tempos como assessor de imprensa dos Led Zeppelin durante o período de maior devassidão da banda; por conseguinte, ficou encarregado de tarefas como selecionar médicos para a reabilitação. Kurt aproximou-se de Danny, chegando a considerá-lo uma figura paternal — mesmo achando que a empresa dele, a Gold Mountain, andava a lixá-lo. A relação pessoal entre ambos acabou por ser prejudicada pela profissional, uma vez que a mulher de Goldberg, Rosemary Carroll, era advogada quer de Kurt, quer de Courtney. Tratava-se de uma situação algo “incestuosa”, que suscitava algumas reservas. “Não me parece que essa decisão tenha favorecido o Kurt e os interesses dele, e digo isto sem pôr em causa a competência da Carroll como advogada”, observa Alan Mintz, anterior advogado de Kurt.

Wendy, Kim, Don e Kurt Cobain no Natal de 1974 — a família de Kurt

Apesar disso, era inegável que Kurt confiava tanto em Rosemary, como em Danny. Pouco depois do nascimento de Frances, fizera um esboço do seu “testamento e última vontade”, que nunca chegou a ser assinado e no qual declarava que, se Courtney morresse, queria que Danny e Rosemary se tornassem tutores legais da filha. Se tal não fosse possível, a responsabilidade transitaria para a irmã Kim ou para uma lista de tutores ordenada da seguinte forma: Janet Billig; Eric Erlandson, dos Hole; Jackie Farry, a antiga ama; e Nikki McClure, uma antiga vizinha com quem não falava há mais de um ano. Wendy O’Connor, a mãe de Kurt, aparecia em nono lugar nessa sucessão, e só lhe seria atribuída a tutela de Frances se Courtney, Rosemary, Danny, Kim, Janet, Eric, Jackie e Nikki já tivessem falecido. Kurt escreveu que, em circunstância alguma, a filha deveria ser entregue ao pai dele — mesmo que todos os restantes familiares estivessem mortos — ou a alguém da família de Courtney.

A digressão americana de In Utero arrastou-se por mais um mês após o Unplugged, tendo chegado a Saint Paul, no Minnesota, a 10 de dezembro. Os Nirvana tinham mais uma filmagem agendada na MTV para o final dessa semana, e Kurt decidiu fazer as pazes com a emissora, convidando Finnerty e Kurt Loder a entrevistarem-no. Durante a gravação, os membros da banda embebedaram-se e atiraram-se uns para cima dos outros, em monte, até derrubarem a câmara. “Nunca foi para o ar”, recorda Finnerty. “Toda a gente, inclusive o Kurt Loder, ficou tão bezana de vinho tinto que a gravação ficou inutilizável.” Mais tarde, Loder e Krist destruíram um quarto de hotel, espatifando a televisão e arrastando peças de mobiliário para o átrio. O hotel tentou processar a banda por alegados estragos no valor de 11 799 dólares, sem sucesso.

Durante a gravação, os membros da banda embebedaram-se e atiraram-se uns para cima dos outros, em monte, até derrubarem a câmara. "Nunca foi para o ar", recorda Finnerty. "Toda a gente, inclusive o Kurt Loder, ficou tão bezana de vinho tinto que a gravação ficou inutilizável." Mais tarde, Loder e Krist destruíram um quarto de hotel, espatifando a televisão e arrastando peças de mobiliário para o átrio. O hotel tentou processar a banda por alegados estragos no valor de 11 799 dólares, sem sucesso.

Três dias mais tarde, a banda gravou, em Seattle, uma emissão do programa Live and Loud, também para a MTV. O canal filmou os Nirvana perante uma pequena assistência e fê-los usar adereços, de forma a parecer que era véspera de Ano Novo, altura em que o programa seria emitido. Depois da atuação, Kurt convidou a fotógrafa Alice Wheeler para irem ao hotel Four Seasons conversar. Pediu ao serviço de quartos para lhe levarem um bife e atirou: “A MTV é que paga.” No decurso da conversa, Kurt insistiu que Wheeler o visitasse na casa nova que ele e Courtney estavam a comprar, mas não se lembrou da morada. Disse-lhe ainda, como passara a dizer à maioria dos amigos, para o contactar através da Gold Mountain. A decisão de fornecer o número de telefone da empresa de management teve o efeito inadvertido de isolar Kurt ainda mais: muitos dos seus antigos amigos contam que ligaram para a Gold Mountain e que as chamadas nunca lhes foram retribuídas, perdendo-se o contacto.

[“Heart-Shaped Box”, no “Live and Loud” de 1993:]

Uma semana depois, quando a digressão chegou a Denver, Kurt reencontrou-se com John Robinson, dos The Fluid. Robinson confidenciou-lhe que a banda se tinha separado, e Kurt quis saber todos os pormenores, dando a impressão de estar à procura de dicas. Depois, Robinson mencionou que tinha começado a escrever canções ao piano e que pretendia fazer um álbum exuberante, utilizando cordas e trompas. “Uau!”, exclamou Kurt. “Isso é precisamente o que eu quero fazer!” Declarou que já discutira uma ideia semelhante com Mark Lanegan e convidou Robinson a colaborar com eles assim que a longa digressão terminasse. Também andava a falar muito na hipótese de trabalhar com Michael Stipe, dos R.E.M.

Cada membro da família encontrou um canto da casa a que chamar seu: o jardim a norte tornou-se o recreio de Frances, a que não faltava o seu próprio parque infantil; a coleção de chávenas de Courtney passou a estar exposta na cozinha, enquanto o seu sortido de lingerie encheu um roupeiro no quarto; a cave tornou-se o armazém de todos os discos de ouro de Kurt, que não estavam expostos, apenas amontoados.

No Natal, houve por fim uma pausa na digressão, e Kurt e Courtney foram ao Arizona, para passarem quatro dias no exclusivo Canyon Ranch Spa, na periferia de Tucson. Como presente de Natal, Courtney ofereceu a Kurt, em vídeo, uma série pela qual ele era fascinado: The Civil War [A Guerra Civil], de Ken Burns. Durante a estada no spa, Kurt tentou fazer uma desintoxicação de drogas controlada por si próprio, e todos os dias visitava o Dr. Daniel Baker, o terapeuta residente. A opinião do clínico quanto ao problema de Kurt marcou-o muito para lá daquele fim de semana prolongado. Baker disse-lhe que a dependência chegara a um ponto que o obrigava a manter-se sóbrio; o contrário significaria a morte. Já muitas outras pessoas lhe tinham feito a mesma recomendação, mas, naquele dia, ele pareceu levá-la a sério.

Uma pausa para refletir

A diferença entre a sobriedade e a intoxicação nunca ficou tão patente como no dia 30 de dezembro, quando os Nirvana deram um concerto no Great Western Forum, perto de Los Angeles. O realizador Dave Markey estava a filmar aquela noite e, ao ver uma demonstração de embriaguez tão extrema, desligou a câmara por piedade. Dessa vez, quem se encontrava num estado lastimável não era Kurt, mas Eddie Van Halen. Nos bastidores, bêbado e de joelhos, o famoso guitarrista implorava a Krist para improvisar com os Nirvana. Kurt chegou entretanto e viu o seu herói de outrora em colapso à sua frente, com os lábios franzidos, qual Dean Martin bêbado numa má paródia dos Rat Pack. “Não, não podes tocar connosco”, anunciou Kurt com firmeza. “Não temos guitarras a mais.”

Van Halen não percebeu aquela mentira óbvia e apontou para Pat Smear, aos gritos: “Bom, então deixem-me tocar com a guitarra do mexicano. Ele é o quê? Mexicano? Preto?” Kurt não queria acreditar. “O Eddie começou com umas graçolas racistas e homofóbicas, típicas de bimbo”, conta Dave Markey. “Foi surreal.” Kurt ficou furioso, mas por fim lá arranjou uma resposta à altura: “Pensando melhor, podes tocar”, prometeu. “Vai para o palco depois do nosso encore e atua sozinho!” Disto isto, saiu disparado.

Com 1993 a terminar, Kurt escreveu inúmeras reflexões sobre o significado do ano que passara. Enviou uma carta à revista The Advocate, a agradecer a publicação da sua entrevista, aproveitando para enumerar as suas conquistas: “Foi um ano produtivo. Os Nirvana terminaram mais um álbum (do qual estamos muito orgulhosos, embora tenhamos levado com muita merda de pessoas que diziam — antes do lançamento — que íamos cometer ‘suicídio comercial’). E a minha filha Frances, na sua alegria angelical, ensinou-me a ser mais tolerante com a humanidade.”

Escreveu também uma carta, nunca enviada, a Tobi Vail, que ainda alimentava a esperança de ir para a frente com o projeto de gravação que tantas vezes tinham discutido. Essa atitude convenceu Kurt — ainda magoado com a “tampa” que levara — de que Tobi só estava interessada nele para projetar a própria carreira. O tom da carta era amargo: “Faz-te pagar enquanto ainda és bonita, enquanto te veem ter sucesso, e eles queimam-te.” Referindo-se a In Utero, declarou: “Nenhuma das canções deste disco é sobre ti. Não, não sou teu namorado. Não, não escrevo canções sobre ti, à exceção de ‘Lounge Act’, que só toco quando a minha mulher não está.” No âmago da raiva de Kurt estava a mágoa profunda que ainda sentia devido à rejeição dela, e não foram as únicas palavras acutilantes que Kurt lhe dirigiu. Noutra carta não enviada, atacou Tobi, Calvin e a cidade de Olympia:

No ano passado ganhei uns cinco milhões de dólares, mas não vou dar um cêntimo furado àquele cabrão elitista do Calvin Johnson. Nem pensar! Colaborei com um dos meus ídolos, William Burroughs, e é impossível sentir-me mais fixe. Saí de Los Angeles durante um ano e, quando regressei, descobri que três dos meus melhores amigos se tinham viciado completamente em heroína. Aprendi a detestar o riot grrrl, movimento que testemunhei ainda na fase de conceção por andar a foder a miúda que publicou o primeiro fanzine grrrl. Só que, agora, ela anda a aproveitar-se de ter fodido comigo. Não de maneira muito descarada, mas suficiente para eu me sentir explorado. Não faz mal, porque, há uns anos, escolhi deixar-me explorar por homens brancos do mundo empresarial, e adoro. Sabe bem. E não vou doar o caralho de um dólar ao cabrão do regime indie, que é fascista e indigente. Que passem fome. Que comam vinil. Ele que fique com as migalhas todas. Vou poder vender este meu cu inapto e banal durante anos, graças ao meu estatuto de culto.

Dave Foster, Kurt e Krist Novoselic no exterior do Vogue, depois do primeiro concerto dos Nirvana em Seattle, em 1988

No início de janeiro, Kurt e Courtney mudaram-se para o número 171 de Lake Washington Boulevard East, na zona chique de Denny-Blaine, um dos bairros mais antigos e exclusivos de Seattle. A casa ficava ao cimo de uma colina, numa área de propriedades luxuosas com vista para o lago Washington e mansões majestosas da viragem do século XX. A casa em frente da deles ostentava um sinal que dizia “não estacionar” em francês, e tinham como vizinho do lado Howard Schultz, o administrador da Starbucks. Peter Buck, dos R.E.M., vivia a um quarteirão de distância, e ele e os Cobains eram a exceção naquele bairro ocupado por herdeiros de famílias endinheiradas, matronas da alta sociedade e pelo tipo de pessoas que dão nome a edifícios públicos.

A casa dos Cobains fora construída, em 1902, por Elbert Blaine — a quem o nome do bairro alude —, que reservou para si a melhor e mais generosa porção de terreno: tinha quase três mil metros quadrados e um exuberante jardim com rododendros, bordos-japoneses, cornisos, cicutas e árvores de magnólia. Era uma propriedade deslumbrante, embora com uma particularidade estranha: o facto de ser contígua a um pequeno parque urbano tornava-a mais exposta do que muitas das casas do bairro.

A casa nova e o que ela revelava dos Cobain

A casa propriamente dita era um monólito com mais de 700 metros quadrados, três pisos, cinco lareiras e cinco quartos. Com empenas ornamentadas e telhas cinzentas, encaixava melhor na costa do Maine, onde podia servir de residência de férias a um antigo presidente. Como acontece em casas muito grandes e antigas, havia muitas correntes de ar. No entanto, a cozinha era bastante acolhedora — fora profundamente remodelada e tinha um frigorífico em aço inoxidável Traulson, um forno Thermador e pavimento em carvalho. O piso principal dispunha de uma sala de estar, uma sala de jantar, uma cozinha e um escritório, que se transformou no quarto do cuidador Cali. No primeiro andar ficavam o quarto de Frances, dois quartos de hóspedes e a suite principal, com vista para o lago. O piso de cima era composto por um grande sótão não aquecido, ao passo que a cave dispunha de outro quarto e de inúmeros arrumos cavernosos e mal iluminados. Os Cobains pagaram um milhão e trezentos mil dólares pela casa; o empréstimo acordado com a Chase Manhattan foi no valor de um milhão, com uma mensalidade de sete mil dólares e despesas associadas de dez mil anuais. Nas traseiras, havia anexos independentes, incluindo uma estufa e uma garagem. O Valiant de Kurt — outrora o seu único abrigo — depressa encontrou lugar na garagem.

Cada membro da família encontrou um canto da casa a que chamar seu: o jardim a norte tornou-se o recreio de Frances, a que não faltava o seu próprio parque infantil; a coleção de chávenas de Courtney passou a estar exposta na cozinha, enquanto o seu sortido de lingerie encheu um roupeiro no quarto; a cave tornou-se o armazém de todos os discos de ouro de Kurt, que não estavam expostos, apenas amontoados. Num recanto interior no piso principal, de pé, havia um manequim completamente vestido que se assemelhava a uma sentinela estranha e cadavérica. Kurt não era apreciador de espaços amplos; por isso, a sua parte preferida da casa era o closet contíguo ao quarto principal, onde tocava guitarra.

Quando Courtney quis impedir os traficantes de droga de aparecerem lá em casa, Kurt subornou amigos para esconderem as encomendas em arbustos no jardim. O consumo de Kurt diversificou-se, porque, quando não arranjava heroína, injetava-se com cocaína ou metanfetaminas, ou recorria a narcóticos sujeitos a receita médica, como Percodan, comprados na rua.

Kurt rapidamente encontrou outros espaços de fuga. Houve um mês de pausa antes do arranque da digressão europeia de In Utero e, durante esse intervalo, pareceu ter decidido, em consciência, passar o máximo tempo possível a drogar-se com Dylan. A relação dos dois tornou-se mais profunda, indo além do vício que os unia: Kurt adorava verdadeiramente Dylan e sentia-se mais próximo dele do que de qualquer amigo em toda a sua vida, à exceção de Jesse Reed. Além disso, Dylan era uma das poucas pessoas bem-vindas na casa de Lake Washington — Courtney não era capaz de lhe proibir a entrada, uma vez que ele era a sua conexão com o mundo da droga, de cada vez que tinha uma recaída ocasional. Chegou a haver situações quase cómicas, porque Dylan servia de correio ao marido e à mulher: Kurt telefonava-lhe a dizer que queria droga, com Courtney em espera para lhe pedir o mesmo, rogando ambos que não dissesse nada ao parceiro.

No início de 1994, também o cuidador Cali estava bastante viciado em cocaína. Courtney e Kurt continuavam a pagar-lhe o salário, uma vez que, por essa altura, ele já quase fazia parte da família, embora delegasse os cuidados de Frances noutras amas, chegando a falar com Jackie Farry para ela voltar. Ainda assim, Cali continuava a fazer a maior parte das compras — minipizas congeladas Totino para Kurt e tartes doces Marie Callender para Courtney —, visto os próprios Cobains terem dificuldade em realizar eles próprios essa tarefa. Larry Reid, que acompanhou o casal numa ida ao supermercado Rogers Thriftway em janeiro desse ano, recorda: “Eles atiravam coisas para dentro do cesto sem critério lógico nenhum. Eram só merdas estranhas — condimentos, ketchup, cenas assim —, como um cego que fosse ao supermercado e atirasse coisas ao calhas para o cesto.”

Quando Courtney quis impedir os traficantes de droga de aparecerem lá em casa, Kurt subornou amigos para esconderem as encomendas em arbustos no jardim. O consumo de Kurt diversificou-se, porque, quando não arranjava heroína, injetava-se com cocaína ou metanfetaminas, ou recorria a narcóticos sujeitos a receita médica, como Percodan, comprados na rua. Esgotadas essas opções, tomava quantidades maciças de benzodiazepinas, sob a forma de Valium ou outros calmantes, para atenuar os sintomas de abstinência. As tentativas que os residentes do número 171 de Lake Washington Boulevard faziam para deixar as drogas eram, invariavelmente, tão bem-sucedidas como um canalizador que tentasse reparar um cano repleto de buracos de bala — mal uma fuga era tapada, escorria logo água por outra.

Kurt Cobain em 1988

No meio de todos esses dramas diários, os Nirvana continuavam ativos, a planear a digressão iminente e a agendar ensaios, embora Kurt raramente aparecesse. Entretanto, a banda fora convidada para cabeça de cartaz no Festival Lollapalooza de 1994. Toda a gente à volta de Kurt, dos managers aos restantes membros do grupo, considerava que os Nirvana deviam agarrar a oportunidade. Porém, Kurt hesitou perante a perspetiva de mais concertos. As suas reservas enfureceram Courtney, que achava que ele devia fazer mais digressões, de modo a acautelar o futuro financeiro do casal. A maioria das discussões em torno desse assunto, e de outros semelhantes, redundava em berros e autênticas desgarradas de gritaria entre eles.

Wendy telefonou a Kurt na última semana de janeiro, a informá-lo de que a sua própria desgarrada de gritaria com Pat O’Connor tinha finalmente acabado em divórcio, depois de dez anos de casamento. Embora lamentando o desgosto dela, Kurt sentiu uma certa alegria por saber que o antigo concorrente pela atenção da mãe fora afastado. No entanto, também recebeu uma notícia triste: a sua adorada avó Iris andava com problemas cardíacos e ia para o hospital fazer exames e tratamentos.

A doença da avó que o levou a voltar a falar com o pai

Leland, o avô de Kurt, telefonou-lhe quando Iris já estava internada, em Seattle. Kurt comprou cem dólares de orquídeas e, apreensivo, aventurou-se a entrar no Swedish Hospital. Foi-lhe muito penoso ver a avó tão fragilizada; ela tinha sido um dos poucos pilares de estabilidade na sua infância, e a ideia da morte dela assustava-o mais do que a sua própria. Passou horas sentado junto dela. Enquanto ali estava, o telefone da mesa de cabeceira tocou: era o pai. Ao ouvir a voz de Don, Kurt disse que ia lá fora. Mas Iris, mesmo debilitada, pegou no braço do neto e passou-lhe o telefone. Por mais que quisesse evitar o pai, não podia recusar o pedido de uma mulher moribunda.

Kurt e Don falaram pela primeira vez desde o encontro desagradável no concerto em Seattle. A maior parte da conversa foi acerca de Iris — os médicos previam que ela sobrevivesse àquele episódio, mas a doença cardíaca era irreversível. Apesar de tudo, alguma coisa naquela breve conversa quebrou a barreira entre ambos — talvez o facto de Kurt ter detetado na voz de Don um receio semelhante ao que ele próprio sentia. No fim da chamada, deu o número de telefone ao pai e pediu que lhe ligasse. “A ver se nos encontramos em breve”, disse Kurt antes de pousar o auscultador, olhando em seguida para a avó, que estava a sorrir. “Sei que muito do que se passou foi por causa da minha mãe”, disse Kurt a Iris e a Leland. “Agora sei que muitas daquelas coisas eram treta.”

Em janeiro de 1994, a personalidade do avô estava muito diferente, e Kurt compungia-se por vê-lo tão abatido e assustado. Apesar de todas as perdas por que Leland já passara — desde o falecimento precoce do pai aos suicídios dos irmãos —, a doença da mulher com quem estava casado há 49 anos pareceu a mais difícil de suportar. Kurt convidou o avô a dormir lá em casa e, quando os dois Cobains chegaram, Courtney apareceu de lingerie, indumentária habitual para uma artista que fizera da roupa interior uma afirmação de estilo. No entanto, Leland, um homem antiquado, achou aquilo perturbador: “Ela nem calças tinha, o que não era digno de uma senhora.” A seguir, deu com Cali na sala de estar e ficou em choque quando Kurt lhe disse que aquele jovem de cabelo comprido e ar pedrado era uma das amas de Frances.

Courtney saiu para uma reunião e Kurt decidiu levar o avô ao seu restaurante preferido: o International House of Pancakes. Recomendou-lhe o rosbife à moda da casa, que ambos pediram. Enquanto comiam, Kurt examinou o itinerário da digressão europeia que se aproximava. A banda tinha planeado dar 38 concertos em 16 países, num período inferior a dois meses. Embora menos exigente do que a digressão “Heavier Than Heaven” com os Tad, Kurt achava que ia ser mais cansativa. Por isso, pedira expressamente uma pausa a meio, na esperança de fazer algum turismo pela Europa com Courtney e Frances. Naquele encontro, Kurt disse ao avô que, quando regressasse da digressão, queria planear uma ida à pesca com ele. Durante o jantar, foi interrompido três vezes por outros clientes, que lhe pediram autógrafos. “Deu-lhes os autógrafos e perguntou-lhes o que queriam que lhes escrevesse”, conta Leland. “Mas disse-me que não gostava de fazer aquilo.”

Os espetáculos seguintes aconteceram em Cascais, Portugal (6 de fevereiro) e Madrid (dia 8). Em Espanha (com apenas três datas cumpridas numa digressão de 38), Kurt já falava em cancelamento. Ligou a Courtney, enraivecido. "Ele detestava tudo e todos", disse ela a David Fricke.

No regresso a casa, Kurt pediu para conduzir a carrinha Ford de Leland e comentou que queria comprar um modelo semelhante. Nesse mês, começou à procura de carros, acabando por comprar um Lexus preto. Jennifer Adamson, uma das namoradas de Cali, lembra-se de Kurt passar por casa dela para exibir o carro: “A Courtney queria comprá-lo, mas o Kurt achava-o demasiado finório e não gostava da cor. Acabaram por devolvê-lo.” Posteriormente, Courtney explicou num post na Internet: “Um dia, saímos e fomos comprar um carro preto mesmo muito, muito caro, andámos às voltas com ele e tudo especou a olhar para nós. Ficámos atrofiados com aquilo, como se fôssemos uns vendidos, e então devolvemos o carro dezoito horas depois de o termos comprado.”

Para a última semana de janeiro, os Nirvana tinham agendado uma sessão de gravação nos Robert Lang Studios, a norte de Seattle. No primeiro dia, Kurt não apareceu, apesar das repetidas chamadas. Courtney já tinha ido para o estrangeiro com os Hole, e ninguém atendia o telefone em casa dos Cobains. Krist e Dave aproveitaram para trabalhar em músicas que Dave compusera. Kurt também faltou no segundo dia, mas apareceu no terceiro, um domingo, sem oferecer qualquer justificação para a ausência nas sessões anteriores. Ninguém o questionou: o grupo há muito que deixara de ser uma democracia, e tanto Krist como Dave já se tinham resignado a esperar, encarando qualquer participação de Kurt como um milagre.

De manhã, apareceu um gatinho preto no estúdio. O recém-chegado, que se parecia vagamente com Puff, o gato que Kurt tivera em criança, animou-o de forma considerável. Embora a banda trabalhasse várias horas consecutivas nesse dia, só um original de Kurt ficou terminado. A canção, uma das mais marcantes de toda a sua carreira, foi mais tarde intitulada “You Know You’re Right” [“Sabes Que Tens Razão”] — da única vez que os Nirvana a tocaram ao vivo, a 23 de outubro de 1993, em Chicago, Kurt chamou-lhe “On the Mountain” [“Na Montanha”]. Em termos musicais, explorava a mesma dinâmica suave/pujante de “Heart-Shaped Box”, com versos calmos seguidos de um refrão estrondoso e berrado por Kurt. “Essa, bombámo-la relativamente depressa”, recorda Novoselic. “O Kurt trouxe o riff, nós trabalhámos sobre ele e ‘nirvanizámos’ a canção.”

[“You Know You’re Right”:]

Em termos líricos, os versos foram cuidadosamente trabalhados, com um refrão devastador e atormentado: “You know you’re right.” A primeira estrofe era uma lista de afirmações em que começava por dizer “I will never bother you/I will never promise to/I will never follow you/I will never bother you” [“Nunca te incomodarei/Isso nunca prometerei/Nunca te seguirei/Nunca te incomodarei”], para concluir: “Never speak a word again/I will crawl away for good” [“Nunca mais digo uma palavra/Vou arrastar-me de vez daqui”]. Na estrofe cantada duas vezes ao longo do tema, a anteceder o refrão, garantia: “I will move away from here/[…] I always knew it would come to this” [“Vou-me embora daqui/ […] Sempre soube que se havia de chegar a isto”] — rematando com dois versos sarcásticos: “Things have never been so swell/And I have never failed to fail” [“As coisas nunca estiveram tão espetaculares/E o meu falhanço nunca me falhou”]. Na segunda estrofe, mesmo no final, duas acusações contra uma mulher: “Nothing really bothers her/She just wants to love herself” [“Na verdade, nada a incomoda/Ela só quer gostar de si própria”]. O lamento queixoso no refrão não podia ser mais claro; Kurt gritava “pain” [“dor”] e esticava a palavra por quase dez segundos, conferindo-lhe quatro sílabas e deixando a impressão de um tormento sem escapatória possível.

Kurt, a irmã Kim e a tia Mari, no Natal de 1989

Perto do final da sessão, Kurt procurou o gato preto, mas ele tinha desaparecido. Quando terminaram, ao cair da noite, foram jantar fora para comemorar. Kurt parecia eufórico e manifestou a Robert Lang a intenção de agendarem mais tempo no estúdio quando regressassem da Europa.

A digressão que ele sempre quis interromper

No dia seguinte, telefonou ao pai. Foi a conversa mais longa que tiveram em mais de uma década. Falaram para lá de uma hora, sobre o prognóstico de Iris — os médicos mandaram-na de volta para Montesano — e as respetivas famílias. Don manifestou o desejo de ver Frances, e Kurt contou-lhe, orgulhoso, as coisas que ela já dizia e fazia. Quanto à relação conturbada entre os dois, evitaram passar em revista as desilusões que já tinham tido um com o outro; no entanto, Don foi capaz de pronunciar as palavras que tantas vezes lhe haviam fugido no passado: “Adoro-te, Kurt”, disse ao filho. “Também te adoro, pai”, respondeu Kurt, que, no fim da conversa, o convidou a ir conhecer a sua casa quando regressasse da digressão. Foi uma das poucas vezes que Jenny Cobain viu o marido, normalmente tão estoico, chorar.

No dia seguinte, telefonou ao pai. Foi a conversa mais longa que tiveram em mais de uma década. Don manifestou o desejo de ver Frances, e Kurt contou-lhe, orgulhoso, as coisas que ela já dizia e fazia. Don foi capaz de pronunciar as palavras que tantas vezes lhe haviam fugido no passado: "Adoro-te, Kurt", disse ao filho. "Também te adoro, pai", respondeu Kurt. Foi uma das poucas vezes que Jenny Cobain viu o marido, normalmente tão estoico, chorar.

Dois dias depois, Kurt viajou para França. O primeiro compromisso que os Nirvana tinham agendado era atuar num programa de variedades. Para salvar a face diante da humilhação, Kurt teve uma ideia: todos compraram fatos e gravatas pretos, que ele batizou como “fatiotas à Knack”. Tocaram ao vivo versões escorreitas de três temas, mas, vestidos daquela maneira, produziram o mesmo efeito que um número de comédia. Em Paris, a banda fez uma sessão fotográfica com Youri Lenquette, e uma das fotos mostra Kurt a apontar uma arma à cabeça, na brincadeira. Mesmo nessa fase precoce da digressão, aqueles que lhe eram mais próximos notaram diferenças nele. “Estava um caco nessa altura”, recorda Shelli Novoselic. “Era triste. Estava mesmo muito desgastado.” Kurt viajava num autocarro à parte de Krist e Dave; ainda assim, Shelli sentia que o relacionamento entre todos estava melhor. “Não era tão tenso como na digressão anterior; ou talvez, simplesmente, já tudo se tivesse tornado normal.”

Os espetáculos seguintes aconteceram em Cascais, Portugal (6 de fevereiro) e Madrid (dia 8). Em Espanha (com apenas três datas cumpridas numa digressão de 38), Kurt já falava em cancelamento. Ligou a Courtney, enraivecido. “Ele detestava tudo e todos”, disse ela a David Fricke. “Detestava, detestava, detestava. […] Em Madrid, andou no meio da assistência. Os miúdos fumavam heroína em papel de alumínio e diziam-lhe ‘Olha, Kurt! Cavalo!’, enquanto punham o polegar para cima. Ligou-me a chorar. […] Não queria ser o ícone dos agarrados.”

Além disso, não queria separar-se de Courtney, embora as discussões telefónicas — quase sempre sobre o seu consumo de droga —, a juntar à distância imposta pela digressão, o fizessem temer esse desfecho. O desejo dele era que a mulher o acompanhasse na digressão, mas ela estava a terminar a pós-produção do álbum dos Hole. Kurt foi ter com Jeff Mason e perguntou-lhe o que aconteceria se cancelassem a digressão, ao que ele o informou de que, devido a cancelamentos no passado, e exceto por motivo de doença, os Nirvana seriam responsabilizados pelos prejuízos dos espetáculos que não dessem. Kurt fixou-se nesse aspeto e, no dia seguinte, no autocarro da digressão, brincou repetidamente com a ideia, dizendo que, visto o seguro só cobrir doenças, a banda teria de tocar mesmo que ele morresse.

A 25 de fevereiro, a última de duas noites em Milão, alguma coisa mudou em Kurt. Parecia estar não só deprimido, mas também derrotista. Nesse dia, foi ter com Krist e disse-lhe que queria cancelar a digressão. "Veio-me com umas tretas e razões absurdas para ‘mandar a digressão às urtigas’", recorda Novoselic. Queixou-se do estômago, prédica que, por essa altura, o baixista já ouvira centenas de vezes.

Embora Kurt tenha ficado desolado ao ver que os adolescentes europeus o consideravam um símbolo do abuso de drogas, a ansiedade que o assolava, na verdade, decorria do seu vício. Em Seattle, sabia onde encontrar heroína, e ela sabia onde encontrá-lo. Na Europa, mesmo que aparecessem fornecedores, tinha pavor de ser preso no controlo alfandegário. Em alternativa, recorreu aos serviços de um médico de Londres, reconhecidamente pródigo a prescrever narcóticos legais mas potentes. Kurt arranjou receitas para calmantes e morfina e usou-os para atenuar os sintomas da abstinência. Quando se via ensarilhado durante a digressão, bastava-lhe telefonar ao médico: ele passava prescrições de imediato, e os serviços de entregas internacionais faziam-nas chegar por ferry a Kurt.

A 20 de fevereiro, um dia de viagem, Kurt fez 27 anos. Por graça, John Silva, ofereceu-lhe um volume de maços de tabaco como presente. Quatro dias mais tarde, em Milão, Kurt e Courtney celebraram o segundo aniversário de namoro, mas à distância: ela ainda estava em Londres, a dar entrevistas em antecipação do seu novo álbum. Falaram ao telefone e planearam celebrar quando se reencontrassem na semana seguinte.

A 25 de fevereiro, a última de duas noites em Milão, alguma coisa mudou em Kurt. Parecia estar não só deprimido, mas também derrotista. Nesse dia, foi ter com Krist e disse-lhe que queria cancelar a digressão. “Veio-me com umas tretas e razões absurdas para ‘mandar a digressão às urtigas’”, recorda Novoselic. Queixou-se do estômago, prédica que, por essa altura, o baixista já ouvira centenas de vezes. Krist perguntou-lhe por que motivo aceitara sequer fazer a digressão, lembrando-o de que o cancelamento custaria centenas de milhares de dólares. “Passava-se alguma coisa na vida pessoal dele, que o estava a afetar a sério”, observa Krist. “Havia um stresse qualquer.” No entanto, Kurt não partilhou pormenores com ele — há muito tempo que não tinha esse tipo de intimidades com o seu velho amigo.

Kurt não cancelou a digressão naquela noite, mas, para Krist, só não o fez porque o compromisso seguinte era na Eslovénia, onde muitos familiares de Krist apareceriam no concerto: “Ele aguentou por mim, mas acho que já tinha tomado a decisão [de cancelar o resto das datas].” Durante a estada de três dias na Eslovénia, o resto da banda foi fazer um passeio pelo campo e Kurt permaneceu no quarto de hotel. Novoselic andava a ler Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch, de Aleksandr Soljenítsin, e explicou a Kurt de que tratava a história, pensando que o ia distrair: “É sobre um tipo que vivia num gulag e, ainda assim, aproveita ao máximo os dias.” Kurt respondeu: “Meu Deus, e quer viver! Para que é que se quer viver?”

Quando a banda chegou a Munique para dar os dois concertos que tinha agendados no Terminal Eins, o primeiro dos quais a 1 de março, Kurt queixou-se de estar indisposto. Num gesto bastante atípico, ligou para o primo Art Cobain, de 52 anos, que vivia em Aberdeen, e acordou-o a meio da noite. Art já não via Kurt há quase vinte anos, e não eram próximos, mas ficou feliz por ouvi-lo: “Ele estava a ficar muito farto da vida que levava”, contou à revista People. Art convidou Kurt para o encontro seguinte da família Cobain, quando ele regressasse da Europa.

Frances, Kurt e Courtney, no Natal de 1992 — pareciam (até) uma família normal e feliz

Toda a gente que se cruzou com Kurt naquele dia se apercebeu de que apresentava sinais de desespero e pânico em todas as situações. O local onde iam tocar era mais um fator de sofrimento: um terminal de aeroporto desativado e convertido em sala de espetáculo, com uma acústica horrível. No teste de som, Kurt perguntou a Jeff Mason se podia adiantar-lhe algum dinheiro das ajudas de custo e anunciou: “Volto para o concerto.” Mason ficou surpreendido por vê-lo sair, tendo em conta o quanto se queixara de estar indisposto, e perguntou-lhe onde ia. “Vou à estação de comboios”, respondeu Kurt. Todos os membros da equipa sabiam o que aquilo queria dizer; era como se dissesse: “Vou comprar droga.”

"Vou à estação de comboios", respondeu Kurt. Todos os membros da equipa sabiam o que aquilo queria dizer; era como se dissesse: "Vou comprar droga." Regressou umas horas depois, com o mesmo mau humor. Nos bastidores, ligou para Courtney, e a conversa transformou-se em discussão, como todas as conversas entre eles na semana anterior.

Regressou umas horas depois, com o mesmo mau humor. Nos bastidores, ligou para Courtney, e a conversa transformou-se em discussão, como todas as conversas entre eles na semana anterior. A seguir, telefonou a Rosemary Carroll e disse-lhe que queria divorciar-se. Depois dessa chamada, deixou-se ficar num dos lados do palco a observar a primeira parte do espetáculo. Kurt escolhera todas as bandas de abertura e, para aquela parte da digressão, os eleitos foram os Melvins. “Era daquilo que eu andava à procura”, escrevera no diário em 1983, quando os viu pela primeira vez e lhe mudaram a vida. Em muitos aspetos, tinha mais amor aos Melvins do que aos Nirvana — por terem sido a sua salvação numa época em que precisava de ser salvo. O fatídico dia no parque de estacionamento do Thriftway de Montesano fora há apenas onze anos, mas muita coisa mudara desde então. O concerto dos Melvins em Munique só o fez sentir-se nostálgico.

Quando a atuação dos Melvins terminou, Kurt dirigiu-se ao camarim deles e começou a debitar uma longa lista de problemas a Buzz Osborne. Buzz nunca o vira tão perturbado, nem quando Wendy o expulsou de casa nos tempos de liceu. Kurt informou-o de que ia acabar com os Nirvana, despedir os managers e divorciar-se de Courtney. “Devia era fazer isto a solo”, disse ainda ao amigo, antes de subir ao palco. “Retrospetivamente”, comenta Buzz, “acho que estava a falar da vida dele em geral.”

Setenta minutos mais tarde, Kurt deu o concerto dos Nirvana por terminado antes do tempo. O alinhamento fora o habitual, mas, por qualquer estranha razão, tinha incluído duas versões dos Cars — “My Best Friend’s Girl” [“A Namorada do Meu Melhor Amigo”] e “Moving in Stereo” [“Movo-Me em Estéreo”]. Depois desta última, Kurt abandonou do palco. Nos bastidores, foi direito ao manager Don Muller, que por acaso esteve no concerto, e disse-lhe: “Acabou. Cancela o próximo concerto.” Só faltavam dois espetáculos para a pausa agendada, mas Muller teve de os adiar.

A eterna dependência de drogas… e de Courtney

Na manhã seguinte, Kurt consultou um médico, que lhe passou uma declaração — exigida pela seguradora — em como ele estava demasiado doente para atuar, aconselhando-lhe ainda dois meses de descanso. Mesmo com esse diagnóstico, Krist achou que se tratava de uma fachada: “Era só muito cansaço.” Krist e vários outros membros da equipa regressaram a Seattle, e planearam retomar a digressão a 11 de março. Kurt, por sua vez, foi para Roma, onde se ia encontrar-se com Courtney e Frances. A 3 de março, fez o check-in no quarto 541 no hotel de cinco estrelas Excelsior. Estava planeado Courtney e Frances só chegarem à noite. Durante o dia, Kurt foi explorar a cidade com Pat Smear e visitou atrações turísticas, mas, acima de tudo, reuniu acessórios para aquilo que imaginou que ia ser um encontro romântico — ele e Courtney não se viam há 26 dias, ou seja, o maior período de afastamento na história da sua relação. “Foi ao Vaticano e gamou uns castiçais, grandalhões”, recorda Courtney. “Também arrancou um bocado de pedra do Coliseu, para me oferecer.” Além disso, foi comprar uma dúzia de rosas vermelhas, roupa interior, terços de contas do Vaticano e um par de brincos com diamantes de três quilates. Mandou ainda um paquete aviar-lhe uma receita de Rohypnol, um calmante que ajudava a atenuar os efeitos da abstinência de heroína.

Às seis da manhã, acordou e viu Kurt no chão, pálido como um fantasma e com sangue a sair-lhe de uma narina. Estava completamente vestido, com o seu casaco de bombazina castanho, e tinha na mão direita mil dólares em notas.

Courtney acabou por chegar bastante depois do esperado — tinha passado o dia em Londres a dar entrevistas, por causa do futuro álbum dos Hole. Numa dessas entrevistas, tomou um comprimido de Rohypnol à frente do jornalista. “Eu sei que isto é uma substância controlada”, disse à Select. “É o meu médico que ma receita; é como se fosse Valium.” Courtney recorria ao mesmo clínico londrino que Kurt. Quando, por fim, ela e Frances chegaram a Roma, a família, as amas e Smear tiveram um reencontro caloroso e pediram champanhe para comemorar. Kurt não bebeu. Passado um bocado, Cali e outra ama levaram Frances para o quarto dela, e Smear foi-se embora. Finalmente sozinho, o casal começou a enrolar-se, mas Courtney estava exausta da viagem, e o Rohypnol pô-la a dormir. Posteriormente, Courtney relatou que Kurt quis fazer amor, mas ela estava demasiado esgotada. Disse a David Fricke: “Mesmo não estando com disposição, devia ter alinhado. Ele só precisava de dar uma queca.”

Às seis da manhã, acordou e viu Kurt no chão, pálido como um fantasma e com sangue a sair-lhe de uma narina. Estava completamente vestido, com o seu casaco de bombazina castanho, e tinha na mão direita mil dólares em notas. Courtney já o vira perto de morrer de overdose de heroína mais de uma dúzia de vezes. No entanto, daquela vez, não se tratava de uma overdose de heroína. Apertada na mão esquerda, rígida e fria, Kurt tinha uma carta com três páginas.

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